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Laudo Natel, as asas do sonho tricolor

Dirigente de futebol revolucionário, visionário, torcedor uniformizado, governador paulista e, essencialmente, um apaixonado pelo São Paulo Futebol Clube.

A história do São Paulo Futebol Clube se entrelaça à vida de Laudo Natel de forma tão forte que é possível confundir as trajetórias da instituição e a do homem. Foi pelo trabalho de vanguarda do cartola que o clube inaugurou uma era de profissionalismo no futebol brasileiro e se tornou referência em organização fora das quatro linhas.

Em 18 de maio deste ano, a morte de Laudo Natel, aos 99 anos, encerrou uma das mais relevantes páginas da história são-paulina. Por mais de 70 anos, o dirigente manteve pelo clube uma relação de amor e devoção inabaláveis, que o fizeram patrono do time.

Nascido em São Manuel, interior de São Paulo, em 14 de setembro de 1920, Natel iniciou sua vida profissional como bancário no Banco Noroeste. Trilhou carreira de destaque no setor, foi promovido de cargo e transferido entre agências algumas vezes no interior paulista. Depois, ingressou no Banco Brasileiro de Descontos, que viria a se tornar o Bradesco, por lá se tornou diretor antes dos 30 anos de idade e assim chegou a São Paulo, em 1946.

Da arquibancada à cartolagem

Logo no ano de sua chegada à capital, aconteceu o encontro com o São Paulo que duraria pelo resto de sua vida e mudaria os rumos da história tricolor. A aproximação foi promovida por Luís Campos Aranha, que o apresentou a Cícero Pompeu de Toledo, então presidente do clube.

Antes, porém, o entusiasmo de Laudo Natel com o São Paulo foi combustível para sua contribuição ao fortalecimento da Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP), a primeira organizada do Brasil. Fundada em 1939 por Manoel Raymundo Paes de Almeida, a TUSP ainda engatinhava quando Natel passou a fazer parte dos uniformizados que acompanhavam o São Paulo nos estádios paulistas.

Os conhecimentos adquiridos no meio financeiro foram a ponte entre a arquibancada e a direção do clube. No início do anos 1950, Laudo Natel foi eleito diretor de finanças do São Paulo e adotou uma prática inovadora e que só se tornaria obrigatória anos mais tarde: passou a publicar os balanços financeiros anuais do clube. O São Paulo foi o primeiro clube brasileiro a tornar públicas suas contas e isso gerou uma imagem de credibilidade diante do mercado.

A repercussão externa foi boa, mas a interna foi melhor ainda e Laudo Natel ganhou notoriedade entre os sócios e conselheiros do clube. Assim, quando o presidente Cícero Pompeu de Toledo decidiu que era chegada a hora de o São Paulo Futebol Clube ter seu estádio próprio, Natel foi escolhido presidente da Comissão Pró-Estádio.

O criador plano Morumbi

Todos esperavam que ele desenhasse algum plano financeiro com empréstimos bancários, mas o que Natel propôs foi a medida mais impopular possível: vender o Canindé.

O atual estádio da Portuguesa era o único patrimônio físico do São Paulo. Foi adquirido na época da Segunda Guerra Mundial, com a compra facilitada pelo decreto de Getúlio Vargas que confiscava os bens de agremiações que faziam referência aos países do Eixo.

Construir um grande estádio a partir da estaca zero já era uma loucura, mas vender o único bem do clube era algo que beirava a irresponsabilidade. Com muita resistência e desconfiança o negócio foi feito. Um sócio são-paulino, Wadih Sadi, adquiriu o imóvel e o São Paulo conseguiu o dinheiro necessário para construir seu estádio.

O dinheiro era suficiente para uma grande obra, por isso, mais uma vez, Laudo Natel arriscou e promoveu o lema da Comissão Pró-Estádio:

“Se é um sonho, que seja grande!”

Foi assim que o São Paulo se lançou na construção do “maior estádio particular do mundo”. Com a determinação e capacidade de Laudo Natel à frente das negociações, o São Paulo conseguiu algo impensável nos dias de hoje: convenceu uma imobiliária a doar o terreno para a construção.

Laudo Natel.

A Imobiliária Aricanduva pretendia lotear a área de 99.873 m² na região do Morumbi, então uma área rural, pantanosa e afastada do centro urbano. João Jorge Saad era o presidente da imobiliária e também corintiano. Fato é que Laudo Natel o convenceu — Deus sabe como — a doar 2/3 do terreno e o São Paulo compraria a parte final.

Negócio fechado e em 15 de agosto de 1952, o São Paulo lançou a pedra fundamental do terreno. Mesmo sem projeto arquitetônico, Laudo Natel quis chamar a atenção dos investidores para viabilizar o estádio.

Todas as alternativas modernas para levantar capital foram usadas mostrando o vanguardismo do dirigente. A principal foi a venda antecipada de três mil cadeiras cativas no estádio. O goleiro José Poy, ídolo do clube, ficou conhecido por bater de porta em porta para vender as tais cadeiras cativas.

Enfim, a materialização do sonho

Foram 18 anos de obras — oito até o primeiro jogo no local —, mas o São Paulo conseguiu construir o maior estádio paulista. Durante a construção, foram 12 anos sem títulos, as dificuldades financeiras se acumulavam e a prefeitura do Estado chegou a oferecer o Pacaembu em troca do Morumbi inacabado. Laudo Natel recusou e declarou à época:

“O sonho do são-paulino não cabe no Pacaembu”.

Em 25 de janeiro de 1970, enfim, o Estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, foi inaugurado e entregue aos torcedores e ao clube como o maior patrimônio do São Paulo Futebol Clube. Na verdade, não é exagero algum afirmar que o Morumbi elevou o São Paulo a outro patamar no cenário brasileiro e, anos mais tarde, também no futebol mundial.

Esse redimensionamento também se deu pelo modelo de gestão implantado por Laudo Natel durante a presidência de Cícero Pompeu de Toledo. Apesar de bancário — ou justamente por isso — Natel nunca foi entusiasta dos empréstimos. A construção do Morumbi foi tocada majoritariamente com recursos adquiridos dentro do clube com sócios, torcedores e patrocinadores.

O uso político do futebol e a relação com a ditadura

Ainda havia espaço na vida de Laudo Natel para coisas além do São Paulo Futebol Clube como a política, por exemplo. Em 1962, foi eleito vice-governador do estado de São Paulo, na época as chapas dos vices eram avulsas do candidato principal. Ademar de Barros foi eleito governador e Natel o vice.

Em 6 de junho de 1966, assumiu como governador no lugar de Ademar de Barros, que fora cassado pelo regime militar. Porém, poucos meses antes, havia sido reeleito presidente do São Paulo e optou por deixar o clube para governar o estado. Seu mandato durou até o fim de 1967.

Voltou a governar São Paulo entre 1971 e 1975, quando foi eleito indiretamente pelo colégio eleitoral militar. Deste mandato se destacam as criações da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP) e da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB).

A carreira política de Natel, porém, não repetiu o sucesso na direção do São Paulo, já que avançou às sombras da ditadura, sem o voto popular e apesar de disputar outros pleitos, inclusive para a prefeitura de São Paulo, o cartola não voltou a ocupar cargo público. Não teve o poder de articulação nos bastidores que a política brasileira exige — talvez isso seja um mérito — e acabou derrotado nas prévias de 78, por Paulo Maluf, e em 82, por Reynaldo de Barros.

Apesar de impopular, a passagem de Laudo Natel como governador do estado de São Paulo é importante ser destacada pela data e por um simples motivo: tudo que realizou pelo clube fez antes de ser governador. O cargo em nada ajudou o clube e Natel foi responsável por grande parte da atual grandeza do São Paulo Futebol Clube.

Em 2005, foi homenageado pelo clube na inauguração de outro grande empreendimento são-paulino: o Centro de Formação de Atletas Laudo Natel. O famoso CT de Cotia é sinônimo de excelência na formação e preparação de atletas da base tricolor.

Apenas quatro meses antes de completar 100 anos, Laudo Natel morreu e deixou um legado enorme para o São Paulo. O patrono do clube ofereceu uma vida centenária de dedicação, amor e trabalho pelo time do coração. Será para sempre o homem que foi pilar na edificação da história tricolor e com lances de arquibancada deu asas ao maior sonho são-paulino.

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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Laudo Natel, as asas do sonho tricolor. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 29, 2020.
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