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Luis Aragonés: o homem que transformou “La Furia” na vitoriosa “La Roja”

Dyego Lima Universidade do Esporte 31 de outubro de 2021

“Ganhar, e ganhar, e ganhar, e voltar a ganhar, e ganhar, e ganhar, e ganhar. Isso é o futebol, senhores”.

Partindo dessa frase, já é possível compreender qual o tipo de personalidade do espanhol cuja a carreira o seguinte texto busca relembrar. Nascido em Madri no dia 28 de julho de 1938, futuramente ele se tornaria o “Sábio de Hortaleza”, uma alusão ao distrito localizado no noroeste da capital. Esse é José Luis Aragonés Suárez Martínez, o homem que dedicou 52 anos de sua vida ao futebol, converteu-se no maior ídolo da história do Atlético de Madrid, e que foi o responsável por mudar para sempre a história da seleção espanhola.

Luis Aragoné
Homenagem a Luis Aragonés no bairro de Hortaleza. Foto: Wikipédia

O início de tudo

A relação direta de Luis Aragonés com o futebol profissional começou em 1957. Meia-atacante, deu o pontapé em sua carreira como jogador vestindo a camisa do Getafe. Após a equipe se destacar na terceira divisão espanhola na temporada 1957-58, Aragonés, já bem cedo, conseguiu o que a maioria dos atletas sonham, especialmente os nascidos em Madri: ser contratado pelo Real. Entretanto, a passagem pelo clube merengue não aconteceu da forma como ele esperava.

Colocado para atuar inicialmente no Real Madrid Castilla, naquela época conhecido como AD Plus Ultra, Aragonés jamais chegou a jogar pela equipe principal. Sem espaço, acabou sendo emprestado ao Recreativo Huelva e, em seguida, ao Hércules. Com 17 gols em 24 jogos, ajudou a equipe da província de Alicante a conquistar o título da terceira divisão na temporada 1959-60. Retornando do empréstimo, ele acabou sendo vendido ao Oviedo, onde pôde, enfim, fazer sua estreia no primeiro nível do futebol espanhol. No time das Astúrias, foram apenas 13 jogos e quatro gols marcados. Sem conseguir impressionar com seu futebol, Aragonés acabou sendo negociado com o Real Betis ao fim de 1961.

Uma vez na Andaluzia, o futuro técnico conseguiu, pela primeira vez, permanecer mais de um ano no mesmo clube. E isso graças ao bom desempenho que Aragonés conseguiu apresentar. Em três temporadas com Los Verdiblancos, o atacante marcou 33 gols apenas em La Liga. Já mais maduro e com seu nível em campo caminhando para o auge, o jogador recebeu, em 1964, mais uma oportunidade num clube de ponta do país, sendo contratado pelo Atlético de Madrid.

De volta à capital, o destino mostraria a Aragonés que dessa a vez a história seria diferente. Tanto é que a camisa dos Colchoneros foi a última que o meia vestiu enquanto atleta profissional, numa carreira que só chegaria ao fim em 1974. E conforme apontado no início do texto, não é mistério para ninguém que a passagem de Aragonés pelo Atleti foi um completo sucesso. Ele conquistou três títulos de La Liga (1965-66, 1969-70 e 1972-73), duas Copas do Rei (1964-65 e 1971-72) e se tornou o maior artilheiro da história do clube com 172 gols. Além disso, por muito pouco não conseguiu dar à equipe o tão sonhado título europeu.

Aconteceu na temporada 1973-74. Após passar por Galatasaray, Dínamo Bucareste, Estrela Vermelha e Celtic, o Atlético de Madrid alcançou, pela primeira vez em sua história, a final da Copa dos Campeões da Europa. O adversário na decisão de 15 de maio foi o temido Bayern de Munique, cujo time formava a base da seleção alemã que conquistaria o título da Copa do Mundo daquele ano. Após um 0 a 0 no tempo regulamentar, a partida foi para a prorrogação, e aos nove minutos do segundo tempo, Aragonés abriu o placar para o Atlético em cobrança de falta, uma de suas especialidades. Porém, faltando um minuto para o fim da partida, Schwarzenbeck empatou com um chute de fora da área. Com o placar igualado ao término do confronto, foi marcado um segundo jogo dois dias depois para decidir o campeão. E aí não teve conversa: com dois de Uli Hoeneß e dois de Gerd Müller, o Bayern venceu por 4 a 0 e levantou a taça.

Ao fim da temporada que culminou com o vice-campeonato europeu, Aragonés, frustrado pela derrota e por algumas lesões que já vinham lhe atrapalhando há algum tempo, decidiu pôr fim à carreira de jogador aos 36 anos. Além da idolatria que construiu no Atlético, seu futebol ainda lhe rendeu algumas poucas convocações para a seleção espanhola. No total, foram 11 jogos e três gols marcados.

Do gramado à área técnica

Passados cinco meses de sua aposentadoria, Aragonés recebeu do Atlético de Madrid, em novembro de 1974, a proposta para se tornar o novo técnico do clube. Desafio esse que ele aceitou de prontidão. Era o início de uma jornada de 35 anos do espanhol como treinador de futebol e a primeira de suas quatro passagens pelo comando dos Colchoneros. E nada melhor do que poder começar essa nova empreitada no lugar onde ele considerava a sua casa.

O fato de o casamento entre Aragonés e o Atlético ter dado certo não chega a ser uma grande surpresa. O que realmente chama a atenção é ele ter sido vitorioso já quase que de imediato. O primeiro grande desafio do novo técnico acabou sendo na Copa Intercontinental, quatro meses após assumir o comando da equipe, com o Atleti herdando a vaga na competição após a desistência do algoz Bayern de Munique. O duelo foi contra o Independiente, até então o atual tricampeão da Libertadores, e que também seria o vencedor do torneio sul-americano em 1975, enfileirando quatro troféus, um feito que jamais voltou a ser repetido. Após perderem o primeiro jogo em Avellaneda por 1 a 0, os espanhóis conseguiram a vitória por dois gols jogando no Vicente Calderón e conquistaram o título. Foi o primeiro de Aragonés como treinador.

A primeira passagem do espanhol no comando do Atlético durou até março de 1980. Como o trabalho já vinha sofrendo um desgaste ao longo do tempo, ambas as partes decidiram que a separação era o melhor caminho. Nesse período, além do título do Intercontinental, Aragonés conduziu os Colchoneros às conquistas da Copa do Rei na temporada 1975-76 e de La Liga em 1976-77. No total, o primeiro trabalho contou com 290 jogos, sendo 133 vitórias, 73 empates e 84 derrotas. O time-base do Atlético campeão espanhol contava com dois brasileiros e era formado por: Miguel Reina; José Luis Capón, Luis Pereira, Eusebio Bejarano e Marcelino Pérez; Eugenio Leal, Alberto Fernández e Valentín “Robi”; Rubén Ayala, Leivinha e Rubén Cano.

Após passar pouco mais de um ano desempregado, Aragonés regressou à Andaluzia para treinar mais um antigo clube do seu tempo de jogador, o Real Betis. O que surpreende aqui foi a rapidez com que o trabalho foi encerrado, ainda em meio à pré-temporada. Contratado em 29 de abril de 1981, o espanhol permaneceu no cargo só até o dia 22 setembro, período em que a equipe disputou três jogos, vencendo dois e perdendo um. Na data em questão, o técnico convocou uma entrevista coletiva e anunciou que estava sofrendo de uma artrose cervical que lhe causava fortes dores. Com isso, pediu demissão para que pudesse tratar do problema.

No dia 27 de abril de 1982, Aragonés retorna à capital espanhola para a sua segunda passagem no comando do Atlético de Madrid. E parecia que clube e técnico haviam sido feitos um para o outro, tendo em vista que a relação foi exitosa novamente. Só que dessa vez levou um pouco mais de tempo. Foi só em 1985 que o Atleti voltaria a comemorar um título. A vitória por 2 a 1 sobre o Athletic Bilbao, com dois gols do mexicano Hugo Sánchez, colocou mais um troféu da Copa do Rei na galeria do clube madrilenho. E por pouco a equipe não conquistou uma histórica dobradinha naquela temporada, uma vez que em La Liga os Colchoneros terminaram no segundo lugar, perdendo a taça para o Barcelona.

Na época seguinte, 1985-86, o desempenho doméstico caiu: quinta colocação em La Liga e eliminação nas quartas de final da Copa do Rei para o Barcelona. Mas a nível continental, o Atlético chegou perto de conquistar mais um título. Deixando pelo caminho Celtic, Bangor City, de Gales, Estrela Vermelha e Bayer Uerdingen, da Alemanha, o Atleti chegou à final da Cup Winner’s Cup para encarar o Dínamo de Kiev, que servia de base para a forte seleção da União Soviética. No dia 2 de maio, em partida disputada em Lyon, o Atlético perdeu por 3 a 0 e ficou com o vice.

A segunda passagem de Luis Aragonés pelo Atlético de Madrid durou até junho de 1987. Por conta do bom desempenho, o técnico acabou recebendo um convite do Barcelona para ser o treinador do time na temporada seguinte, substituindo Terry Venables. Em 235 partidas sob o comando do espanhol, os Colchoneros venceram 123, empataram 49 e perderam outras 63. A equipe que entrou em campo para conquistar o título da Copa do Rei em 1985 era formada por: Jesús Mejías; Miroslav Votava, Juan Carlos Arteche, Miguel Ángel Ruíz e Clemente Villaverde; Julio Prieto, Roberto Marina, Jesús Landaburu e Quique Ramos; Hugo Sánchez e Juan José Rubio.

O período de vai e volta

Três meses após sua saída do Atlético, Aragonés desembarcou na Catalunha com a missão de reconduzir o Barcelona ao caminho dos títulos. O clube havia sido campeão apenas quatro vezes nas últimas dez temporadas, sendo que somente um desses troféus foi de La Liga. Nesse mesmo período, a torcida blaugrana teve de ver o Real Madrid se sagrar campeão espanhol cinco vezes e levantar a Copa do Rei em outras duas oportunidades. O técnico era visto como o homem capaz de fazer o Barça voltar a rivalizar com o rival da capital.

Mas apesar de ter cumprido com o objetivo de fazer o Barcelona voltar a vencer um campeonato, Aragonés não teve vida longa no comando do clube azul-grená. A temporada única foi o suficiente para que o espanhol levasse o time ao título da Copa do Rei, competição essa que a equipe não vencia havia cinco anos, graças ao gol de Alexanko. O que acabou pesando na decisão do Barça em demitir o técnico em maio de 1988 foi o desempenho em La Liga. Uma decepcionante sexta colocação, 23 pontos atrás do tricampeão consecutivo Real Madrid, não foi tolerada pela diretoria. Assim sendo, Aragonés pôde comandar os blaugranas durante 55 jogos, vencendo 25, empatando 13 e sendo derrotado em outros 17. Na conquista da Copa por 1 a 0 sobre a Real Sociedad, o treinador colocou em campo a seguinte equipe: Zubizarreta; Gerardo Miranda, “Migueli”, Alexanko e Julio Alberto; Urbano Ortega, Roberto Bonillo, Bernd Schuster e Víctor Muñoz; Francisco José Carrasco e Gary Lineker.

Aragonés acabou saindo do Barcelona, mas não da Catalunha. Após passar pouco mais de dois anos desempregado, em junho de 1990 ele acerta contrato com o Espanyol, rival local de seu ex-clube. Essa acabou sendo a primeira vez desde o seu “trabalho” no Betis em que o treinador saiu sem ganhar sequer um título. Pelo contrário: o desempenho com o time de Cornellà-El Prat foi desanimador. Em La Liga, 16° colocação e briga contra o rebaixamento até o fim do campeonato. Na Copa do Rei, eliminação ainda nas oitavas de final diante do Valladolid. Um ano após ser contratado, Aragonés pede demissão do Espanyol e deixa o clube catalão com um total de 15 vitórias, 12 empates e 17 derrotas em 44 partidas disputadas. Era hora de voltar para casa. De novo.

Saindo de Barcelona, Aragonés retorna a Madri para a sua terceira passagem pelo Atlético. Àquela altura, o time era o atual campeão da Copa do Rei e o vice de La Liga. Apesar de soar estranho uma troca no comando técnico com a equipe vivendo tal momento, a verdade é que os antecessores de Aragonés, o croata Tomislav Ivic e o interino argentino Iselín Santos Ovejero, não eram unanimidade. Dessa forma, recontratar o ídolo não foi nenhum sacrifício para a diretoria colchonera. E era inegável que clube e técnico tinham química.

Parecia uma fórmula matemática simples tal qual um 2 + 2. Nesse caso, a junção de Aragonés com o Atlético de Madrid resultava em título. Bastou a primeira temporada para que o espanhol colocasse mais um troféu na galeria do Atleti. Em 1991-92, mais uma conquista de Copa do Rei com direito a vitória sobre o maior rival na final por 2 a 0. Não perca as contas: esse foi o oitavo título do Atlético na competição e o quinto em que Aragonés esteve diretamente envolvido. Em La Liga, dois pontos separaram os Colchoneros de mais uma taça, que acabou ficando com o Barcelona.

Na temporada seguinte, houve complicações em termos de resultados. Na Copa, uma eliminação acachapante nas oitavas de final diante do Dream Team do Barcelona, que vinha dominando o futebol no país: 11 a 0 no placar agregado. Já na Liga, o Atlético terminaria na sexta colocação, mas já sem Aragonés, que acabou sendo demitido ainda em fevereiro de 1993, antes dos comandados de Johan Cruyff garantirem o terceiro dos seus quatro títulos em sequência. Com isso, o balanço da terceira passagem do espanhol no comando do Atleti foi de 54 vitórias, 20 empates e 25 derrotas em 99 jogos disputados. A equipe que bateu o Real Madrid na final da Copa do Rei contava com um brasileiro e era formada por: Abel Gómez; Pedro Tomás, Juanma López, Donato, Roberto Salozábal e Miquel Soler; Juan Vizcaíno, Bernd Schuster e Manolo; Gabriel Moya e Paulo Futre.

Após uma passagem regular no comando do Sevilla entre os anos de 1993 e 1995, Aragonés voltou a fazer um bom trabalho dirigindo o Valencia, que havia passado por uma experiência negativa sob a tutela de Carlos Alberto Parreira. Foi lá que o espanhol teve um desentendimento com Romário, alegando que o baixinho não se dedicava inteiramente aos treinamentos. Na temporada 1995-96, o time de Mestalla terminou La Liga em segundo, quatro pontos atrás do Atlético de Madrid. Na Copa do Rei, os Colchoneros foram os responsáveis por eliminar a equipe de Aragonés na semifinal.

Mesmo sem conquistar títulos, o Valencia de Aragonés é bastante lembrado por seu bom futebol, sendo um dos principais times da segunda metade da década de 1990 na Espanha. Com a presença de brasileiros, o time-base era composto por: Zubizarreta; Javi Navarro, Camarasa, Patxi Ferreira e Poyatos; Mazinho, Fernando, Romero e Mendieta; Viola e Mijatovic. A passagem do treinador por Valência se encerrou em novembro de 1996. Com o time rendendo abaixo do esperado em La Liga, o presidente do clube na época, Francisco Roig, optou pela troca no comando. Assim, Aragonés deixou Los Murciélagos após 69 jogos, com 37 vitórias, 13 empates e 19 derrotas.

Luis Aragonés
Foto: David Yerga/Wikipédia

Após uma boa segunda passagem pelo Betis e um trabalho mais aquém no Oviedo, Aragonés foi à cidade de Palma para assumir o comando do Mallorca durante a temporada 2000-01. E o técnico surpreendeu mais uma vez. Contando com alguns ótimos valores no time titular, o espanhol levou Los Piratas ao 3° lugar em La Liga, igualando o melhor desempenho do clube na Primeira Divisão Espanhola em sua história. O time ficou nove pontos atrás do campeão Real Madrid e garantiu uma vaga nas fases prévias da Champions League na temporada seguinte. Na Copa do Rei, queda nas quartas de final frente ao Celta de Vigo.

O Mallorca, muito por conta do legado deixado por Aragonés, venceria a competição nacional em mata-mata dois anos depois. Durante sua passagem, a escalação-base era composta por: Leo Franco; Olaizola, Miguel Ángel Nadal, Siviero e Miquel Soler; Finidi, Álvaro Novo, Vicente Engonga e Lluís Carreras; Eto’o e Albert Luque. O treinador ficou somente uma temporada em Palma, pois viu que tinha uma missão mais importante para cumprir com o seu clube do coração. E o balanço foi muito positivo. Foram 49 jogos, sendo 29 vitórias, 11 empates e somente nove derrotas.

O Atlético de Madrid se encontrava em maus lençóis. Rebaixado para a Segunda Divisão na temporada 1999-00, o clube não conseguiu voltar à elite espanhola já de primeira. Em apuros, a diretoria sabia muito bem a quem recorrer para salvar os Colchoneros daquela incômoda situação. Naquele ano de 2001, voltando para a sua quarta e última passagem no comando técnico do clube madrilenho, Aragonés deu de cara com a equipe em uma situação totalmente diferente da que ele outrora havia encontrado. Era o momento de mostrar mais uma vez o porquê de ele ser o maior na história da instituição.

Aragonés levou o Atlético ao acesso e ao título da Segunda Divisão sem maiores problemas. Foram 79 pontos conquistados, oito a mais que o vice, Racing Santander. Na temporada seguinte, já de volta à elite, os Colchoneros concluíram La Liga numa tranquila 11° colocação. Na Copa do Rei, eliminação nas quartas de final para o Recreativo Huelva. Tendo cumprido com a missão que lhe foi dada em sua chegada, o técnico decidiu que era o momento de partir, saindo ao fim da época 2002-03. Além de recolocar o time na Primeira Divisão, Aragonés disse adeus ao Atleti deixando como último presente o atacante Fernando Torres, criado na base do clube e cujo o qual ele ajudara a lapidar. No geral, a última passagem do “Sábio de Hortaleza” pelo Atlético de Madrid foi construída com 39 vitórias, 22 empates e 26 derrotas em 87 partidas. De volta à La Liga, a escalação possuía um brasileiro e era formada por: Mono Burgos; Cosmin Contra, García Calvo, Mirsad Hibic e Sergi Barjuan; Émerson, Albertini, José María e Luis García; Fernando Correa e Fernando Torres.

Em outubro de 2003, Aragonés foi recontratado pelo Mallorca para substituir Jaime Pacheco, que vinha fazendo um início de campeonato espanhol muito ruim. Diferentemente do que ocorreu em sua primeira passagem, o trabalho acabou ficando um pouco abaixo, até mesmo por já ter “pegado o bonde andando”. Ele obteve uma eliminação precoce para o Levante na fase de 32 avos da Copa do Rei, dois meses após assumir o cargo, e uma singela 11° colocação em La Liga, quatro pontos abaixo da zona de classificação para a Copa da Uefa. Ao fim da temporada, o técnico deixou Los Piratas após 20 vitórias, sete empates e 21 derrotas em 48 jogos. Muito prestigiado no país e apontado por muitos como o melhor treinador da Espanha, havia chegado a hora de Aragonés encarar o maior desafio de sua carreira: assumir o comando da seleção nacional.

Rompendo as fronteiras para entrar para a história

A seleção espanhola não vinha se dando bem há tempos. Com exceção feita à medalha olímpica conquistada em casa no já distante ano de 1992, o último título de verdade vencido pelo país havia sido a Eurocopa, no longínquo 21 de junho de 1964. E para piorar, a torcida vinha ficando cada vez mais insatisfeita por ter de ver grandes times sendo montados, com ótimos valores individuais e um bom jogo coletivo, mas que sempre acabavam sucumbindo nos momentos decisivos. Em julho de 2004, a Real Federação Espanhola decidiu que era a hora de fazer o que tinha de ser feito para tentar pôr um fim a essa síndrome derrotista: recorrer ao talento de Luis Aragonés.

O estopim para a decisão pela mudança foi a Euro daquele ano. Sob o comando de Iñaki Sáez, a Espanha sequer passou da fase de grupos. Ao chegar, Aragonés iniciou suas mudanças por meio dos jogadores, e passou a não convocar mais algumas figurinhas carimbadas como Míchel Salgado, Helguera, Raúl Bravo, Baraja, Gabri, Morientes, Albert Luque, Etxeberria e Raúl. Em seus lugares, nomes como Sergio Ramos, Fàbregas, Iniesta, Santi Cazorla, David Silva e David Villa foram ganhando espaço.

O que muita gente não sabe ou sequer lembra é que o trabalho de Aragonés quase acabou antes mesmo de dar qualquer fruto. Pouco tempo após sua chegada, durante um dos treinamentos, uma TV espanhola flagrou uma conversa dele com o atacante Antonio Reyes. Muito conhecido por saber como motivar seus atletas, Aragonés perdeu a linha e proferiu um comentário com teor racista para se referir ao francês Thierry Henry, colega de Reyes no Arsenal:

“Diga para aquele negro de m**** que você é muito melhor que ele. Não tenha medo, diga. Diga a ele por mim. Você precisa acreditar em si mesmo, você é melhor que aquele negro de m****”.

Obviamente, o episódio não foi bem visto, e muitos veículos de comunicação, principalmente os ingleses, cobraram que Aragonés fosse demitido e suspenso. A Real Federação Espanhola não considerou a ofensa “grave o suficiente para justificar uma suspensão ou sua demissão”. Aragonés chegou a se explicar afirmando que não tinha como ele ser racista, uma vez que possuía muitos amigos negros. Após uma investigação, a Uefa multou a Federação da Espanha em 87 mil dólares.

Com o episódio deixado no passado, a primeira missão de Aragonés no comando da seleção espanhola foi classificar o país para a Copa do Mundo de 2006. Objetivo esse que ele cumpriu categoricamente, de forma invicta. No Mundial da Alemanha, após vencer os três jogos da primeira fase, a Espanha se deparou com a França nas oitavas de final. David Villa abriu o marcador, mas os franceses viraram o jogo para 3 a 1 e eliminaram os espanhóis. Depois da derrota, o técnico observou seus jogadores e percebeu que ainda era necessário fazer outra mudança. Rompendo com uma marca cultural que já vinha desde antes de seu nascimento, Aragonés decidiu que era preciso alterar o estilo de jogo da seleção nacional.

O termo “La Furia” começou a servir de apelido para a Espanha nas Olimpíadas de 1920. Ele remetia ao futebol vertical e de imposição física que vinha sendo praticado desde então pela seleção. A ideia de apelidar o time espanhol de “La Roja” foi do próprio Aragonés, inclusive:

“Eu gostaria que a seleção tivesse um nome, uma identidade. Assim como o Brasil é a ‘Canarinha’ e a Argentina é a ‘Albiceleste’, eu gostaria que a Espanha fosse ‘La Roja”.

Percebendo a limitação de seus jogadores para que pudessem continuar implementando tal estilo, Aragonés resolveu adotar a bola como a peça central de seu jogo. A posse dela passou a servir como uma forma de cansar o adversário e, ao mesmo tempo, se defender dele. O sistema de passes curtos e rápidos, posteriormente apelidado de “tiki-taka”, começava a ganhar forma, tendo na dupla Xavi e Iniesta o fator preponderante para a sua mais plena execução. Era o início de uma das maiores revoluções na história do futebol espanhol.

Com a eliminação na Copa de 2006, o foco da seleção espanhola passou a ser a classificação para a Eurocopa de 2008, momento em que Aragonés começou a desenvolver seu novo sistema. E o começo de eliminatórias foi preocupante. Depois de golear Liechtenstein na estreia por 4 a 0, a Espanha sofreu duas derrotas consecutivas para Irlanda do Norte e Suécia. Mesmo sob pressão, o técnico se manteve fiel a seus princípios e o time acabou vencendo oito dos nove jogos restantes, além de um empate. A vaga para o torneio que se realizaria na Áustria e na Suíça estava garantida.

O que aconteceu no campeonato europeu de 2008 já é roteiro antigo. A Espanha, de maneira invicta, foi campeã após bater a Alemanha na final por 1 a 0. O gol da partida foi marcado por Fernando Torres, revelado pelo próprio Aragonés no Atlético de Madrid sete anos antes. Xavi, um dos eixos do novo sistema implementado pelo técnico, foi eleito o melhor jogador do torneio. Parecia até que o treinador já sabia qual seria o resultado alcançado pela equipe. Em uma de suas preleções durante a competição, ele chegou a afirmar:

“Vocês formam um tremendo grupo, já lhes disse isso. Se eu não chegar à final com esta equipe é porque sou um m**** e montei um time de m****. A única coisa que lhes peço é que joguem e se divirtam”.

Também não é mistério que o trabalho desenvolvido pelo “Sábio de Hortaleza” foi fator preponderante para que a seleção espanhola pudesse conquistar o inédito título da Copa do Mundo em 2010, além do bicampeonato da Eurocopa em 2012, ambos já sob o comando do sucessor de Aragonés, Vicente del Bosque. No Mundial, Iniesta fez o gol do título e foi eleito o melhor jogador da final. Já no europeu seguinte, Fernando Torres foi o artilheiro da competição e o mesmo Iniesta foi eleito o craque do torneio.

Espanha Euro 2008
A seleção espanhola celebra o título da Eurocopa 2008. Foto: David Yerga/Wikimedia

A vitória sobre a Alemanha na final de 2008 foi também o último jogo de Luis Aragonés no comando da seleção espanhola, que acabou sendo eleito o melhor técnico do mundo naquele ano pelo IFFHS. No total, ele dirigiu o time em 54 jogos, vencendo 38, empatando 12 e perdendo somente quatro. A escalação que ele mandou a campo para a final europeia diante dos alemães era composta por: Casillas; Sergio Ramos, Marchena, Puyol e Capdevila; Marcos Senna, Iniesta, Xavi, Fàbregas e David Silva; Fernando Torres.

Deixando o comando da seleção espanhola, o último trabalho de Aragonés como técnico aconteceu na Turquia. Em 5 de julho de 2008, ele aceitou um convite do Fenerbahçe para substituir Zico. E mesmo alegando que tinha a intenção de ganhar um título já em sua primeira temporada, ele teve dificuldades para encaixar um padrão de jogo na equipe, que contava com os brasileiros Roberto Carlos, Alex e Deivid. Como resultado, o seu ano de estreia foi também o último à frente do gigante de Istambul. O time terminou a Liga na quarta colocação, dez pontos atrás do campeão Besiktas, que ainda lhe derrotaria na final da Copa da Turquia por 4 a 2. Dessa forma, em junho de 2009, Aragonés deixou o clube depois de 28 vitórias, 11 empates e 14 derrotas em 53 jogos disputados.

Luis Aragonés faleceu no dia 1 de fevereiro de 2014, com 75 anos, no hospital Clínica CEMTRO, vítima de uma leucemia. Doença essa que ele só tornou pública quando ela já estava em estágio avançado. Na final da Champions daquele ano, o Atlético de Madrid prestou uma homenagem ao ídolo colocando seu nome na parte interna das camisetas de seus atletas. Sua morte comoveu toda a Espanha, num reconhecimento ao homem que foi o responsável por mudar o destino de toda uma nação.

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Dyego Lima

Jornalista formado pela UFRN. Aficionado por esportes. Futebol principalmente, mas não somente. Made in Universidade do Esporte!  

Como citar

LIMA, Dyego. Luis Aragonés: o homem que transformou “La Furia” na vitoriosa “La Roja”. Ludopédio, São Paulo, v. 148, n. 45, 2021.
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