41.1

Magnatas F. C.

Marcos Alvito 1 de novembro de 2012

The Land of Opportunity

O que têm em comum as seguintes pessoas: o atual proprietário do time de futebol americano Cleveland Browns, um ex-cabeleireiro que fez fortuna como dono de cassinos, os herdeiros de um barão da indústria de aço, o dono da cadeia de restaurantes Planet Holywood, um ex-primeiro ministro da Tailândia investigado por corrupção, o dono da maior cadeia de lojas de esportes da Grã-Bretanha, um milionário da indústria da carne, um peso-pesado do mercado financeiro (e amigo dos Bush) e, por fim, um bilionário russo da indústria do petróleo ?  Acertou quem respondeu dono de um clube da Premier League na temporada 2007-8*. 

A Extinção da URSS Fez Bem ao Chelsea

Boa parte desses milhões, perdão, bilhões, veio de fora. Dos vinte clubes que atualmente frequentavam o topo da pirâmide do futebol inglês naquela temporada, nove tinham proprietários estrangeiros. Alguns, de reputação duvidosa, como o primeiro estrangeiro a comprar um clube da então Premiership no verão de 2003, o agora famoso Roman Abramovich. Depois de comprar o clube por apenas 140 milhões de libras (462 milhões de reais, hoje seria o triplo), em apenas dois anos ele investiu mais 210 milhões de libras (693 milhões de reais). Essa nota preta ressuscitou um clube que até então só fora campeão da primeira divisão uma vez, na remota temporada de 1952.

Com o dinheiro russo, um arrogante e polêmico técnico português (José Mourinho) e dúzias de jogadores estrangeiros dos quatro cantos do globo, o Chelsea foi campeão inglês nas temporadas de 2004-5 e 2005-6, além de ter chegado quase até a final da Champions League. Diz-se que a fortuna de Abramovich é proveniente das nebulosas privatizações ocorridas após o fim do regime comunista na Rússia. Devem ter sido ótimos negócios, porque Abramovich teve um prejuízo de 80 milhões de libras (264 milhões de reais) somente na temporada 2005-6 e mesmo assim não dá sinais de que vá cessar de botar a mão no bolso.

Dinheiro Banhado de Sangue

O mais recente membro deste seleto clube na época era Thaksin Shinawatra, ex-primeiro ministro da Tailândia, que comprou o Manchester City em julho de 2007. Ex-oficial da polícia, Thaksin tornou-se bilionário como proprietário de uma empresa do setor de telefonia móvel e mídia. Chegou ao poder em 2001 e em 2005 foi reeleito com 61% dos votos. Derrubado por um golpe militar em outubro de 2006, exilou-se na Inglaterra. Hoje ele é processado por corrupção pelo atual governo, que congelou um bilhão de libras (3,3 bilhões de reais) da fortuna de Shinawatra.

Thaksin Shinawatra
Thaksin Shinawatra, ex-primeiro ministro da Tailândia. Foto: bakzero/Depositphoto.

Além disso, a respeitada organização mundial de direitos humanos Human Rights Watch encaminhou um protesto formal à Premier League, acusando o então proprietário do Manchester City de ser um  “transgressor dos direitos humanos da pior espécie”. Querem detalhes ? Facilitação da compra de um terreno para a própria mulher, ataques à liberdade de imprensa e uso de uma suposta guerra às drogas para desaparecer com pessoas desagradáveis. Na Tailândia ele é chamado de Ai Na Liam, “o cara quadrada”, um trocadilho para trambiqueiro. O todo-sorridente Shinawatra não se importava de ser chamado de Sinatra. Cara simpático. A Premier League, cujo regulamento estabelece que para ser proprietário de um clube é preciso ser uma pessoa  “correta e honesta”, fez de conta que não sabia de nada e lavou as mãos. Afinal, dizem eles, se o governo britânico aceitou Thaksin…

A Premier League como Centro Comercial

Não é de estranhar este pragmatismo (para dizer o mínimo) da Premier League. A então Premiership foi criada em 1992 exatamente para romper as últimas amarras que impediam a transformação da primeira divisão da liga em um negócio bilionário. Antes de 1992, por exemplo, o dinheiro proveniente dos direitos de televisão era repartido pela Football League de forma razoavelmente equilibrada: 50% iam para os clubes da antiga 1a. Divisão, 25% para os da 2a. e os clubes da 3a. e 4a. divisões dividiam os restantes 25%.

Hoje em dia a Premier League negocia com exclusividade os direitos de tv de um campeonato que é transmitido para mais de  200 países. Para as três temporadas entre 2007-8 e 2009-10, estes direitos foram vendidos por 1,7 bilhões de libras (5,6 bilhões de reais). Desta soma inacreditável, apenas 1,2% vai para a Football League (leia-se, os clubes da 2a., 3a. e 4a. Divisões), sob a forma de um “pagamento solidário” aleardeado aos quatro ventos em uma grande jogada de marketing.

A transformação operada por um repentino e colossal afluxo de recursos foi radical. Quando a Premiership começou em 1992, havia apenas 11 jogadores estrangeiros entre os 20 clubes. Na temporada 2006-7 eram 340. Hoje em dia, times como Chelsea e Arsenal já foram capazes de ir a campo sem um único jogador nascido no Reino Unido, o que prenuncia efeitos danosos para o futebol inglês a médio prazo. Em 1992, o salário anual de um jogador da Premiership era de 75 mil libras (247 mil reais). Na atual temporada (2007-8), um jogador mediano (Scott Parker) de um clube mediano (West Ham) ganha isso por semana. Hoje há cinco treinadores estrangeiros contra nenhum em 1992. 

Uma Desigualdade Esportiva Gritante

As consequências mais danosas, todavia, talvez tenham sido as esportivas. Dinheiro chama dinheiro, reza o ditado. Os clubes mais ricos, que podem investir em melhores jogadores, tendem a monopolizar as melhores colocações, arrebatando prêmios, conseguindo patrocínios milionários e a parte do leão dos direitos de tv (que são distribuídos de acordo com a colocação no campeonato). A boa colocação também permite a participação nas competições européias (sobretudo a riquíssima Champions League), o que traz mais dinheiro de direitos de tv, prêmios por participação, patrocínio etc.

Com isso conseguem mais dinheiro, que permite comprar melhores jogadores e por aí vai… Resultado: afora o Blackburn, campeão em 1995 aditivado pelo dinheiro do barão do aço inglês Jack Walker, após a criação da Premiership apenas três clubes foram campeões: Manchester United (nove vezes), Arsenal (três) e Chelsea (duas).  Esta falta de competitividade efetiva condena a maioria dos torcedores a no máximo almejarem para o seu clube uma classificação para a Champions League, uma honrosa colocação a partir do 5o. lugar ou ao menos escapar do pavoroso rebaixamento. Não admira que já se vendam camisas dizendo “De saco-cheio dos quatro grandes”.

Há Resistência, Mas os Chefes Não Ligam

Há também reações mais politizadas e organizadas. Torcedores inconformados com a venda do Manchester United para um milionário americano  criaram um clube próprio, chamado FC United of Manchester. Codinome: rebels (rebeldes). Vamos falar deles em outra oportunidade. 

Mas por enquanto, a liga de futebol mais rica do mundo não está dando a menor bola para os protestos ou para os esquemas alternativos. Ou seja, pouco importava que Thaksin Shinawatra fosse tailandês, Abramovich e  Gaydamak (Portsmouth) russos, Eggert Magnusson (West Ham) islandês e Carson Yeung (Birmingham City) chinês de Hong Kong. Todos eles falavam muito bem a única língua entendida na Premier League: grana.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Marcos Alvito

Professor universitário alforriado. Escritor aprendiz. Observador de pássaros principiante. Apaixonado por literatura e futebol. Tenho livros sobre Grécia antiga, favela, cidadania, samba e até sobre futebol: A Rainha de chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra. O meu café é sem açúcar, por favor.

Como citar

ALVITO, Marcos. Magnatas F. C.. Ludopédio, São Paulo, v. 41, n. 1, 2012.
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