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Pós-história do Maracanã: do geraldino ao cyberfan

Tal qual Garrincha, um gênio de pernas tortas, torto era a sua geral para os cartolas do futebol. Metamorfose kafkiana, os estádios padrão FIFA levou nosso velho Maraca. Deixando órfãos suas arlequinais, pais e mães de santo e toda uma cultura viva do futebol.

Quando estamos por assimilar a metamorfose outra se aproxima, o da realidade virtual e aumentada. Pergunto-me se este será o aniversário do Maracanã que marcará a virada do que é torcer pelo seu time. A grande pedra do sapato dos dirigentes, o povo que vai ao estádio, terá seu fim?

Panorama do interior do estádio durante a cerimônia de encerramento da Copa do Mundo FIFA de 2014. Foto: dronepicr.

O Geraldino dará espaço para o cyberfan.

Isto já está ocorrendo com as novas tecnologias, muitos podem levantar a bandeira para afirmar que é “uma maneira para se manter viva esta conexão, esse sentimento coletivo de pertencimento e identificação”. Ou estamos vivendo um momento de ruptura do que é Ser Torcedor?

O Maracanã novamente será descaracterizado, para dar lugar a espaços com realidade aumentada, micro câmeras nos jogadores, mostrando seu gasto energético, frequência cardíaca e tudo que a nanotecnologia da biomedicina poderá apresentar, logicamente conectado ao seu smartphone.

O futebol e o Maracanã neste dia festivo está se transformando em uma nova forma de espetáculo-entretenimento para o consumo. Neste “Admirável Mundo Novo” reproduziremos a experiência física do torcedor dentro do estádio para fora dele, ou promover uma experiência imersiva. Longe de ser um próximo episódio do Black Mirror temo que o Maracanã será nosso coliseu tupiniquim.

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Marco Bettine

Professor da Universidade de São Paulo

Como citar

ALMEIDA, Marco Antonio Bettine de. Pós-história do Maracanã: do geraldino ao cyberfan. Ludopédio, São Paulo, v. 132, n. 40, 2020.
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