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Maradona é a prova de que os fãs também são eternos

José Carlos Marques 29 de novembro de 2020

Diego Armando Maradona nasceu na Argentina em 30 de outubro de 1960, apenas seis anos antes de mim. Esta feliz circunstância acabou fazendo com que ambos pertencêssemos à mesma geração – em que pesem algumas visões distintas sobre qual seria o “tempo” de cada uma das gerações das últimas décadas (certa vez, na faculdade, perguntei a estudantes de segundo ano o que eles achavam dos calouros recém-matriculados no curso no início daquele ano; logo fui surpreendido pela resposta muito espontânea de uma aluna: “- Ah, professor! Eles são muito diferentes da gente… São de outra geração!).

Assim, mesmo que alguém ainda pondere que Maradona e eu somos de gerações diferentes, resta a certeza indelével de que eu tinha 13 anos quando, em 1979, ele começou a ganhar fama e notoriedade no mundo do futebol ao protagonizar o título do Mundial de Juniores conquistado pela Argentina. Sim, com 13 anos eu já havia me tornado há tempos um grande fanático pela bola, acompanhando e colecionando uma infinidade de coisas e objetos, como faziam milhões de pessoas da minha idade, no Brasil e em diferentes partes do globo. E com 13 anos passei a ter certo fascínio por esse fenômeno que parecia surgir no país vizinho.

Lembro disto porque posso dizer com todas as letras: eu pude acompanhar, com atenção e lucidez, a trajetória futebolística de Dom Diego. Sua morte motivou, como não poderia deixar de ser, as comparações quase sempre imprecisas sobre quem foi melhor, Maradona ou Pelé. E alguns colegas de gerações seguintes à minha buscaram na peculiaridade etária uma saída marota para fugir a esse dilema: tais colegas até podiam reconhecer a majestade de Pelé; mas passaram a dizer que, “dos atletas cujas carreiras eles puderam acompanhar, Maradona foi o maior”, atestando implicitamente que não poderiam avaliar Pelé por não terem podido acompanhar sua carreira de perto (como se isso fosse preciso para atestar a genialidade ímpar do Rei).

Pelé ou Maradona? Arte: Emilio Sansolini.

Nunca pude ver Pelé no estádio, e minhas lembranças dele na infância são radiofônicas, de fotografias em jornais ou revistas, ou de imagens televisivas em algum programa qualquer. Só me lembro de vê-lo atuar ao vivo uma única vez, pela TV, em sua despedida do Cosmos, quando promoveram uma partida entre a equipe novaiorquina e o Santos, em 1º de outubro de 1977. Lembro-me de ele ter feito um gol de falta com a camisa do Cosmos, no primeiro tempo, e de ao final do jogo ele ter feito ecoar pelo Giants Stadium, em Nova Jersey, as frases “Love, love and love” – como um mantra que só os verdadeiros mitos têm capacidade de cometer. Não, eu não precisei ver Pelé em campo outras vezes e nem precisei acompanhar a história de sua carreira para saber que ali estava uma entidade que não era deste planeta. E que talvez, na atual cultura do cancelamento, seja indevidamente apagada por razões diversas.

Mas àquela altura Pelé ainda não era meu ídolo – talvez porque eu ainda não estivesse à altura de o reconhecer como tal. Na década de 1980, Maradona é que se tornara para mim o meu maior ídolo do esporte, fazendo uma tríade ao lado de Mike Tyson e Alain Prost, todos por razões muito particulares e improváveis. É como se eu vislumbrasse na soma desses três ícones, de modalidades tão distintas como o futebol, o boxe e o automobilismo, os atributos que eu julgava importantes para justificar uma idolatria: a genialidade artística de um, a ferocidade competitiva de outro, a precisão racional do terceiro. Vibrei como nunca a cada conquista desses meus ídolos, e sofri na mesma medida com suas derrotas.

Os anos seguintes me trouxeram outras preocupações pessoais e profissionais (motivadas obviamente pela questão etária), e a década de 1990 assistiu ao declínio inefável desses meus três ídolos. Prost, ainda que campeão mundial em 1993, parece ter padecido da rivalidade com Ayrton Senna quando o piloto brasileiro faleceu em 1994. O fim de sua carreira ficou para mim como algo sem grande brilho ou comemoração, e, para piorar, ele viu malograr o sonho de ser diretor e proprietário de escuderia de Fórmula 1 anos depois. Mike Tyson perdeu sua invencibilidade e o título mundial em 1990 para um boxeador desconhecido (James Buster Douglas), e em 1992 foi preso acusado de estupro. Passou a frequentar as páginas policiais de maneira melancólica. Já Maradona, depois de punido na Itália em 1991 por uso de cocaína, voltou a sofrer outra suspensão na Copa do Mundo de 1994 (num episódio ainda nebuloso) por uso proibido de efedrina. Mais tarde, passou a ser uma caricatura de si mesmo, com a saúde sempre debilitada. Sua reverência a Fidel Castro e a Hugo Chávez, por exemplo, parecia-me muito menos ideológica do que midiática. E, para quem se dizia tão antissistema, não me parecia lógico ele ter aceitado o convite da federação argentina para dirigir a seleção nacional na Copa de 2010 na África do Sul.

Maradona com Fidel Castro e Hugo Chávez. Foto: Cubadebate.

Por tudo isto, houve um certo ostracismo na minha cabeça com relação a estas idolatrias. Daí que falar nos últimos tempos de Mike Tyson, de Alain Prost ou de Maradona já não representava grande coisa para mim. Até que, no dia 25 de novembro de 2020, recebi a notícia do falecimento do astro argentino por meio de uma mensagem de WhatsApp. E confesso que aquilo, naquele momento, não me tocou tão fundo assim. Lamentei sua morte, obviamente, mas logo voltei para uma reunião de trabalho agendada dias antes. No mesmo dia, porém, pediram-me para gravar um podcast sobre o fato, e as reflexões que tive que elaborar em minha mente para falar sobre Maradona me permitiram descobrir aquilo que sempre esteve latente em mim: que ele continuava sendo meu ídolo maior – até porque, a esta altura, Pelé já havia sido elevado a outra dimensão. Na busca sobre o que falar de original sobre Dieguito, deparei-me com muitas referências, fatos e análises – e muitas pessoas já comentaram o assunto com muito mais propriedade do que eu poderei vir a fazer um dia. De todo modo, gostaria de lembrar aqui de quatro aspectos que me parecem definir bem aquilo que mais me fascina em Maradona.

O primeiro aspecto é a referência em forma de homenagem que o escritor uruguaio Eduardo Galeano fez a ele, chamando-o de “um deus sujo e pecador, o mais humano dos deuses”, algo que foi proferido e repetido por inúmeros meios de comunicação nos últimos dias. Pois é preciso repeti-lo sempre, igual ao mantra de Pelé em 1977 com o “Love, Love and Love”. Em seu indispensável livro “Futebol ao sol e à sombra”, lançado em 1995, Galeano ainda retrata Maradona como “uma síntese ambulante de fraquezas humanas, ou pelo menos masculinas: mulherengo, ganancioso, bêbado, trapaceiro, mentiroso, presunçoso, irresponsável. Mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam.”

Estranha-me apenas que a morte de Maradona não tenha sido tão associada à trajetória de nosso Mané Garrincha, eles que foram dois gênios maiores do futebol e vítimas em certa medida do consumo de álcool. A humanização que se faz aqui de Maradona é muito semelhante à que Ruy Castro faz de Garrincha na biografia Estrela Solitária, publicada pela Companhia das Letras em 1995. Pois sobre Garrincha, o mesmo Galeano disse que “quando ele estava ali, o campo de jogo era um picadeiro de circo; a bola, um animal adestrado; o jogo, um convite à festa”. Para mim, há tanto de Maradona em Garrincha e tanto de Garrincha em Maradona que surpreende o atual esquecimento do anjo das pernas tortas na associação com Dieguito. Talvez porque as gerações de hoje aleguem não conhecer Garrincha, por ele não ser do nosso tempo. Como se isso, mais uma vez, fosse necessário para se atestar o brilho de nosso Mané.

O mesmo Ruy Castro, antes de escrever a biografia de Garrincha, publicara em 1992 a biografia do jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues (O anjo pornográfico, também pela Companhia das Letras). Pois é Nelson Rodrigues que define o segundo aspecto que amplia meu fascínio sobre Maradona. Falecido em 1980, Nelson não chegou a ver Maradona em seu auge. Desconheço até se ele chegou a escrever alguma crônica sobre El Pibe de Oro, e é pena que Maradona não tivesse um Nelson Rodrigues para nos contar o que foi aquele Mundial de 1986 no México. Aqui, Pelé teve uma vantagem insuperável: ganhou o epíteto de “rei” quando tinha apenas 17 anos, na  crônica “A realeza de Pelé”, publicada por Nelson na Manchete Esportiva em 8 de março de 1958.

No ano seguinte, em janeiro de 1959, e também na Manchete Esportiva, Nelson publicava a crônica “Meu personagem do ano”, e mais uma vez Pelé era o mote de seu texto. A certa altura, diz Nelson: “Olhem Pelé, examinem suas fotografias e caiam das nuvens. É, de fato, um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme de Brigitte Bardot, seria barrado, seria enxotado. Mas reparem: — é um gênio indubitável. Digo e repito: — gênio. Pelé podia virar-se para Miguel Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com íntima efusão: — Como vai, colega?” Tenho a convicção de que Nelson, se tivesse vivido mais seis anos e pudesse ter acompanhado o Mundial de 1986, faria também com que Maradona se aproximasse de Miguel Ângelo, Homero ou Dante e os cumprimentasse com um íntimo “Como vai, colega?”. Outro gênio.

O terceiro aspecto que me parece definir bem o fascínio de Maradona tem a ver com algumas cenas que foram fartamente divulgadas nos últimos dias, mas nem sempre com a devida contextualização. Trata-se da sequência em que os jogadores do Napoli fazem o aquecimento dentro de campo antes de enfrentarem o Bayern de Munique, em Munique, pelo segundo jogo das semifinais da Copa Uefa em 1989. O Napoli havia vencido o jogo de ida por 2 a 0 e conseguiu o empate em 2 a 2 nessa partida. Mais tarde, seria campeão ao superar o também alemão Stuttgart em dois jogos. Pois bem, os cinegrafistas foram muito felizes ao captar a alegria melancólica de Maradona ao fazer malabarismos com a bola enquanto se alongava ao lado dos brasileiros Careca e Alemão, companheiros de clube. Tudo é acompanhado pelos alto-falantes do estádio com a canção “Life is Life”, da banda austríaca de pop-rock Opus (há uma boa edição com o áudio original (ver vídeo abaixo), e fica difícil saber quando Maradona se movimenta ao sabor da música ou ao sabor da bola.

Por um momento, Diego olha para o seu lado esquerdo, sem sabermos o que ele fitava. Naquele olhar perdido e triste, com o rosto franzido e solitário, podemos perceber entretanto toda a alma de menino num homem de 29 anos incompletos. Tal qual escreveu Galeano sobre Garrincha, estávamos ali diante de um artista e seu picadeiro de circo; a bola, esta não passava de um animal adestrado; e o jogo nada mais era do que um convite à festa.

O último aspecto que eu gostaria de lembrar sobre o fascínio de Maradona tem a ver com uma frase que alguns aqui no Brasil ouviram recentemente da boca do técnico Pep Guardiola, que afirmou a ter lido na Argentina: “Qué me importa lo que Diego hizo con su vida, me importa lo que hizo con la mía”. Na verdade, tal frase é atribuída ao cartunista argentino já falecido Roberto Fontanarrosa, também conhecido como “El negro”, torcedor fanático do Rosário Central e que não deixou de venerar Maradona mesmo quando este foi jogar no arquirrival Newell’s Old Boys, também da cidade de Rosário.

A despeito de ser um mestre do desenho, coube a Fontanarrosa sintetizar com as palavras, nessa frase recheada de egoísmo, a beleza e a solidão que Maradona sempre inspirou em mim. Que nos importa o que Diego fez de sua vida? Importa-nos o que ele fez com as nossas vidas. E a partir desta frase comecei a me culpar por ter esquecido o quanto Maradona foi meu ídolo, e o pior, por ter esquecido o quanto ele fez pela minha vida estes anos todos.

Maradona. Arte: Francisco Carlos S. da Silva.

Esqueci-me que, em 1986, assisti ao lado de meu pai a deliciosa desfaçatez do gol de mão feito sobre a Inglaterra; esqueci-me de que, minutos depois, ficamos os dois sem palavras diante do gol antológico e inesquecível sobre os mesmos ingleses; esqueci-me de que, na final daquela Copa, eu torci absurdamente por Maradona, enquanto meu pai, talvez para ser do contra, passou a torcer pela Alemanha, alegando ser ele português e, portanto, europeu, e não sul-americano. Esqueci-me que, dias antes, fiquei embasbacado ao lado de meu irmão diante dos dois gols feitos por Diego contra a Bélgica, na semifinal. Esqueci-me que Diego também nasceu num 30 de outubro, mesmo dia de minha mãe, o que sempre foi motivo de anedotas alegres entre nós. Esqueci-me da primeira vez em que vi Diego em campo, quando em janeiro de 1990 interrompi por dois dias um intercâmbio em Lyon, na França, apenas para assistir a um Fiorentina 0 a 1 Napoli em Florença. Esqueci-me de ter ido ao Morumbi num sábado chuvoso apenas para rever Diego, agora fora de forma, num amistoso de 1993 entre o São Paulo e o Sevilla, para onde o astro rumou após a desilusão na Itália. Esqueci-me da euforia desmedida com os colegas de trabalho quando Diego eliminou a Itália, em Nápoles, na semifinal da Copa de 1990. Esqueci-me de que quase me feri com um rojão ao celebrar um passe de Diego na final de 1986, no gol de Burruchaga. Esqueci-me de que gritei “é o melhor jogador do mundo” quando ele driblou a defesa brasileira e tocou para Caniggia eliminar o escrete canarinho também na Copa de 1990.

Esqueci tudo isto estes anos todos, mas tudo isto voltou à minha mente como um vulcão em erupção, tão logo comecei a rever os lances que eu julgava soterrados na minha memória. E chorei compulsivamente diante dessas imagens, talvez porque elas dissessem tanto de minha vida e das pessoas presentes ao meu lado nesses momentos todos. Chorei por saber que hoje é difícil viver esses instantes ao lado de meu pai e de meu irmão. Chorei por lembrar que minha mãe também nasceu num dia 30 de outubro e que agora Maradona será apenas alguém que já não comemora o aniversário nessa data. E chorei porque parte de nós também se foi embora no último 25 de novembro. Acho que parei de chorar ao lembrar da lição de Galeano: “os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam” – em qualquer geração que seja, acrescentaria eu. Ah! Como me importa o que Maradona fez com minha vida!


P.S.: nos últimos dias, recolhi 165 capas de jornais com a notícia da morte de Diego. É capaz que, futuramente, faça algum trabalho acadêmico a respeito. Numa vista de olhos inicial, nenhuma capa me é mais impactante que a do jornal francês L’Équipe (abaixo). Com o título “Deus está morto” (Dieu est mort), ela sintetiza com propriedade o que eu me esforcei por dizer nestas infinitas linhas.


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José Carlos Marques

José Carlos Marques é Docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru) e integra o Departamento de Ciências Humanas da mesma instituição. É Livre-Docente em Comunicação e Esporte pela Unesp, Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Licenciou-se em Letras (Português Francês) pela Universidade de São Paulo. É autor do livro O futebol em Nelson Rodrigues (São Paulo, Educ/Fapesp, 2000) e de diversos artigos em que discute as relações entre comunicação e esporte. É líder do GECEF (Grupo de Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol) e integrante do LUDENS (Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e modalidades Lúdicas).

Como citar

MARQUES, José Carlos. Maradona é a prova de que os fãs também são eternos. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 66, 2020.
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