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“Não existe futuro sem passado”: a contribuição de Maria Cristina de Oliveira para a estruturação do futsal de mulheres no Brasil

O interesse pelo futebol de mulheres, suas histórias e memórias, ultrapassou os campos jornalístico e acadêmico. Pessoas de diferentes grupos etários, filiações clubísticas e pertencimentos sociais têm demonstrado curiosidade sobre aspectos relacionados ao desenvolvimento da modalidade, sobretudo depois que o tema alcançou maior visibilidade. Com as jogadoras não tem sido diferente. A realização de exposições, eventos, pesquisas e, no contexto da pandemia, lives, despertou em muitas delas o desejo de saber mais sobre o esporte que está inscrito em seus corpos e em suas sensibilidades. 

Fruto desse movimento, em novembro de 2020, criamos o Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF)[1] com o intuito inicial de discutir e aprofundar temáticas relacionadas aos feminismos e às questões de gênero. Tão logo começamos a estudar esses temas, sentimos a necessidade de relacioná-los à história da modalidade e, para tanto, decidimos ouvir quem protagonizou essa história, ou seja, as jogadoras. Assim, a partir dos nossos contatos pessoais, foi estabelecido um cronograma de encontros com mulheres que atuaram desde a década de 1970 e que vivenciaram o período de transição entre a proibição e a regulamentação do futebol de campo[2]. Foi nessas conversas com a geração pioneira que identificamos a relevância do futsal em suas carreiras e o quanto esse esporte parece ter sido o pontapé inicial para muitas craques que vimos desfilar nos gramados brasileiros.

Em ano de Jogos Olímpicos, vale destacar que o futsal ainda não ingressou no programa dessa competição, embora tenha sido responsável pela formação de várias atletas olímpicas do futebol de campo. Com todas as pioneiras que conversamos até agora, e já somam dezesseis, o futsal aparece em suas narrativas como o esporte que, em algum momento da sua trajetória, foi o responsável por dar vida ao seu sonho e proporcionar condições financeiras para que pudessem se manter jogando. Ainda assim, é fato que pouco se conhece sobre a história desse esporte em nosso país e sobre quem colaborou para que ele se tornasse possível, inclusive para as mulheres. Se hoje vemos circular várias informações sobre mulheres e futebol, há que ressaltar que estão focadas no futebol de campo. O futsal convive com o silenciamento no que diz respeito a sua história, realização dos campeonatos, identificação de equipes e de atletas. Silenciamento este que recai também sobre as pessoas que ajudaram a estruturá-lo como, por exemplo, Maria Cristina de Oliveira, a Cris, cuja trajetória de vida está profundamente articulada com a história da modalidade[3]

Maria Cristina de Oliveira
Foto: acervo pessoal de Maria Cristina de Oliveira.

Nascida na cidade de Mauá (SP), no dia 24 de dezembro de 1955, a paixão pelo esporte surgiu na vida de Maria Cristina quando ela tinha apenas 7 anos e ia para a escola fazer as aulas de Educação Física no lugar da sua irmã, Inês, que não gostava de praticá-lo. Mesmo sofrendo um atropelamento gravíssimo que a deixou muito tempo acamada, essa paixão não arrefeceu. Ao longo de sua vida praticou vários esportes, como o handebol, o voleibol e o futebol, no entanto, seu sonho era o basquete, do qual retirou ensinamentos que, posteriormente, utilizou ao trabalhar com o futsal.  Mas nem tudo foi só paixão: o sofrimento e a dor fizeram parte da carreira de Cris. Depois de várias lesões, a sexta cirurgia no joelho esquerdo a fez pensar em parar de atuar, o que a levou a estudar e a qualificar-se para seguir no esporte com outro tipo de contribuição. Nessa época, Cris tinha 33 anos e já havia sido aprovada em um concurso para trabalhar na Sabesp Empresa, pela qual é aposentada desde o ano de 2009.

Maria Cristina de Oliveira
Maria Cristina está marcando a atleta número 4. Foto: acervo pessoal de Maria Cristina de Oliveira.

A Sabesp foi, para Cris, uma grande escola. Além de executar tarefas administrativas, esteve profundamente envolvida com atividades esportivas. Foi treinadora de equipes de vôlei, basquete e tênis. No entanto, foi no futsal que teve seu maior destaque. Pela Sabesp, entre 1996 e 2019, foi campeã da Copa Algarve/Portugal (considerado como um mundial de clubes), hexacampeã estadual, octacampeã da Copa Topper Série Ouro, pentacampeã da Taça Brasil, entre muitos outros títulos. Em 2020, devido à pandemia, participou de lives e bate-papos esportivos e assessorou dirigentes e instituições que pretendiam formar equipes.

Apesar de todas as conquistas, ela relata:  “Eu nunca ganhei dinheiro para trabalhar com o futsal ou futebol, eu vivo da remuneração do que eu trabalhei na Sabesp e do que trabalho no clube da Sabesp, eu não sou uma treinadora remunerada”[4]. Por muito tempo, essa equipe foi referência no futsal nacional e por ela passaram muitas jogadoras que tiveram grande destaque no futebol de campo. Aliás, durante as décadas de 1980 a 2000, era comum que as jogadoras atuassem nas duas modalidades. Dadas as dificuldades do campo, o futsal apareceu como uma estratégia de sobrevivência, um modo de continuar no futebol. Segundo a Cris, em entrevista para o Grupo de Estudos, nessa época, o futebol não tinha um calendário, diferente do futsal que tinha mais sistematicidade, com um volume maior de competições. 

Maria Cristina de Oliveira
Fonte: acervo pessoal de Maria Cristina de Oliveira.

Vale destacar como se deu a formação da treinadora que esteve à frente dessa vitoriosa equipe. Cris é praticamente uma autodidata. Desde cedo, trilhou seu caminho no que diz respeito a sua própria capacitação: consumia tudo o que via sobre esportes, lia jornais e revistas, acompanhava programas de televisão, ouvia rádio, assistia aos jogos, enfim, buscava todas as formas de conhecimento que podia acessar. Cursou alguns semestres de Filosofia Pura, três anos de Fisioterapia e concluiu a Licenciatura em Educação Física, com pós-graduação em Basquetebol. Participou também de vários cursos promovidos pela Federação Paulista de Futsal. 

Essa trajetória bem-sucedida e a sua dedicação para se cercar de conhecimentos que qualificassem sua intervenção, fez com que chegasse ao comando da primeira seleção de futsal[5] convocada para participar de um desafio internacional contra o Paraguai em jogos que aconteceram na cidade de Londrina e Cornélio Procópio (PR) em dezembro de 2001[6]. Durante sua permanência à frente da seleção, entre os anos de 2001 e 2006[7], Cris participou de alguns amistosos e conquistou o I Campeonato Sul-Americano da categoria disputado em Barueri (SP) no ano de 2005[8]. Em 2017, voltou à seleção como técnica honorífica para acompanhar a seleção em um período de treinamento realizado na cidade de Lajes, em Santa Catarina. Sua presença na comissão técnica foi uma homenagem da Confederação Brasileira de Futebol de Salão (CBFS) pelos serviços prestados à categoria.

Maria Cristina de Oliveira
Da esquerda para a direita: Cristina Macedo, Maria Cristina de Oliveira,
Inês dos Santos, Vanda Sanches e Fernanda Mazalla. Foto: acervo pessoal de Maria Cristina de Oliveira.

Apesar de o futsal ser hexacampeão Mundial[9], Maria Cristina não teve a oportunidade de desfrutar desse momento mágico da modalidade, porque ela foi pioneira na estruturação da seleção no tempo em que esses campeonatos sequer existiam. O primeiro campeonato mundial ocorreu somente em 2010, na Espanha, onde o Brasil sagrou-se campeão.

Independente da seleção, Cris permaneceu atuando como técnica até 2019, acumulando 101 títulos em sua carreira[10]. Durante todo esse período não foram raras as vezes que custeou com o seu próprio salário o transporte e a alimentação de algumas de suas atletas. Ela se preocupava com o lado humano das pessoas e tinha um olhar para além das quatro linhas. Frequentemente orientava as atletas a buscarem conhecimentos, a estudar e a pensar na sua carreira depois que deixassem de jogar[11]. Essa forma de pensar foi expressa na entrevista que concedeu GEMF quando menciona que o futsal

Tem que evoluir, nós temos que trabalhar quem esteve lá e quem está vindo agora, não por mérito próprio, mas para a gente montar uma linha que produza atletas para o nosso futuro, que encampe a modalidade para que ela se torne realmente profissional e para que, em um breve tempo, essas meninas possam viver como seres humanos, se expor e exercer essa condição de serem mulheres que praticam futebol e terem conhecimento para isso. É o que eu coloco como fundamental para mudar essa história”[12].

Suas palavras demonstram o profundo conhecimento e ligação que Maria Cristina tem com a estruturação da modalidade. Sua trajetória, como tentamos minimamente apresentar, releva uma visão ampla, seja do passado, seja do contexto atual do futsal praticado por mulheres em nosso país. Não dá para pensar o futsal sem reconhecer o trabalho profundo e intenso realizado por ela, cuja contribuição é fundamental para a história desse esporte. Finalizamos este texto com as palavras que o iniciamos e que são da própria Cris[13]: “não existe futuro sem passado”. Com isso, queremos dizer que é difícil imaginar o futsal hoje sem o envolvimento de Maria Cristina de Oliveira que, em nossa visão, ainda tem muito a contribuir, assim como tantas outras mulheres que abriram as portas para que as novas gerações pudessem existir.


[1] O Grupo é formado pelas ex-jogadoras Dilma Mendes, Juliana Cabral, Leda Maria, Márcia Tafarel, Thais Picarte e pela pesquisadora Silvana Goellner.

[2] O futebol foi proibido para as mulheres entre os anos de 1941 e 1979. Foi regulamentado apenas em 1983.

[3] A história de vida de Maria Cristina de Oliveira foi narrada no livro “Mulher: da essência da vida à essência da bola”, escrito por Lúcia Andrade em 2005. Foi publicado pela 46 Indústria Gráfica e Editora Limitada, 2005.

[4] Trecho da entrevista concedida ao Grupo de Estudos Mulheres do Futebol no dia 17 de maio de 2021.

[5] Jogadoras convocadas: Andréia Suntaque, Tatiana Weysfield Mendes, Andreia Cristina dos Santos, Ana Lúcia Martins Castro, Fabiana Ribeiro Vinceste, Fernanda Borzuk de Lima, Raquel de Souza Noronha, Silvana Simone de Freitas, Jayne Maria Borim, Priscila Faria de Oliveira, Rosangela Souza Silva e Talyta M. L. de Almeida.

[6] É importante registrar que a comissão técnica era composta só por mulheres: Inês dos Santos, (chefe da delegação), Maria Cristina Oliveira (técnica), Vanda Cristina Sanches (supervisora), Fernanda Mazalla (preparadora física) e Cristina de Souza Macedo (fisioterapeuta).

[7] No dia 17 de outubro de 2006, enquanto participava de uma competição da categoria sub 20, em Caçador (SC) com a Sabesp, Maria Cristina recebeu um fax do diretor de seleções da CBFS comunicando sua desconvocação.

[8] SANCHES, Vanda Cristina; BORIN, Jayne Maria. História e Evolução do Futsal feminino no Brasil e no Paraná. Efdesportes.

[9] O Brasil foi o vencedor do Campeonato Mundial de Futsal Feminino entre os anos de 2010 e 2015.

[10] Dentre estes títulos, destacamos a conquista das três últimas edições do Campeonato Brasileiro de Seleções com Seleção Paulista. Competição que foi excluída do calendário atual.

[11] “Cris foi quem me incentivou e me direcionou para a Universidade. Sem esta orientação, hoje, eu não teria uma profissão além dos campos e quadras. Sou grata por esse encaminhamento e todo aprendizado que tive enquanto fui sua atleta” (Juliana Cabral).

[12] Trecho da entrevista concedida ao Grupo de Estudos Mulheres do Futebol no dia 17 de maio de 2021.

[13] A escrita deste texto contou com a colaboração de Maria Cristina que cedeu seu acervo pessoal para nossa pesquisa. Além disso, leu o texto e adicionou algumas informações que não havíamos mencionado. 

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Juliana Cabral

Ex capitã da seleção brasileira de futebol, medalhista olímpica em Atenas 2004, graduada em Ed. Física e pós graduada em Treinamento Esportivo. Comentarista de futebol com passagem por: ESPN, Rádio Globo e Redetv. Professora no Colégio Franciscano Pio XII e integrante do Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF).

Silvana Goellner

Professora Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Aposentada).  Ex-coordenadora do Centro de Memória do Esporte (CEME) e  Vice-Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Esporte Cultura e História (GRECCO). Pesquisadora e ativista do Futebol de Mulheres. Integrante do Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF).

Como citar

CABRAL, Juliana; GOELLNER, Silvana Vilodre. “Não existe futuro sem passado”: a contribuição de Maria Cristina de Oliveira para a estruturação do futsal de mulheres no Brasil. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 17, 2021.
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