Não é novidade a ninguém que o registro da opinião de Maurício Souza (do voleibol) na semana passada tenha fundo homofóbico. O comentário deixado em sua rede social sobre a bissexualidade do filho do Superman diz muito mais do que uma simples opinião: nas entrelinhas fica claro a sua não aprovação ao beijo entre dois homens, o julgamento moral embutido no ato e uma ironia que pode ser muito perniciosa para os milhares de seguidores de seu perfil público de atleta. Arrisco dizer que sua postura está no conjunto de um movimento reacionário, amplamente espraiado (no país e em vários lugares do mundo), de tentar coibir temas como os de gênero e sexualidade no cotidiano comum das pessoas.

O atleta pode não ter desferido diretamente um preconceito grosseiro, mas sua fala acerca de futuro já condenado das relações afetivas é bastante problemática – caso nos mantivermos apenas como expectadores das mudanças culturais postuladas por veículos de comunicação como as histórias em quadrinhos. Sabemos, no entanto, que não se trata disso. Ninguém “se torna” gay, lésbica ou assume qualquer outra orientação ou identidade apenas sendo exposto a desenhos, HQs, novelas ou mesmo tendo um professor ou uma professora de outra orientação sexual que não a heterossexual.

Superman
Foto: reprodução

O termo homofobia já acumula certa jornada dentro das considerações, tanto de produções científicas quanto no discurso de senso comum. Se há alguns anos, homofobia se referia a “preconceitos disparados contra homens homossexuais”, atualmente adquire outras nuances, inclusive foi ela que produziu desdobramentos, como termo guarda-chuva “LGBTfobias”, isto é, fobias sociais instituídas contra expressões de gênero da sigla LGBTQIA+.

A questão é mais complexa, no entanto, e diz respeito à legitimação de comentários (e também falas, piadas, ironias) homofóbicos, que ganham espaço no campo do esporte para se exprimirem. Não é só mais do “tiozão” ignorante do pavê de domingo, que não entende as relações afetivo-eróticas da contemporaneidade; tais posicionamentos proveem das mais diversas pessoas, inclusive daquelas que tiveram ensinos formais em escolas e universidades, que chegam a expressar discriminações graves dirigidas aos diferentes, sem medo algum de represálias ou punições.

Vale o adendo de que parte disso tudo é legitimado pelo momento e pelas circunstâncias da sociedade brasileira. Ter no comando do país uma pessoa com posturas preconceituosas, de mente obtusa, que prega valores de uma “família tradicional brasileira” que nem existe mais nos dados oficiais do IBGE e adepto de um deus (que parece mais um carrasco inquisitor do que um servo subserviente) não ajuda e influencia negativa e maliciosamente a opinião coletiva.

Aliás é no processo formativo, lá na escola, que se produzem formas de classificação dos sujeitos e é dentro de seus enquadramentos racionais que vai se formando a não possibilidade (ou impossibilidade) do diferente. Lembro-me de expressões dirigidas a mim na então 4ª série (hoje 5º ano), que sendo o único da classe que usava óculos era chamado de “quatro olho”; ou ainda, quando comecei a ter aulas de educação física, um ano mais tarde, era o último a ser escolhido para o futebol porque era o “perna de pau”, em referência a minha falta de ginga na condução da bola.

Historicamente a escola foi uma instituição construída para nomear, hierarquizar e diferenciar o outro, aquele que foge da norma e da ideia de normalidade. Nesse sentido, ela faz pacto com a heteronormatividade, tomada como padrão legitimador da heterossexualidade (uma estética dentre outras possíveis). Afinal, o que são os casaizinhos de meninos com meninas nas festas juninas, os trabalhos artísticos “mais práticos” para meninos e “mais sensíveis” para meninas, ou mesmo os espaços segregados, como banheiros, oficinas/ateliês e afins, que insistem em separar corpos nos espaços escolares.

Se tomarmos a crítica transfeminista, que trago aqui como elemento importante de uma posição distinta, compreendemos que nossa formação não apenas recebe influência da heteronorma, como da cisgeneridade, pois se aceita sem questionamento que meninos “nasceram com pênis” e meninas “nasceram com vaginas” e essa lógica corpo-genitália-gênero-sexualidade conduz a um binarismo instituído, que tem um impacto pernicioso na formação da subjetividade destes sujeitos em crescimento e formação.

Se pensarmos em nossa trajetória educacional, veremos como a homofobia é um elemento cultivado, sempre acionado para construir a perspectiva de rechaço e distanciamento. É nesse jogo de semelhante/diferente que preconceitos são instalados e se perpetuam. E, obviamente, isso afeta a vida de estudantes para além do espaço escolar. Crianças e jovens participam de seus núcleos familiares e também outros no âmbito de suas socializações.

Se a escola é uma instituição que induz a isso tudo, o esporte sobrelegitima. Diria que o mundo esportivo (criado desde cedo nas aulas de educação física até os campeonatos escolares e, posteriormente, às competições esportivas adultas) eleva à enésima potência os julgamentos, opiniões, e todo tipo de sentimento sobre o corpo em relação, particularmente, a gênero e sexualidade. Isso porque, ao lidar com o corpo e ao colocá-lo no centro das considerações, o esporte o expõe ao escrutínio coletivo, para o bem e para o mal. Daí surgem heróis e heroínas, vilões e vilãs, normais e anormais, visíveis e invisíveis.

Como a escola e o esporte têm papeis fundamentais na formação de atletas, não é de se admirar que potenciais atletas homofóbicos já estejam em gestação dentro mesmo das regras escolares. Em decorrência disso, escola e esporte se tornam lugares muito hostis para pessoas que fogem das normas (comportamentais, relativas a gênero e sexualidade). Importante dizer que tais sujeitos não se afastam por decisões próprias, mas muitas vezes são expulsos, expelidos daquilo que é aceito como normativo. Estudantes transexuais, meninos gays efeminados, meninas lésbicas masculinizadas (apenas para citar alguns exemplos), além de perseguidos e violentados de múltiplas formas, são excluídos da possibilidade de existir em espaços educacionais e esportivos.

Atletas mirins vão sendo informados, por meios instrucionais, sociais e de costumes, que há atos e procedimentos aceitos, e outros não; que há expressões de masculinidade e feminilidade acatados pela opinião pública, e outras não; que há formas de expressão do corpo adotadas por todos e vangloriadas, e outras não. Nesse processo, há repulsa pelo que foge da regra e autonegação de desejos internos ou formas de expressão de si. A partir disso, infelizmente, ocorre reprodução de preconceitos (contra si e contra outros) e perpetuação de opiniões acríticas e discriminatórias.

Vôlei
Foto: FIVB/Fotos Públicas

Diante de tudo isso, entendemos que Maurício também é vítima das circunstâncias e de uma educação cis-heteronormativa que vulnerabiliza, exclui e mata. Mas ele não é isento de responsabilidade sobre suas opiniões e atos. A heterossexualidade não pode ser projeto de nação, como parece ser nas posturas e falas do presidente da República e de apoiadores. Outras expressões gênero existem, bem como formas de produção do corpo sexuado e distintas orientações sexuais coexistem. Todas devem ser respeitadas, por atletas ou não. Devemos tomar isso como mantra de uma sociedade que quer melhorar.

Que os grupos silenciados pelas opressões homofóbicas se libertem disso e que possamos trabalhar modos mais conscientes e justos de ser cidadãos e atletas. Que o Brasil consiga vencer a homofobia, a transfobia e todas as outras formas de “LGBTfobias” e eleger um novo modelo de nação. Por isso torço, para isso trabalho.

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Maurício Souza e a homofobia em atletas. Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 9, 2021.
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