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Memórias de um torcedor de futebol

Amanda Lopes 21 de março de 2023

As arquibancadas de um estádio são lugares de festa, clássicos esportivos e principalmente de colecionar memórias. A memória é uma zona complexa de interseção de saberes, representações e percepções (TAVARES, VOLTRE, 2014). Com essa subjetividade, o futebol aguça a memória de seus espectadores e, aliadas ao sentimento por trás do sujeito enquanto torcedor, essas lembranças se tornam afetivas. E o melhor espaço para libertar todas as emoções que circundam a modalidade é dentro do estádio, afinal, nele está depositada uma história longa e cheia de significados e símbolos tão interligados que se tornam lugares inesquecíveis, ainda mais no contexto brasileiro onde o futebol é uma modalidade extremamente popular, marcado por uma necessidade premente de desenvolvimento desse esporte desde a mais tenra infância (MELO, DUARTE, 2016).

Toda a estrutura do estádio de futebol é pensada para sensibilizar os torcedores. Ao analisarem o Maracanã, Tavares e Voltre (2014) concluíram que a arquitetura do local foi construída visando obter a melhor acústica possível, pois a memória é influenciada pelo som. Aliás, todos os sentidos são envolvidos na atmosfera memorável do estádio de futebol, como exemplificado por Gaffney e Bale (2005) ao assumirem que o paladar acompanha intrinsecamente a experiência de assistir jogos em estádios esportivos. No que tange a alimentação, como não citar o famoso tropeiro do estádio do Mineirão? Para muitos torcedores, apenas com ele, o espetáculo fica completo.

No estádio, mais do que uma receita, o feijão tropeiro é um símbolo constante no imaginário do torcedor mineiro. É publicamente reconhecido como patrimônio cultural para seus frequentadores. Em dias de jogos; antes, durante ou depois das partidas; nas lanchonetes internas ou com os vendedores ambulantes nos arredores do estádio; por todos os lados e dentre outros alimentos, o feijão tropeiro está presente. (PACHECO, DANTAS, SOUZA E SILVA, 2020)

Minha experiência no estádio foi possibilitada pelo meu pai, assim como todo meu interesse pelo esporte. A primeira vez que pisei em um estádio foi no Mineirão em 2007, com 10 anos, para assistir a um jogo teoricamente tranquilo, referente ao Campeonato Mineiro entre Atlético-MG e Villa Nova-MG. Essa experiência foi marcante, pois ao meu lado se encontrava um torcedor do Atlético xingando mais palavrões do que eu já tinha ouvido na vida e, nesse momento, minha irmã, com 12 anos, me disse no ouvido: “fica tranquila, estádio de futebol é assim mesmo”, reproduzindo a sua percepção sobre aquele espaço.

 

Mineirão
O Estádio Governador Magalhães Pinto, mais conhecido como Mineirão. Fonte: Wikipédia

Apesar dessa primeira experiência, me levar ao estádio não era um costume na minha família, pois tradicionalmente, todo domingo os homens se juntavam para assistir os jogos enquanto as mulheres se reuniam para papear e esperar o jogo acabar. Assim, mal eu sabia que ia me tornar uma torcedora daquelas fervorosas e que aquele estádio de futebol, bem como a Arena Independência, se tornaria um ambiente acostumado com a minha visita, constantemente criando e recriando novas memórias.

Alguns dias atrás, em mais uma sexta-feira regada de muita cerveja e muita música, papai, hoje com 73 anos, contava com saudosismo algumas de suas experiências perambulando nas arquibancadas. Atleticano, oriundo do interior de Minas Gerais e pai de cinco filhos, ele conseguiu passar sua paixão clubista com êxito para sua família. Apesar de não ser tão assíduo nos estádios atualmente, no auge dos seus 30 anos, sua presença era certeira e, nessa época, estão a maioria dos seus casos. Esses que variavam de vitórias orgulhosas a derrotas frustrantes. A memória é um mecanismo capaz de não funcionar com informações essenciais e se lembrar de detalhes de momentos banais, ela é seletiva, pois cada mente abstrai o que não a interessa, foca e registra o que mais lhe atrai, o que culmina em um juízo de valores (MELO, DUARTE, 2016). Nesse quesito, minha mãe tem razão quando reclama da seleção da memória do meu pai, e parece que o Atlético está na sua lista de prioridades.

Durante a campanha de 1971, papai acompanhou a maioria dos jogos e até hoje reclama do “trânsito infernal” nas principais avenidas ao redor do Mineirão, estádio onde o Atlético sempre jogava como mandante. Segundo Vasconcelos, Vieira e Hipólito (2019), não apenas os estádios, mas suas áreas circundantes também se estruturam como espaços de recordação por contemplarem os caminhos, sucederem as memórias e fazerem partes dos rituais.

Ele gostava de assistir aos jogos no estádio e depois, quando chegava em casa, assistia ao VT na extinta emissora “TV Itacolomi”, que começava imediatamente após o jogo. Uma vez, a caminho de uma partida contra o São Paulo, o velho Chevrolet 51 do meu avô não aguentou o congestionamento, e “afogou”, deixando meu pai e meu tio na mão em plena Avenida Antônio Carlos. Quando finalmente conseguiram entrar no estádio, o Galo já ganhava por 2 a 0, e assim permaneceu até o fim do jogo. Após o apito final, eles correram para casa para chegar a tempo de assistir ao vídeo-tape, mas, quando ligaram a televisão, o placar já estava 2 a 0 e, até hoje, ele nunca viu esses gols.

Outro caso marcante foi em meados dos anos 80, quando já existia a rivalidade entre Atlético e Flamengo, devido aos acontecimentos de 80 e 81. Em um jogo noturno contra o clube carioca, havia tanta gente no entorno do estádio que meu pai teve que parar seu carro literalmente no meio da avenida Abraão Caran, perto do Mineirão, e seguir a pé. Feliz que o Galo tinha ganhado, voltou ao carro e teve um espanto: seu carro estava totalmente virado no sentido contrário ao que tinha deixado. Carregaram seu carro e o viraram no sentido oposto!

São nesses “causos” do futebol que a paixão passa por gerações. Através deles, a história se torna uma memória afetiva viva e, de repente, me pego tentando desenhar em minha mente aquelas cenas que na verdade, são impossíveis de serem imaginadas por mim, já que nas minhas primeiras lembranças do meu pai ele já tinha 50 anos, muito tempo depois de todos esses episódios. Mesmo assim, a imaginação toma conta ativando as lembranças que, em conjugação ao território da experiência, transforma-se em estratégia de valorização dos princípios culturais de identificação social e sentido de pertencimento local (VASCONCELLOS, VIEIRA, HIPÓLITO, 2019).

No exemplo de meu pai, esse pertencimento existe principalmente com o estádio do Mineirão, local onde o Atlético jogava de forma exclusiva durante sua nostálgica juventude. Para Melo e Duarte (2016), a memória é influenciável e mutante de acordo com os interesses e pontos de vistas em jogo, bem como o tempo cronológico, ao contrário dos fatos históricos imutáveis e estáveis. Isso significa que a percepção que meu pai tem hoje em um estádio, enquanto torcedor idoso, é diferente daquela de 30 anos atrás e, portanto, a relação de sua experiência com a memória também se apresenta diferente. Por outro lado, as autoras também ressaltam a capacidade do espaço de um estádio de conseguir carregar, mesmo com reformas e mudanças, uma atmosfera com “aptidão para a metamorfose e a predominância do lugar de memória através de uma ressignificação” (MELO, DUARTE, 2016).

Fato é que eu queria ter vivido esses tempos com papai, assim como meus irmãos viveram. Enquanto torcedora, dá gosto de ver os olhos dos torcedores brilhando ao relembrar os momentos marcantes dentro de um estádio, ainda mais quando esse alguém é o responsável por toda paixão que tenho hoje.

Referências

GAFFNEY, C.; BALE, J. Sensing the stadium. In: VERTINSKY, P.; BALE, J. Sites of sport: space, place, experience. London: Routledge ; New York: Taylor & Francis e- Library, 2005. p. 25-39.

MELO, N R.; DUARTE, C. R. S. Para além das reformas: reflexões sobre o lugar de memória do Maracanã pelo viés da ambiência. ARQUITEXTOS (SÃO PAULO) , v. 17, 2016.

PACHECO, L. T.; DANTAS, M. de M.; SOUZA, A. L. de; SILVA, S. R. da. COMIDA DE ESTÁDIO: REFLEXÕES SOBRE O “TROPEIRÃO” E A SOCIABILIDADE NO “NOVO MINEIRÃO”. Movimento, v. 26, p. e26052, 2020.

TAVARES, A. B. C. O.; VOTRE, S. J. Estádio do Maracanã 1950-2010 na memória de torcedores. Movimento 2014, 20(3).

VASCONCELLOS, P. J. L. D.; VIEIRA, A. L. C.; HIPÓLITO, J. M. V. S. Chegadas e Partidas: O estádio como elemento memorial para os torcedores do San Lorenzo e West Ham. Licere, Belo Horizonte, v.22, n.4, dez/2019

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Como citar

LOPES, Amanda. Memórias de um torcedor de futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 165, n. 21, 2023.
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