Minha trajetória no esporte de rendimento começou tarde. Mais propriamente se iniciou no movimento paralímpico, voltado a pessoas com deficiência, e precisamente quando conheci “Baiano”, velocista cego, origem humilde, gente boa. De instantâneo, virei “guia de cegos”, como o povo diz. Guias são corredores, atletas ou amadores, que acabam correndo em companhia de pessoas com deficiência visual. Tornam-se importantes figuras e a relação que se estabelece é bastante afetiva entre atleta cego e guia-corredor.

O lance todo é muito curioso: o guia é o olho do técnico, o controlador do treino in loco, o puxador nos momentos de cansaço, aquele que mais ouve do que fala, a sombra durante longos e penosos treinos e quem, mesmo morto, tem que estar vivo. Mas é também o parceiro de conquistas amorosas (narra as curvas físicas de alguém para o amigo-cego), o parceiro do churrasco da “cegaiada” nos sábados à tarde, o familiar que falta quando a deficiência bate pesado na realidade, o ombro disponível em muitos momentos difíceis.

Em outra ocasião mais tarde, num evento multiesportivo em fins dos anos 1990, conheci outro corredor, de nome Fabinho. Magricela, risonho e com “cotoco” do lado esquerdo, produto de uma amputação. Perdeu o braço “na lida”, ajudando o pai na máquina de moer cana de açúcar para fazer adubo. Enfiou o braço e sentiu um choque, desmaiou. Quando voltou à escola dias depois do acidente, todos caçoaram dele; agora era “Fabinho, o aleijado”. Por anos viveu revoltado. Entre nós era aceito. Afinal, o que era a falta de um braço?

O movimento do esporte paralímpico (ou paradesporto) me traz boas memórias afetivas. Longe dos clichês que o circundam, em meu caso, tornou-me um ser humano melhor, menos egocentrado, mais humano e, sobretudo, menos corponormativo. Passei a “naturalizar” a condição de pessoas que não tinham pernas ou braços, que não enxergavam ou ouviam e mesmo conseguia compreender deficiências intelectuais. Desfragmentei meu eu para dialogar com o outro, escutá-lo, mesmo quando as lógicas racionais da comunicabilidade lhe faltavam.

Lembro-me que, quando pequeno, tinha medo do escuro. Necessitava da luz, nem sabia por quê. Certo dia, nos alojamentos das escolas públicas que dormíamos em tempos de vacas magras nos campeonatos regionais de esporte paralímpico, sem iluminação e muito menos condições infraestruturais, reclamei da vida. Do meu lado estava Érico, um rapaz que nasceu cego, nunca enxergara nada. Sensível ao que se passava, nada falou. Desligou seu radinho, retirou as pilhas e as colocou numa lanterna, que o técnico trazia para emergências. “Tome, veja se consegue ver alguma coisa”, disse-me, passando o objeto. Nessa hora, me calei tão profundamente que a única ação possível que me recolocaria no patamar da razoabilidade era devolver as pilhas ao radinho. Seguimos ouvindo a “voz do Brasil” e comendo nossas marmitas quase frias.

Rio de Janeiro, Brasil, 14 de Setembro. Felipe Gomes e seu guia Jonas Silva (BRA) nas semifinais  dos 200m masculino classe T11 no Estadio Olimpico nos Jogos Paralímpicos Rio 2016 . Créditos: Heusi Action / Miriam Jeske
Felipe Gomes e seu guia Jonas Silva (BRA) nas semifinais dos 200m masculino classe T11 no Estádio Olímpico nos Jogos Paralímpicos Rio 2016. Foto: Heusi Action/Miriam Jeske.

É na penumbra dos preconceitos em vigor em nossa sociedade que repousa o invisível, que nem os mais astutos se atentam. Seu nome: o capacitismo. Os discursos impõem que pessoas com deficiência “devem” se inserir, “devem” praticar esporte para mostrar ao mundo que também “podem” ser diferentes, distintas e “úteis” para a sociedade capitalista. E o triste é que muitos/as daqueles/as com quem eu convivia acreditavam piamente nisso. Tenho raiva do capacitismo! Sei que bastante do que fiz no esporte de rendimento voltado para esta população tem, certamente, valor atrelado ao capacitismo. No entanto, a consciência sobre o fato modela outras (e novas) ações relativas ao fenômeno. O capacitismo é tão articulado que, frente às mazelas corporais e sociais das pessoas com deficiência, acaba se revestindo de discurso salvacionista. Contra isso, há que se articular!

No esporte praticado por pessoas com deficiência, nem tudo eram flores. Tem muita gente que trabalha na área (de Educação Física Adaptada) e não é “gente”, não valoriza o humano, não cria relações com pessoas com deficiência, porém se diz “profissional”. Afinal, muitos têm considerado essa área como um “novo filão” do campo de atuação da Educação Física. Nunca me esqueço de uma expressão que ouvi, certa vez, num evento esportivo nacional: “não aguento mais estar aqui entre restos de gente”. Ao ouvir, perdi o chão, adoeci.

Claro que a crueldade e falta de noção nunca têm limites, por certo! Num dos últimos Jogos Paralímpicos em que compus a delegação brasileira, certo dia, trombei com uma senhora junto ao grupo e não a reconhecera como parte dele. Portava quatro ou cinco sacolas de compras de várias grifes famosas, usava óculos de sol, parecia “madame”, daquelas que a gente vê nas novelas. Perguntei de quem se tratava e alguém dos meus me respondeu: “é a dona que liberou a grana do ministério para a gente viajar”. Nesse momento, percebi que o esporte Paralímpico não era muito diferente do Olímpico, infelizmente, e muitos não deficientes estão nas situações por puro interesse.

Apesar do aprendizado dos longos anos e das grandes amizades que fiz, decidi seguir outro caminho e isso faz 10 anos neste mês de setembro. Guardo boas lembranças, de um tempo de aprendizagens múltiplas. Já não dava para continuar na área escondendo minha (distinta) sexualidade e outros ventos me chamavam. Os muitos anos vividos entre as pessoas com deficiência no esporte marcarão minha existência e sei que muito do que refletirei nesta vida terá relação com essas memórias afetivas, que em mim ainda permanecem vivas.

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Memórias paralímpicas afetivas. Ludopédio, São Paulo, v. 111, n. 16, 2018.
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