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Metafísica da bola

Marcos Alvito 16 de agosto de 2019

Metafísica da bola.

Na verdade, do futebol.

A FIFA anunciou uma série de mudanças, numa fúria incessante de inovação de um jogo que vem dando certo desde a sua primeira codificação em 1863. Para não falar na Idade Média quando a bexiga de animal já era furiosamente disputada por aldeias rivais. Transformado em produto, como se fosse videogame, o futebol tem que ser constantemente “atualizado” para uma nova versão. O que mais me perturba, todavia, já que não sou a priori contra mudanças, é a filosofia que orquestra as transformações da regra.

Sobre o VAR já escrevi o suficiente, bastando reafirmar que ele cumpriu tudo que eu havia previsto: atraso no andamento das partidas, esvaziamento da comemoração do momento máximo da partida – o gol, transferência de ainda mais poder à televisão. Por fim, o pior de tudo: a permanência de dúvidas, injustiças e até de utilizações duvidosas, afinal os “árbitros de vídeo” ficam protegidos da fúria das arquibancadas e são santificados pela crença na infalibilidade da máquina.

Arte: Amorim Cartoons.

Mas agora quero comentar uma mudança mais recente e igualmente nefasta: o desaparecimento da bola na mão. Antes a regra punia somente o jogador que, propositalmente, colocasse a “mão”, que num conceito ampliado incluía o braço, na bola. Claro, cabia ao juiz interpretar isso. E logicamente era subjetivo, havia debates acalorados, ameaças de morte e por aí vai. Injustiças decerto ocorreram. Mas quero lembrar que a injustiça é constitutiva do futebol. Um time bem pior pode ganhar de uma equipe muito superior. No basquete, no vôlei, no críquete e na maioria absoluta dos esportes isso não acontece. Por isso Nelson Rodrigues, que entendia mais do esporte bretão do que todos os consultores da FIFA, falava em “montinho artilheiro”, por exemplo. No futebol a porta para o inesperado, até para a tragédia, está sempre aberta.

Na semifinal da Liga dos Campeões da Europa 2017/2018, entre Real Madrid e Bayern de Munique, a bola bateu na mão do lateral brasileiro Marcelo já nos acréscimos, e os jogadores do time alemão ficaram indignados. Foto: Reprodução.

Voltemos à bola na mão. Agora para a FIFA ela não existe mais. O que devem fazer os jogadores de defesa? Cortar os braços antes do jogo. Só assim podem garantir que a bola, de forma alguma, baterá neles, levando talvez a um pênalti que pode mudar totalmente a partida. Jogadores habilidosos não serão capazes de chutar a bola no braço dos zagueiros adversários?

A FIFA, ademais, não quer transformar o futebol em um jogo mais justo. Não um esporte em que uns vinte ou trinta clubes extremamente poderosos sugam os talentos vindos de todas as partes do mundo, formando verdadeiras seleções que arrebanham bilhões entre televisão, patrocínio, venda de camisas e até mesmo ingressos para partidas. Não um esporte que promete o Eldorado para milhões de crianças dos países mais pobres, dispostas a fazer de tudo por uma chance.

La Mano de Dios, de Maradona, na Copa do Mundo de 1986, abriu o marcador para a Argentina contra a Inglaterra. Foto: Reprodução.

O que ela quer então? Ela quer banir totalmente a subjetividade dos campos, o que destrói a alma do futebol. A FIFA deseja, como boa multinacional, vender um produto que pareça limpo, correto, sobre o qual não pesem dúvidas, polêmicas, paixões. Logo a FIFA, palco de escândalos bilionários que rolaram livremente durante décadas?

O efeito disso tudo é abandonar a metafísica do futebol em nome do binarismo primário, fanático, empobrecedor, do certo e errado que nós brasileiros sabemos muito bem aonde conduz.

Por isso eu grito, torcedor que sou:

FIFA, tira a mão da nossa bola!

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Marcos Alvito

Professor universitário alforriado. Escritor aprendiz. Observador de pássaros principiante. Apaixonado por literatura e futebol. Tenho livros sobre Grécia antiga, favela, cidadania, samba e até sobre futebol: A Rainha de chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra. O meu café é sem açúcar, por favor.

Como citar

ALVITO, Marcos. Metafísica da bola. Ludopédio, São Paulo, v. 122, n. 17, 2019.
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