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A militarização do futebol brasileiro: como a Seleção foi afetada na Copa de 1970

Lucas Salgueiro Lopes 16 de maio de 2018

Depois da conquista do bicampeonato mundial – 1958 e 1962 – o Brasil vem de um decepcionante décimo primeiro lugar na Copa do Mundo de 1966 na Inglaterra. No campo político, o país passa pelo Golpe Civil-Militar de 1964 depois de anos de instabilidade política. Esse artigo mostrará alguns dos aspectos que caracterizam o processo de militarização do futebol no período anterior a Copa do México em 1970, e como isso afetou a Seleção que venceu o torneio.

Em 1966 o Brasil vai a Copa como Seleção a ser batida, afinal, vinha da conquista de dois mundiais. O Europeu decidiu evoluir seu futebol desenvolvendo um preparo físico superior e estilo de jogo com maior comprometimento e organização tática. O Brasil além de agora competir com essas seleções superiores fisicamente, já não era a mais a mesma das conquistas anteriores, e muitos de seus principais nomes já estavam em final de carreira. Na Copa do Mundo de 1962 o Brasil tinha em seu elenco de 22 jogadores, 14 remanescentes do título de 1958. Em 1966 restavam oito remanescentes do bicampeonato de 1962: desses, pilares como Gylmar, Djalma Santos e Bellini já passavam dos 35 anos; Orlando, Garrincha e Zito tinham 31, 33 e 34 anos, respectivamente; mais novos, Altair e Pelé completavam a lista.

Além da perda de peças no elenco, outra justificativa comumente apontada para o fracasso da Seleção aponta para o argumento de desorganização na preparação da Seleção para a Copa de 1966. A convocação final para a Copa previa 22 atletas convocados, mas o Brasil as suas vésperas se dividia em três grupos nos treinos, totalizando 45 jogadores. Esses três grupos ainda fizeram diversas viagens e excursões por várias cidades do Brasil – muito devido ao apelo de propaganda para lideranças políticas locais – antes de chegar definitivamente a Europa.

O General Arthur da Costa e Silva assume a presidência brasileira em 1967, e a partir de seu mandato o intervencionismo dos militares se torna mais presente no futebol. Mais do que o caráter propagandístico, – que viria atingir seu ápice no posterior governo Médici1 – o regime passa a introduzir aspectos de sua forma na organização e administração do futebol brasileiro – e consequente e prioritariamente na Seleção Brasileira. Diz Costa e Silva em entrevista ao Jornal dos Sports em quatro de dezembro de 1968:

O Brasil não pode perder a Copa de 1970. Temos que ganha-la através da disciplina, de muito treinamento, hierarquia e patriotismo (…) Temos que ter humildade. O Jogador não pode perder pelo personalismo (…) Precisamos nos disciplinarmos para o jogo coletivo em benefício da seleção, como fazem os inglês e alemães2.

O governo Costa e Silva deixa muito claro a importância dessa conquista, não só para a sociedade como um todo, mas para a “saúde” do regime. A conquista da Copa é relevante para legitimar o clima de otimismo de progresso nacional, além de uma amostragem de valores militares aplicados a Seleção.

Politicamente, o Brasil vivia os primeiros anos após o golpe contra João Goulart; o marechal Humberto Castelo Branco era o Presidente. Esses anos são comumente considerados “mais brandos” frente aos chamados anos de chumbo que viriam nos seus sucessores. Castelo Branco não tinha um perfil político caracterizado por grande personificação de liderança, e mantinha-se afastado de maiores interferências ao futebol da época. A partir do ano de 1968, com Costa e Silva na presidência, têm-se maior repressão à resistência contra a ditadura – repressão essa cada vez mais truculenta – e como seu grande marco o decreto do AI-5 e fechamento do congresso nacional.

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Final da Copa de em 21 de junho de 1970. Fonte: CBF.

Analisemos a partir daqui, o uso desse conceito de militarização da Seleção Brasileira em força tarefa para a Copa de 1970, e suas principais representações. O conceito de militarização vem de dois aspectos: o direto, representado pela relação de interferência e integração de militares em diversos cargos na seleção e o indireto, representado pela implantação de ideais característicos dos militares no comportamento da Seleção. A demissão do técnico comunista João Saldanha na véspera da Copa, e uma delegação que em 1970 já era formada em sua maioria por militares exemplificam o primeiro aspecto. Essa maciça presença permitiu o segundo ponto, que buscava uma mudança de mentalidade do jogador brasileiro, agora um “jogador-soldado” em que disciplina e hierarquia são fundamentos essenciais.

A Seleção Brasileira era apenas a “ponta do iceberg” desse projeto de militarização, que se inicia no novo status da Educação Física e o esporte no sistema educacional brasileiro3:

Os governos militares elevaram os esportes à “razão de Estado”, inserindo-o, justamente com a Educação Física, na planificação estratégica do governo. Assim, as políticas educacionais e esportivas deveriam se adequar ao modelo econômico definido no Plano Decenal do Desenvolvimento Econômico (…) No bojo dos acontecimentos pós-AI-5, a chamada “linha dura” do governo recorreu a diversas estratégias que visavam ao controle ideológico da população4.

Para melhor compreender o processo de militarização do futebol brasileiro – em acordo com o Governo -, a criação dessa nova mentalidade de jogador-soldado e as estratégias que Couto chama de “controle ideológico da população”, utiliza-se algumas ideias do pensador italiano Antonio Gramsci. Em especial, os conceitos que tratam da relação entre sociedade política e sociedade civil, bloco histórico, hegemonia e direito. Sobre este último:

Se todo Estado tende a criar e a manter certo tipo de civilização e de cidadão (e, portanto, de conivência e de relações individuais), tende a fazer desaparecer certos costumes e atitudes e a difundir outros, o direito será o instrumento para esta finalidade (…) Na concepção do direito, (…) premia-se a atividade louvável e meritória, assim como se pune a atividade criminosa (e pune-se de modo original, fazendo-se com que intervenha a “opinião pública” como instrumento de sanção)5.

Sobre Gramsci e a “opinião pública”: “O que se chama de ‘opinião pública está estreitamente ligado à hegemonia política, ou seja, é o ponto de contato entre a ‘sociedade civil’ e a ‘sociedade política’, entre o consenso e a força’.” (GRAMSCI, 2007, p. 265). Entre os órgãos da opinião pública, Grasmci cita o jornal e o rádio. Seguindo essa lógica por um víés gramsciano, consideramos o futebol brasileiro – e a cultura nele envolvido – como pertencente à sociedade civil, onde é objeto de disputa da hegemonia de grupos antagônicos nesse momento histórico de nosso país. Considerando um processo de militarização na qual a implantação é bem sucedida, nota-se que o Governo e a elite que comanda o Brasil nesses anos vencem essa disputa por hegemonia.

João Saldanha.
João Saldanha.

O caso da demissão de João Saldanha talvez seja o mais expressivo – e comentado – quanto se fala da interferência do governo militar na Seleção Brasileira. “João Sem Medo” – ex-técnico do Botafogo e um dos mais conceituados jornalistas esportivos, foi anunciado em 1969 com grande surpresa para comandar a Seleção. Saldanha foi um dos maiores críticos a Seleção de 1966, crítico de João Havelange na CBD, e militante do PCB6. Com grande poder de voz e posições completamente opostas ao governo, João Saldanha era um verdadeiro inimigo de Costa e Silva e dos militares no poder.

A mídia esportiva era considerada um dois maiores inimigos da Seleção Brasileira. Por isso, e por toda popularidade de Saldanha, pareceu uma boa estratégia para João Havelange escolher o jornalista como treinador. Mantendo Saldanha ao seu lado, a mídia poderia sentir o poder da responsabilidade em suas mãos, e principalmente, seria uma forma de suavizar as críticas públicas que Saldanha fazia à Havelange.

João Saldanha, em cerca de um ano no comando da seleção, foi do céu ao inferno. Foi responsável por recuperar a confiança da torcida e da mídia com o time brasileiro. Disputa seis jogos nas Eliminatórias para a Copa; vence os seis e confirma o passaporte do Brasil para o México. Porém, o extracampo do treinador seguia falando alto: nas primeiras viagens para a Europa como treinador do Brasil, Saldanha denuncia para diversos jornais europeus o Governo Brasileiro e seus casos de torturas, prisões e desaparecimentos. Ao viajar para o México, para acompanhar o sorteio dos grupos para a Copa, o técnico volta a confirmar para jornalistas as torturas frequentes no Brasil.

Tudo isso já se tornava cada vez mais incômodo para seus superiores e o inferno de Saldanha chegava cada vez mais perto. O treinador – já no Brasil – ainda se envolveu em briga com Iustrich7 – treinador do Flamengo – que repercutiu muito negativamente para seu nome: depois de declarações do flamenguista que desagradavam Saldanha, esse invade a concentração do rubro-negro a procura de seu técnico, agredindo funcionários, e com arma em punho8. Dentro de campo, a Seleção Brasileira passava a acumular diversos resultados negativos em amistosos, sendo a gota d’água depois de um empate contra o Bangu. O momento de desconfiança dentro de campo serviu para a CBD – com apoio de Médici, como por vezes Saldanha disse – demitir o treinador comunista9. A alguns meses do torneio no México, Zagallo era anunciado como novo treinador.

Zagallo representava perfeitamente a ideia de militarização do futebol brasileiro. Até o início de 1970, Zagallo ainda era treinador do Botafogo, clube ao qual serviu de grande laboratório dessa mentalidade militarizada, desde a segunda metade dos anos 60. Além de Zagallo, o Botafogo ainda possuía nessa época o preparador físico Admildo Chirol, também da Seleção Brasileira. A equipe caminhava a longos passos para o “futebol moderno”, com ênfase do preparo físico. Esse ápice também chegou no início de 1970, ainda com Zagallo no comando. Como conta Afonsinho – jogador botafoguense da época:

Passaram a privilegiar [em 1970], a colocar em primeiro lugar a preparação física, entendeu, a disciplina entre aspas, né, porque com o nome de disciplina se impunham coisas assim sobre os costumes (…) E um esquema militarizado, entendeu, um esquema militarizado mesmo (…) foi um momento no futebol brasileiro, momento-chave, que se refletiu em todo o futebol a situação social-política do país10.

Zagallo não tinha o mesmo jeito explosivo de Saldanha, não tinha ligação com os comunistas e nem era crítico ao regime militar. Dentro de campo, tinha as mesmas ideias de modernização do futebol brasileiro: modernização atrelada à militarização. Tinha a vantagem de já ter trabalhado com Chirol; aproveita o mau momento de Saldanha dentro do campo para assumir. “Para Zagallo, como de resto para toda a comissão técnica da seleção, a conquista da Copa de 70 viria coroar o sonho militar do futebol brasileiro, cujo êxito, por sua vez, daria novo ímpeto as praticas de poder que tornavam possível o processo de militarização” (FLORENZANO, 1998, p. 72).

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Já antes da chegada de Zagallo, a comissão técnica brasileira foi passando por mudanças que fizeram com que o número de militares escalados fosse muito expressivo. Para citar os que se tem conhecimento: os preparadores físicos – Kleber Camerino e Benedito José Beonetti, ambos capitães; preparação de goleiros – Raul Carlesso, subtenente; supervisão técnica – Claudio Coutinho, capitão; segurança – Roberto Guaranyr, major; chefe de delegação – Jerônimo Bastos, major-brigadeiro11.

Um dos nomes menos citados e debatidos nesse tempo seria do major Roberto Guaranyr. Nos dias atuais, o nome de Guaranyr está presente em diversas listas de torturadores do regime. O Major é apontado como nome de confiança da linha mais dura do regime, e também estaria envolvido no Caso Para-sar12 – conhecido plano de atentado terrorista ao gasômetro no Riocentro. Roberto Guaranyr serviria naquela Seleção para controlar, blindar os possíveis desvios dos membros; reportar aos superiores militares o que considerasse relevante ali13.

Nesse momento, com todos os elementos conspirando para esse novo projeto nacional de modernização de seu futebol, a Seleção Brasileira consegue encarnar de vez o futebol-força que lhes era esperado. Contudo, não podemos deixar de imaginar as características próprias do Brasil e a talentosíssima geração de jogadores em questão. O Brasil chega a seu ponto mais brilhante em Copas: título indiscutível, que une o futebol-arte com o primor da preparação física mundial. Quatro anos depois do fracasso quase anárquico de 1966, o Brasil consegue não só alcançar, mas superar as fortíssimas – aqui no sentido físico – seleções europeias. Muito desse mérito também deve ser dado ao preparador físico Admildo Chirol, exímio pesquisador de novos métodos para preparação.

A Copa do México representa, portanto, além da exaltação do futebol arte, o momento da consagração da preparação física brasileira, momento que simbolicamente atesta a mudança que verificava-se ao longo dos anos 60, quando ela deixava a condição até certo ponto marginal no futebol para alojar-se em seu centro e constituir-se em seu fundamento14.

Porém, não é de se ignorar que em meio a toda festa e comemoração ao título brasileiro, a conquista também serviu para a autopromoção do Regime Militar. Em meio ao auge de denúncias de desaparecimentos e torturas praticadas pelo governo, as vozes da rua calam as das prisões. Em tempos de Médici popular e milagre econômico, o Brasil legitimava seu governo no poder em um grande clima de otimismo. O Brasil era o primeiro tricampeão do mundo, desfilava sua maior geração de craques; de alguma forma, correspondia e premiava todos os anos de interferência política e ideológica dos militares no futebol brasileiro.

Referências Bibliográficas:

COUTO, Euclides de Freitas. Da Ditadura à ditadura: uma história política do futebol brasileiro (1930-1978). Editora da UFF. Niterói. 2014.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A dança dos deuses: futebol, sociedade, cultura. São Paulo. Companhia das Letras. 2007.

FLORENZANO, José Paulo. Afonsinho e Edmundo: A Rebeldia no Futebol Brasileiro. São Paulo. Musa Editora. 1998.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos de Cárcere, volume 3 – 3ª edição. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 2007.

MAGALHÃES, Lívia Gonçalves. Com a Taça nas Mãos: Sociedade, Copa do Mundo e Ditadura no Brasil e na Argentina. Lamparina. Rio de Janeiro. 2014.

Notas:

  1. Alguns desses aspectos da propaganda e da imagem de Médici atreladas ao futebol trato no artigo “Bolsonaro e Médici: quando o populismo encontra o futebol” publicado no Ludopédio em 2017. Disponível em: http://www.ludopedio.com.br/arquibancada/bolsonaro-e-medici-quando-o-populismo-encontra-o-futebol/. Acessado em 20 de abril de 2018.
  2. (COUTO, 2014, p. 140)
  3. Do esporte e educação física como um instrumento do Estado brasileiro, em busca do desenvolvimento de um princípio de hierarquia e disciplinar desde cedo, ver: COUTO, 2014. p. 141-142.
  4. (COUTO, 2014, p. 141).
  5. (GRAMSCI, 2007, p. 28).
  6. Partido Comunista Brasileiro. Saldanha teve seu primeiro contato com o partido depois de iniciar o curso de Direito na Universidade do Distrito Federal na década de 30, e atuou principalmente nas décadas de 40 e 50. Para biografia completa, disponível em: https://pcb.org.br/portal2/14958/100-anos-de-joao-saldanha-o-comunista-que-o-povo-consagrou. Acessado em 19 de abril de 2018.
  7. Dorival Knipel, técnico do Flamengo entre 1970-71; também grafado como Yustrich.
  8. “Saldanha invade concentração do Mengo de revólver em punho, agride dois e diz: Fui só visitar Iustrich”. Jornal dos Sports. Rio de Janeiro. 14 de março de 1970. P.1.
  9. Sobre as declarações de João Saldanha quanto a sua demissão, interferência de Médici nas decisões, indica-se o ótimo compilado e comentários feitos por Lívia Magalhães em: (MAGALHÃES, 2014. P. 91-93).
  10. (FLORENZANO, 1998, p. 49).
  11. (FRANCO JÚNIOR, 2007, p. 142).
  12. Plano terrorista que tinha como objetivo colocar diversos explosivos em vias públicas do Rio de Janeiro em 1968, provocando assim mortes que poderiam ser colocadas como culpa dos grupos de esquerda resistentes ao Regime Militar.
  13. MEMÓRIAS do Chumbo – Futebol nos tempos de Condor – Brasil. Direção: Lucio de Castro. ESPN Brasil. 51 min. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nL1qaExzs4A. Acessado em 19 de abril de 2018.
  14. (FLORENZANO, 1998, p. 80).
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Lucas Salgueiro Lopes

Graduando em História pela UERJ/FFP. Graduando em Sociologia pela UNINTER. Contato: [email protected]

Como citar

LOPES, Lucas Salgueiro. A militarização do futebol brasileiro: como a Seleção foi afetada na Copa de 1970. Ludopédio, São Paulo, v. 107, n. 16, 2018.
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