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Muito além do 7 a 1: a internacionalização e a despolitização da seleção brasileira 20 anos depois do Penta

Fabio Perina 25 de agosto de 2022

Introdução

Será tratado aqui nessa crônica do processo de afastamento em um longo prazo (principalmente após o Penta em 2002) da seleção brasileira de seu próprio povo e de seu próprio torcedor com o esfriamento de um sentimento popular. Uma primeira hipótese geral “culturalista” bastante recorrente entende como premissa que na pós-modernidade as identidades ficam mais fluídas e, portanto, o sentimento patriótico também. Em outros termos, reflexões que usam muito o termo banalizado “comunidades imaginadas”, embora na prática sejam cada vez mais “imaginadas” e cada vez menos “comunidades”. Embora ela me pareça mais descritiva do que analítica por tratar pouco de um processo com seus sujeitos e ao invés disso focar demais em um resultado final quase como se fosse inevitável para o futebol tal qual foi para o restante do mundo em outros temas gerais. Nessa crônica recorrerei a recursos combinados: um pouco de bibliografia, muitas reflexões pessoais e até um pouco de memes (por ser uma comunicação atual e irônica de como os fenômenos se inserem no cotidiano popular). Afinal não há como sair dessa superficialidade com a mesmice de debates com jornalistas falando entre si sem combinar também a dimensão de dentro de campo com fora dele (sobretudo com o torcedor).

Seria cômodo lançar aqui um rótulo de “geração Neymar” por ser bem chamativo e expressar uma revolta legítima, porém isso tenderia a ser pouco rigoroso ao isentar uma ampla responsabilidade da ação simultânea de jornalistas, políticos, empresários, dirigentes e jogadores por esse afastamento. Esses dois últimos nomeados como “cartolagem” e “boleiragem” e com aspas para dar mais ênfase ao sentido pejorativo. Também é preciso acrescentar que há uma ação dupla em que dirigentes implantaram e jornalistas comemoraram as medidas de elitização no dia-a-dia do futebol brasileiro como se isso fosse conduzir a uma torcida e a um povo “civilizados” (ou seja, potencialmente mais consumidores). E quanto aos jogadores da seleção brasileira, embora não sejam os maiores culpados dessas condições estruturais, tampouco parecem se importar para valer com seus efeitos ao sempre terem uma cômoda fachada de “estou aqui apenas para jogar futebol” que podem se esconder atrás dela. Se de fato são “vítimas” da hiper-midiatização, frequentemente desperdiçam a pouca margem de autonomia que teriam para ao menos se incomodarem com o atual estado das coisas através de declarações (diante da “bolha” de microfones para entrevistas frequentes e até mesmo redes sociais ininterruptas), sem que da imensa maioria deles se possa esperar mais nada.

Como lampejo de análise política objetiva, não é exagero considerar a constatação que ocorre uma derrota histórica na qual pelo menos uma geração de torcedores trata a seleção com indiferença, mas se envolve muito mais com o arrebatamento cotidiano do clubismo através das rivalidades regionais. E ainda assim esse clubismo é permanentemente perseguido, vide a postura comum na mídia leifertizada (e infelizmente com muito eco no restante da opinião pública que pouco conhece o futebol) de nivelar todo clubismo como um “extremismo”! Vide a pérola recorrente do narrador Galvão Bueno que “O clube ‘X’ é o Brasil na Libertadores (ou no Mundial)” é uma evidência desse profundo desconhecimento e até desprezo da mídia pelo clubismo realmente existente, por desconsiderar que rivais evidentemente torcem contra nessa situação de uma importante decisão.

A hipótese geral de minha análise é que o futebol da seleção brasileira é a “vanguarda” que antecipa já em andamento os processos que se tornarão os futuros projetos de “modernização” para o futebol brasileiro quanto ao dia-a-dia dos clubes diante de questões dentro e fora de campo. Notar que se com o passar dos anos os calendários são mais inchados para os grandes clubes, também o são para as seleções. Afinal a seleção brasileira tem ainda mais influência direta da CBF em sua lógica empresarial (aparentemente blindada politicamente em seus interesses econômicos que se perpetuam) do que o complexo futebol brasileiro diante de suas várias disputas entre dirigentes e da maior capacidade de torcedores (clubistas, obviamente) de protestar.

CBF
Sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/ABr/Wikipédia

Pós- 2002

Pouco antes do Penta ouvi um “diagnóstico” que até hoje me parece irrefutável para explicar os abismos que trato nessa crônica: o torcedor de seleção brasileira (ao menos que viaja e compra ingresso para uma partida de Copa do Mundo) é o único no mundo entre os principais países do futebol que não coincide com o torcedor do dia-a-dia dos clubes. Pois simplesmente um é consumidor/turista e o outro ainda é torcedor. Tanto é que para algumas gerações anteriores algum jovem que se identificava assim como “torcedor de seleção brasileira” é considerado alheio às rivalidades clubísticas cotidianas e era chamado pejorativamente de “café com leite” (ou atualmente “modinha” ou “Nutella”). Além desse elemento “desde baixo”, também emergem em conversas informais o aumento da corrupção “desde cima” para o futebol tal qual para a política. Vide ser difícil refutar a percepção que com o Penta ficou mais fácil que as investigações sobre o contrato de patrocínio CBF-Nike fossem engavetadas pela CPI do futebol e o tema esfriasse desde então. Deixando o caminho livre para a internacionalização da seleção brasileira e a “carta branca” dada à CBF para se apropriar dela com seu uso econômico e até político de duas formas simultâneas: pelos amistosos irrelevantes nos quatro cantos do mundo e pelas negociações nos bastidores com paraísos fiscais também em quatro cantos. No link a seguir é possível um panorama desse processo em seu lado visível (sobre uma retrospectiva dos amistosos) e em seu lado invisível (sobre os contratos comerciais de sua organização). Sintomático também por ser justamente no ano de 2002 quando a sede da CBF saiu da Rua da Alfandega no centro do Rio e foi para a “neutra” Barra da Tijuca, como forma de escapar de protestos populares e se aproximar do novo centro empresarial da cidade.

(Obs: único amistoso que foi o ponto fora da curva, mas ainda assim efetivo o suficiente para confundir a muitos desatentos, dessa tendência de profunda lógica empresarial foi no Haiti. Através do uso ideológico para o neoliberalismo de cooptação do governo Lula com o “jogo da paz”. Em suma, levar a bola para disfarçar o fuzil. Diante do contexto mais amplo de tropas militares brasileiras na ocupação do país. Dessa forma, se formou uma lucrativa dualidade ao se exibirem um “produto” universal para os ricos e pobres de todo o mundo, levando para uns o espetáculo enquanto para outros alguma demagógica “auto-estima”).

Falando em política, para Santos (2016) a CBF é como se fosse a ‘vanguarda’ de um neoviralatismo de tratar a seleção brasileira como uma commoditie internacional insuflado pelo Lulismo. Na medida em que o líder popular era um bajulador de primeira hora aos megaeventos (desejados nos anos 2000 e executados nos anos 2010) como se aquilo fosse, segundo palavras dele próprio, “o passaporte para a primeira classe do primeiro mundo”! Ou seja, uma profunda crítica do autor ao “progressismo” do ex-presidente em que se confundiam avanços de cidadania com acessos ao consumo. Mesmo que às custas de se ter naquele momento (mesmo antes da “arenização” com os megaeventos que piorou demais depois) o ingresso mais caro do mundo nos estádios! Para o historiador, fica o balanço de um governo que mais do que moderado foi até covarde ao desperdiçar a ampla popularidade para pressionar a “cartolagem” contra a parede, ao invés de se associar a ela para ampliar as negociações e os investimentos (sobretudo com os megaeventos) como o fez.

2014

Para a maioria dos torcedores ao longo do tempo ficou uma desconfiança cada vez mais evidente, independente das trocas de treinadores, que os jogadores convocados raramente vinham de clubes brasileiros. E as poucas vezes que vinham eram no intuito de acelerar uma transferência internacional. Dando um pulo sem tratar das Copas de 2006 e 2010, chego à humilhação de 2014 com o 7 a 1. Se futebol e política parecem sempre tão distantes a muitas pessoas, em um lampejo foram brutalmente aproximados em um átimo de minutos através do Jogo durante o famoso apagão que “virou passeio”:

“Na partida contra a Alemanha produziu-se uma aceleração do tempo histórico, fenômeno que, no terreno da política, caracteriza uma conjuntura revolucionária (…) condensaram-se as contradições e vulnerabilidades (…) que está inserida na crise da própria nação. Naquela partida, a crise foi escancarada e televisionada ao vivo para o mundo em uma linguagem que a maioria dos brasileiros entende” (SANTOS, 2016, p. 102).

Para muitos torcedores mais novos, a perda desse apego da seleção com o povo teve como grande marco o 7 a 1 de 2014. Segundo Costa (2016), a narrativa da crise se intensificou tanto que poderia ser lida quase como uma novela: “quem matou o futebol brasileiro?”. Embora o futebol se assemelhe às novelas pela narrativa de heróis e vilões, ele é muito mais imprevisível pela troca de papéis ser cada vez mais descartável conforme os resultados são cada vez menos duradouros com o passar de poucos dias (ou até de poucos instantes em uma mesma partida, por isso acho que o Jogo é sempre insuperável em seu arrebatamento em relação à Arte por melhor que ela seja, um tema que será retomado no final do texto). Vide um cenário dramatizado em fartas imagens de choros no Mineirão: crianças fora de campo e de jogadores tidos como imaturos e inseguros dentro de campo. Aparentemente, apenas o treinador Felipão não foi infantilizado, mas sim pelo contrário foi ‘aposentado’ como um ultrapassado.

Diferente de outras ‘novelas’ discursivas que as crises e derrotas causaram em outras Copas, não se buscou individualizar um bode expiatório, mas sim organizar (ainda que vaga e provisoriamente) um cenário explicativo de uma crise sistêmica responsável pelo atraso e na qual não se poderia mais adiar uma ampla “modernização”. Uma crítica que recaiu menos em jogadores (tanto é que a maioria que esteve no 7 a 1 voltou a ser convocada) e mais em treinadores, dirigentes e até mesmo no ‘imediatismo’ da imprensa e da opinião pública. Na qual o papel do torcedor também tem cartas marcadas no roteiro dessa novela: deve ficar triste “civilizadamente”, mas sem se revoltar, para cumprir com seu viralatismo e deixar orgulhoso o olhar do restante do mundo (afinal a narração do Galvão Bueno cansou de dizer que “é apenas um jogo” e nada mais sério…). Ora, se é uma novela, então acrescento que ela não paira no ar em “realidade paralela”, mas há alguém quem a dirige como “roteirista”. Ou seja, o conjunto hegemônico de meios de comunicação, investidores e dirigentes, já tratados no início do texto, que simulam um discurso de “modernização” pós-7 a 1, mas de pouco efeito prático.

Evidência do fracasso na relação seleção-torcida foi a tentativa desesperada na imprensa de se criar cantos para a torcida durante as partidas de 2014 (sobretudo após o empate na segunda rodada contra o México) que finalmente fossem além do sonolento “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” e até visibilizar que os jogadores apáticos estariam mostrando patriotismo cantando o hino nacional ‘a capela’. Óbvio que para quem conhece o futebol clubista de verdade não dava para se deixar cair em simulacros de marketing tão forçados. Independente do pretexto do “apagão” de cinco minutos que Felipão e Parreira justificaram a goleada de 7 a 1, duvido muito que a seleção alemã em algum momento fosse sentir pressão da torcida diante daquele estádio neutro. E por falar em cair e marketing, parece que a suposta lesão de Neymar e seu afastamento da semifinal contra a Alemanha já eram o pretexto que faltava para um plantel de convocados tão inseguro justificar o seu desespero.

Um breve recuo a 2012 exige lembrar que o retorno de Felipão e Parreira, no lugar de Mano Menezes, foi interpretado como uma “cartada de segurança” da CBF para reabilitar o pachequismo e com isso deter rumores da vinda de algum treinador gringo como o argentino Bianchi ou o espanhol Guardiola. Na comissão técnica, Felipão foi muito criticado como ultrapassado, porém o papel tão ridículo de Parreira como auxiliar não pode ser esquecido com duas “pérolas” bem infames. Antes da Copa, declarando que a CBF é “o Brasil que deu certo”. E depois da Copa, a leitura da suposta carta da “Dona Lúcia”! Ambos casos cunharam memes de muito sucesso e ainda muito duradouros até os dias atuais através de páginas de redes sociais com o uso desses termos. Certamente Parreira foi e ainda é uma das maiores personificações de uma bajulação simultânea a um ufanismo cego para fora de campo e a um discurso de “modernização” cego para dentro de campo.

Um dos processos mais revoltantes dos anos 2000 e sobretudo 2010, a década do 7 a 1, é o desejo mais profundo dos dirigentes e investidores que parasitam a seleção brasileira em torná-la um “camarote de neymarzetes”. Ou seja, realizar jogos de exibição e “caça-níquel” contra qualquer adversário e em qualquer parte do mundo sem tradição no futebol, como Nova York, Cingapura ou Dubai. O que é de ampla responsabilidade da CBF por lidar com o agendamento de amistosos e sobretudo com a elitização dos ingressos, embora seja preciso mencionar novamente que os jogadores e os jornalistas também são em parte responsáveis por parecerem pouco se importar com esses processos. Parece que não há um prazer verdadeiro da seleção em jogar para seu povo em seu país. Apenas quando (ainda) obrigada pela tabela das Eliminatórias.

Neymar Copa 2018
Neymar chora após a derrota para a Bélgica na Copa de 2018. Foto: Pedro Martins/MoWA Press.

2018

Falando agora da publicidade, Vieira (2021) analisa o início de trabalho de Tite (de 2016 em diante) do otimismo dentro de campo passando pela tentativa da Nike de criar um “o gigante acordou” (de implícita referência política às manifestações de Junho de 2013) através de uma peça publicitária de alto investimento para tratar de passado e presente do “país do futebol” e “jogo bonito”. No sentido de atualizar os velhos clichês com o samba e a malandragem sendo conectados ao funk em um cenário atual. Além da conectividade virtual e o protagonismo de crianças como estratégias para o engajamento jovem na campanha. Por isso mais uma confissão da auto-representação desse tal “futebol-moleque” que se recusa a crescer! Uma campanha às vésperas da Copa de 2018, portanto com previsível centralidade de Neymar, batizada como “ouse ser brasileiro” ao criar o termo “brasileiragem”, dando centralidade à “boleiragem” como um modo de ser que une os hábitos dos “medalhões” com a tentativa dos “torcedores” (na verdade apenas bajuladores) de imitá-los. Conclui o autor que nessa “abordagem conservadora com roupagem nova” ao haver mais continuidades do que descontinuidades a clichês acaba sendo uma resposta ao vago apelo por “modernização” após o 7 a 1. Porém restrito ao papel figurativo da conectividade no cotidiano de todos, embora distante de problematizar algo mais concreto na organização do futebol como o papel de um treinador ou de um dirigente.

Acrescento que ao longo no pós-2002 cada vez mais a empresa de material esportivo se apresenta em suas publicidades como um discurso oficial dessa representação de futebol individualizada em grandes craques (hegemônica tratada até aqui ao longo do texto) embora com pouca representação sequer de time ou muito menos de povo. Acrescento também que há o abismo atual entre o futebol na prática ser cada vez mais científico (como fator determinante nos resultados), mas que na publicidade se é negado em privilégio a uma empiria da “boleiragem” (como modo de ser que extrapola os atletas e toca outros sujeitos). Assim como o abismo também cada vez mais evidente entre Tite e os jogadores. Esses por sua vez quase tão infantilizados na vida real quanto no “mundo de faz de contas” da publicidade! O recente fragmento a seguir é um exemplo desse abismo entre expectativa e realidade com suas implicações políticas:

“Falamos muito em democracia como valor universal, mas não lutamos para que ela exista para além do ambiente da política, onde ela, aliás, respira por aparelhos. A CBF é uma associação privada. Seu corpo diretor é escolhido pelos mesmos de sempre. É na camaradagem, é na brodagem, é na base de regras que eles mesmos fazem para que eles mesmos executem (ou não) e para que eles mesmos policiem.” 

A fratura exposta de 2014 rendeu sequelas em 2018 “desde cima” e “desde baixo”. “Desde cima”, sintomático que, na contramão dos vizinhos sul-americanos, a frieza e ganância da CBF com a torcida brasileira se refletiu na elitização que já era intensa nas partidas se expandisse até mesmo nos treinos e na incrível indiferença pela ausência de amistoso no próprio país antes do embarque para a gelada e distante Rússia na Copa de 2018.

E “desde baixo”, a começar por outro contraste aos vizinhos sul-americanos, que não houve aqui a criação de uma sólida organização de apoio tal qual as barras de outras seleções já fizeram (tema que será retomado nas últimas linhas). Mais profundo ainda que já naquele ano já era muito significativo que grande parte de muitos torcedores e cidadãos irem perdendo o apego de usar camisa amarela, vista como maculada de vários fracassos recentes no futebol e principalmente na sociedade diante da ‘futebolização’ da política partidária e eleitoral polarizada, sobretudo desde 2013. É então que no contexto da Copa de 2018 surgiram campanhas (essas sim espontâneas ao contrário das publicidades) de deslocamento de cores e sentidos fomentados por alguma motivação de superação política (contra e pós-impeachment) e/ou futebolística (contra e pós-7 a 1): ou para intensificar o uso da tradicional camisa azul ou até mesmo um misto de inovação comercial com militância de criar uma camisa vermelha alternativa que trocava o símbolo da Nike pela foice e o martelo do comunismo! (OLIVEIRA e FARIAS, 2021). Estudo que conclui que não houve ruptura do torcedor com a seleção, mas uma fragmentação, sem que ela consiga mais representar alguma unidade nacional unânime. Acrescento que o intenso uso da camisa amarela pelos setores pró-impeachment pode ser lido também como uma tentativa recorrente das classes médias de usarem o futebol para forjar uma fachada popular para si que espontaneamente não possuiriam. Em outros termos mais rigorosos para análise, se através da camisa amarela houve uma des-codificação da “seleção-povo” para uma “seleção-partido”, a camisa azul ou até a vermelha configuram uma tentativa de re-codificação com a “seleção-povo”.

Ora, impossível tratar do tema com profundidade sem aprofundar a dobradinha futebol e política até aqui mencionada. Se para além de uma hipótese há uma forte constatação que o bolsonarismo tenta mobilizar entre famosos e anônimos a criação de uma “torcida” paralela aos clubismos para uso político particular, isso em parte foi facilitado pela “boleiragem” em geral (sobretudo os “medalhões” da seleção, mas também jogadores anônimos ou menos conhecidos no dia-a-dia dos clubes) também ter criado sua própria identidade paralela ao clubismo convencional. Na medida em que instiga uma profunda valorização do sucesso individual como fim em si mesmo e com isso um resgate do “viralatismo” ao uní-lo com um novo impulso da teologia da prosperidade neopentecostal. Assunto que já tratei em outros textos sobre o abismo entre consciência e condição de classe da “boleiragem”. Ao estarem reféns de empresários acabam por darem preferência no curto prazo a transferências para clubes europeus do que no médio e longo prazo a conquistar títulos e respeito por clubes brasileiros. Segundo Costa (2020), também com muita precisão para seguir a argumentação de nossa análise de futebol e política como inseparáveis, há a confluência entre um “duplo sequestro” ao longo dos 20 anos dessa retrospectiva: nas últimas décadas um primeiro de tipo liberal do futebol brasileiro com as intensas transferências internacionais de jogadores levando a seu afastamento dos torcedores; e mais recente nos últimos anos um segundo de tipo reacionário com a apropriação do uniforme citada. A relação entre ambos é que o segundo é uma tentativa de forçar uma reunificação da rígida equação “seleção = povo = nação” tão abalada pelo primeiro. (Obs: em outros termos isso seria como a atual guerra cultural globalização x anti-globalização, conforme mencionada no primeiro parágrafo). Como se tentando reabilitar a ferro e fogo o mote da ditadura de Médici como uma expressão cristalina de sua ‘guerra interna’ com o ultimato dado aos seus supostos inimigos: “Brasil: ame-o ou deixe-o!” (algo que retomarei adiante).

Voltando às questões de dentro de campo, quanto mais a seleção demora para vir jogar aqui, mais a “boleiragem” se sente como um bando de marcianos quando rodeados por brasileiros anônimos. Vide o comentário infame durante a Copa América de 2019 de Daniel Alves que “se você vaia a seleção, vaia também o país”. A réplica do excelente cronista Douglas Ceconello não poderia ser mais demolidora e necessária sintetizar reflexões anteriores desse texto ao tratar da dobradinha futebol e amor:

“A declaração patriótica de Daniel Alves está equivocada desde o pulmão. Exige fidelidade em um relacionamento que o próprio time brasileiro propõe aberto e com traços de luxúria, ao buscar amores britânicos e sauditas com impressionante desprendimento. A vaia é o que ainda resta para o que se tornou a seleção brasileira e sua relação com o país, com a sociedade e com o futebol do Brasil. Porque a vaia é uma reação emocional, e um sentimento negativo ainda é um sentimento. Pela contrapartida que a torcida recebe nos últimos muitos anos, o desfecho previsível em breve não será sequer a vaia, doída mas engajada, e sim o silêncio e a ausência.”

Daí não surpreende que a atual seleção da CBF seja a síntese de uma geração da “boleiragem” que somente se esconde em sua maioria atrás da pérola despolitizada: “estou aqui apenas para jogar futebol”. Vide o excelente jornalista Jamil Chade com muita lucidez na constante réplica diante dessa auto-blindagem: ora, que então os jogadores também abrissem mão de seus milionários contratos de publicidade e participações de entretenimento como programas “esportivos”, já que isso tampouco seja “apenas jogar futebol”! Uma prova que a comercialização de suas marcas pessoais é ainda mais lucrativa do que seus contratos profissionais jogando futebol. E também atrás do treinador Tite, que com tanta “psicologia motivacional” é pejorativamante chamado de um “encantador de serpentes”. Ao chamar tanto para si a atenção do “espetáculo”, permite a conveniência (aqui mais uma forte hipótese conspiratória…) que caiu do céu para a CBF diante da profunda crise de corrupção nos últimos anos e a nova possibilidade de blindagem à “cartolagem”. Sendo que seus ex-dirigentes dos anos 2010 como Teixeira, Marin e Del Nero estão presos ou foragidos! Além do polêmico afastamento de Rogério Caboclo ao longo de 2021.

Em suma, com base novamente nas contribuições de Santos (2016), acrescento que a CBF é a “bolha das bolhas”, no sentido de privilégios blindados de controle civil externo. Em outros termos, uma corporação transnacional com capacidade de ditar as próprias regras e passar por cima de regras já existentes. Tanto é que ela pode lidar muito bem (e na pandemia tivemos provas suficientes disso) com o imenso abismo dos próprios lucros batendo recordes milionários enquanto parasita o restante do futebol brasileiro, sobretudo os clubes a ela filiados, cheio de problemas esportivos. Ora, mesmo havendo em vigor um “resultadismo” tão selvagem que apavora os treinadores dos clubes, sequer isso permitiu que os dirigentes deixassem de se adaptar ao vexame do 7 a 1. Dessa forma, na CBF sua “modernização” ou sua lucratividade em quase nada interfere na “modernização” ou na sustentabilidade do futebol brasileiro como um todo. Vide o endividamento crônico dos grandes clubes chegando a um patamar bilionário.

É tentadora para muitos a hipótese de colocar o tema da corrupção no centro dos debates do futebol (tal qual foi feito com a política), no sentido que o questionamento fora de campo à “cartolagem” emerge somente quando deixou de apresentar resultados satisfatórios dentro de campo. De fato, é pouco provável que alguém deixou de torcer para seu clube ou para a seleção por conta apenas da corrupção dos dirigentes, mas passa a ser plenamente compreensível que o torcedor brasileiro se afaste da seleção quando a gestão da CBF fomenta explicitamente esse distanciamento e essa elitização em cada detalhe e com tanta contundência conforme foi enumerado. Afinal o torcedor quer evidentemente resultados, mas também quer se sentir genuinamente representado pela seleção brasileira de forma pelo menos não tão dissimulada como publicidade e “engajamento” em redes sociais.

Copa América 2021
Brasil x Argentina pela final da Copa América 2021. Foto: Lucas Figueiredo/CBF/Fotos Públicas

2021

É cada vez mais recorrente o desgaste da CBF no recente contexto das convocações, com os jornalistas, dirigentes e torcedores dos clubes revoltados diante de sua truculência/arrogância de não aceitar negociações diante dos poucos craques que se tem no futebol brasileiro passarem por longos desfalques. O que ficou impossível de disfarçar ao longo de 2021 através de um calendário insanamente extenso aos grandes clubes (sem pré-temporada) e também para as seleções. É o aprofundamento do paradoxo que a CBF está rachando de vez clubes e torcedores com a seleção.

Além dessa descrição de atritos mais superficial, há dilemas mais profundos. A somatória de detalhes não pode passar batida pela qual os principais “medalhões” da atual seleção brasileira alegam, em profunda abstração ideológica, alguma noção de público que a seleção é “de todos” e por isso supostamente deveríamos ser patriotas (uma fachada para bajuladores) e apoiá-la. Porém se resguardam na esfera privada de suas redes sociais para na prática reivindicar uma lógica ainda mais privada de poderem escolher com quais jornalistas ou celebridades irão se expressar. Ora, então nessa hora deixou de ser “de todos”?! Voltou a valer o “Ame-o ou Deixe-o” ?! Por isso tanto insisto que “nossa seleção” ou “futebol-arte” são cada vez mais fachadas banalizadas pelo entretenimento midiático, porém desprovidas de conteúdo. Vide a seguir mais um recente fragmento de implicações políticas com “um tapa na cara de realidade”:

“Torcer contra o Brasil é jamais se colocar politicamente, mesmo diante das maiores evidências de que a população brasileira está sendo vítima de um extermínio. É fingir que não está por dentro das acusações de corrupção na compra das vacinas que poderiam ter evitado a morte de quase 400 mil brasileiros e brasileiras e deixar de emitir nota de repúdio a respeito. Torcer contra o Brasil é ignorar o que está acontecendo no seu país, ignorar o sofrimento de toda uma nação, ignorar o genocídio cometido por uma administração autoritária, desumana, miliciana e seguir sua vida de celebridade vibrante sem usar um mínimo da sua influência para ajudar as pessoas que nasceram nesse país que você diz defender com muito orgulho, com muito amor. (…) Torcer contra uma seleção brasileira que em nada representa sua população, uma seleção que jamais se coloca ao lado do povo, que se encastela em berço esplêndido ao calar diante de situações de injustiças e opressões não é torcer contra o Brasil; é torcer a favor.”

Essa seletividade discursiva ficou bem clara na recente Copa América de 2021 e a intensa construção discursiva entre o que é e o que não é político e entre um “nós” x “outros” (mesmo em inédito âmbito interno segmentando grupos de uma mesma nacionalidade!). Além da evidência que materializou esse clima que foi o “não-manifesto” a-político da “boleiragem”. (Obs: misturando ainda mais futebol e política, o que foi uma caricatura futebolística de uma atual democracia liberal a deriva repleta de “notas de repúdio” e declarações que “as instituições estão funcionando” inertes diante da realidade drástica). E até mesmo o tradicional “pachequismo” na mídia esportiva foi tensionado pela ampla torcida de vários jornalistas brasileiros por Messi vencer aquela final, conforme tratei dessas questões no final da crônica anterior. Ao mesmo tempo havia uma cumplicidade de boa parte dos jornalistas com essa internacionalização fora de campo da seleção brasileira que se relaciona de forma esquizofrênica com um pachequismo dentro de campo, pois como disse, persiste apenas como fachada e não como realidade. Em suma, se o “resultado” da derrota no Maracanã em 2021 não foi humilhante como no Mineirão em 2014, ele escancarou ainda mais a crise de identidade já presente no abismo seleção-povo. Pois as dimensões de dentro e de fora de campo se revelaram cada vez inseparáveis.

Conclusão

Outra licença poética que lanço mão é que a seleção passou de um “complexo de vira-latas” (como consagrou Nelson Rodrigues) para um certo “complexo de cachorro grande”(ou de “jibóia saciada”). O que articula as duas dimensões analisadas: a soberba “desde cima” e a apatia “desde baixo”. Ou seja, contrariando a associação fácil do “resultadismo” em que bastaria ganhar para tudo melhorar, nem mesmo os vários títulos nas últimas décadas de Copa das Confederações, Copa América e até as inéditas medalhas de ouro em Olimpíadas são suficientes para deter os processos aqui analisados ao longo desse grande jejum entre 2002 e 2022 sem ganhar uma Copa do Mundo. E não apenas eventualmente vir a ganhar, mas é nesse contexto do torneio mundial que se nota a seleção brasileira como cada vez mais “uma idéia fora de lugar”, ou seja, a esperança de reviver um discurso de “futebol-arte” e unidade nacional que na prática fica cada vez mais improvável. Alguns mais desatentos, e até “idiotas da objetividade”, poderiam separar radicalmente o fora e o dentro de campo e dizer que pouco importa a despolitização dos jogadores da seleção brasileira na primeira dimensão se na segunda persiste o assim chamado “futebol-arte”. Ora, na verdade os sentidos de Arte que se está em disputa é de cada vez menos uma cultura popular enraizada e de inclusão simbólica da maioria e cada vez mais um espetáculo para uma minoria de privilegiados e na pretensão de um “produto perfeito” (com avançados aparelhos midiáticos para sua reprodução, vide a “leifertização”).

Ora, sempre preocupado com a cultura torcedora popular, sintetizo aqui duas lições que ao mesmo tempo de futebol e política: por uma posição nem pachequismo nem viralatismo mas sim uma profunda inserção popular que de fato reaproxime o torcedor da seleção ao furar as bolhas e blindagens analisadas; e tampouco acreditar mais em “nação” em abstrato (e pior ainda em qualquer “líder” da política ou da “boleiragem” que a tutele e fale por ela…), mas sim que uma torcida vibrante sempre depende de uma vanguarda organizada. (Obs: afinal a experiência do clubismo do dia-a-dia ensina que a maior festa está nem somente na massa nem somente no indivíduo, mas no meio termo do grupo através de suas organizações torcedoras, vide já fazer muitos anos desde 2000 que tais grupos não “emprestam” sua vibração para a seleção).

Por fim, vale retomar minha hipótese que os imensos prejuízos que a elitização do futebol de verdade do dia-a-dia dos clubes HOJE é produto do que foi ONTEM um “laboratório” da seleção (e ainda é). Vide temas transversais a essa crônica sobre a década de 2010 que se inicia com a transformação de estádios em arenas e se encerra com a transformação de clubes em empresas (tal qual a CBF aponta como “vanguarda”). É preciso um olhar bem atento para distinguir o abismo entre o ‘país do futebol’ e a ‘pátria de chuteiras’. Pois o primeiro envolve ramificações muito mais arraigadas nos rincões cotidianos populares (como se diz o meme: “o futebol ainda respira”). Já o segundo parece hoje restrito apenas à bolha da seleção da CBF com sua “cartolagem” e “boleiragem” (e eventualmente de alguns governantes de turno que buscam se associar a uma imagem positiva). Apesar do segundo, o primeiro ainda resiste.

Em outros termos, seria como resgatar junto com o atual intelectual “de rua” Luiz Antônio Simas uma brilhante formulação no livro “Arruaças: uma filosofia popular brasileira”: “O Brasil é um empreendimento de ódio. A brasilidade é uma reação vital, inovadora, transgressora, contra a mortandade como signo do Brasil”.

Leituras de Apoio:

COSTA, L. Quem matou o futebol brasileiro? A novela da copa do mundo de 2014 na cobertura do jornalismo esportivo. Eptic online, v. 18, n. 1, p. 119-132, 2016.

COSTA, L. A morte matada da dança dos austeros: o sequestro da camisa da seleção brasileira e do verde-amarelo. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 24, 2020.

SANTOS, F. L. B. Além do PT. A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana. São Paulo: Elefante, 2016.

OLIVEIRA, Ramon do Nascimento; FARIAS, Washington Silva de. Os novos sentidos da “amarelinha”: relações discursivas entre político e esportivo na camisa da seleção brasileira na Copa 2018. Recorde. Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p. 1-19, 2021.

VIEIRA, Pedro Diniz. Será que ainda temos brasileiragem? Uma análise da representação do futebol brasileiro no discurso publicitário da Nike. Esporte e Sociedade. Niterói, n. 33, p. 1-21, 2021.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Muito além do 7 a 1: a internacionalização e a despolitização da seleção brasileira 20 anos depois do Penta. Ludopédio, São Paulo, v. 158, n. 26, 2022.
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