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Mulheres e o torcer: algumas conquistas, muitas perspectivas e infinitas batalhas

Mariana Mandelli 8 de março de 2021

A série “Práticas torcedoras em territórios palmeirenses” é baseada na dissertação de mestrado de Mariana Mandelli, intitulada “Allianz Parque e Rua Palestra Itália: práticas torcedoras em uma arena multiuso” (Antropologia-USP, 2018). A pesquisa de campo foi realizada entre 2015 e 2017 nos arredores do Allianz Parque com o objetivo de investigar os efeitos da modernização do estádio da Sociedade Esportiva Palmeiras entre a torcida. Confira a série de textos aqui.

Mancha Verde Palmeiras
Foto: Mariana Mandelli

A impressão é de que nunca fomos tantas. Atletas, técnicas, árbitras, apresentadoras, setoristas e torcedoras: finalmente estamos ocupando esses espaços, mesmo que esse processo ocorra em uma velocidade totalmente discrepante em relação às nossas ânsias e talentos.

Nunca se falou tanto no futebol praticado por mulheres e nunca se discutiu com tanta insistência pautas relacionadas às nossas prioridades dentro do universo futebolístico como nos últimos anos. Da proibição da prática pelo público feminino na primeira metade do século XX a termos uma brasileira como a melhor jogadora do mundo, décadas de descaso e preconceito, aspectos que são símbolos da inequidade, se passaram. E muitas provavelmente ainda irão transcorrer.

No âmbito do torcer, é evidente que as mulheres vêm desempenhando um perfil mais ativo – como mostra o ótimo artigo de Mayara de Araújo publicado aqui no Ludopédio: passamos de simples acompanhantes a torcedoras, minando o silêncio inerente à ideia de sermos apenas um acessório de arquibancada e ganhando um pouco de voz em debates que nos importam.

O caso Robinho é um exemplo sólido. No ano passado, enquanto o Santos Futebol Clube defendia a contratação do atacante condenado em segunda instância por estupro na Itália, os bastidores, coletivos de torcedoras organizaram-se para notificar o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD)[1], solicitando a anulação do registro do jogador – é de praxe no meio futebolístico que os atletas sejam inscritos na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) um dia depois da divulgação da contratação dos mesmos.

Verdonas
Foto: Reprodução Redes Sociais

O manifesto foi assinado por treze grupos de torcedoras: Clube de Regatas do Flamengo (Mulambas – Flamengo da Gente); Sport Club Internacional (Força Feminina Colorada, INTERfeminista e O Povo do Clube); Coritiba Foot Ball Club (Gurias do Couto); Sport Club Corinthians Paulista (Coletivo Democracia Corinthiana, Loucas Por Ti Corinthians e Movimento Alvinegras); Sociedade Esportiva Palmeiras (Verdonnas); Centro Sportivo Alagoano (Movimento Feminino EmpoderAzul/CSA); Sport Club do Recife (Antifa Sport) e Santa Cruz Futebol Club (Movimento Popular Coral e Coral Pride). Tal mobilização foi reconhecida pelo próprio jogador, que afirmou, em entrevista posterior ao rompimento de seu vínculo com o Santos, que “infelizmente, existe esse movimento feminista”[2].

Ao passo que esse episódio nos mostra como a celebração de um homem condenado por estupro é normalizada no futebol, também é revelador de como a ação conjunta de mulheres serviu de contraponto ao machismo enraizado no esporte mais popular do Brasil. Vimos o mesmo nas últimas semanas com a manifestação de torcedoras do Clube Atlético Mineiro, que se posicionaram contra a contratação do técnico Alexi Stival, o Cuca, acusado de estupro em 1987, na Suíça[3]. Destaco o papel da Grupa, coletivo atleticano que se define como torcedoras contra o “machismo, racismo, homofobia e todo tipo de preconceito e discriminação no futebol”.[4]

Grupa
Foto: Reprodução Redes Sociais

Esses grupos são comumente chamados pela imprensa de “torcidas femininas”, especificação que reforça as práticas torcedoras como uma atividade atrelada ao campo das masculinidades – ou seja, parte-se do princípio de que o torcer é algo inexoravelmente masculino, sendo necessária a adjetivação para detalhar que se trata de um grupo de mulheres. Vale o mesmo para a expressão “futebol feminino” – na prática, ninguém fala ou escreve “futebol masculino”.

Não há um levantamento que traga números confiáveis sobre a proporção de mulheres nas torcidas. Uma pesquisa de 2012[5] apontava que os times com mais torcedoras eram aqueles com as maiores torcidas à época: Flamengo, Corinthians, São Paulo e Palmeiras, nesta ordem. Consequentemente, também não existem dados sobre grupos de mulheres torcedoras – uma reportagem de 2020 do Esporte Espetacular[6] apurou que há 37 coletivos espalhados por 16 estados, mas não detalhou os critérios para chegar a esse total.

É possível dizer que as pautas desses agrupamentos são diversas, mas trazem em comum a luta por mais igualdade, o que inclui serem finalmente vistas e valorizadas pelas instituições do futebol: clubes, autoridades e torcidas organizadas. Algumas entidades inclusive já “acordaram” para o tema: em 2020, a Federação Paulista de Futebol organizou a campanha #ElasnoEstádio com o objetivo de incentivar o público feminino a frequentar os jogos. Entre as ações promovidas, é possível citar o apoio a “coletivos e grupos femininos para que possam ir juntas aos estádios”.

Isso porque o assédio é mencionado como um dos maiores obstáculos enfrentados pelas mulheres. Em entrevista sobre a sanção de uma lei contra a violência sexual nos estádios do Rio de Janeiro, uma torcedora afirmou: “Vejo relatos de meninas que se sentem mais seguras indo aos jogos, mulheres que nos procuram querendo ir ao jogo, procurando companhia, porque antes não tinham coragem de ir, mas agora querem por se sentirem acolhidas”[7].

Desse modo, tais grupos parecem servir também como meio de sociabilidade e rede de proteção e afeto, tendo em vista as dificuldades que uma mulher enfrenta ao frequentar sozinha os jogos do seu time. Também parecem redes seguras para a prática e manifestação do clubismo, sem a interferência masculina que normalmente ocorre com descrédito, assédio e violência verbal, moral e até física. Eu posso falar por mim: narrei em outro artigo nesta coluna as agressões a que fui submetida enquanto fazia a minha pesquisa de campo do mestrado sobre o Allianz Parque.

Em suma, a existência cada vez mais comum de coletivos de torcedoras com postura ativista é positiva porque consolida, de uma vez por todas, as mulheres em um cenário estruturalmente machista. Mostra que o amor ao clube e ao esporte não tem gênero, assim como não tem classe social, orientação sexual e cor de pele. Se clubismo é afeto, ele deve – ou deveria ser – democrático e plural. Por outro lado, a criação desses grupos é um sinal claro de que ainda há muito a se fazer e que, sem ação, os pilares não se movem nem um centímetro, pois pesam toneladas.

Sabemos que esse é só o começo. Ainda falta muito. Mas já estivemos mais longe de conquistar um futebol mais diverso, equânime e justo. Somos muitas.

 

Notas

[1] Ver em Coletivo de torcedoras notifica STJD e pede anulação de registro de Robinho. UOL Notícias, 14 de outubro de 2020. Acesso em 3 de março de 2021.

[2] Ler em Robinho: Infelizmente, existe esse movimento feminista. UOL Notícias, 17 de outubro de 2020. Acesso em 3 de março de 2021.

[3] Ver em Perto de volta ao Atlético-MG, Cuca se pronuncia sobre acusação de estupro em 1987: “Sou inocente”. GE, 2 de março de 2021. Acesso em 3 de março de 2021.

[4] Vale lembrar também de 2007, quando o grupo Feministas do Galo protestou contra a vinda do mesmo Robinho para o Galo pelo mesmo motivo que impediu o contrato com o Santos. As torcedoras estenderam faixas com os dizeres “Um condenado por estupro jogando no Galo é uma violência contra todas as mulheres” na sede social do clube e receberam ameaças.

[5] Consultar dados em Veja as cinco maiores torcidas femininas do futebol brasileiro. Torcedores.com, 13 de maio de 2019. Acesso em 3 de março de 2021.

[6] Ver em Contra o machismo nos estádios, coletivos feministas se unem pelo Brasil e dão voz às arquibancadas. Esporte Espetacular, 9 de março de 2020. Acesso em 3 de março de 2021.

[7] Ler a reportagem completa em Nova lei de combate ao assédio nos estádios do Rio foi elaborada com participação de torcedoras. GE, 8 de março de 2020. Acesso em 3 de março de 2021.

 

Referências bibliográficas

ARAÚJO, Mayara de. A mulher e o futebol: de acompanhante a torcedora. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 51, 2021.

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Mariana Mandelli

Jornalista graduada na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e cientista social graduada na Universidade de São Paulo (USP) com mestrado em Antropologia Social na USP.

Como citar

MANDELLI, Mariana. Mulheres e o torcer: algumas conquistas, muitas perspectivas e infinitas batalhas. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 16, 2021.
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