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Mulheres no futebol e percursos de resistência: lances e nuances da persistência da Formiga

Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa 13 de dezembro de 2021

Nasci em Belo Horizonte, quatro anos antes da Miraildes Maciel Mota e quatro anos depois da Copa do Mundo de Futebol que foi realizada no México em 1970. Essa competição foi tão marcante na trajetória do futebol brasileiro que até hoje ela é mencionada na crônica esportiva e nas resenhas entre o(a)s amantes do futebol, sendo também um campo que tem mobilizado muitos estudos acadêmicos. Tal relevância não se deu por acaso. É possível identificar fatores que contribuíram para esse destaque tanto dentro como fora das quatro linhas. 

Naquela época o Brasil passava por tempos conturbados que tiveram início com o golpe de 1964 que resultou na instauração do regime da ditadura militar. A sociedade podia sentir os efeitos do recrudescimento da repressão e das perseguições realizadas pelo Estado, desdobramentos de condutas direcionadas pelo Ato Institucional N° 5 (1968)[1] e ancoradas também na Lei de Segurança Nacional (1969)[2]

Dentro de campo, a seleção brasileira que esteve sob a condução do treinador João Saldanha entre 1969 e 1970, se classificando para a Copa e alcançando bons resultados na maioria dos jogos realizados enquanto ele treinava a equipe (venceram 14 dos 17 jogos), terminou se deparando com o seu desligamento às vésperas do campeonato, quando em março de 1970 Saldanha foi demitido e substituído por Zagallo.[3] Se a classificação para a Copa e os altos índices de vitórias do selecionado colocaria em xeque tal demissão, seu posicionamento crítico em relação ao governo poderia justificar o seu afastamento e a mão do Estado na condução de decisões da seleção.[4]

Seleção 1970
Seleção Brasileira de 1970. Fonte: CBF

A ação dos militares não estava restrita aos bastidores dos processos decisórios da seleção. A presença deles era marcante em outros campos de atuação no futebol brasileiro, conforme evidenciado por Ingrid Faria Gianordo-Nascimento et al. (2014, p. 148-149)[5]:

“A preparação da seleção, com a desculpa de utilização de métodos ‘científicos`, implantou o processo de militarização no futebol brasileiro que alcançaria seu ápice na campanha da copa de 1978. Desde o local de treinamento – Escola de educação física do Exército- até a comissão técnica passou a ser composta por militares: o preparador físico, capitão do Exército Cláudio Coutinho; o preparador de goleiros, o tenente Raul Carlesso; o chefe da delegação, brigadeiro Jerônimo Bastos.”

Mas a intervenção dos militares não estava restrita ao futebol jogado por homens ou focado apenas em jogos direcionadas ao rendimento esportivo, uma vez que era possível identificar outras ações que iam além do preparo e da organização para os jogos competitivos. E, em especial para as mulheres, a intervenção estatal promovida pelos militares foi fator de limitação do acesso a pratica do futebol.

Ainda hoje podemos sentir os reflexos das proibições iniciadas em 1941 no governo de Getúlio Vargas, quando foi publicado o Decreto-Lei 3199/41, que estabeleceria as bases da organização esportiva no Brasil, em um contexto de controle e centralização do esporte brasileiro. Além de instituir o Conselho Nacional de Desportos (CND), entre outras decisões, também indicava em seu artigo 54, que as mulheres estariam proibidas de praticarem os esportes que fossem considerados “incompatíveis com as condições de sua natureza”[6]. Apesar de não evidenciar quais seriam esses esportes, para aquela época o futebol era compreendido como uma prática incompatível para as mulheres. E as proibições em relação à prática dessa e de outras modalidades esportivas foram explicitadas e ainda mais acentuadas durante a ditadura militar, contando inclusive com o aparato de instrumentos normativos, como ocorrido no ano de 1965, após a publicação da Deliberação Nº 7 do Conselho Nacional de Desportos[7].

Quando eu era criança, ainda estava distante de compreender a complexidade que envolve os elementos que impulsionam a condução dos comportamentos humanos. Não era evidente para mim o quanto podemos ser moldado(a)s por nosso contexto social, que interferem em nossas escolhas e que podem nos distanciar de algumas experiências ou nos aproximar de outras. Naquela época, eu só queria brincar, com as meninas e com os meninos, com meus irmãos e irmãs, na vizinhança, na escola ou na casa de parentes. E entre tantas brincadeiras, lá estava o futebol! Eu não conseguia entender e nem aceitar (ainda bem!) a proibição explícita do meu pai quanto ao fato de eu brincar de jogos que remetessem ao futebol com meus irmãos.

Eu brincava de muitas brincadeiras, fosse com as meninas ou com os meninos. Subia em árvores no terreiro e ficava pendurada pelas pernas, que firmavam meu corpo aos galhos, fazia casinha e brincava sozinha ou com as vizinhas (os meninos eram expressamente proibidos de brincar com a gente), ia para a rua com os irmãos e irmãs e tentava entrar na brincadeira dos mais velhos que jogavam queimada, rouba-bandeira e me lembro de que o vôlei já estava entre as atividades praticadas por eles.

E o futebol também fazia parte do conjunto daquelas brincadeiras dos praticantes maiores. Junto aos menores, poucas vezes eu consegui jogar na rua com eles. E é bem possível que tenha conseguido porque eu tinha dois irmãos com idade próxima a minha que estavam no time e terminavam me apoiando em algumas vezes, era como se eles fossem o meu passaporte para ingressar no jogo dos meninos. Mas ainda assim tinha que levar para casa xingamentos como Maria macho, tomba homem, macho-fêmea ou homenzinho.

À medida que ia crescendo, tentava resistir e convencer outras meninas a jogarem, mas na maioria das vezes, as tentativas eram em vão. Foi só nos anos de 1990, já no Ensino Médio (na época era denominado como II Grau), que consegui localizar um pouco mais de meninas para jogar futebol e ter um volume maior de garotas para tentar formar times, e mesmo assim, só conseguia jogar na escola. Nem mesmo durante a graduação, no curso de Educação Física, foi fácil organizar um bom grupo para jogar bola. Isso usualmente só acontecia durante as competições estudantis denominadas Olímpiadas da Educação Física.

Ainda que no final da infância e ao longo da minha adolescência eu resistisse e acreditasse que os impedimentos em relação ao acesso das mulheres como praticantes do futebol não fizessem sentido, foi somente na inserção no curso de Educação Física que a cortina a esse respeito começou a se abrir, explicitando aspectos fundamentais para a percepção do problema e o entendimento da necessidade de mudanças a respeito.

Aos poucos fui compreendendo algumas das motivações que distanciaram as mulheres da possibilidade de jogar futebol, fosse da minha geração, de gerações anteriores ou daquelas que vieram depois. E à medida que ia estudando, participando de pesquisas e de eventos acadêmicos, fui alcançando mais informações que me deram sustentação para querer mudar aquele panorama, para superar os preconceitos e as discriminações relacionados à presença das mulheres nos campos, nas arquibancadas e em outros espaços inerentes ao universo futebolístico.

Fui conhecendo diferentes formas de transformar a realidade e me aproximei da trajetória de outras mulheres que também construíram suas estratégias para superar o desafio de não poderem jogar, resistindo à proibição que tentava afastá-las do futebol. Ainda que hoje não haja mais uma normativa estatal proibindo o futebol para as mulheres, existem normas de condutas sociais, veladas ou explícitas, que nos distanciam desse esporte. Isso faz com que outras mulheres ainda tenham que seguir resistindo para inserir esta modalidade na realidade das novas gerações, crianças e adolescentes, no Brasil e em outros países, superando assim os preconceitos manifestados contra as mulheres no e do futebol.

E é nesse contexto de resistência que se insere a jogadora Miraildes Maciel Mota, mais conhecida como Formiga. Essa baiana é uma das maiores jogadoras de futebol no Brasil e alcançou marcas significativas no esporte: em 2021, a primeira atleta de futebol (entre homens e mulheres) a disputar sete edições de Jogos Olímpicos e a jogadora com mais participações em jogos disputados em Olimpíadas.

Formiga
Foto: Thais Magalhães/CBF/Fotos Públicas

Em uma entrevista concedida ao canal no Youtube Podpah (em postagem denominada Formiga – Podpah #241)[8], ela relata o percurso realizado ao longo de sua trajetória no futebol. Durante quase duas horas de bate-papo temos a possibilidade de conhecer alguns desafios com os quais ela se deparou para seguir o seu sonho de jogar bola, os momentos mais marcantes na carreira e também algumas curiosidades do universo do futebol e da vida dela, entre elas, como surgiu o seu apelido.

Segundo Formiga, “Tem muitas pessoas que pensam que é porque eu comia muito doce, não tem nada a ver, que eu não como não.” Na verdade, o nome Formiga surgiu quando ela tinha entre 14/15 anos durante uma partida de um campeonato que estava participando na Bahia, ela foi chamada de formiga por um torcedor que estava na arquibancada. Segundo ela, esse apelido teria a relação com o dinamismo dela em campo, com a capacidade que ela tinha de ajudar a equipe, de trabalhar em campo.

No começo ela não gostou, ficava se imaginando com uma anteninha e se perguntando se o torcedor achava que ela comia doce. Por causa do apelido ela chegou a bater nas colegas que insistiam em chamá-la de formiga. Mas com o tempo ela se deu por vencida e deixou que a chamassem pelo apelido. E envolvida por muita descontração Miraildes fala sorrindo que atualmente ela gosta do apelido.

Os desafios enfrentados por Formiga para alcançar o sonho de seguir carreira no futebol foram muitos. Na adolescência teve que sair de Salvador, sua terra natal, e foi para São Paulo, onde jogou no Saad e no São Paulo. Além da distância da família, também teve que se adaptar ao clima frio da cidade e à falta das atividades que costumava fazer na cidade. Em um trecho da entrevista Formiga relatou que ainda que ela fosse muito habilidosa na infância, também conviveu com o machismo naquela época. E ao longo da trajetória de jogadora se deparou com situações que demonstravam a marginalização das equipes de mulheres no futebol.

Formiga
Foto: Thais Magalhães/CBF/Fotos Públicas

A invisibilidade, a falta de incentivo e de clubes que pudessem estimular e acolher aquelas que praticavam. E mesmo quando havia alguma forma de incentivo para montar equipes, ainda tinha os problemas de estereótipos e controle dos corpos, como Formiga relatou ao mencionar que havia a orientação de manter os cabelos grandes, com tranças ou com uma determinada cor. Ela lembra que no futebol “não é o cabelo que joga!”

No futsal jogava como pivô. No futebol de campo atuou como lateral e volante. Além de jogar em times de São Paulo, Formiga também jogou no Espada Futebol Clube do Pará. Fora do Brasil jogou por quatro anos na França, no Paris Saint-German (PSG), nos Estados Unidos e na Suécia. É possível considerar que ela é uma das grandes jogadoras do futebol de mulheres dentro e fora do Brasil.

Quem já a viu jogar provavelmente se encantou com o futebol que ela apresentava e também a resistência física dela. Diante de tantos desafios impostos às mulheres de sua geração que desejaram jogar futebol, superá-los e chegar a uma equipe competitiva já seria uma vitória. E jogar partidas de alto nível até os 43 anos de idade é uma grande demonstração de sua capacidade de resistência física.

No dia 25 de novembro de 2021 ela encerrou a sua atuação como jogadora de futebol na Seleção Brasileira[9], concluindo a sua trajetória de 26 anos vestindo a camisa do selecionado. O jogo de encerramento foi realizado em Manaus quando a Seleção Brasileira venceu a Índia pelo placar de 6 x 1. Vencer o machismo e manter o foco no jogo já não seria tarefa fácil. E se manter por tantos anos como uma referência de resistência, dentro e fora das quatro linhas, se constitui como mais uma marca dessa jogadora. Bem denominada por um torcedor como Formiga, Miraildes Maciel Mota é uma demonstração da resistência e da força das mulheres, inclusive no futebol. Vida longa ao futebol para as mulheres!

Formiga
Foto: Thais Magalhães/CBF/Fotos Públicas

Notas

[1] Ato Intitucional Nº 5, de 13 de dezembro de 1968. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ait/ait-05-68.htm. Acesso em: 07 dez. 2021.

[2] Decreto-Lei 898, de 29 de setembro de 1969. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1960-1969/decreto-lei-898-29-setembro-1969-377568-norma-pe.html. Acesso em: 07 dez. 2021.

[3] Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/reportagens-especiais/comunismo-invasao-armada-e-demissao-conheca-o-tecnico-que-montou-a-selecao-de-1970/#page4. Acesso em: 07 dez. 2021.

[4] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57398513. Acesso em: 07 dez. 2021.

[5]GIANORDOLI-NASCIMENTO, Ingrid Faria; MENDES, Bárbara Gonçalves; NAIFF, Denis Monteiro Giovani. “Salve a seleção”: ditadura militar e intervenções políticas no país do futebol. Psicologia e Saber Social, v. 3, n. 1, p. 144-153, 2014. Acesso em: 07 dez. 2021.

[6] Decreto-Lei Nº 3199, de 14 de abril de 1941. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-3199-14-abril-1941-413238-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em: 06 dez. 2021.

[7] Deliberação Nº 7 Conselho Nacional de Desportes. Disponível em: http://cev.org.br/biblioteca/deliberacao-n-7-2-agosto-1965/. Acesso em: 08 dez. 2021.

[8] Para assistir a entrevista da jogadora na íntegra acesse: Formiga – Podpah #241. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7xMvgLx6Olc&t=0s. Acesso em: 08 dez. 2021.

[9] Veja algumas homenagens que a jogadora recebeu na ocasião de sua despedida da Seleção. Disponível em: https://www.cbf.com.br/selecao-brasileira/noticias/selecao-feminina/personalidades-do-mundo-do-futebol-homenageiam-formiga-em-sua-despedid

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Luciana Cirino

Integrante do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FULIA), da UFMG.

Como citar

COSTA, Luciana Cirino Lages Rodrigues. Mulheres no futebol e percursos de resistência: lances e nuances da persistência da Formiga. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 19, 2021.
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