03.1

Mulheres no futebol

Diana Mendes Machado da Silva 1 de setembro de 2009

Em homenagem retrospectiva ao Dia Internacional da Mulher falemos de sua inserção neste universo ainda tão predominantemente masculino. A questão título é provocativa e poderia, à primeira vista, gerar debates e polêmicas infrutíferas. Contudo, esta discussão não visa alimentar a disputa entre os sexos (categoria biológica), ou melhor, entre os gêneros (categoria sócio-histórica). Preocupa-se em chamar a atenção para a exígua participação feminina no universo simbólico do futebol e apontar algumas explicações para o fato. Nossa contribuição se apóia no campo específico da História, considerando principalmente o período em que as grandes cidades brasileiras introduziram a prática do futebol em seus costumes, no início do século passado.

É preciso ressaltar, antes de prosseguirmos, o reconhecimento da crescente participação e da qualidade das profissionais que protagonizam ou contribuem para o espetáculo futebolístico, desde atletas e árbitras a fisioterapeutas e jornalistas. Contudo, ainda que a atuação mais efetiva das mulheres seja índice de transformação na cultura futebolística, ela ainda não invalida nossa observação sobre a exclusão do feminino na mesma.

Então, retomemos a questão: de que falamos quando afirmamos a exígua participação feminina no universo simbólico do futebol? Falamos de sua participação na cultura: produção e reprodução dos modos de pensar, sentir e viver este esporte. Esse conjunto de ações e significados, ainda hoje, parece ser de monopólio masculino. Basta observar algumas situações cotidianas que, por isso mesmo, são reveladoras: o futebol é ou foi pauta de conversa protagonizada somente por mulheres? Ou ainda, em grupos heterogêneos suas opiniões são valorizadas de maneira equânime, sem preconceitos? Frequentemente não. Há certo consenso tácito de que as mulheres não compreendem verdadeiramente a dinâmica do futebol, dentro ou fora de campo, e que seu interesse e conhecimento do assunto seriam mobilizados pela companhia masculina.

Entre as razões alegadas para esta mediação de gênero, podemos destacar a presença ou ausência da prática esportiva. De modo geral, meninas e moças não são estimuladas a jogar futebol, seja como atividade de puro lazer, seja como atividade educativa nas escolas ou em outras instituições. Ora, para tomar parte da cultura é preciso vivenciá-la! Sem experiências ativas agimos como as crianças em período de alfabetização, fingindo ler aquilo que ainda não compreendem. Em outras palavras, jogar futebol, ler sobre o assunto ou mesmo discutir entre seus pares as últimas rodadas do campeonato são ações que fortalecem o vínculo identitário, pautado numa prática social comum e, ao mesmo tempo, organizam e sedimentam importantes conhecimentos para a cultura futebolística.

Façamos então um breve ensaio para resgatar alguns momentos históricos que expliquem ou, pelo menos, iluminem as razões pelas quais as mulheres foram excluídas dessa “cultura futebolística”. Sabemos que a prática do futebol gerou grande entusiasmo entre homens e mulheres de grandes cidades na primeira metade do século XX. Mário Filho (2003) relata, com riqueza de detalhes, a participação de ambos os gêneros nos eventos futebolísticos do Rio de Janeiro, destacando aspectos da sociabilidade, renovada a partir da prática esportiva:

“O futebol prolongava aquele momento delicioso de depois da missa. As moças, mais bonitas ainda. Tinham ido em casa, demorando-se diante do espelho… Na arquibancada, sentadas, abrindo e fechando os leques, sérias, sorridentes,… como que ficavam em exposição…”(p.44)

 “O velho Lauro Sodré aparecia na varanda. A casa dele tinha duas varandas dando para o campo. Eram as arquibancadas do Carioca… As duas varandas ficavam sempre cheias de gente. Eram visitas que apareciam, outros pais, como ele, para ver os filhos, mocinhas como a Orminda, para ver os irmãos…”(p.52)

São José do Rio Preto- SP - 20/05/2016 - BRASILEIRÃO FEMININO CAIXA 2016 - ESPORTES - Partida final do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino “Brasileirão Caixa 2016”, Jogo 70; Rio Preto X C.R. Flamengo, realizado no estádio Anísio Haddad em São José do Rio Preto, SP. Foto: FERDINANDO RAMOS / ALLSPORTS
Jogadora do Flamengo em partida do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino “Brasileirão Caixa 2016”. Foto: Ferdinando Ramos/Allsports.

E ainda que a prática estivesse eminentemente ligada aos homens, a participação feminina era intensa e ativa e se revelava também na efetiva atuação esportiva, no jogo propriamente dito. Fábio Franzini (2006) descreve:

“No início dos anos 1940, existiam cerca de dez equipes de futebol feminino em atividade no Rio de Janeiro. E que não se pense em Flamengo, Fluminense, Botafogo ou Vasco da Gama, pois, constituídos nos subúrbios cariocas, o Eva F. C., o E. C. Brasileiro, o Cassino Realengo ou o Benfica F. C. estavam muito longe, em todos os sentidos, dos tradicionais clubes da cidade. As diferenças estruturais entre eles eram tão grandes que, para formar seu quadro de jogadoras, o Primavera F. C. publicou nos jornais o seguinte anúncio: Moças de 15 a 25 anos, que queiram ingressar no football, com consentimento dos seus maiores, queiram apresentar-se à rua Silva Gomes, 131, em Cascadura, das 17 em diante…”

 Ora, se a “popularização do futebol” ocorreu também entre as mulheres, como nos mostram os relatos dos estudiosos sobre as primeiras décadas do século XX, o que houve e em que momento tal processo foi interrompido? São pistas necessárias para compreendermos de que maneira as mulheres foram impedidas de compartilhar esse universo simbólico. O mesmo autor complementa: “Em meados do século passado existiram times e campeonatos femininos que só não se ampliaram por ação efetiva contrária, de modo a inibir a prática entre mulheres”.

Pesquisas profundas sobre esta “exclusão” ainda estão por se realizar. A princípio, podemos concluir que ela ocorre como em qualquer processo de exclusão de qualquer grupo social, por meio da interdição de certos saberes e de certas práticas. Neste sentido, “entender” ou não de futebol não é mera questão de inteligência, é principalmente questão de insistência e até mesmo de militância. Vivemos em tempos de democratização da cultura. É preciso incluir na pauta a ação de “democratizar” a cultura do futebol, com o intuito de despertar a atenção e o interesse de meninas e mulheres para a temática. Como principal efeito desta ação, teríamos a ampliação de adeptos, interesses e conhecimentos, situação que enriquece a cultura porque mais plural.

Bibliografia
ELIAS, Norbert; Dunning, Eric. O desporto como uma área masculina reservada: notas sobre os fundamentos sociais na identidade masculina e as suas transformações (p.389-411). In: A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.
FRANZINI, F. “Em posição de impedimento: as mulheres no país do futebol”. ComCiência. Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, v. 79, p. 8, 2006.
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Como citar

SILVA, Diana Mendes Machado da. Mulheres no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 03, n. 1, 2009.
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