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Multiplicações do olhar, transformações do torcer: futebol, novas tecnologias (VAR) e a luta corporal alto-xinguana

Torcedores mais antigos, frequentadores de estádios, talvez tenham melhor nitidez para rememorar lances em que, apertados e amontoados, numa distância quilométrica e com todos os demais impedimentos à visão do campo de jogo, gritaram sem a menor dúvida: pênalti! Ver o lance era menos importante do que saber olhar o que estava acontecendo ao redor: a euforia coletiva das arquibancadas, as discussões entre jogadores e árbitros, o rádio de pilha, ou mesmo os celulares e fones de ouvido, que afirmavam que havia tido o toque na mão, que o zagueiro deu um carrinho imprudente ou o goleiro chegou atrasado na bola.

Esse olhar coletivo sobre acontecimentos do jogo, chamemos assim, faz parte de uma sociabilidade torcedora que se constrói a cada lance de perigo, a favor ou contra, sendo mais ou menos intensa de acordo com um sem número de emoções e rivalidades que envolvem o universo do futebol. A torcida, síntese da paixão pela qual existe a disputa, é parte daquilo que é jogado, mais de maneira metonímica do que metafórica. Como afirma Toledo (2019): todo jogar é jogo olhado. As experiências do jogar e do torcer, assim tomadas, são mediadas, ou ainda, vivenciadas pelas faculdades sensitivas do olhar. Essa compreensão do torcer não está apenas na medida em que se tem a melhor visão do lance, mas pela relação estabelecida entre jogar e olhar.

Por certo, esse é um modelo conceitual, também chamado de “modelo das relações”, e como tal, tem seus limites analíticos e construções etnográficas. Ainda por ser elaborado desde o ponto de vista antropológico, trazendo consigo um conjunto de oposições indissociáveis: teoria e pesquisa, sujeito e objeto, eu e outro. É assim que o olhar passa a ser a inflexão, o ponto de convergência entre o jogar e o torcer, o caminho percorrido pelas emoções construídas no plano individual das disputas e suas reverberações coletivas nas torcidas.

Ainda na antropologia, o primado sensitivo do olhar foi debatido em diversos contextos, da mitologia indígena aos estudos sobre as metrópoles urbanas. Olhar é dar co-extensão aos fenômenos, é acionar novos repertórios, instaurar as bases futuras da comunicação. Neste momento de transformações inevitáveis vividas pelo futebol profissional e todo o universo que o compõe, suas próprias mudanças nas maneiras de olhar o jogo estão colocadas à prova. Mesmo o conjunto de seus atores, profissionais (aqueles que estão no plano específico das disputas, jogadores, técnicos, dirigentes), especialistas (a imprensa esportiva especializada) e torcedores (o conjunto que move o espetáculo), devem passar por um reaprendizado, seja do jogar, do olhar ou do torcer.

Como a pandemia por conta do Covid-19, e as precauções e medidas de isolamento, afetaram praticamente todo o globo, não seria difícil demonstrar as diferenças trazidas nas nossas próprias redes de relações. Seja no trabalho, no lazer, no consumo, o isolamento social recolocou modos relacionais, o que não foi diferente na sociabilidade torcedora, assim que os esportes, o futebol em específico, retornaram aos gramados. Na tentativa de compensar os estádios vazios, torcida de papelão, virtual, holograma, DJ’s, e até mesmo as bandeiras, proibidas há tempos nos estádios paulistas, puderam regressar para enfeitar as arquibancadas e amenizar a falta do público presencial. Obviamente, medidas paliativas que sequer tocaram a superfície do problema.

Essa ausência presencial torcedora, do olhar do campo, dessa completude que somente se consegue nesse ambiente coletivo, passa a ser substituída, num mesmo período, por uma multiplicidade de olhares cujas pretensões totalizantes planejam que nada lhes escape. As novas tecnologias de vídeo e monitoramento, de auxílio à arbitragem presencial, trazem consigo o “eagle eye”, que capta qualquer lance e consegue paralisá-lo, como uma fotografia ou em câmera lenta, para que se possa retomar as mesmas discussões engendradas anteriormente: foi mão, chegou atrasado, estava ou não impedido.

Com uma proposta comparativa, voltamos atenção para a luta cerimonial alto-xinguana e como podemos perceber esse mesmo modelo num outro contexto etnográfico, ao expressar a indissociabilidade entre jogar/olhar/torcer. Tomaremos a relação entre a luta (jogar), a composição das torcidas (torcer) e a figura dos nginiko, “olhadores” (olhar), para demonstrar a conexão entre esses atos durante as lutas e suas variações, a produção e transferência das emoções ligadas aos resultados dos combates.

As lutas rituais, mais conhecidas como huka-huka, colocam em embates performáticos os grandes campeões de cada povo, em confrontos duros e intensos, cujo objetivo para obter a vitória é agarrar a parte de trás da perna do oponente, ou realizar algum golpe de arremesso. Por conta da distância entre os lutadores em combate, e os coletivos torcedores formados, cada povo envia para perto das refregas seus próprios “olhadores” para confirmar a efetividade do golpe, quando ele não é absolutamente conseguido, tal qual nos golpes de arremesso. Os nginiko (lit. “olhadores”) não são árbitros, não determinam resultados dos embates, tampouco influenciam em seus prosseguimentos, mas promovem conexões entre quem joga e quem torce (Costa 2021).

Xingu
Início de combate entre campeões, sob olhar atento dos nginiko. Ao fundo e à distância, os coletivos torcedores. Foto: Carlos Eduardo Costa

Os olhadores fazem a mediação entre os lutadores que estão no momento efetivo da disputa e seus variados coletivos torcedores. Isso porque, devido à complexidade organizacional dos rituais, consolidada nas relações de parentesco entre chefes anfitriões e convidados, as torcidas e seus times de luta são alterados substancialmente a cada evento, ratificando rivalidades e alianças situacionais. O mesmo torcedor que vibrou com a vitória de um competidor numa luta pode torcer contra ele dali alguns dias, quando a configuração dos times e torcidas for outra. É dessa maneira que a relação entre o jogar e o torcer, mediada pelo olhar, se mostra fundamental no desenvolvimento dos combates e das relações interétnicas.

No plano dos resultados, estes não se medem através de contagens sequenciais e cumulativas, mas sim de performances diferenciais, tanto dos lutadores, que devem arremessar seus oponentes com força e sagacidade, como também dos torcedores, que devem gritar o mais alto a cada nova vitória. É aí que se mostra importante a figura do “olhador”, pois, devido às diferentes formas de vitória, por arremesso ou por tocar a parte de trás da perna do oponente, a visibilidade é dificultada pela distância entre os lutadores e os coletivos torcedores formados.

São os olhadores que chamam a vitória de seus competidores quando esta não é obtida de maneira inconteste. O olhar dos nginiko faz a mediação entre a atuação do competidor, que deve demonstrar técnica apurada para vencer seu oponente, com a performance torcedora, que deve gritar alto para suprimir a possibilidade de dúvida do resultado quando este não é absolutamente conseguido. Por isso mesmo, essa posição central para o desenvolvimento dos combates não pode ser ocupada por qualquer um. É um lugar destinado aos antigos campeões, mestres dessa arte marcial, acostumados com as técnicas e táticas, em suma, esses mediadores têm o “olhar domesticado” de um corpo e pessoa fabricados para a luta.

Associar os “olhadores” alto-xinguanos e as novas tecnologias de VAR, a despeito de suas incontornáveis diferenças, é aqui um mero exercício de se colocar em relação esses domínios fundamentais do corpo que se expressam nessa relação entre jogar/olhar/torcer.

Tantas mudanças que por acaso, coincidência ou algo que o valha, vieram a se somar nesses quase dois anos de pandemia, trouxeram novas formas de se compreender os espetáculos esportivos, novamente o futebol como tema etnográfico. O VAR expandiu a capacidade do olhar, não apenas do árbitro de campo que deveria ser o responsável pela fruição do espetáculo, aumentando também o número de “olhadores” que agora fazem parte dos julgamentos. Se a equipe de arbitragem era composta por árbitro, auxiliares 1 e 2, quarto árbitro e delegado da partida, agora somam-se mais um árbitro e seus três assistentes na cabine. Não bastassem os olhos humanos, são mais 16 câmeras vasculhando cada espaço do campo de jogo, a todo o momento, para que nada lhes escape e não se cometam mais erros. Que ilusão!

Apesar de toda essa indumentária, o que se percebe de parte de jogadores, técnicos e da imprensa é que a novidade precisa ser aprimorada. Qualquer passada pelos programas esportivos dará a dimensão dos muitos erros cometidos, ou dúvidas que não se esgotaram, com o uso da tecnologia. Antes o contrário. Alguns lances de impedimento tornam-se mais duvidosos de acordo com as tomadas fotografadas, a partir das quais são feitas as medições computadorizadas através das linhas com cores diferentes.

Outra questão colocada é o que é o corpo que vale como medida: mãos, braços, tronco, pés, pernas, movimento para frente, para trás? Dúvidas análogas que se consolidam na luta alto-xinguana, apesar do contexto pacificado e esportificado em que é disputada atualmente. Mesmo com os olhadores próximos aos combates, divergências permanecem e fazem com que as torcidas comemorem resultados diferentes para um mesmo combate, transferindo emoções e rivalidades do plano do jogar para o torcer, pela via do olhar, esse contínuo basilar nas análises sobre as práticas esportivas, nos campos, cidades e aldeias.

VAR no futebol
A sala do VAR. Foto: CBF

Referências Bibliográficas

TOLEDO, Luiz H.. Torcer: perspectivas analíticas em Antropologia das práticas esportivas. Tese (Livre-docência) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2019.

COSTA, Carlos E.. Practices of looking, transformations in cheering: alliances and rivalries in the Upper Xingu wrestling. Anuário Antropológico (UnB), v. 46, n. 2, p.237-253. 2021.


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.

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Carlos Eduardo Costa

Corintiano, antropólogo e pescador.

Como citar

COSTA, Carlos Eduardo. Multiplicações do olhar, transformações do torcer: futebol, novas tecnologias (VAR) e a luta corporal alto-xinguana. Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 7, 2021.
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