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Narrativas sobre o árbitro de vídeo, um bom objeto para observar

Fábio Aguiar Lisboa 5 de janeiro de 2018

“Certa vez invoquei o videoteipe para comprovar um gol irregular do Fluminense. Ele me jogou na cara a sentença desconcertante: – O videotape é burro!” – Armando Nogueira falando da paixão de Nelson Rodrigues pelo Fluminense.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou que pretende adotar o árbitro de vídeo nas competições que organiza. O uso de novas tecnologias pela arbitragem em jogos de futebol se tornou um tema recorrente na imprensa esportiva nos últimos tempos.

Uma das razões para a promoção deste debate é a melhora das transmissões televisivas de jogos de futebol. Na última Copa do Mundo, por exemplo, cada arena contava com, ao menos, 34 câmeras nas transmissões oficiais dos jogos (o uso de câmeras extras ou exclusivas por emissoras licenciadas poderia aumentar esse número).

Com tamanho avanço tecnológico as transmissões televisivas passaram a evidenciar cada vez mais as falhas da arbitragem no decorrer de uma partida. Desta forma passa a ganhar força a tese de que a tecnologia também deveria entrar em campo para garantir a lisura, a retidão, da arbitragem.

Porém, este movimento é acompanhado pela resposta dos que desejam manter a tecnologia afastada dos campos de jogo. O principal argumento é o de que o uso de artefatos como o árbitro de vídeo tiraria a graça do esporte, pois acabaria com polêmicas e diminuiria a imprevisibilidade do jogo.

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Curso de capacitação do Árbitro de Vídeo promovido pela CBF. Foto: Marcos Paulo Rebelo/CBF.

No entanto, o objetivo deste texto não é debater se a tecnologia deve ou não ser adotada pelo futebol. Ele tem o objetivo de chamar a atenção para as narrativas da imprensa sobre o assunto.

O resultado exato de um possível uso de novas tecnologias no futebol não pode ser totalmente previsto. Mas aposto que haverá uma mudança profunda nas narrativas da imprensa sobre as partidas de futebol. Isto porque a arbitragem passará a contar com uma ferramenta que vai mudar sua atuação nas partidas. Consequentemente, o olhar da imprensa sobre os juízes irá mudar, se para melhor ou pior apenas o tempo dirá.

Ao mesmo tempo, a tecnologia diminuirá o espaço para a opinião de jornalistas relacionados a lances polêmicos, pois as imagens irão dirimir as dúvidas dos árbitros em tempo real, melhorando a sua performance. Contudo, ainda haverá momentos em que acontecerão falhas, o que alimentará o debate sobre a efetividade ou não desta ferramenta, o que pode ser visto em campeonatos que já a adotam, como a Liga Alemã e a Italiana.

Penso então que as narrativas da imprensa sobre as novas tecnologias no futebol serão um rico objeto de pesquisa na área da comunicação e esporte.

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Fábio Aguiar Lisboa

Mestre em Comunicação pelo do Programa de Pós-Graduação da UERJ (PPGCOM/Uerj) na linha Cultura de Massa, Cidade e Representação Social. Membro do Grupo de Pesquisa Esporte e Cultura (FCS/UERJ). Bacharel em Comunicação Social pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (2003), bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2009) e bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (2010). Trabalha na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo.

Como citar

LISBOA, Fábio Aguiar. Narrativas sobre o árbitro de vídeo, um bom objeto para observar. Ludopédio, São Paulo, v. 103, n. 5, 2018.
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