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Necropsia canarinha

Enrico Spaggiari 16 de julho de 2018

Geração Nutella, convocação enviesada, sobrecarga de treinamentos e lesões, interferência de familiares e empresários, equívocos do árbitro de vídeo (VAR), o imponderável do gol contra, falta de inspiração, nervosismo, centroavante que não faz gol… Estes foram alguns dos elementos acionados como candidatos a “vilão” após a derrota para a Bélgica. É notório que não são apenas as vitórias que compõem o imaginário futebolístico. “Instrumento de renovação da vida” e o “começar de novo”, tal como afirmou Carlos Drummond de Andrade, as derrotas têm um papel essencial dentro do universo esportivo, como bem destrincha o já clássico livro “Anatomia de uma Derrota”, de Paulo Perdigão, sobre o famigerado maracanazo em 1950.

A busca por culpados nesta última edição do mundial não é comparável à caça às bruxas das últimas Copas, quando os dias posteriores às desclassificações foram mais inquisitivos que os atuais. Mas esta semana que antecedeu a final da Copa do Mundo de 2018 também foi recheada de “e se…”. Mesmo assim, a conspiração de 1998, a apatia de 2006 e o atestado de óbito conferido ao futebol brasileiro em 2014 atestam que mais do que reconhecer as virtudes de outras seleções, preferimos consagrar as derrotas do selecionado brasileiro. O que aponta para a importância de situá-las em seus contextos de produção para além da longeva histeria galvanista ou do tragicômico espalhafato netoniano.

A vitória da Bélgica me fez lembrar o livro “Tragédias, Batalhas e Fracassos” de Leonardo Pacheco, publicado com base em tese de doutorado defendida no Departamento de História da UFMG. O livro de Leonardo tem como objetivo pensar as derrotas brasileiras nas Copas do Mundo entre 1950 e 1982 a partir das narrativas, discursos e imagens dos períodos pesquisados que, em sua maioria, centravam as análises nas questões ligadas à masculinidade e ao envelhecimento.

Embora as questões e elementos vinculados às derrotas variem a cada evento, assinalados por um caráter multifacetado, que alternam concepções valorativas ora positivas e ora negativas, tais discursos relacionados às masculinidades e envelhecimento são marcados por certas permanências. Porém, Leonardo não restringe as investigações sobre as derrotas a estas questões, pois também retoma dimensões abordadas com frequência em outras pesquisas, a saber: o debate sobre futebol-arte e futebol-força; os discursos sobre raça e miscigenação; as disputas políticas e regionais em torno das seleções brasileiras etc. Questões essências para problematizar espaços rituais como a Copa do Mundo, principal evento de um fenômeno social de grande amplitude e relevância, e por isso, momento privilegiado dentro da sociedade por “dramatizar” valores, relações e comportamentos sociais, como bem já apontara os ensaios pioneiros do antropólogo Roberto DaMatta.

Os discursos sobre as derrotas em Copas no período abordado, em meio às três primeiras conquistas, são reunidas e divididas em três agrupamentos. O primeiro aborda o que o autor denominou de “Tragédias”, iniciando pela que é considerada a maior derrota brasileira, conhecida como Maracanazzo, na Copa de 1950, disputada no Brasil, que gerou inúmeras considerações sobre diversos temas, como nacionalismo, modernização, raça etc. Leonardo acerta ao retomar, a partir das várias e destoantes informações produzidas, alguns destes debates, confrontando os muitos pontos de vista e relacionando-os com as questões sobre masculinidade e envelhecimento.

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Necropsia canarinha. Foto: André Mourão/Mowa Press.

A segunda tragédia, vivida no estádio espanhol do Sarriá em 1982, aborda os discursos que destacavam o resgate do consagrado estilo brasileiro de jogar, embora fosse cobrado do treinador Telê Santana um futebol-arte eficiente, menos bailarino (feminino) e mais decisivo (masculino). A masculinidade era uma questão em pauta, com acusações sobre as atuações, ora delicadas e ora desengonçadas. Acusações que faziam emergir um tipo de masculinidade hegemônica e provocava “a marginalização de outros tipos de masculinidades e de outras sexualidades” (p.80).

O segundo agrupamento, “Batalhas”, aborda a Copa do Mundo de 1954, cujo foco central foi a derrota da Seleção Brasileira contra a entrosada, disciplinada e vertiginosa equipe húngara, cujas ações foram narradas como a “batalha de Berna”. Os discursos após a derrota destacavam uma seleção brasileira marcada ora pelos excessos (uso da força em defesa da honra) e ausências (nervosismo e descontrole emocional) de masculinidade. Assim, a análise empreendida traz as distintas percepções sobre a masculinidade, bem como uma mudança no entendimento do uso da violência e agressividade na partida travada em Berna. As narrativas e imagens sobre a derrota na Copa do Mundo de 1978, por exemplo, estavam centradas principalmente na ideia de “jogador polivalente”, discussão que permite ao autor esquadrinhar a crise da masculinidade dos brasileiros no universo futebolístico. Para o autor, a “categoria homem polivalente instaura uma crise de identidade na maneira como se pensava a autoimagem masculina na esfera esportiva no Brasil” (p.142), pois distorceria o modelo masculino inventado e consolidado pelas atuações dos brasileiros nos títulos anteriores.

A derrota na Copa do Mundo de 1966 abre o último segmento do livro, dedicado aos “Fracassos”. Nesta Copa, os discursos e as representações da derrota se voltam para as acusações de desorganização estrutural do selecionado. Diversas questões logísticas foram criticadas: o número de convocados na primeira lista (44 jogadores); falta de planejamento da preparação física, que resultou em contusões; o desentrosamento e a demora na definição de um padrão de jogo etc. Este “fracasso” provocou percepções negativas da masculinidade e envelhecimento da equipe (formada por alguns veteranos das duas conquistas anteriores), principalmente quando comparadas com as expectativas criadas a partir dos títulos e vitórias, quando uma autoimagem vencedora fora elaborada, masculinidades renegociadas e um jeito brasileiro de jogar reinventado. A Copa da Alemanha em 1974 degringolou as acusações de desorganização; envelhecimento; falta de agressividade e virilidade; e um esquema tático defensivo, diferente do estilo brasileiro de jogar. Elabora-se uma nova crise da masculinidade a partir da mesma estratégia discursiva utilizada em outros períodos, decorrente da desconstrução de um “jogar à brasileira” consolidado com os títulos.

As derrotas compõem com a vitória o “jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo”, como frisou o poeta Carlos Drummond de Andrade, e elas precisam ser pesquisadas. O livro de Leonardo Pacheco permite compreender a (des)construção de masculinidades no universo esportivo, bem como da questão geracional envolvendo as categorias de juventude e envelhecimento, por meio dos discursos, narrativas e imagens elaborados nas derrotas brasileiras entre 1950 e 1982.

Outros períodos e as Copas mais recentes podem trazer novas narrativas e imagens para um debate mais produtivo do que os desdobramentos do acalantado Hexa, pois desnuda identidades e controvérsias que perpassam o campo esportivo e que são fundamentais para a compreensão de um dos seus principais momentos rituais, a Copa do Mundo. Esse é momento de saborearmos a necropsia canarinha enquanto consumimos toneladas de agrotóxicos até a próxima Copa no Qatar.

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Enrico Spaggiari

Mestre e doutor em Antropologia Social pela USP. Fundador e editor do Ludopédio.

Como citar

SPAGGIARI, Enrico. Necropsia canarinha. Ludopédio, São Paulo, v. 109, n. 22, 2018.
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