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Nereo Rocco e o catenaccio na Itália

Dyego Lima Universidade do Esporte 25 de julho de 2020

O sucesso do estilo de jogo ultra defensivo, pragmático e quase sempre letal nos contra-ataques vai muito além dos êxitos conquistados por José Mourinho e seus “ônibus estacionados” ao longo do século XXI. O exercício do “direito dos fracos”, de impedir ao máximo o adversário de impor seu estilo, tampouco é uma criação italiana, sendo, portanto, injusto resumir o futebol do país a esse aspecto, constantemente apontado de maneira depreciativa. Para compreender o surgimento dessa ideia, como ela foi proposta na Itália, o sucesso de Nereo Rocco e sua influência aos técnicos posteriores, é necessário viajar à Suíça dos anos 30.

Foi com Karl Rappan que surgiu o verrou, o famigerado ferrolho-suíço. O austríaco queria desenvolver um plano que compensasse o fato de os suíços não possuírem a mesma condição física das equipes já profissionalizadas. Ele sabia também que, apesar de os atletas do país não possuírem o dom natural da habilidade futebolística, eles eram dedicados ao fazer o que se propunham. Em entrevista para a revista World Soccer em 1962, Rappan explicou:

“Pode-se escolher um time de acordo com dois pontos de vista. Ou você tem onze indivíduos que, com classe e habilidade natural são capazes de vencer seus oponentes – o Brasil seria um exemplo – ou você tem onze jogadores medianos, que precisam estar integrados numa concepção particular, um plano de jogo. Esse plano tem o objetivo de extrair o melhor de cada indivíduo para benefício do time. A parte difícil é executar a disciplina tática absoluta sem acabar com a liberdade de pensar e agir dos jogadores”.

Karl Rappan (1969). Fonte: Wikipédia

Assim, o que ele fez em suas equipes e, futuramente, com a seleção nacional, que jogavam no esquema 2-3-5, foi o seguinte: os dois zagueiros, ao invés de atuarem sempre lado a lado, se colocavam, por vezes, em linha, fazendo a cobertura para o companheiro, a depender de onde vinha o ataque adversário, de modo a sempre haver um homem na sobra. Esse jogador extra foi apelidado de verrouller pela imprensa da época, vindo a ser conhecido como líbero anos depois; e os dois volantes recuavam para atuar na zona defensiva, sendo precursores da futura posição de lateral. O grande problema é que o meia-armador do time ficava “isolado” na zona central, pois, além de articular os ataques, ele tinha seus compromissos defensivos, e os homens de frente não recuavam tanto assim para ajudar na transição ofensiva. Dessa forma, era comum que as equipes de Rappan recuassem e cedessem campo ao adversário. No entanto, com a forte marcação, frustravam o oponente, que tinha de recorrer aos passes laterais. Para contra-atacar, passes rápidos, por vezes até ligações diretas, buscando especialmente os pontas. Com esse esquema, Rappan venceu seis títulos nacionais na Suíça e fez da seleção local, antes frágil, um oponente duro de se enfrentar.

Na Itália, o catenaccio – que, ao pé da letra, significa “correntão”, no sentido de acorrentar as portas de uma casa – surge meio que ao acaso, ainda que houvesse influência do futebol suíço no país. Seu idealizador, Gipo Viani, que à época treinava a Salernitana, conta – de forma romantizada – que enquanto caminhava pela orla do mar Tirreno, pensava numa forma de melhorar sua defesa. Ao observar um barco, notou que os pescadores puxavam uma rede e, em seguida, outra, a reserva. Foi quando uma lâmpada acendeu sobre sua cabeça. Viani percebeu que alguns peixes escapavam da primeira rede, mas não da segunda. O que ele vislumbrou foi que seu time precisava de um zagueiro “reserva”, que atuasse na sobra e “capturasse” os atacantes que escapavam.

A reivindicação de Viani como inventor do catenaccio é justa, uma vez que ele foi o primeiro a usá-lo de maneira frequente e com relativo sucesso. O ex-técnico reconheceu que tinha recursos limitados à disposição e decidiu que o melhor a se fazer era impedir que o adversário jogasse. Ele posicionava a equipe bem recuada, atraía o oponente – que levava cada vez mais jogadores ao ataque – e tornava-o vulnerável aos contra-ataques. Entretanto, Viani não foi o responsável por consagrar esse estilo de jogo, ainda que ele tenha sido, por sua causa, disseminado pelo país com diferentes contornos. Isso só foi possível graças ao trabalho desenvolvido por Nereo Rocco, um ex-futuro açougueiro que se tornou lenda.

Nereo Rocco nasceu no dia 20 de maio de 1912, na cidade de Trieste, que, à época, ainda fazia parte do antigo Império Austro-Húngaro. Ele trabalhava como auxiliar no açougue de seu avô, até que o clube de sua cidade, o Triestina, lhe ofereceu um contrato para jogar na equipe em 1930. Meia-atacante, Rocco teve uma carreira mediana nos gramados. Ele atuou por 16 anos, até 1945, tendo passado ainda por Napoli, Padova e Libertas Trieste. No total, foram 345 jogos e 88 gols.

Quis o destino que Rocco, numa única oportunidade, fosse convocado para a seleção italiana. Apesar de não fazer ideia, aquela partida mudaria sua vida para sempre. Não pelo jogo em si, mas pelo que ele representaria. No dia 25 de março de 1934, o técnico Vittorio Pozzo o chamou para o confronto diante da Grécia, válido pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo daquele ano. O resultado foi uma vitória tranquila por 4 a 0. No entanto, para o ex-meia, aquilo significaria muito mais. Isso porque, naquele tempo, para que um ex-jogador pudesse trabalhar como treinador, ele teria que, pelo menos uma vez, ter sido chamado para representar a seleção nacional. Foi dessa forma que o futuro de Rocco começou a ser traçado.

 
O treinador Nereo Rocco (ArchiviFarabola/ANSA). Fonte: Wikipédia

Dois anos após deixar os gramados, em 1947, Nereo Rocco assumiu a Triestina para seu primeiro trabalho como técnico. No ano anterior, a equipe só não foi rebaixada para a Série B por uma concessão do regulamento, já que ela não pode mandar nenhum jogo em sua cidade, que estava ocupada por tropas britânicas e estadunidenses. Para espanto geral, em sua primeira temporada no comando, a Triestina encerrou a Série A no segundo lugar, nesse que é o melhor desempenho do time na elite italiana até hoje. O clube ainda finalizaria os dois próximos anos no oitavo lugar, que representavam um desempenho bastante digno para uma instituição que era bastante limitada tanto dentro quanto fora de campo.

Após esses resultados, Rocco teve desavenças com o presidente do clube, que o levaram a assumir o comando do Treviso, onde ficaria por três temporadas. A equipe não era exatamente uma força do futebol italiano, ainda que na Série B. Sob a tutela do ex-meia, o Treviso encerrou o campeonato nacional no 16° lugar em 1950-51, escapando, por pouco, do rebaixamento; 7° posição em 1951-52, melhor resultado enquanto ele esteve lá; e, finalmente, uma nona colocação em 1952-53.

Entrementes, o catenaccio de Rocco continuava sendo considerado uma tática de equipes pequenas. Ele só foi visto como um sistema possível de se praticar em grandes clubes quando a Internazionale, dirigida por Alfredo Foni, venceu o scudetto em 1952-53. Naquela temporada, a Inter venceu oito jogos por 1 a 0 e empatou quatro por 0 a 0. Em 34 jogos, os nerazzurri marcaram 46 gols, 27 a menos que a vice-campeã Juventus, e sofreram apenas 24. Para efeito de comparação, na época anterior, a mesma Juventus havia sido campeã balançando as redes 98 vezes.

Encerrando seu vínculo com o Treviso, Nereo Rocco retornou ao Triestina para mais uma temporada. O clube havia resistido, permanecendo na elite italiana mesmo com a ausência de seu notável técnico. O 13° lugar após a volta do treinador já dava mostras do enfraquecimento da equipe, que seria rebaixada três anos mais tarde. O grande destaque dessa segunda passagem de Rocco foi o surgimento do enorme Cesare Maldini, que se tornaria uma lenda no Milan posteriormente.

Em 1954, o técnico marchou para o Padova, onde, novamente, seus métodos tiveram notoriedade. Esse seria, até então, o trabalho mais longevo de Rocco, durando até 1961. Com a equipe na Série B, já em sua temporada de estreia, o treinador conduziu o time ao vice-campeonato e ao acesso à elite. Uma vez lá, foram seis épocas, e somente em uma o Padova encerrou o campeonato nacional abaixo do 10° lugar. Isso incluiu também uma terceira colocação em 1957-58, nove pontos atrás da campeã Juventus. Esse período é lembrado pelo modesto clube como o de maior sucesso em sua história.

Em 1960, ainda no Padova, Rocco recebeu um convite para treinar a seleção italiana nos Jogos Olímpicos daquele ano, realizados em Roma. No grupo B, a Itália foi líder, vencendo a China por 5 a 1, empatando em 2 a 2 com o Reino Unido e, finalmente, batendo o Brasil por 3 a 1. Na semifinal, a eliminação para a futura campeã Iugoslávia foi dolorosa. Após o placar permanecer 1 a 1 após a prorrogação, o confronto foi decidido através de sorteio, uma vez que não havia a disputa de pênaltis. A medalha de bronze acabou escapando após derrota para a Hungria por 2 a 1.

Em 1961, Nereo Rocco recebeu sua primeira oportunidade em uma das potências do país, o Milan. Se a Internazionale acabaria se tornando a intérprete mais notável do catenaccio, foi a metade vermelha de Milão que mostrou do que aquele estilo de jogo era capaz. Permanecendo até 1963, foi um período dourado para o clube e o treinador. Fortalecendo o sistema defensivo e construindo as ações ofensivas em torno do cérebro da equipe, Gianni Rivera, os rossoneros venceram a Série A na temporada 1961-62. O grande diferencial do jogo praticado por Rocco é que ele, diferentemente dos outros técnicos, ordenava que seus pontas voltassem para marcar o ponta adversário. Isso possibilitava que os laterais jogassem nas costas dos zagueiros, fazendo a função de líbero. Assim, em alguns momentos, sua última linha defendia com até seis jogadores. E engana-se quem pensa que essa variante tornava a equipe quase nula ofensivamente. O Milan foi o melhor ataque da competição com 83 gols marcados em 34 jogos. Defensivamente, sofreu 36.

Na temporada seguinte, a glória máxima. O título da Copa dos Campeões da Europa, o primeiro de uma equipe italiana, veio após triunfo por 2 a 1 sobre o atual campeão Benfica. Foram sete vitórias e duas derrotas, 33 gols marcados e seis sofridos. O brasileiro José Altafini, o Mazzola, foi o artilheiro da competição com 14 tentos. O time que encarou os portugueses na final era composto por: Giorgio Ghezzi; Cesare Maldini e Mario David; Mario Trebbi, Dino Sani e Giovanni Trapattoni; Víctor Benítez, Gianni Rivera, Mazzola, Bruno Mora e Gino Pivatelli.

Após o título europeu, Rocco se desentendeu com a diretoria e, antes da disputa do Intercontinental, foi assumir o Torino. Ele permaneceu em Turim até 1967, e apesar da falta de títulos, montou uma equipe que tornou a encantar a “bota” após o Grande Torino da década de 40. O ex-técnico tinha uma fama de ser muito autoritário e controlador. Chegava a espionar seus atletas quando eles deixavam o centro de treinamento, para garantir que a vida pessoal deles não iria interferir no rendimento em campo. Gigi Meroni, grande estrela daquele Torino, uma vez pediu para que sua namorada se passasse por sua irmã, numa forma de não chamar a atenção do treinador.

Nereo Rocco como treinador do Milan (1970-1971). Fonte: Wikipédia

Entretanto, Nereo Rocco estava decidido a mostrar que seu trabalho no Milan ainda não havia sido concluído. Ele retornou ao clube rossonero em 1967, onde permaneceu até 1973. Já na primeira temporada, o Milan é campeão italiano e da Cup Winner’s Cup. No entanto, o grande ano acabou sendo o seguinte, o ápice de sua carreira. O bicampeonato da Copa dos Campeões da Europa veio após uma contundente vitória de 4 a 1 sobre o Ajax. A diferença foi que, dessa vez, desavenças não foram capazes de impedir Rocco de dirigir a equipe na disputa do Intercontinental.

A decisão acabou sendo contra o Estudiantes de La Plata. Embora o Milan fosse taticamente muito bem treinado, o time possuía sua parcela de “jogo sujo”. Relatos apontam que Rocco, antes do primeiro duelo frente aos argentinos, realizado em Milão, teria dito aos seus comandados:

“Chutem tudo o que se mover. Se for a bola, melhor”.

Os rossoneros acabaram vencendo por 3 a 0. Na partida de volta na Argentina, a derrota por 2 a 1 não foi suficiente para impedir mais uma conquista daquele poderoso esquadrão. O time-base da 2° passagem de Nereo Rocco pelo Milan era composto por: Fabio Cudicini; Schnellinger, Rosato, Anquilletti e Trapattoni; Gianni Rivera, Malatrasi, Kurt Hamrin e Lodetti; Angelo Sormani e Pierino Prati.

Pierino Prati e Nereo Rocco. Fonte: Wikipédia

Durante a gestão de Rocco, o Milan ainda venceu duas Copas da Itália e outra Cup Winner’s Cup. Após deixar o clube rossonero, ele treinou a Fiorentina por uma temporada, até que decidiu encerrar a carreira como técnico em 1975. Dois anos depois, ele passou a integrar a comissão técnica do clube de Milão, que, à época, era dirigido pelo sueco Nils Liedholm. Em 20 de fevereiro de 1979, aos 66 anos, Rocco acabou falecendo na mesma Trieste em que nasceu. 13 anos depois, um estádio na cidade recebeu seu nome como forma de homenagem a um dos mais célebres cidadãos daquele lugar.

Popularmente conhecido como El Parón – “O Mestre”, no dialeto triestino – Nereo Rocco foi, além de um grande técnico, um ótimo personagem. Certa vez, pouco antes de uma partida, um dos adversários veio lhe cumprimentar e, prontamente, afirmou:

“Que vença o melhor”. Rocco, atentando-se para o estilo de jogo de sua equipe, respondeu: “Que vença o melhor? Eu espero que não”.

As táticas do triestino influenciaram seu ex-comandado e, posteriormente, treinador Giovanni Trapattoni. Ele acabaria desenvolvendo o chamado gioco all’italiana, entre outras ideias, apostava num esquema misto de defesa, que combinava a marcação homem a homem com a marcação por zona. Em 2019, na lista dos 50 melhores treinadores de todos os tempos elaborada pela France Football, Nereo Rocco ocupou a 17° colocação.


          

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Dyego Lima

Jornalista formado pela UFRN. Aficionado por esportes. Futebol principalmente, mas não somente. Made in Universidade do Esporte!  

Como citar

LIMA, Dyego. Nereo Rocco e o catenaccio na Itália. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 58, 2020.
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