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Neymar + efeito Heisenberg = outro ovo da serpente chocado

Wilson Roberto Vieira Ferreira 25 de junho de 2018
durante a partida da Copa do Mundo 2018 entre Brasil x Suica na arena Rostov na Russia
Neymar e o choro após a partida contra a Costa Rica. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Observe leitor a fotografia que abre este texto. Ela poderá explicar bastante o futuro que talvez esteja reservado para a Seleção brasileira nessa Copa. A imagem mostra Neymar Jr. correspondendo às câmeras em um flagrante do chamado “efeito Heisenberg” midiático – o jogador tenta criar algum tipo de empatia após desfilar, nos minutos anteriores ao achar que estava tudo perdido, arrogância e xingamentos que sobraram até mesmo para o próprio capitão do time, Thiago Silva. O mesmo efeito Heisenberg (no qual a mídia transmite nada mais do que os próprios efeitos que ela cria ao cobrir eventos) que levou o Brasil às cordas frente à Alemanha em 2014 (choros, hinos a capela, etc.), agora leva sincronicamente o dublê de técnico e pastor motivacional Tite e o astro Neymar Jr. ao chão: um tropeço e logo depois o choro como marcas publicitárias. Assim como muitos outros ovos de serpente chocados nos anos de neodesenvolvimentismo dos governos petistas, Neymar Jr. é mais um. Com a leniência da grande mídia e do mercado publicitário.

Dói para esse humilde blogueiro, santista futebolisticamente e de nascimento, escrever essas mal traçadas linhas: Neymar Jr. é um subproduto perverso do neodesenvolvimentismo dos governos petistas – que confundia a inclusão de brasileiros na sociedade de consumo como a própria ideia de cidadania. E agora virou a “grande esperança branca” de uma seleção convertida em modelo de sucesso mérito-empreendedor pós-golpe através de jogadores que conheceram o sucesso financeiro na Europa.

A foto acima que ilustra essa postagem fala muito mais do que mil textos que tentem traduzir sociologicamente essa situação bizarra de um jogador considerado a última bala na agulha de uma seleção de futebol milionária. Se outro jogador santista, Pelé, aos 17 anos após um golaço na final da Copa de 1958 contra a Suécia (chapéu num zagueiro, matou no peito e bateu de primeira no canto direito), caiu em choro copioso após o título mundial, agora Neymar Jr. desaba no gramado em prantos depois de fazer um gol sem goleiro contra o 25o colocado do ranking FIFA num jogo da fase de grupos da Copa.  

Neymar Jr., jovem e promissor jogador da base do Santos revelado em 2009 cada vez mais se notabilizou por vídeos em redes sociais dando pitacos contra juízes, adversários e até contra o técnico, Dorival Junior, por ter certa vez  tê-lo impedido de cobrar um pênalti em uma partida.

Pelé chora no ombro de Didi em 1958 após ser campeão do mundo aos 17 anos.
Pelé chora no ombro de Didi em 1958 após ser campeão do mundo aos 17 anos.

“Criando um monstro”

Na época, outro técnico, Renê Simões do Atlético de Goiás, chegou a falar que a mídia “estava criando um monstro”. Na medida em que seu “sucesso” futebolístico (com grande complacência da grande mídia e do mercado publicitário) aumentava sua onipresença midiática, mais e mais o jogador revelava suas origens sócio-culturais: no funk ostentação da Baixada Santista/SP – ao lado da Grande São Paulo, berço da vertente brasileira reacionária do gênero musical: musicas sobre carros, motocicletas, bebidas, além de abordar as mulheres como um mero meio de alcançar ainda mais poder material. Bem diferente da vertente carioca que tematizava a criminalidade e a vida sofrida nos morros e periferias.  

O personagem Neymar Jr. cresceu como modelo de sucesso (com direito a participação em novelas da Globo) para uma geração que via nas novas formas de consumo da egressa Classe C um canal para reconhecimento e afirmação em um País que parecia ser a bola da vez. E exibindo uma fortuna desperdiçada em carros , helicópteros, um iate para 60 pessoas e um jato particular. Riqueza ostentada sistematicamente por ele próprio e seus amigos e agregados privilegiados em redes sociais.

Hoje, Neymar Jr. é o seu próprio paroxismo: é também um subproduto do chamado “efeito Heinsenberg” (o mesmo que levou a Seleção às cordas no 7 X 1 contra a Alemanha em 2014) e que destrói o futebol brasileiro – efeito secundário produzido pelas coberturas midiáticas no qual a mídia passa a maior parte do tempo cobrindo o efeito que ela própria cria sobre os fatos: a cobertura dos esforços dos personagens transformarem-se a si mesmos em entretenimento para atrair a atenção das mídias – sobre esse conceito clique aqui.

“Neymarketing?”

Com a crescente dramaticidade do jogo contra a “poderosa” Costa Rica e, como era de se esperar, o descontrole emocional de um jogador que só parece mostrar seu talento em ambientes favoráveis de jogo, Neymar passou a xingar e desacatar o juiz, jogar a bola no chão em protesto e xingar ainda mais o adversário. Mas ainda o pior: ofendeu o capitão do próprio time (Thiago Silva) após devolver a bola num gesto de fair play.

Após o apito final, Neymar Jr. desabou no gramado chorando e escondendo o rosto. “Neymarketing”? Uma estratégia para criar empatia com o distinto público? Afinal, quando ele achava que já estava tudo perdido, desfilou arrogância, destempero e palavrões. Enquadrado em close pelas câmeras da Fifa.

O jornalista Paulo Henrique Amorim carregou as tintas na Psicanálise para diagnosticar o chiliquento Neymar: se as lágrimas forem falsa é mau-caratismo. Se verdadeira, disse o jornalista, trata-se de um sujeito psicótico – clique aquiMas talvez não seja necessário chegar a tanto. Neymar Jr. é o resultado do equívoco dos anos de neodesenvolvimentismo que chocou o ovo da serpente do novo riquismo mérito-empreendedor sem formação política ou noção de cidadania. Somado ao pós-moderno efeito Heisenberg midiático.

Muito mais do que o metrossexual Cristiano Ronaldo, que a todo momento olha o seu rendimento visual no telão do estádio, em Neymar há algo de muito mais insidioso: a leniência da grande mídia e dos brasileiros.

Um "ativo financeiro" da indústria de lavagem de dinheiro no futebol?
Um “ativo financeiro” da indústria de lavagem de dinheiro no futebol?

Efeito Heisenberg e tautismo

Para a grande mídia, Neymar cumpre o script perfeito – as mídia cobrem um personagem que se esforça em capturar a atenção das câmeras. Em última instância, a mídia cobre a si mesma, confirmando o seu tautismo (tautologia + autismo midiático) crônico.

Ao mesmo tempo, a seleção sofre nessa Copa as mesmas mazelas que a vitimaram na Copa anterior – com o circo midiático 24 horas em volta da Granja Comary, a concentração acabou se tornando na época um gigantesco estúdio a céu aberto com personagens que respondiam prontamente às câmeras e jornalistas: jogadores cantando o hino segurando a camisa de Neymar Jr., o apresentador global Luciano Huck interrompendo treinamento para realizar um sonho de um deficiente físico e fazer jogadores chorarem entre outros episódios.

Lá em 2014, a mídia criava a narrativa de um time que chorava antes das decisões, desorganizado, confrontado com a frieza e precisão organizacional germânica – lembrem-se da história de um software exclusivo usado pelo técnico da seleção alemã. A Seleção era a metáfora de um País supostamente à beira do abismo, ingovernável, de uma Copa tida como corrupta que roubava verbas para a Saúde e Educação.

CT Meninos da Vila em Santos: uma geração inteira anseia seguir os passos de Neymar Jr.
CT Meninos da Vila em Santos: uma geração inteira anseia seguir os passos de Neymar Jr.

Leniência da opinião pública

Agora, é leniente com um jogador que, assim como Messi, CR7 entre outros, chegaram aos grandes clubes europeus através de transações obscuras que invariavelmente tentaram fugir dos impostos, sob o guarda-chuva de organizações ainda mais corruptas como Fifa e CBF – sem falar das também obscuras transações pelos direitos de transmissão exclusiva da Globo.

De membro de um grupo desorganizado e em crise (reflexo de um País sacudido por manifestações de rua diárias), retirado por uma oportuna contusão às vésperas do “mineiraço”, Neymar Jr. se torna nesse momento o símbolo do “agora vai ser diferente” e do “grupo que acreditou que pode vencer”, “que fez por merecer”, do “uma só torcida que muda o jogo”, como nos ensina a campanha do Banco Itaú, patrocinadora da Seleção.

Mercado publicitário e grande mídia fabricam a leniência da opinião pública à arrogância e grosseria novo riquista de Neymar Jr. E o jogador corresponde, atraindo as câmeras para tentar criar algum tipo de empatia publicitária.

As imagens repetidas até a exaustão das duas grandes estrelas do time indo ao chão como uma espécie de desabafo (o técnico pastor motivacional Tite tropeçando em si mesmo na comemoração do gol e o chorão Neymar Jr.) poderão ser proféticas: se o efeito Heisenberg sufocou a Seleção em 2014, agora em 2018 não está sendo diferente – lá a pátria calçava chuteiras para um golpe político dois anos depois; nesse momento, calça as chuteiras do wishiful thinking do mercado publicitário e da grande mídia.

Neymar Jr. é a tentativa do mercado publicitário e midiático criar algum tipo de ligação emotiva dos torcedores com um time “europeu” que passa grande parte do ano longe da realidade do entediante campeonato brasileiro. Porém, o mais triste em toda essa história é saber que no Centro de Treinamento Meninos da Vila, do Santos F.C., está repleto de jovens que emulam as atitudes e hábitos do astro, ansiosos em trilhar os mesmos passos ao som de um funk ostentação.

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Como citar

FERREIRA, Wilson Roberto Vieira. Neymar + efeito Heisenberg = outro ovo da serpente chocado. Ludopédio, São Paulo, v. 108, n. 30, 2018.
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