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No céu dos nossos

Matías Izaguirre 14 de maio de 2022

Durante muitos anos, Diego compôs uma sinfonia na qual foi construindo um nós. Um nós enriquecido, articulado e fusionado com patches de memória e as reivindicações pessoais que cada um agregou ao que aconteceu em campo. Essa melodia coral nunca conteve somente futebol.

Maradona
Foto: Matías Izaguirre.

“Às vezes, quando descubro que não escrevi uma só frase depois de ter rascunhado páginas inteiras, eu desabo no meu sofá e aí permaneço, marcado, afundado em um pântano de desespero, me odiando e me culpando por este orgulho demente que faz com que eu faça birra por uma quimera”
Gustave Flaubert (de uma carta a Louise Colet)

Um jornalista jamais deveria renunciar à palavra para tentar compreender o tempo que lhe toca viver, mas há vários dias estou como Flaubert: afundado em um pântano, em reprovação por não conseguir um texto à altura das circunstâncias. Mas é que morreu Maradona. E o violento ofício de escrever exige palavras quando, como também sabem em Nápoles, agora é tempo de chorar.

Apenas algumas horas depois de saber da notícia, o jornalista Carlos Romero sintetizou o que acontecia em Buenos Aires. Em sua conta no Twitter, escreveu que a rua dava a sensação de que “morreu o mesmo familiar de todos nós”. E isso, tenho certeza, aconteceu em todos os cantos da Argentina.

Uma primeira certeza em meio à dor. Há mais de uma semana choramos. Choramos por Ele, mas também por nós. Pelos que já não somos e pelos que já não estão. Choramos por “um pedaço de vida” como disse Goyco — herói na Copa da Itália 90 e amigo do Diez — afogado em prantos ao vivo pela TV Pública. É muito provável que com o Diego algo dentro de nós também tenha se apagado para sempre.

Em seu maravilhoso Febre de Bola, Nick Hornby reconhece que “se apaixonou pelo futebol como mais adiante se apaixonaria pelas mulheres: de repente, sem explicação, sem fazer exercício de suas faculdades críticas, sem pensar em nada sobre a dor e nos sobressaltos que a experiência traria consigo”.

Do mesmo jeito nos apaixonamos pelo Diego aqueles que, como meu irmão e eu, começamos a ver futebol no final dos anos oitenta. Porque nossas primeiras lembranças futboleras estão tingidas, de maneira indefectível, pelos jogos da seleção. E esses foram os anos dos heróis. Os anos de Maradona e seus feitos homéricos. A educação sentimental. O decolar do gênio não precisa de intermediários nem de exegetas.

Maradona Maradona
Maradona
Fotos: Matías Izaguirre.
 

A arte, quando atravessa você de um lado a outro, eleva a experiência individual, se funde com o que é transcendental e no mesmo gesto, com o que é coletivo. Não é em vão que em Nápoles cantam e seguem cantando: “eu vi o Maradona, apaixonado estou”.

Minha geração aprendeu a amá-lo quando, inclusive sem ainda entender muito a complexidade do jogo, as táticas ou os times, percebemos que assistíamos ao extraordinário. Não tínhamos nem dez anos quando já tínhamos assumido que aquele com o 10 nas costas era muito mais que qualquer um “dos bons”. Esse sujeito, além de tudo, fazia os adultos da família chorarem de alegria.

Como Hornby, jamais imaginamos a dor e as sensações violentas que traria, mais adiante, essa devoção. Entretanto, quando descobrimos, ao invés de abandoná-lo à própria sorte, continuamos amando ele. Talvez, inclusive, até mais do que antes. Nós fomos leais a ele. Apesar de tudo, o mantemos vivo no santuário que havíamos erguido dentro de nós mesmos. Porque, como sugere uma frase atribuída a Fontanarrosa, não nos importava o que Ele tinha feito com sua vida, importava o que havia feito com as nossas.

Se “a bola não se mancha” nossas memórias também não. Sacheri em Me van a tener que disculpar escreveu de uma forma simples a eficácia maradoniana. “Os que estamos deste lado não temos outra alternativa que responder em um campo, porque não temos outro lugar, porque somos poucos, porque estamos sozinhos, porque somos pobres. Mas aí está o campo, o futebol, e somos nós ou eles.”

Nós ou eles. E Diego durante muitos anos compôs uma sinfonia na qual foi construindo um nós. Um nós enriquecido, articulado e fusionado com os patches da memória e as reivindicações pessoais que cada um agregou ao que aconteceu em campo. Essa melodia coral nunca conteve somente futebol. Diego nos ensinou a ganhar e a ser felizes em um mundo onde, geralmente e longe dos campos, estávamos acostumados (e nos acostumamos) a perder.

 

No dia 26 de novembro, um depois da morte de Maradona, diante da impossibilidade de ir despedi-lo na Casa Rosada, e quase na mesma hora em que começava o velório e a grande peregrinação de centenas de milhares de pessoas pelo centro de Buenos Aires, fui até a Paternal. Primeiro passei pelo estádio do Argentinos Juniors e depois pela casa da rua Lascano, essa que ele comprou a don Diego e doña Tota assim que assinou o seu primeiro contrato profissional.

Nos altares se multiplicavam as flores, camisetas, fotos e cartazes urgentes que diziam, entre outras coisas, “boa viagem” e “obrigado”. E o que dizer a este sujeito, eu me perguntava e continuo me perguntando. Como podemos chorá-lo assim e como poderia ser diferente? Nós estamos presos a ele por uma dívida de gratidão impagável.

Artistas como Diego — disse Bielsa ao ser perguntado pela imprensa britânica — nos fazem acreditar que todos somos capazes de fazer as mesmas coisas que eles. “Por isso a perda de um ídolo atinge tanto os mais excluídos, os mais indefesos porque são os que mais necessitam acreditar que é possível triunfar”.

Talvez por isso não me surpreendeu tanto constatar que os mais emocionados diante dos altares da Paternal tenham sido, principalmente, os trabalhadores. Garis abraçados em frente a casa da rua Lascano, um passeador de cachorros ou os muitos caminhoneiros que deixavam seus veículos em fila dupla para descer e rezar por um breve instante antes de seguir com as entregas do dia.

Pela televisão também se multiplicavam os depoimentos daqueles que habitualmente são excluídos. Gente que, enquanto acendia uma vela ou fazia fila para entrar na Casa Rosada, não duvidou em contar que nesse mundo de privações e fome, Diego deu as únicas alegrias.

Dizem que nos últimos tempos ele estava triste e muito sozinho, que já não se sentia à altura de sua lenda. O sujeito que nos fez chorar e pular de felicidade diante da televisão, abraçados aos nossos, estava sozinho. Ele se apagou como o fogo que já tinha mais como seguir queimando para alimentar o mito. Restava a última madeira: sua carne mortal.

Maradona Maradona
Maradona
Fotos: Matías Izaguirre.

Tomara que ele saiba, de alguma forma, que nunca deixamos de amá-lo e que nunca deixaremos de amá-lo. Tomara que tenha recebido as preces de todas as crenças.

Tomara que se divirta ao ver que o cruzamento das ruas Segurola e Habana, no burguês bairro de Devoto, se tornou de agora e para sempre em uma das paradas obrigatórias no caminho do Diez: Diego cruzamento com Maradona, comuna 10.

Vivemos os dias de Maradona. Ainda não sei se conseguiremos dimensionar o que isso significa. Fomos contemporâneos de uma lenda que, é de se imaginar, crescerá exponencialmente com cada relato, com cada história. Diego já está em nós e, ao mesmo tempo, está muito além de nós. Não puderam domesticá-lo em vida. Menos ainda agora, que seu rosto se multiplicará nos altares pagãos, camisetas e peles.

Belos milagres serão atribuídos a ele. E ocorrerão…


Puntero Izquierdo menorPublicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2020. O Puntero em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.

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Como citar

IZAGUIRRE, Matías. No céu dos nossos. Ludopédio, São Paulo, v. 155, n. 15, 2022.
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