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No mundo das chuteiras rosas

Wagner Xavier de Camargo 30 de setembro de 2018

Na semana passada o mundo “macho” do futebol masculino foi abalado com o lançamento no mercado de uma chuteira tecnologicamente avançada, com design futurista, porém “rosa”. A criação é da Adidas e ela foi nominada predator spectral mode. Porém, o advento não agradou, principalmente a torcedores/as. Bastou futebolistas conhecidos (e patrocinados pela empresa) postarem mensagens nas redes sociais, que as reações foram as piores possíveis: no Instagram do gremista Pedro Geromel, o qual sigo, apesar das quase 50 mil curtidas na foto em que ele segurava a nova chuteira, centenas de outros comentários se acumulavam (rapidamente) para torná-lo alvo de chacota ou defendê-lo. Outros jogadores como Jucilei da Silva, volante e zagueiro do São Paulo, e Mesut Özil, ponta direita do Arsenal, também agregaram opiniões preconceituosas abaixo de suas fotos com a chuteira “rosa”.

Bem, aí que vemos como paira o preconceito e a intolerância dentro das relações estabelecidas no futebol, esporte que é o epíteto da masculinidade bruta nacional. “Chuteira-barbie”, “acessório de princesa”, “chuteira-moranguinho: vai virar gay agora?” foram algumas das pérolas endereçadas a Geromel. As pessoas trazem para dentro do futebol suas questões mal resolvidas, como se a cor de um implemento esportivo fosse definir gênero, redefinir orientação sexual, ou inaugurar nova tendência de comportamento pessoal. Ninguém comentou sobre o design, o material ou a ergonomia do calçado; o foco foi, obviamente, a cor.

A Adidas fez ampla divulgação das cores da predator: são tons pasteis, que vão do azul-bebê, passando pelo verde claro e branco-acinzentado, chegando ao rosa-salmão. Mas o que fica é a insistência monocromática do taxativo rosa, associado ao universo feminino, e construído discursivamente como uma cor “pueril”, “sensível”, “frágil” e de uso específico de mulheres. E é aqui que o equívoco se estabelece: a insistência em atrelar a cor “rosa” para mulheres e a “azul” para homens. O binarismo cromatográfico (e limitado) do senso comum atrela todas as características do sexo e de gêneros a apenas duas cores! Por exclusão, quem “se confunde” entre essas cores é indefinido, digno de sofrer piadas ou ser taxado de gay, “viado”, “bichinha”, bissexual, etc.

Esse argumento participa da lógica de um sexo construído pré-discursivamente (antes da cultura) e, portanto, atrelado à biologia. Por esta linha de raciocínio, nasce-se homem ou mulher. Qualquer derivação disso está fora das considerações e será colocado no domínio das aberrações, das dissidências, das anormalidades. Como a filósofa estadunidense Judith Butler dissera: “[…] está claro que colocar a dualidade do sexo num domínio pré-discursivo é uma das maneiras pelas quais a estabilidade interna e a estrutura binária do sexo são eficazmente asseguradas.” (Problemas de Gênero, 2003, p. 25).

Ou seja, no pensamento estanque de torcedores/as preconceituosos/as, homens somente serão homens se usarem azul e mulheres, pela mesma lógica, se vestirem rosa! Mas por que mesmo homens não podem vestir rosa e mulheres, azul? O que os faz pensar que jogadores (mesmo publicamente heterossexuais), ao usarem a cor rosa nas chuteiras de futebol, terão suas sexualidades transformadas e se tornarão “homossexuais” ou “gays”? E mais: como é possível atrelar comportamentos sociais a cores? Isso abre prerrogativas perigosas, de preconceitos estabelecidos e fobias instituídas (homofobia, bifobia, transfobia, misoginia), que atingem a adultos, adolescentes, crianças, bebês.

chuteirarosaadidas
Spectral Mode Predator.

Acredito que passamos da hora, enquanto sociedade, de repensarmos as convenções estabelecidas socialmente, principalmente, no tocante ao gênero e à sexualidade. Cores não determinam gêneros ou orientações sexuais! Infelizmente, nos esportes (e, igualmente, no futebol) somos afetados por tais convenções e se faz fundamental revermos isso.

Particularmente, nessa era dos “likes”, em que a informação corre muito rápido e é acessada por milhares de pessoas, nunca questionamentos sobre o que lemos ou vemos foram tão essenciais. E, ao contrário, do que se pensa acerca do futebol ser um “mundo à parte”, devemos, sim, trazer o que nele se passa sob luz crítica, desapaixonada, sem o receio de esvaziá-lo de sentido, como afirmam algumas pessoas.

Ao mesmo tempo em que temo serem eternas essas problemáticas de gênero no futebol (que dizem respeito à sexualidade de atletas, ao desrespeito às mulheres futebolistas, ao não reconhecimento da prática esportiva de sujeitos não heterossexuais), penso num mundo em que cores não sejam restritivas de ações e que meninos, meninas ou crianças não binárias possam escolher suas cores preferidas em roupas, brinquedos, acessórios e afins sem sofrerem preconceitos instituídos; que jogadores e jogadoras possam se expressar livremente, por meio de suas ações (técnicas, táticas, mas também afetivas), dentro e fora de campo; que possamos, um dia, viver num “mundo de chuteiras rosas”, no qual essas vão ser tão somente um modelo de uma cor dentre tantas outras possíveis.

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. No mundo das chuteiras rosas. Ludopédio, São Paulo, v. 111, n. 30, 2018.
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