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No quadro de medalhas, ‘País LGBT’ estaria em 6º lugar

Wagner Xavier de Camargo 15 de agosto de 2021

Os Jogos Olímpicos de Tóquio terminaram e podem ser considerados os mais “LGBT” da história: deixaram os do Rio-2016 para trás, pois se naquela época cerca de 56 atletas se autodeclararam lésbicas, bissexuais e gays, nesta edição japonesa tais participações aumentaram e mais de 180 atletas se disseram não estar alinhados/as/es com a matriz heteronormativa em vigor no esporte.

E atualmente a sigla não é tão curta como antes. Pode-se expandi-la para LGBTTTQIAPN+, ou seja, um aglomerado de distintas orientações sexuais e identidades de gênero, composto por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, queer, intersexos, a-gêneros/assexuais, pansexuais, gêneros neutro e demais. Não que se encontre toda essa tipologia nos Jogos Olímpicos, nem que tal aumento tenha relação com o esporte, mas é interessante perceber como nesse lugar tudo tem se tornado mais visível.

Portanto, se fossem cidadãos de um país, tais atletas o colocariam em 6º lugar no ranking do quadro de medalhas, com um mínimo de 33 delas conquistadas. Além disso, segundo Juwan Holmes (2021), o denominado “Team LGBTQ” (ou Equipe LGBTQ) teve

“(…) mais atletas nos Jogos do que 190 das 206 seleções olímpicas participantes – 205 de diferentes países ou territórios participantes de forma independente (como Porto Rico e Samoa Americana), e uma equipe formada por atletas refugiados”.

Conforme as pesquisas avançam, particularmente na História do Esporte, necessário frisar que essa diversidade sempre se fez presente no campo esportivo, porém era sufocada desde de dentro. Atletas como Martina Navrátilová (tênis), David Kopay (futebol americano) e Greg Louganis (saltos ornamentais) desenvolveram grande parte de suas carreiras esportivas mantendo sigilos sobre suas sexualidades. Mesmo Stella Walsh, campeã olímpica dos 100 metros rasos em 1932, que viveu toda a vida com uma atleta cisgênero e heterossexual no atletismo, ao morrer em 1980 foi declarada uma pessoa “hermafrodita” (hoje chamada intersexo).

Stella Walsh
Stella Walsh. Foto: Wikipédia

No entanto, pelo fato do campo esportivo ser taxativo quanto à categorização de corpos como de homens ou mulheres, e mesmo quanto ao sexo associado às únicas duas possibilidades de gênero (masculino e feminino), poucos atletas afrontaram a matriz heteronormativa na trajetória do esporte moderno enquanto estavam em atividade, notadamente desde 1896.

De volta ao quadro de medalhas, a “Equipe LGBT” causaria inveja a muitos países da Tóquio-2020, inclusive ao Brasil, que conquistou um total inédito (porém, sofrível) de 21 medalhas. O critério de contagem, no entanto, acabaria ficando sem sentido, pois no total angariado por tal “Equipe” haveria medalhas de atletas LGBT de esportes coletivos, ou seja, de modalidades que são compostas por muitas pessoas. É o que temos, por exemplo, quando comparamos dois resultados brasileiros: a prata de Carol Gattaz, atleta lésbica do voleibol, e o ouro de Ana Marcela Cunha, maratonista aquática. Gattaz não ganhou sozinha a medalha, mas seu resultado é contado no bojo dos resultados LGBT.

Carol Gattaz
Carol Gattaz. Foto: FIVB/Fotos Públicas

Como se sabe, o quadro de medalhas é uma invenção que serve ao propósito de mostrar um privilégio de dado país, a supremacia de um sistema ou ainda a importância de um conjunto de valores. Foi assim que funcionou, nos anos da Guerra Fria, em que claramente mostrava a disputa entre Estados Unidos e União Soviética pelo cooptação de países para o capitalismo e para o socialismo, respectivamente. Ambos as nações disputavam medalha a medalha quem liderava o famoso ranking.

E assim vimos nesta edição dos Jogos de Tóquio. Enquanto que os chineses contavam o total de medalhas de ouro e colocavam seu próprio país em primeiro lugar no acumulado das conquistas, nos EUA o que era divulgado era o total de medalhas alcançado. Pelos critérios da China, ela estava em primeiro. Pelos dos norte-americanos, eles lideraram tal quadro durante toda a competição. Mais do que marcas e resultados esportivos, estavam aí colocados modelos socioeconômicos que se pretendem hegemônicos no globo.

Outros indicativos também foram especulados por especialistas, de acordo com o jornalista Robin Levinson-King, num suposto “quadro alternativo” de medalhas  Por exemplo, num ranking em que fosse levasse o número de medalhas conquistadas por milhão de pessoas, San Marino ficaria em primeiro e os EUA no 60º lugar; ou ainda, se fosse tomado o PIB (Produto Interno Bruto) per capita (por habitante) dos países participantes, China e Rússia ficariam nas duas primeiras posições, o Brasil na prestigiosa 8ª colocação e os EUA no 15º.

Sempre vão existir especulações que tentam mostrar a realidade por meio de pontos de vista particulares, que favorecem obviamente aqueles que os escolheram. No tocante às/aos atletas LGBT, por mais que contrariem as instituições de controle no esporte e seus dirigentes, não há mais volta: tais atletas já fazem parte da realidade do esporte espetáculo (olímpico ou não) e vão continuar aparecendo.

Tom Daley
Tom Daley. Foto: Reprodução/Instagram/@tomdaley

O recrudescimento da onda conservadora mundial e mesmo os mecanismos de controle não vão apagar ou silenciar posicionamentos políticos como os de Thomas Daley, saltador britânico ganhador de duas medalhas, que afirmou “Sou gay e sou campeão olímpico”, ou o gesto de Raven Saunders, estadunidense negra que, no pódio de prata do arremesso de peso, cruzou os braços em “x” sobre a cabeça em favor dos oprimidos e invisibililzados.

De agora em diante, cada edição olímpica de verão será mais e mais LGBTTTQIAPN+. Isso vai se desenrolar a ponto dessa sigla continuar crescendo exponencialmente, chegando a um ponto em que as pessoas vão perceber que não têm mais sentido discriminar e excluir ninguém, pois elas próprias serão parte das inúmeras e distintas representatividades ali em cena.

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. No quadro de medalhas, ‘País LGBT’ estaria em 6º lugar. Ludopédio, São Paulo, v. 146, n. 28, 2021.
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