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Noa Stroeter: a musicalidade nos pés que jogam, o drible nas mãos que tocam

No livro Família joga bola, o pesquisador e ludopédico antropólogo Enrico Spaggiari analisa histórias de vida de garotos humildes, que frequentam as escolinhas e projetos sociais no contexto do futebol praticado nas periferias. Mitigar mazelas sociais via esporte e o anseio de ascender socialmente acompanham as intenções de muitos atravessadores que buscam revelar novos talentos para os clubes profissionais. Claro que tais investimentos são embalados também pelos sonhos dos próprios jovens e pelas expectativas familiares glamourizadas, não raramente exageradas e irrealizáveis.

Projetos esportivos pessoais, vividos com menos dramaticidade, se pensados fora dos contextos de vulnerabilidade socioeconômica descrito por Spaggiari, também são experimentados por jovens oriundos de outras classes sociais, que acalentam, legitimamente, sonhos semelhantes. Afinal, não se diz sempre por aí que todo garoto, e cada vez mais garotas, querem se tornar esportistas profissionais?

Se famílias de extratos sociais distintos parecem jogar juntas as mesmas esperanças de sucesso de seus meninos e meninas, sabemos que são bem outras as pelejas travadas na vida real por conta das determinações e limites impostos a cada classe, que é de onde partem esses jovens para tentar a sorte e ganhar o mundão.

Calma leitor, não estamos querendo defender outra tese. Só gostaríamos de chamar a atenção para os sonhos, que podem se tornar ferozes adversários e borrar um tantinho os planos de muitos jovens e suas famílias. Saber driblar as aspirações futebolísticas quixotescas com sensibilidade também passa a ser uma peleja pessoal jogada contra toda sorte de infortúnios encontrados pelo caminho.

Noa Stroeter
Noa Stroeter. Foto: arquivo pessoal

O músico Noa Stroeter é um desses privilegiados da sensibilidade pessoal e familiar, mais até do que pela condição socioeconômica de classe, que certamente o favoreceu nessas difíceis escolhas de menino, se comparado aos garotos das periferias. A ele foi concedido o direito de experimentar com liberdade e amparo familiar vários de seus sonhos, que, em verdade, foram dois: o futebol e a música. O transcurso da vida o fez optar por um deles, mas não calou o outro. Ambos, revividos conosco num belo relato, retrata bem as peripécias de meninos que teimam correr atrás da bola.

Uma história familiar que pode ser contada no tracejar sutil de linhas que o levam continuadamente a experimentar, de perto e como protagonista, a cultura bidimencional de um país que há tempos é reconhecido pela plasticidade de seu futebol e pela riqueza melódica e rítmica da sua música. Diretamente da cena musical instrumental brasileira um pouco da humildade, sensibilidade e talento de Noa Stroeter.

As imagens do país do futebol e do país detentor de uma música tão singular quanto universal têm na família do Noa uma presença marcante: Zulma Stroeter, avó paterna, foi uma funcionária do Instituto Butantan que frequentava o ambiente radiofônico no auge da era do rádio. Filha de um ferroviário e jogador do Nacional Atlético Clube, o azul e branco querido da pauliceia, viveram, ambos, pai e filha, a atmosfera do semi-profissionalismo, que, não raramente, arrebatava sonhos e vocações no campo da cultura urbana desde os primeiros decênios do século XX.

Zulma se casaria com um advogado em ascensão, que também militava nas várzeas da cidade. Noa ainda puxa pela memória a passagem do avô pelo Rio de Janeiro, que chegou a jogar nas divisões de base do Botafogo, inclusive presenciou o mitológico Garrincha nos treinos. “Meu pai é que conta essa história melhor”, se resguarda.

Esse imbricamento caseiro da música com futebol, marca das gerações ascendentes em sua família paterna, seria transmitido aos descendentes. O pai, Rodolfo Stroeter, consagrado contrabaixista, produtor musical e um dos criadores do aclamado grupo instrumental Pau Brasil, também é entusiasta e adepto da várzea, chegando a fundar times pela cidade, tal como o Pituba, revela. Já o tio, o vibrafonista Guga Stroeter, outro artista destacado na cena instrumental e fundador do quinteto Nouvelle Cousine e da Orquestra HB, acompanharia o irmão na boleiragem. Mas, obviamente, é uma família que desde sempre também se ligou no futebol dos grandes times, como torcedores.

Noa se proclama são-paulino por causa do Carlão, o referido avô, que, antes do neto, “traía” o time do coração ao levar os filhos, o pai e o tio, para assistirem aos jogos do Santos. Afinal, “naquela época todo mundo era meio santista” por causa de Pelé, relativiza. Posteriormente, o próprio pai, Rodolfo Stroeter, produziria um disco do rei do futebol, que numa época cultivava um violão caseiro e arrematava umas composições. Já nosso personagem, o Noa, é nitidamente um torcedor bi-filiado, justamente por culpa do Nacional.

“A família é absolutamente fanática por futebol, acho que eu sou o mais tranquilo”, pondera Noa. Que nada! As imagens daquele menino rompedor de espaços, perseguidor implacável da bola, avançando com destemor sob os olhares incrédulos dos neófitos adversários abatidos, desmentem as memórias do músico. Sua trajetória de boleiro no mesmo clube tradicional da Barra Funda, o Nacional, sempre o Nacional, revela que o chamamento e o gosto esportivo familiar o capturaram precocemente, e, desde os cinco anos, fixou-se nas teias de uma iniciante carreira de federado no futebol de salão.

Lembra que motivados por uma final de campeonato em que disputaram contra o Corinthians, quase todos aqueles garotos do time da base do salão do Nacional seriam convidados a prosseguir, numa oportunidade de carreira no alvi-negro do Parque São Jorge. Noa, no entanto, declinaria: “a gente foi chamado para treinar lá. Mas no fim, eu não fui, cara (…) era longe e eu já tinha outras possibilidades, já estava querendo ser músico, despertando um negócio muito avassalador (…) e tocar um instrumento é coisa também que demanda muito”.

Aos 13 ou 14 anos uma torção reincidente no tornozelo e rompimento de ligamentos num jogo em Santos, disputado entre o Nacional e o Portuários, arrefeceria de vez a vocação futebolística. Ali em Santos, naquela ocasião, ouviu falar sobre um guri que despontava no Portuários, e que depois ganharia notoriedade, posteriormente conhecido como Robinho, aquele mesmo das famosas “pedaladas”. No futebol de campo, Noa ainda atuaria como meia direita em vários times varzeanos na cidade de Guarulhos: no Engenheiros, no Guarulhos Futebol Clube, relembra.

Noa Stroeter
Noa Stroeter atuando pelo Nacional. Foto: arquivo pessoal
Noa Stroeter
Noa Stroeter atuando pelo Nacional. Foto: arquivo pessoal

O encantamento da música popular o desencaminharia do futebol. Nessas experimentações, primeiro veio a guitarra e o rock, para depois, paulatinamente e sem atropelos, abraçar a música brasileira nas dicas certeiras do pai, mas sem dogmatismos. O senso de equipe parece tê-lo acompanhado na carreira de contrabaixista. Precocemente foi convocado pelo tio para as pelejas musicais nas madrugadas paulistanas, antes da maioridade. Suas passagens erráticas pela Europa, se aventurando e tocando um pouco de tudo dos estilos brasileiros, ali e acolá, ganharam seriedade com a bolsa de estudos que, relex e “sem preparar nada”, acabou conquistando em Haia, na Holanda. Essa experiência, graduação e mestrado, totalizado seis anos, foi decisiva para formalizar sua profissão de músico.

À formação do duo instrumental Caixa Cubo, composto pelo pianista Henrique Gomide e o baterista João Fidelis, Noa juntaria seus contrabaixos, formando um trio versátil de sonoridades diversas, bem recebido pela crítica. No primeiro CD, Misturada, de 2014, registra-se uma homenagem mais que oportuna, “Bolero pra Zulma”, de lírico tratamento, nas palavras do crítico musical Carlos Calado. Ambientado na cancha da música instrumental, Noa não parou mais. Lançou “Prece”, seu primeiro CD solo, em 2020. A avó ainda ganharia uma homenagem do tio e da família num disco que deixa registrada a vocação de cantora da matriarca.

Há alguma relação estética entre futebol e música? Noa, aquele “menino” que, intuitivamente, juntou musicalidade aos dribles inesperados, nos deixa algumas dicas a partir das experiências musicais e peladeiras com os amigos do Caixa Cubo pela Europa. Indagado se os “meninos” também jogam bola, lança sua própria tese. Vejam no vídeo:

De resto, uma discussão prá lá de necessária, ainda mais no momento em que uma espectral elite política retrógrada, para dizer o mínimo, pisoteia a cultura do país tal qual um zagueirão desajeitado e desafinado, que desaba de grossura na zona do agrião.

Noa Stroeter

Referências

Spaggiari, Enrico. Família joga bola. Jovens futebolistas na várzea paulistana. São Paulo: Entremeios/Fapesp, 2016.

Guga Stroeter & Orquestra HB apresentam: Zulma e família Stroeter. 92 anos de amor 

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Kike Toledo é antropólogo e sambista nas horas vagas. Eduardo Camargo é multi-instrumentista, arranjador e aprendiz de antropólogo nas horas vagas. Ambos vagueiam e compõem. Para conhecer seus trabalhos acessem os álbuns

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Kike Toledo

Kike Toledo é sambista, torcedor e antropólogo.

Como citar

TOLEDO, Luiz Henrique de; CAMARGO, Eduardo. Noa Stroeter: a musicalidade nos pés que jogam, o drible nas mãos que tocam. Ludopédio, São Paulo, v. 146, n. 37, 2021.
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