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Notas diversas sobre Palmeiras, Chelsea, imprensa e abismos

Gustavo Dal'Bó Pelegrini 16 de fevereiro de 2022

Apesar de todos os esforços, ainda não foi dessa vez que o Mundial se dirigiu ao Palestra Itália. Os comandados de Abel Ferreira lutaram com todas as forças contra o campeão europeu Chelsea na final, mas o troféu acabou ficando com o clube inglês. Longe de ser uma disputa de igual para igual, tanto o resultado quanto o andamento do jogo em si refletiram o gigantesco abismo econômico que separa o futebol europeu do resto do mundo.

O desempenho do Palmeiras na competição é digno de muitos elogios. A equipe conseguiu apagar a péssima impressão deixada no Mundial do ano passado, vencendo com autoridade a semifinal contra os egípcios do Al Ahly e fez um jogo duríssimo na final contra um adversário infinitamente superior. Para isso, contou também com o incrível apoio de sua torcida, que a despeito da situação pandêmica e econômica em que se encontra o Brasil, se deslocou aos milhares para Abu Dhabi e fez os jogos terem o clima do Allianz Parque. Porém, se queremos entender de forma realista qual é a real força do futebol sul-americano nessa década, é preciso ressaltar o quão superior era o time do Chelsea, diferentemente do que grande parte da imprensa esportiva fez na cobertura da competição, seja por ignorância, seja por leviandade.

Palmeiras x Chelsea
Chelsea e Palmeiras antes do início da partida final. Foto: Fábio Menotti/Palmeiras.

Os atuais campeões europeus (e, agora, mundiais) podem não ser o maior exemplo da história de esquadrão imbatível, mas passam muito longe da equipe de pouco valor que foi pintada nos programas esportivos que antecederam o confronto final. O Chelsea conta com jogadores como Mendy, Thiago Silva, Rudiger, Jorginho, Kanté, Havertz, Kovacic e Lukaku, todos atletas do mais alto nível do futebol mundial. Uma equipe que, segundo o site Transfermarket, vale cinco vezes mais que a equipe palmeirense (883 milhões de euros contra 180 milhões), e contava com os 17 jogadores mais valiosos da competição.

Vendo esses dados, é simplesmente inacreditável que comentários que menosprezavam o clube inglês tenham acontecido com tanta frequência na mídia esportiva. É claro que, em um jogo de futebol, qualquer resultado é possível, e que portanto o Palmeiras poderia sim sair com o título. Mas dizer que as equipes estavam minimamente em pé de igualdade, ou que os jogadores palmeirenses são da mesma qualidade que os do adversário, são discursos que beiram o ridículo.

Ridículo esse que foi alcançado com louvor quando o comentarista Edmundo, no início do segundo tempo, afirmou que o centroavante belga Romelu Lukaku era “desprovido de técnica” e se sobressaia apenas na força física. Este tipo de comentário, baseado em puro racismo, infelizmente não é algo novo no mundo do futebol. Em 2020, uma pesquisa realizada pela RunRepeat nas ligas inglesa, espanhola, francesa e italiana apontou que jogadores negros tem uma propensão significativamente maior de serem elogiados por suas atribuições físicas do que por sua inteligência, por exemplo, e o próprio Lukaku já afirmou perceber que dificilmente era elogiado por questões que não fossem seu desempenho físico.

No Brasil, essa ideia do negro como um indivíduo fisicamente superior, mas sem as mesmas valências técnicas e emocionais do branco, já era posta pelo sociólogo Gilberto Freyre de forma explícita no prefácio do clássico livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho, em 1947, sendo tal racismo perpetuado até os dias de hoje. Esse racismo expresso por Edmundo não deve ser entendido como uma falta de caráter ou falha moral do ex-jogador de forma individualizada, e sim como uma expressão do racismo estrutural presente na formação de nossa sociedade, que condiciona as relações sociais sobre esse viés. A resposta de Lukaku veio em campo minutos depois, com um cabeceio tecnicamente perfeito e o placar aberto.

Voltando ao jogo em si, o desenrolar da partida aconteceu como era de se esperar. O Palmeiras se fechou com perseguições individuais e uma linha de seis defensores em muitos momentos do jogo, buscando recuperar a bola e partir de forma rápida no contra-ataque. O Chelsea invariavelmente ficou com a posse de bola, mas tendo pouquíssimas chances de finalização claras. O empate em 1×1 no tempo normal foi justo para o que foi apresentado por ambas as equipes, com Veiga marcando de pênalti poucos minutos depois do gol de Lukaku. Os jogadores palmeirenses, com uma entrega sobre-humana durante 90 minutos, acabaram sentindo mais o cansaço do que o time inglês, e a equipe acabou ainda mais encurralada na prorrogação do que esteve durante o tempo regulamentar, com ainda menos opções de saída em velocidade. Já da metade para o fim do segundo tempo da prorrogação, um lance de azar acabou decidindo o jogo. A bola bateu na mão de Luan, e um pênalti foi marcado com auxílio do VAR. Gol de Havertz e o título mundial decidido a favor dos ingleses.

Após o jogo, muito começou a ser discutido sobre o que o Palmeiras poderia ter feito de diferente para sair com a vitória. Alguns dizem que deveria ter ficado mais com a bola, outros que deveria ter “partido para cima” e coisas do tipo, ou que o time e Abel Ferreira se acovardaram. Vejo tais opiniões como clássicos casos de “engenharia de obra pronta”. O Palmeiras chegou até a final do Mundial com um estilo de jogo pragmático, reativo (ainda que tenha variações), e não dá pra esperar uma mudança brusca logo contra o campeão europeu. Os jogos entre esses continentes tem se caracterizado como provas de sobrevivência, nas quais a equipe sul-americana se fecha, aceita ser golpeada de forma incessante e busca, no momento oportuno, um golpe fatal. Para buscar tal golpe, porém, é preciso antes sobreviver o maior tempo possível. E o Palmeiras sobreviveu o quanto pôde, mas faltou o golpe. Muito provavelmente, se tentasse partir para cima de igual para igual teria morrido antes, talvez até goleado. É preciso sempre levar em consideração o abismo que separa as equipes.

O abismo principal, sem dúvidas, é o financeiro. Não apenas das equipes, mas sim das ligas, dos países, das moedas. A questão financeira é a responsável direta pelo abismo da qualidade de jogo evidente entre o futebol de clubes europeu e sul-americano. Outro abismo nítido é a intensidade de jogo entre os clubes de lá e os de cá. O Palmeiras (ou outros clubes sul-americanos) com certeza poderiam desempenhar melhor contra os europeus se nossos jogos tivessem maior intensidade, menos faltas marcadas e menos paralisações. Mas isso também só seria possível caso se jogasse menos partidas. Não dá pra cobrar alta intensidade em todos os jogos se o clube atua mais de 90 vezes em apenas um ano, como foi o caso do Palmeiras em 2021.

Palmeiras mundial
Palmeiras posa para a foto oficial ao final da partida contra o Chelsea. Foto: Fábio Menotti.

Mas agora o foco precisa ser no futuro e no nosso futebol doméstico, pois a equipe tem pontos importantes a evoluir e que devem nortear os próximos passos de Abel Ferreira no comando do time. A começar pelo desenvolvimento maior da construção do jogo por dentro, pelas faixas centrais de campo, priorizando passes curtos. Precisamos entender isso como uma arma a mais no arsenal de possibilidades, que ainda pode ter o jogo de transição rápida como principal referência. Porém, a melhora da troca rápida de passes e movimentação dos atletas pelo meio pode solucionar problemas complexos, como a criação de chances de gol contra equipes fechadas ou maior eficiência na manutenção da posse da bola quando o adversário busca pressionar desde a saída, dando fôlego para a equipe “descansar” com a bola sem dá-la ao adversário rapidamente e também aumentando as possibilidades de criar chances de gol ao conseguir sair dessa pressão.

Outro fator a ser melhorado é a qualidade do elenco, que mesmo já sendo muito bom, precisa de forma urgente de uma grande referência no ataque. O sacrifício de Rony como centroavante precisa ser encarado como alternativa válida, mas não a principal. Ter alguém mais decisivo nessa posição do campo, que converta em gols as chances que a equipe cria, pode ser um salto de patamar na muito bem treinada e vencedora equipe palmeirense. Apesar do gol na final da Libertadores, todos sabemos que Deyverson não é esse jogador, e Rafael Navarro é muito jovem para ter tal responsabilidade, mesmo sendo promissor.

Mas como no Brasil o calendário é sempre apertado, não adianta continuar lamentando a derrota. Na próxima semana, dia 23, o Palmeiras já tem mais uma final, desta vez contra o Athletico-PR pela Recopa Sulamericana. Mais um título importante e que ainda falta em nossa galeria, então podemos esperar força máxima e foco total nessa disputa. A verdade é que o Palmeiras volta de Abu Dhabi ainda mais forte do que foi, pois atuou de maneira segura e consistente num nível ainda acima do habitual. Superando o luto da derrota e transformando-o em orgulho pela campanha, podemos esperar mais um ano de conquistas e briga por títulos!

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Gustavo Dal'Bó Pelegrini

Professor de Educação Física e mestrando na área de Educação Física e Sociedade. E um pouco palmeirense. @camisa012

Como citar

PELEGRINI, Gustavo Dal'Bó. Notas diversas sobre Palmeiras, Chelsea, imprensa e abismos. Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 19, 2022.
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