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Notas sobre formas de disputa do futebol: por um pensar dialético

Carlos Augusto Magalhães Júnior 13 de abril de 2022

O futebol é um esporte carregado de rivalidades. E isso não diz respeito apenas às rivalidades entre adversários em campo. Rivalidades de ideias são lugares comuns nos debates sobre o esporte. Muitas vezes transformadas em falsas dicotomias, principalmente pelo jornalismo sensacionalista, essas rivalidades, assim como as rivalidades dos times, são, na verdade, pontos opostos de uma mesma coisa: dialética[1], por assim dizer. O que vale mais? Eficiência ao jogar ou a beleza de um “futebol bonito”? Qual é mais importante para o jogo? O gesto técnico ou o improviso? A organização tática ou a individualidade? Todas essas questões merecem ser debatidas por ângulos diversos e entendidas como complementares. Há beleza na eficiência, e, a beleza sem eficiência pode deixar de ser bela. Abel Ferreira que o diga. Aquele que improvisa, domina antes o gesto técnico. E o gesto técnico permite o improviso. Ronaldinho Gaúcho confirma. A tática coletiva permite a individualidade e a individualidade é aflorada pelo coletivo. Dúvida? Pergunte ao Messi do Barcelona e ao Messi do PSG. Dito isto, passemos a falar sobre outra dessas rivalidades: Pontos Corridos X Mata-mata.[2]

No jargão repetido invariavelmente pelos jornalistas e torcedores (CLAUSSEN,2006) os pontos corridos são o lugar da justiça, da vitória do melhor time e sem espaço para as zebras. Já as copas são os ambientes ideais para o surgimento das zebras, além de carregar as emoções que supostamente os pontos corridos deixam de lado em nome da justiça. Se olharmos para o todo, isso faz sentido. As grandes ligas nacionais cada vez mais são monopolizadas nas mãos de poucos times, sendo geralmente decididas com rodadas de antecedência, e sem muita emoção nos últimos jogos. Talvez o maior exemplo disso seja a Bundesliga (campeonato alemão), que parece iniciar só esperando o troféu ser entregue ao Bayern de Munique. Esse ano, 2022, os Bávaros podem emplacar o décimo título seguido e bater o recorde de conquistas nacionais consecutivas. Ao passo que este dado poderá ser somado ao seu argumento. Exemplo como no campeonato alemão no final do século XX mesmo sendo mata-mata não deu espaço para outros times serem campeões. Mas episódios como esse não são a verdade absoluta das ligas nacionais. O Lille da temporada 2020/2021 que o diga. Longe do favoritismo e do investimento de outras equipes da Ligue 1 (campeonato francês), a equipe sagrou-se campeã do torneio depois de quase fechar as portas por motivo de dívidas um ano antes.[3] Impossível não lembrar aqui neste texto do icônico título do Leicester na Premier League (campeonato Inglês) na temporada 2015/2016. Após um quase rebaixamento da temporada anterior, o time então comandado pelo técnico Claudio Ranieri, conseguiu o incrível feito de se manter na ponta da tabela até o fim contra equipes de orçamentos milionários e dominantes não só no cenário inglês[4], mas internacional.

Lille
Lille – campeão francês de 2021. Fonte: divulgação/Lille

Ano passado, 2021, tivemos ainda outros exemplos que desconstroem a ideia de que as Copas são sempre emocionantes e os pontos corridos burocráticos: o Atlético Mineiro que foi o campeão Mineiro, Brasileiro e da Copa do Brasil. No título da Copa do Brasil, excluindo da análise o jogo de volta contra o Bahia nas oitavas de final, onde o time poupou alguns jogadores como política de enfrentamento de um calendário apertado, os demais confrontos de mata-mata não tiveram muitos sustos para o time mineiro. Somando-se os placares da semifinal e final, por exemplo, o Galo teve uma vantagem de 12 a 2 sobre Fortaleza e Athletico Paranaense, seus respectivos adversários. Já no Campeonato Brasileiro onde teoricamente o título viria com a tranquilidade dos pontos corridos, a história foi diferente. Apesar da ótima campanha do time (foram 84 pontos somados de 114 possíveis, sendo a segunda melhor campanha da era dos pontos corridos do Brasileirão), e da liderança desde a décima quinta rodada, o peso do histórico de estar há 50 anos sem ganhar a competição nacional fez o título se tornar um drama para os atleticanos. E o jogo que selou o título teve muito mais cara de final do que a partida derradeira da Copa do Brasil. Jogando fora de casa, o Galo perdia para o Bahia por 2 a 0 até os 27 minutos do segundo tempo, quando conseguiu uma virada histórica, relembrando os títulos de 2013 da Libertadores e 2014 da Copa do Brasil.

Keno Atlético Mineiro
Keno, jogador do Atlético Mineiro na partida contra o Bahia em 2021. Fonte: Atlético Mineiro/Flickr

A Copa do Brasil, aliás, tem sido objeto de reinvenção pela Confederação Brasileira de Futebol – CBF para se adequar ao calendário cada vez mais cheio dos times da elite do futebol nacional, sem perder, no entanto, seu charme. Esse ano, a polêmica regra de um jogo único nas fases iniciais, com vantagem do empate para o time visitante, trouxe já nas fases iniciais do torneio uma quantidade considerável das famosas – A dupla Gre-Nal[5] foi talvez o exemplo mais visível, já na fase seguinte, onde o empate passa a levar a decisão do jogo para os pênaltis, foram vítimas das zebras (colocar os adversários, respectivamente). Já o Santos passou sufoco para eliminar o Fluminense do Piauí nas penalidades, o Vasco não teve a mesma “sorte” e foi derrotado pelo Juazeirense, que ano passado havia eliminado outro clube grande: o Cruzeiro. Interessante observar que as mudanças de regras nas Copas, em geral, tentam sempre manter os jogos mais emocionantes e menos burocráticos. Essa tentativa tem sido levada à cabo pela Conmebol e pela UEFA com a extinção do “gol qualificado” em seus torneios. Aparentemente tem, como afirma André Donke (2021), considerando que os jogos de mata-mata dessas competições têm ficado mais emocionantes com a implementação dessa nova regra.  A fase classificatória da Libertadores possibilitou uma virada histórica do América Mineiro, que após perder o primeiro jogo em casa por 1 a 0, perdia no Paraguai, o jogo de volta, para o Guarani por 2 a 0 e após buscar a virada no último minuto de jogo, conseguiu a classificação nos pênaltis. Esses, ou melhor, nesse caso, o pênalti, também foi decisivo na eliminação do Plaza Colonia do Uruguai diante do The Strongest da Bolívia.  No jogo de ida no Uruguai, o Plaza vencia por 2 a 0, com um jogador a mais, quando teve um pênalti a seu favor. Dibble jogador do time Uruguaio tentou uma cavadinha e perdeu a cobrança. O jogo terminou 2 a 0 para o Plaza que na partida de volta, na Bolívia, perdeu por 3 a 0 sendo eliminado.

Diante da exposição argumentativa e exemplos citados, retomemos o questionamento do início do texto: qual a melhor forma de disputa: Pontos Corridos ou Mata-Mata? A resposta, talvez, seja nenhum dos dois. Isso porque o futebol é um esporte dinâmico, cheio de fatores e contextos. Tentar reduzir esse jogo tão complexo a apenas uma forma de se jogar talvez não seja um caminho interessante. Assim como a realidade em que se joga, o futebol é contraditório…

Notas

[1] Como dialética concebe-se aqui a forma de compreensão do mundo a partir do contraditório. Nesse sentido, conceitos que aparentemente se mostram opostos, a partir da visão dialética se relacionam como tese e antítese, desdobrando em uma síntese carregada de elementos outrora tidos como excludentes.

[2] A forma de disputa de pontos corridos é realizada com todas as equipes se enfrentando em turno único ou duplo, sendo contabilizada campeã a equipe que soma mais pontos ao final da competição. Já o mata-mata diz respeito a uma forma de disputa eliminatória, onde duas equipes se enfrentam em confronto único ou duplo e a equipe perdedora do confronto é eliminada da competição.

[3] https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/9434775/atual-campeao-frances-lille-rival-psg-devia-r-15-bilhao-bancos-foi-salvo-fundo-sediado-paraiso-fiscal

[4] Desde a criação da Premier League em 1992 somente 7 diferentes times foram campeões.

[5] Gre-Nal diz respeito aos dois maiores clubes do Rio Grande do Sul: Grêmio e Internacional

 

Referências

CLAUSEN,D.. Sobre a estupidez no futebol. Análise Social, vol. XLI (179), 2006, 583-592.

UEFA acaba com a injustiça do gol fora de casa como critério de desempate. [S. l.], 24 jul. 2021.

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Carlos Augusto Magalhães Júnior

Atleticano fanático, licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Lavras, mestre em Educação pela mesma Universidade. Atualmente é professor do IFMG Campus Formiga. Faz parte do GEFUT e coordena o projeto "Desvendando o Futebol " (https://www.instagram.com/desvendando_o_futebol/)

Como citar

MAGALHãES JúNIOR, Carlos Augusto. Notas sobre formas de disputa do futebol: por um pensar dialético. Ludopédio, São Paulo, v. 154, n. 19, 2022.
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