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Novas identidades visuais no futebol – Inter de Milão

Mariana Vantine de Lara Villela 24 de novembro de 2021

É natural que empresas e instituições façam atualizações nas suas identidades visuais, para acompanhar certas tendências. O conflito se dá, quando essa modernização fere o pertencimento cultural daqueles que constroem a instituição. Um clube desportivo, por exemplo, conta a história de uma cidade, diz respeito sobre paixões e rivalidades, e é a própria identidade do grupo de torcedores. Portanto, é extremamente delicado modificar símbolos que trazem consigo vários detalhes que importam para a comunidade ligada ao clube.

A tradicional Inter de Milão, chega a sua décima quarta versão do escudo neste ano de 2021, junto a toda uma reformulação da identidade visual, com a justificativa de se abrir a um público cada vez mais digital e abranger um número maior de faixas etárias. As reações foram bastante controversas, apesar de ser um clube que já presenciou algumas mudanças bastante significativas do escudo, por causas em contextos diversos.

Inter de Milão
Novo escudo da Inter de Milão. Fonte: Wikipédia

A história do escudo

O pintor e um dos fundadores da Internazionale, Giorgio Muggiani, criou em 1908 um monograma inspirado nos clubes ingleses, no qual a marca circular levava as letras “FCIM” entrelaçadas em branco com um fundo dourado, cercados por dois círculos, um preto e outro azul. Este então foi o primeiro escudo do clube. As cores escolhidas para representar a Inter, foram em função de um contraste com o rubro-negro de Milão, AC Milan. É possível observar o estilo simples e imediato de Muggiani refletido nessa identidade visual, que visava algo fácil de lembrar e de compreender, visto que era uma época na qual o analfabetismo era muito grande.

Em 1925, houve uma brusca mudança por imposição do regime fascista na Itália, e o nome mudou para Ambrosiana. Com isso, o escudo posteriormente ganhou ao centro de sua forma arredondada um “fasces lictoris” (símbolo de origem etrusa, usado pelo Império Romano associado ao poder e autoridade, também utilizado pelos fascistas), tendo a esquerda um brasão com a serpente Visconteo e a direita o escudo de Milão. 

Durante o período fascista, houve resistência por parte dos torcedores, que continuavam a torcer evocando o nome “Inter”, e então em 1931 conseguiram modificar o nome para “Associazione  Sportiva Ambrosiana Inter”, e tornar o escudo em forma de losango com linhas horizontais e uma bola no centro. Com o fim da guerra, o clube se torna apenas “Inter” e o escudo volta às suas origens, se diferenciando do primeiro apenas nas cores das letras e do círculo inferior. 

Ainda sobre o histórico de mudanças dos nerazzurri de Milão, deve se destacar 1960, 1961 e 1978, anos nos quais o brasão foge do tradicional. Posteriormente, as mudanças são consideradas mais “sutis”, até chegarmos a mais recente quem toma uma forma mais simplificada, tirando o FC das letras e valorizando as iniciais IM, sendo essas utilizadas também nas campanhas de marketing como “I’m”, do inglês “eu sou”.

Inter de Milão
Torcida da Inter na final da UEFA Champions League 2010, no Santiago Bernabéu. Foto: oscar federico bodini/Wikipédia

As nova identidade visual e consequentes reações

Segundo Mattia Buffoli, torcedor da Inter e idealizador do Interabilia, a mudança quando analisada no total o agradou e está de acordo com a história do clube. Mas ressalta:

“Continuo a preferir o antigo, mas entendo que o novo é mais facilmente acessível, sobretudo no que diz respeito à internet e ao social. Porém, existe uma coisa que não consigo gostar, é a escolha do azul elétrico ao invés do clássico presente nos outros escudos”.

A também torcedora, Naomi Accardi, atualmente diretora de marketing na marca Sunnei e editora na plataforma de moda e futebol, Season Zine, destaca os aspectos positivos da mudança:

“ A nova logo é muito minimalista e segue a tendência do design do momento. Me desculpe se foi perdida a cor ouro, mas em geral acredito que esteja muito em concordância a aplicação no merchandising e com a comunicação. Essencial.”

Certamente, o redesign em questão foi muito controverso no que diz respeito a aceitação dos torcedores, e no momento do seu lançamento foi possível ver muitas reações contestadoras nas redes sociais. No entanto, é um tema muito delicado e complexo para afirmar algo no sentido de uma desaprovação ou aprovação de uma ampla maioria. E o clube no fim da temporada ainda conquistou o título da série A italiana, após onze anos, quebrando uma série de nove títulos consecutivos da Juventus, fato que naquele momento, ajudou a amenizar o clima.

Do ponto de vista técnico do design, a profissional Esther Angelo, afirma que vê no caso da Inter, uma necessidade de equalização com a mentalidade e comportamento da mais nova geração da torcida. E destaca que, se em décadas passadas se fazia importante que um clube possuísse uma identidade visual que pudesse ser aplicada em diversas plataformas físicas, hoje observa-se a priorização por símbolos que cumprem seu propósito quando propagados em redes sociais e plataformas online. Nas palavras da designer, “o clube busca se posicionar em um contexto forte de globalização,em que priorizamos a visualização de imagens menos complexas e buscamos símbolos com os quais possamos nos identificar independente de nossa idade, poder aquisitivo ou nacionalidade.”

Juliana Ernst, estudante de design gráfico em Milão que apesar de não ser especificamente da área desportiva, já fez trabalho com futebol, ressalta o uso das cores flat, que consiste em não ter o sombreado, e o minimalismo, que podem ser observados no redesign inteiro, inclusive nas aplicações do site. E complementa com: “ A Inter quer mover essa marca para virar algo maior, por exemplo street wear, com objetos diferentes a serem vendidos.”

Entre os vários elementos a serem analisados em torno da reformulação da identidade visual de um clube, a certeza que resta é que, como o próprio nome evidencia, ela deve dizer respeito a identificação de quem de fato constrói e estará sempre para apoiar o clube mesmo nas piores circunstâncias. E apenas este grupo de pessoas poderá medir o quanto uma alteração afasta ou não a instituição de sua história, do seu sentido de existência. Portanto, novamente concluímos que não existe outro caminho se não, uma administração democrática que preze pela ampla participação dos verdadeiros torcedores nas decisões. Aqueles que conhecem e sentem todas as alegrias e dores passadas de geração em geração, afinal é bem como está escrito no Estádio Julio Martínez Prádanos, localizado em Santiago no Chile: “Um povo sem memória é um povo sem futuro”.

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Mariana Vantine

Pesquisadora de Futebol e Políticas Econômicas. Membro do coletivo internacional Football Collective.

Como citar

VILLELA, Mariana Vantine de Lara. Novas identidades visuais no futebol – Inter de Milão. Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 27, 2021.
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