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O abraço mais sensato à loucura

Àlex de Llano 11 de outubro de 2020

Marcelo Bielsa conseguiu salvar uma geração de crianças de Leeds que começavam a comprar camisetas de outros times populares da Inglaterra. Após 16 anos em um poço escuro, o retorno à Premier League pelas mãos do argentino, revolucionou a cidade.

Bielsa. Foto: George Wood/Getty Images.

Dezesseis anos é muito tempo. Durante esse período, o Reino Unido teve cinco primeiros-ministros diferentes, igual à Espanha nesse período. A seleção espanhola passou da insignificância à potência do futebol, para perder seu trono nos últimos anos, e a Inglaterra continua sonhando com a façanha de 66 e aos ecos da música “Three Lions”.

Esse tempo em Leeds foi uma eternidade. O Leeds United foi rebaixado da Premier League no dia 2 de maio de 2004. Uma queda no inferno que colocou em risco a vida de um dos times mais históricos do futebol inglês. Não apenas pelo que significa cair de divisão, mas também por causa de uma cadeia de eventos que piorou as coisas. Eliminatórias malsucedidas, mais um rebaixamento, várias mudanças de proprietários… Tudo isso significou uma certa desconexão entre a cidade, a torcida e o clube. Três elementos que se juntaram atualmente com a chegada de uma nova gestão e, de Marcelo Bielsa.

El Loco, com seu jeito particular de ser e com um futebol elétrico, ofensivo e decisivo, convocou toda a cidade para apoiar o seu time de futebol. O Leeds United voltou à Premier League, voltou a ser o Leeds United. Leeds é a terceira maior cidade do Reino Unido. Com uma população de cerca de um milhão de habitantes, o núcleo urbano da capital de Yorkshire reúne em suas ruas um número incontável de recantos que a tornam um dos maiores centros culturais fora de Londres. Sedia o maior festival de cinema do país longe da capital, a sua música é inconfundível e inúmeros murais (com motivos futebolísticos ou não) decoram suas ruas. Uma das bandas mais famosas é a Kaiser Chiefs, natural de Leeds e ligada ao clube de futebol desde sua criação. O nome da banda é inspirado na equipe sul-africana Kaizer Chiefs, já que um dos mais lembrados capitães da era moderna do Leeds United era Lucas Radebe, que veio dessa equipe.

Seu baixista, Simon Rix, é um dos membros mais reconhecidos na comunidade. Às suas ações de solidariedade com a Anistia Internacional e com a própria equipe, soma à suas funções o cargo de presidente do Leeds United Supporters’ Trust, uma união de torcedores sem fins lucrativos que visa dar voz a eles e também desenvolver projetos em colaboração com o clube como apoio à sociedade. “Tenho 42 anos. Já vi o Leeds vencer a First Division, que mais tarde se tornaria a Premier League, e não tinha nenhuma preocupação com um possível rebaixamento do meu time. Nós éramos os melhores! Nem sempre ganhavámos, é verdade, mas sempre estivemos lá: quinto, sexto … até quarto ”, diz Rix.

E então veio o rebaixamento. “Depois que isso acontece, você espera que em um ou dois anos o clube retornar à Premier League. É uma equipe com bons jogadores, muitos torcedores… e já se passaram 16 anos! Quando eu era jovem, nunca pensei que estaria ansioso para ver o Leeds United na Premier League, porque era normal. Outro dos rostos mais conhecidos pela comunidade do Leeds United é Andy McVeigh, conhecido como “Burley’s Bansky” por seu trabalho de decoração dos arredores de Elland Road (veja a foto no início deste artigo).

Bielsa. Foto: George Wood/Getty Images.

Seu trabalho já foi reconhecido pelo próprio clube e já trabalhou na confecção de um mural especial para a apresentação de uma nova camisa. “Para mim, o Leeds United é muito mais do que apenas meu time de futebol. Representa meu filho, passar o tempo com ele, podendo ir a jogos com ele. É um orgulho para a cidade. É também uma lição de vida: ter esperança, mesmo que não haja motivo para tê-la, porque até a chegada de Bielsa nunca tivemos motivos para acreditar ”, diz McVeigh. Sua obra tem dupla função. Depois de passar por um momento muito negativo a nível pessoal, McVeigh decidiu colorir a cidade e decorar as caixas de eletricidade da cidade com motivos florais e decorativos. “Então percebi que poderia fazer isso em torno do estádio com emblemas e frases do Leeds United.”

As suas artes conquistaram os fãs e começaram a aparecer continuamente nas redes sociais. A ponto de alguns jogadores terem tirado fotos com as caixas decoradas com sua figura. “Para mim tornou-se terapêutico. Toda a positividade que posso trazer ao mundo me faz me sentir melhor, mesmo que seja apenas pintar uma caixa simples. Também me sinto uma professora. Porque quando as crianças vão ao estádio e veem as caixas com os velhos escudos, jogadores de outros tempos, letras de músicas que são cantadas nas arquibancadas e perguntam aos seus pais sobre isso, ficam sabendo desse clube maravilhoso.”

 

Tradução: Victor de Leonardo Figols


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Como citar

LLANO, Àlex de. O abraço mais sensato à loucura. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 26, 2020.
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