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O acaso futebolístico

O futebol parece ser um território marcado muito mais pelas dúvidas do que por certezas muito bem estabelecidas. Embora seja papel dos analistas tentar explicar os fenômenos ligados ao futebol (por exemplo, do ponto de vista tático, social, econômico, etc.), é de se reconhecer que boa parte da paixão que está envolvida no universo futebolístico se sustenta, justamente, naquilo que escapa às previsões. Alguns exemplos simples podem ilustrar esse ponto. Em geral, nos começos de temporadas, é comum que se especule, em debates jornalísticos, quais times são os favoritos ao título nacional ou candidatos ao rebaixamento. O crescimento delirante do debate entre futebol e “gestão financeira dos clubes” tem feito brotar especialistas em finanças que se dedicam aos gráficos sobre receitas e dívidas das instituições, exibindo uma realidade típica da dinâmica neoliberal no marco do futebol: a crescente concentração de recursos nas mãos de poucos e a subsequente ampliação do abismo financeiro entre a linha de frente do futebol brasileiro e quase todos os demais clubes. Se essa chave fosse definitiva para analisarmos os desempenhos dos times, bastaria observarmos os rankings dos clubes com maiores folhas salariais e, desde já, poderíamos prever seus desempenhos no campeonato nacional. Embora o dinheiro sempre seja determinante nesses casos, não se pode esquecer que a disputa esportiva não é uma disputa empresarial, e que o ambiente futebolístico possui particularidades complexas, que não se resumem ao almejado pragmatismo dos gestores da bola.

Tite
Foto: reprodução CBF/Lucas Figueiredo

Do ponto de vista tático, chega a ser curioso observar os esforços direcionados às explicações táticas sobre tal ou tal jogo (normalmente, com um desfile de “tatiquês” à la Tite) que esquecem uma premissa simples do futebol: a bola, muitas vezes, entra (ou não entra) por puro acaso. Aqui, não se está a menosprezar (muito longe disso) análises táticas rigorosas que, muitas vezes, tentam explicar ao público leigo as nuances de uma jogada ou as razões da superioridade de um time sobre o outro. O que se está é buscando chamar a atenção para um elemento que, apesar de todas as significativas mudanças pelas quais o futebol tem passado nas últimas décadas, nunca deixou de fazer parte do mundo da bola: o acaso. Que pode ser capaz de decidir partidas e campeonatos. E que, como lhe é típico, dribla a rigidez das explicações.

Muito se fala do aguçamento do profissionalismo no futebol atual, inclusive o brasileiro. Reconhecer que o ambiente futebolístico tem se tornado mais profissional pode ser verdadeiro quando se trata de uma parcela pequena de clubes da elite nacional, mas essa premissa pode não ser verdadeira quando se procura pensar o “futebol brasileiro” na sua totalidade, e não apenas restrito a apenas quatro ou cinco clubes do eixo Rio-São Paulo. No ambiente interno dos clubes, é possível chamar a atenção para o fortalecimento da figura do(a) analista de desempenho, para a ampliação dos conhecimentos táticos e suas variações, como decorrência direta do progresso da ciência esportiva. Como forma de reduzir ao máximo o impacto de eventos aleatórios ao desempenho tático de um time, as estratégias são esmiuçadas e os jogadores, em geral, não apenas não são figuras alheias a isso, como seus desempenhos são monitorados de forma rígida. Isso não exclui (ou não deveria excluir) a hipótese de um jogo ser resolvido por um jogada individual desenvolvida, justamente, por aquele jogador que, frente ao marcador, por um mínimo lapso que seja, foge à rigidez do plano tático e manifesta sua jogada individual. E, mais ainda, não afasta a ocasião do lance inesperado, da bola que cruza a linha do gol porque resvala onde não se esperava e (para desespero de uns e alívio de outros) dos erros de arbitragem. Se o acaso está presente na vida de forma mais intensa do que gostamos de admitir, que dirá no futebol?

Copa do Nordeste
Fotos tiradas durante a final da Copa do Nordeste de 2018. Foto: Caique Bouzas/Divulgação.

Aqui, entramos no campo das paixões e dos afetos. Sem eles, profissionais da área esportiva se limitam a desempenhar. Clubes apenas apresentam balanços no final do ano. Fala-se apenas de aproveitamento, de mapa de calor, de chances convertidas em gol, de percentual de bola rolando e de renda obtida com a venda de um número de ingressos. O futebol é feito tanto pela torcida que se acostuma a comemorar títulos quanto pela fidelidade imbatível daquela que não deixa de seguir seu time, mesmo amargurando anos (ou décadas) sem título algum. Nada mais enfadonho do que o jogo ou o campeonato que é mero cumprimento de uma previsão. A perfeita harmonia entre atuação e resultado é mais uma exceção que uma regra e, para lamento dos que procuram nesse esporte uma ciência exata, são incontáveis os casos em que o futebol tem pouco a ver com merecimento ou com justiça. Nisso, espelha a própria vida. 

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André Lucena

Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) Doutorando em Ciências Sociais na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) Escritor. Autor do livro "Um Par de Horas" (Editora Multifoco, 2019)

Como citar

LUCENA, André. O acaso futebolístico. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 27, 2022.
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