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O amor à camisa custa caro

Diego Martins 25 de maio de 2021

A camisa do clube é sagrada e em qualquer lugar do planeta ela é item indispensável no armário do torcedor. Seja do time do coração, algum time que alguém simpatiza, ou até mesmo pelo simples fato de ser um modelo bem bonito. Algumas são raras e são objetos de desejo para os colecionadores. Camisas de futebol dificilmente sairão de moda, pois elas seguem as tendências conforme o tempo.

Se 30 anos atrás era bem difícil conseguir uma camisa, hoje é bem tranquilo, pois é só ir na loja e comprar. Por outro lado, para adquirir este item tão adorado e sagrado, é preciso desembolsar uma boa quantia. Quer colocar o número emblemático daquele centroavante que você viu na infância? O valor sobe um pouco mais. Quer colocar seu nome? Também não é de graça. Ah, já ia me esquecendo daquele patch lindo da Libertadores com o número de títulos. Aí chega aquele momento de tirar o cartão de crédito da carteira e parcelar em algumas vezes.

Camisa Placar
Lá em 1988 era uma aventura conseguir comprar uma camisa. E também não era barato. Fonte: Revista Placar

No último dia 21 de abril o Atlético lançou seu novo uniforme de jogo para a temporada 2021/2022, trazendo de volta o número vermelho tão tradicional na história do clube, com acréscimo de SEIS patrocinadores. A nova camisa atleticana custa R$279,99. Se comprada no site, ainda há o valor do frete, R$12,28 pelo menos para Belo Horizonte. Se serve de consolo, o sócio torcedor ganha 10% de desconto e pode parcelar em até 5x. É surreal que uma camisa de futebol custe 25,5% do salário mínimo. Hoje com esse mesmo valor sequer dá para fazer uma compra considerável no supermercado.

O Atlético se denomina o time do povo, obviamente por ser um time de massa, mas isso fica somente naquelas antigas fotos da geral ou daquele catador de papelão que deixa uma bandeira alvinegra no seu carrinho. Há aquele torcedor que possui uma condição financeira razoável, que pode se dar ao luxo de pagar e ajudar o clube, mas isso não faz dele mais fanático. Isso é um privilégio que nem todos poderão ter. É aí é que entra o marketing do clube. O Bahia vende uma versão diferente da mesma camisa de jogo no valor de R$99,90 especialmente para seus torcedores. Em julho do ano passado o tricolor de aço vendeu 5 mil camisas em um dia! Além do preço bem mais em conta e do produto oficial, o valor é 100% revertido para o clube.

Camisa clube
Preço acima da realidade de muitas pessoas. Fonte: Divulgação

Nos shoppings populares de Belo Horizonte podemos encontrar camisas de vários preços diferentes, e o atleticano opta pela versão pirata de segunda ou primeira linha. Existe também a opção de esperar a coleção do ano seguinte para que a anterior entre em promoção. No último mês de outubro, uma das Lojas do Galo fez uma grande liquidação de materiais das temporadas passadas. Todos os dias as lojas ficaram cheias e todo o estoque ficou esgotado. Porém, é difícil saber quando isso vai acontecer de novo.

O Manto da Massa teve mais de 100 mil camisas vendidas. Sócios pagavam cerca de R$180,00 com frete incluso. Por ser uma edição limitada, o preço foi considerado. Será que a torcida atleticana terá outras ações de marketing para beneficiá-lo? É nítido o descaso da diretoria no que envolve o preço dos materiais do clube. Não sei se criar uma marca própria seja uma alternativa para aliviar os preços e o retorno para o clube. A pergunta que fica é: quando o Atlético começará a mudar o conceito de marketing voltado para a classe popular de sua torcida?

Camisa Atlético Mineiro
Foto: Cadu Passos
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Diego Felizardo Martins

Atleticano, fotógrafo e pesquisador de história. Graduado em Design Gráfico no UniBH. Frequentador assíduo da arquibancada que já viveu ela de várias formas. Amante de buteco como todo belo-horizontino. Administrador do projeto Galo Memória e BH no Tempo.

Como citar

MARTINS, Diego. O amor à camisa custa caro. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 48, 2021.
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