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O Anzhi Makhachkala e o domínio que não saiu do papel

Dyego Lima Universidade do Esporte 5 de setembro de 2020

Mesmo não sendo um aficionado por futebol, certamente você já leu ou escutou o nome desse clube em algum site ou noticiário esportivo no início da década de 2010. Após ser comprada por um bilionário russo, a equipe gerou uma expectativa de domínio do futebol local, que poderia até se expandir a nível continental. O grande problema é que essa hegemonia ficou apenas no mundo das ideias. Oriundo de uma das repúblicas pertencentes à Rússia, esse é o Anzhi Makhachkala.

A equipe carrega o nome, de difícil pronúncia, da sua cidade natal: Makhachkala, capital do Daguestão, uma das maiores repúblicas da Rússia, situada no sudoeste do país e no norte do Cáucaso. Fundado em 1991 por Aleksandr Markarov, ex-jogador do Dínamo, o outro clube da capital, e pelo empresário Magomed-Sultan Magomedov, o time manda seus jogos na Anzhi-Arena. O estádio comporta cerca de 26.500 torcedores.

Escudo do Anzhi Makhachkala. Foto: Wikipédia

O início

Nos primeiros anos de existência, o Anzhi começou atuando nas divisões regionais do Daguestão, sendo formado apenas por jogadores daquela área. Com o rápido domínio e percebendo o potencial do projeto, seus donos logo trataram de transferir o clube para os níveis inferiores do Campeonato Russo. Depois de alguns anos lutando nas ligas menores, mesmo com a equipe ainda sendo composta quase que completamente por jogadores do Daguestão, a Águia conseguiu atingir as principais competições do futebol russo.

Em 1999, liderado em campo pelo meia-atacante Narvik Sirkhayev, o Anzhi foi campeão da Primeira Divisão – a Série B do país – com 86 pontos, conquistando o histórico acesso para a Premier League Russa de 2000. E já em seu primeiro ano, surpresa. Com o brilho do centroavante iugoslavo Predrag Randelovic, autor de 12 gols, a equipe somou 52 pontos e terminou em 4° lugar, deixando clubes como Dínamo Moscou, Zenit e CSKA para trás.

Já na temporada seguinte, o primeiro título de expressão quase veio. Apesar da 13ª colocação no campeonato nacional, o time chegou à final da Copa da Rússia. Depois do 1 a 1 no tempo normal, a derrota para o Lokomotiv Moscou veio nos pênaltis por 4 a 3. No entanto, houve conquista mesmo com o revés. Como o Lokomotiv acabou com o vice-campeonato nacional, o Anzhi herdou uma das vagas do país nas competições europeias, nessa que seria a primeira participação em torneio continental na história da clube. A Copa da UEFA era a próxima parada.

O período de frustrações

No entanto, a temporada 2001–02, que o clube esperava que fosse mágica, logo se tornou um pesadelo. No certame europeu, o sorteio definiu o Rangers, da Escócia, como adversário. Com uma situação instável na Chechênia e no Daguestão por conta de conflitos, ao invés dos costumeiros jogos de ida e volta, a UEFA definiu Varsóvia como sede do confronto único entre as equipes. Os escoceses venceram por 1 a 0 e avançaram para a próxima fase. No campeonato nacional, míseros 25 pontos em 30 jogos resultaram numa 15ª colocação e rebaixamento.

Apesar do descenso, os dirigentes do Anzhi acreditavam em uma volta rápida para a elite, tendo em vista o retrospecto recente da equipe. Não podiam estar mais enganados. A eliminação para o Rostov na semifinal da Copa, já na temporada 2002–03, foi o mais próximo da felicidade que o clube alcançou em tempos. Foram sete anos de luta até o título da segunda divisão em 2009 e a volta para a Premier League da Rússia de 2010. O retorno não passou de mediano. Apenas 11° colocado na Liga e eliminado na primeira fase da Copa para o Alania Vladikavkaz. Entretanto, 2011 era o ano que prometia marcar um novo rumo na vida da Águia.

Prometia…

Dono bilionário, contratações caras e nenhum título

No dia 18 de janeiro de 2011, os torcedores do Anzhi vislumbraram um novo futuro. E ele se mostrava bonito. O clube foi comprado pelo bilionário russo Suleiman Kerimov, que alcançou esse status adquirindo ações de ex-estatais da União Soviética após a sua dissolução em 1991. A revista estadunidense Forbes estimava sua fortuna em 5,5 bilhões de dólares, valor que o colocava como um dos 150 homens mais ricos do mundo à época. Kerimov chegou com o plano de investir 200 milhões de euros nos Yellow-Greens, incluindo a construção de uma nova arena com capacidade para 40 mil pessoas.

Para a surpresa de ninguém, o novo endinheirado do futebol chamou atenção global, principalmente dos jogadores. Não demorou para contratações a peso de ouro desembarcarem para um desafio no frio russo. O brasileiro Roberto Carlos foi a primeira aquisição bombástica. Apesar de ter deixado o Corinthians de forma gratuita após a eliminação na Pré-Libertadores para o Tolima, o lateral-esquerdo chegava para receber um salário anual de 15 milhões de reais, mesmo estando com 37 anos. Outro que deixou a equipe de Parque São Jorge em direção à Rússia foi o volante Jucilei. A transferência custou 23 milhões de reais. Diego Tardelli também partiu, custando 11,5 milhões. O Anzhi ainda pagou 14 milhões de euros ao PSV pelo húngaro Balazs Dzsudzsak, além de 15 milhões ao Chelsea pelo russo Yuri Zhirkov.

E ainda faltava a cereja do bolo. Um atleta que causasse impacto mundial e que pudesse ser a grande referência técnica dentro de campo. Problema que foi rapidamente resolvido por Kerimov. Recém-campeã da Champions League, a Internazionale de Milão aceitou uma proposta de 27 milhões de euros por Samuel Eto’o. Na Rússia, o atacante camaronês se tornaria o jogador mais bem pago do mundo, recebendo cerca de 20 milhões de euros anuais. Para completar, no início de 2012 o clube acertou a contratação do renomado técnico holandês Guus Hiddink. No meio da temporada, Lassana Diarra, ex-camisa 10 do Real Madrid, chegou custando 5 milhões.

Foto: Wikipédia

Estrelas contratadas, elenco fechado, era hora de colher os frutos em forma de títulos. Pena para o Anzhi que eles nunca vieram. Na temporada 2011–12, quinta colocação no Campeonato Nacional e vaga na UEFA Europa League. A época 2012–13 foi quando tudo parecia que ia dar certo, mas não deu. Foi durante ela que mais uma contratação de impacto desembarcou na Rússia. No dia 1° de fevereiro de 2013, o Anzhi pagou 35 milhões de euros ao Shakhtar Donetsk pelo brasileiro William, que se tornou a contratação mais cara da história do clube.

Ao final, os resultados não foram os esperados. Na Premier League, terceira colocação, onze pontos atrás do campeão CSKA. Na Copa, mais uma vez a equipe de Moscou atrapalhou os planos do Anzhi: na final, após o empate por 1 a 1, a derrota veio nos pênaltis por 4 a 2, com Zhirkov e Jucilei desperdiçando suas cobranças. Na competição europeia, o time eliminou o Honvéd, da Hungria, Vitesse e AZ Alkmaar, ambos da Holanda, para alcançar a fase de grupos. Lá, classificou-se ao mata-mata em segundo lugar, atrás de Liverpool e à frente de Young Boys, da Suíça, e Udinese. Passou por Hannover 96, da Alemanha, no round de 32, até que foi eliminado pelo Newcastle nas oitavas.

O último a sair…

Em agosto de 2013, o dono Suleiman Kerimov cansou. Depois dos sucessivos fracassos, anunciou que iria negociar as estrelas do elenco e apostar em jogadores locais. Tanto que de lá para cá, o atleta de maior renome que apareceu na equipe foi o português Hugo Almeida, vindo de graça do Krasnodar na temporada 2015–16. As chegadas badaladas geraram prejuízo para o russo.

Roberto Carlos se aposentou. Jucilei foi para o Al-Jazira, dos Emirados Árabes Unidos, por 6 milhões de euros. Diego Tardelli saiu para jogar no Al-Gharafa, do Catar, pelo valor de 4 milhões. Dzsudzsak e Zhirkov foram para o Dínamo Moscou por 19 e 11 milhões, respectivamente. Eto’o foi de graça para o Chelsea e William o acompanhou, vendido por 35,5 milhões. Diarra partiu para o Lokomotiv Moscou por 12 milhões.

No dia 28 de dezembro de 2016, Kerimov decidiu vender o clube para o empresário Osman Kadiyev. Enfraquecido, o Anzhi não resistiu muito tempo na elite russa. Na temporada 2017–18, o clube acabou rebaixado, mas permaneceu na Premier League pelo fato de o FC Amkar Perm ter a sua licença barrada pela Federação Russa. Já na temporada seguinte, após derrota por 1 a 0 para o Arsenal Tula, o descenso foi decretado. Com 21 pontos em 30 jogos, só não foram piores que o Yenisey Krasnoyarsk. Sem dinheiro, a Águia quase decretou falência. Por causa das dívidas, não conseguiu a licença com a Federação Russa para disputar a Série B nacional, e acabou sendo rebaixada para a divisão regional.

Atualmente, a equipe é formada quase que inteiramente por atletas do sub-20.


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Dyego Lima

Jornalista formado pela UFRN. Aficionado por esportes. Futebol principalmente, mas não somente. Made in Universidade do Esporte!  

Como citar

LIMA, Dyego. O Anzhi Makhachkala e o domínio que não saiu do papel. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 13, 2020.
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