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O apagão da transmissão de jogos das fases iniciais da Copa do Brasil

Anderson David Gomes dos Santos 15 de março de 2022

A temporada de 2022 do futebol brasileiro começou com duas surpresas quanto à transmissão de eventos esportivos nacionais: as transmissões exclusivas do Amazon Prime Video de jogos da Copa do Brasil, sublicenciados pelo Grupo Globo; e a falta de transmissão de partidas da Copa do Brasil e da Série A1 do Brasileirão Feminino.

A primeira novidade indica a presença oficial da Amazon como agente ativo no mercado de transmissão paga de jogos no Brasil, em concorrência com Disney (Star+) e WarnerMedia (HBO Max), mas em parceria com o Grupo Globo, que gera o sinal. Sobre isso, tratei em texto recente do blog Comunicação e Esporte.

Assim, aqui iremos focar na novidade negativa, pois estávamos acostumados a acompanhar os jogos sem transmissão em TV aberta ou paga das duas competições nacionais pela plataforma Eleven Sports.

Como, infelizmente, não temos equipes nordestinas na Série A1 do Brasileirão Feminino pela primeira vez desde a criação do torneio (2013), sugiro ouvir o episódio 49 do podcast Planeta Futebol Feminino (Central 3), em que se trata de como isso é um grande problema para a difusão do futebol de mulheres.

Jogos de times nordestinos sem transmissão

Se não passou nenhum jogo com transmissão do ge.globo de última hora – caso de Castanhal 1X1 Vitória –, dos 40 jogos da primeira fase da Copa do Brasil, 19 não tiveram transmissões do Grupo Globo ou do Prime Video. Dentre eles, 8 com equipes nordestinas.

Tuntum 4-2 Volta Redonda (23/3), Fluminense-PI 2X0 Oeste (24/3) e Icasa 0X0 Tombense (1/3) não tiveram qualquer transmissão audiovisual, com o máximo de exibição no Youtube da locução de rádio, ou seja, sem mostrar o campo.

Os outros cinco tiveram exibição de TV de clube em plataforma de internet. Operário-VG 1X2 Sampaio Corrêa foi exibido no perfil do Facebook do clube mato-grossense. Os demais foram por canais de Youtube: Tocantinópolis 1X0 Náutico (TV Timba) – 59 mil visualizações, dividido em dois vídeos; Grêmio Anápolis 0X0 Juazeirense (TV Cancão) – 21 mil visualizações; Costa Rica-MS 0X3 ABC (TV ABC) – 63 mil visualizações; e Nova Venécia 2X1 Ferroviário (Leão TV) – 80.730 visualizações.

Para a segunda fase, não há previsão de transmissão de quatro jogos, três com equipes nordestinas: ABC X Altos (16/3), Moto Club X Tombense (16/3) e Globo X Brasiliense (16/3). O ABC exibiu a partida da primeira fase e o Moto Club tem histórico de transmissões via aplicativo próprio.

Porém, fica a dúvida se farão transmissões de jogos que serão em casa, pois ainda persevera a ideia de que isso poderia afastar o público do estádio. Além, é claro, dos gastos para colocar a transmissão no ar.

Padrão tecnoestético de transmissão e outros problemas

Nos estudos da Economia Política da Comunicação brasileira há uma categoria de análise que é o “padrão tecnoestético”, usado como representação da barreira estético-produtiva para a entrada ou concorrência de agentes no mercado de audiovisual.

Para o caso do audiovisual brasileiro, incluindo a transmissão de futebol, está representado pelo “Padrão Globo de Qualidade”. Assim, qualquer outra partida transmitida com mudanças por outros agentes causa no espectador uma sensação de estranheza.

As novas formas de exibição de futebol tendem a isso, ainda mais em situações que, como na primeira fase da Copa do Brasil, os clubes precisaram correr para garantir que os jogos teriam transmissões – a partir de autorização do Grupo Globo em cima da hora.

Do que observei para este texto, o modelo de transmissão é semelhante ao da Eleven Sports: uma câmera, com narrador e comentarista. Na tela, varia bastante, alguns optaram por algo mais limpo, com placar e marca, enquanto outros, como o ABC, encheu a tela, com dois QR Codes e patrocinadores, além do placar e a marca da TV ABC.

A transmissão da TV Timba do jogo do Náutico não durou os mais de 90 minutos de uma partida, porque o sinal caiu. Assim, há dois vídeos separados no canal. O que ocorreu nesse jogo é importante por mostrar que é necessária uma estrutura mínima para a exibição da partida, o que inclui as possibilidades de tráfego dos dados audiovisuais gerados, numa situação de estádios que não têm internet banda larga de qualidade.

Ao saber que os jogos não teriam transmissão, apontei no Twitter o problema de o acordo da “Copa dos milhões” não ter tentado, pelo menos, a garantir da geração de imagens de todas as partidas. Isso ocorre nos principais torneios esportivos do mundo e vem, aos poucos, crescendo no Brasil a partir da centralização da geração do sinal das partidas. A própria CBF faz isso com a Supercopa do Brasil.

Numa garantia mínima de transmissão de todos os jogos, mesmo que a licenciada não queira exibir em seus canais, haveria a garantia aos clubes de ter um parâmetro mínimo de qualidade de captação e distribuição. Caberia a eles apenas reproduzir e, com autorização, inserir narração e caracteres.

Além disso, espera-se que tenha pelo menos um narrador para acompanhar a partida, o que pode gerar mais este gasto para aquele momento. Outra coisa decorrente disso, quando se trata de TV de clube, é que a torcida do adversário terá que aguentar uma transmissão clubista, pois o canal de determinada equipe serve para difundi-lo, mais para marketing que informação. O padrão que estamos acostumados é o da narração que deve transmitir emoção, mas não escolher time.

Desta forma, observo que o que ocorreu na Copa do Brasil deste ano é um grande problema para a organizadora do torneio, com prejuízo para os clubes, por se tratar da falta da (melhor) difusão da sua imagem e de seus patrocinadores. Para a torcida, nos casos extremos, cabe ainda voltar para transmissões de áudio, cerceando o acesso especialmente quando o jogo é fora de casa.

Com um novo contrato de transmissão do torneio a partir da edição do ano que vem, é algo que a CBF precisa se preocupar ao fechar um acordo, além dos valores milionários.

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Anderson Santos

Professor da UFAL. Doutorando em Comunicação na UnB. Autor do livro "Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol" (Aprris, 2019).

Como citar

SANTOS, Anderson David Gomes dos. O apagão da transmissão de jogos das fases iniciais da Copa do Brasil. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 18, 2022.
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