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O Barão de Ouro, a história do medalhista olímpico que lutou na Segunda Guerra Mundial

A guerra é capaz de mudar as pessoas, seja com traumas irreversíveis, seja até mesmo com algum tipo de superação. No entanto, no meio dos horrores, uma presença pode dar um sinal de esperança e alento para a possibilidade de dias melhores.

Foi o que aconteceu com os soldados japoneses na Ilha de Iwo Jima, quando viram a figura de Takeichi Nishi montado em seu cavalo e passeando por todo o campo de batalha.

Takeichi era o comandante especializado do 26° regimento de tanques do exército japonês, além de ter sido medalhista de ouro olímpico, nos Jogos de Los Angeles, em 1932, no hipismo, na categoria de saltos individuais. Ele era uma inspiração para todos os soldados nipônicos ali presentes.

Primeiros anos

Takeichi Nishi nasceu no dia 12 de Julho de 1902, em Tóquio. Aos dez anos de idade, ele herdou o título de barão, após a morte do seu pai, Nishi Tokujiro. Por predileção paterna, o jovem barão ingressou para a Escola de Cadetes do Exército. Passou anos estudando em institutos militares até entrar no 1º Regimento de Cavalaria – o que acabou virando sua maior paixão. Em 1927, já era tenente.

Takeichi Nishi saltando sobre um carro com Uranus. Foto: Wikipedia.

Durante o período que ficou no Regimento de Cavalaria, ele encontrou a sua segunda paixão: o Hipismo. Aprendeu sobre o esporte e praticou com os cavalos que o exército japonês tinha. Com isso, foi aperfeiçoando seu talento e tornou-se um dos principais nomes da categoria e uma esperança para conquistar a medalha de ouro para o país do sol nascente, nas Olimpíadas de 1932, em Los Angeles, ao mesmo tempo que seguia na carreira militar.

No entanto, ele ainda não tinha encontrado um cavalo perfeito que pudesse fazer frente a uma competição olímpica. Em julho de 1930, na Itália, Takeichi Nishi encontrou o que viria a ser seu companheiro no esporte equestre: Uranus. Como a cavalaria japonesa não podia pagar pelo cavalo, o tenente esportista pagou do seu próprio bolso e pôde fazer isso, pois herdou a fortuna do pai.

Montado em Uranus, participou de muitas competições na Europa, conquistando resultados positivos. No ano seguinte, foi formalmente selecionado para representar o Japão em Los Angeles.

Os Jogos Olímpicos de 1932

O hipismo é um esporte antigo dentro do quadro das Olimpíadas, que é disputado desde 1900, nos Jogos de Paris. O esporte conta com três modalidades: adestramento, concurso completo de equitação (CCE) e saltos.

O maior problema naquela época foi a questão do transporte, uma vez que muitos dos participantes tiveram que ir de navio para Los Angeles, levando seus equinos. Um exemplo disso foi a seleção holandesa que passou pelo Canal do Panamá para chegar no estado americano. Relatos da época falam que os competidores levaram esteiras para manter a forma dos seus parceiros de prova.

Houve também toda uma preocupação sobre o estresse que o desgaste do trajeto poderia causar nos animais, mas não foi o que se viu no Estádio Olímpico. Pelo contrário, todos chegaram muito bem.

Takeichi Nishi concorria na modalidade do “salto individual” e não era o favorito da prova. No entanto, a sua harmonia com Uranus foi fundamental para surpreender e ficar entre os cinco melhores que buscariam a medalha de ouro. O japonês disputou com o favorito norte-americano Harry Chamberlin, além do seu compatriota William Bradford, junto aos suecos Clarence Von Rosen Jr e Ernst Hallberg.

O percurso que os atletas fizeram foi muito complicado. Eram 18 obstáculos, num caminho de 1.060 metros de comprimento, com duas cercas de 1.60 metros, além de mais de 100 mil espectadores para acompanhar essa difícil caminhada.

Takeishi Nishi e seu cavalo, Uranus, durante os Jogos Olímpicos de Los Angeles 1932. Foto: Wikipedia.

O Barão Nishi não se incomodou com o público gigante e junto ao seu fiel escudeiro Uranus conseguiu fazer a complexa prova em 2 minutos e 42,2 segundos. Como o japonês tinha sofrido apenas oito penalidades contra 12 de Harry, o ouro foi para o país do sol nascente.

Segundo um jornal da Pensilvânia, foi “uma das maiores surpresas dos Jogos”, e ainda enalteceu o asiático que derrotou os “cavaleiros de crack dos Estados Unidos, Suécia e México para conquistar a honra individual”.

Até hoje é o único ouro do Japão nos esportes equestres. Além de ter sido importante para o país no quadro de medalhas daquele ano. Ao todo foram 18 medalhas, sendo sete de ouro, sete de prata e quatro de bronze, ficando na quinta colocação no geral, atrás da Suécia (23), França (19), Itália (36) e Estados Unidos (103).

Com o título, Nishi passou a conviver mais com os cidadãos de Hollywood conhecendo astros importantes como Charles Chaplin, Douglas Fairbanks e Mary Pickford. Ou seja, virou amigo dos americanos.

Nishi no front

Após a entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial, depois do ataque em Pearl Harbor, o exército japonês cortou todos os investimentos que não lhe interessavam, entre eles a cavalaria comandada por Nishi. Em troca, o império asiático formou um regimento de tanques e o seu medalhista olímpico foi transferido para o 26º Regimento. Em agosto de 1943, ele virou tenente-coronel.

Takeichi Nishi e seu cavalo, Uranus. Foto: Wikipedia.

Com as batalhas sendo travadas, em pleno Pacífico, contra o avanço do exército norte-americano, o 26º Regimento foi transferido para a batalha de Iwo Jima, em 1945. Takeichi Nishi foi um dos principais líderes, que tinha como general principal Tadamichi Kuribayashi.

O vencedor olímpico era querido por muitos soldados e servia de inspiração para os japoneses na ilha que passavam por muitas dificuldades causadas pelo conflito como a fome e várias doenças.

O problema acentuou-se quando os Estados Unidos fizeram um ataque anfíbio para o controle do local, com uma tecnologia mais avançada do que a do Japão. O país nipônico resistiu, e a batalha durou 35 dias, apesar da derrota sangrenta. Os ianques achavam que a superioridade numérica e tecnológica iria fazer o combate durar uma semana.

Com os americanos conquistando cada vez mais territórios em Iwo Jima, o destino de Takeichi Nishi não seguiu e ele morreu no front de batalha, no dia 22 de março de 1945. O respeito que os americanos tinham por ele era tão grande que lhe ofereceram a rendição ao invés de continuar na batalha. O barão Nishi nunca respondeu pelos apelos.

Existem algumas versões para sua morte, mas até hoje a causa é desconhecida. A mais aceita diz que ele foi atingido por tiros de metralhadora enquanto se mudava para seu quartel general no regimento.

Outra teoria recorrente apareceu no filme “Cartas de Iwo Jima”, dirigido por Clint Eastwood. Na história, o Barão comete suicídio depois de receber tiros nos seus olhos e perder uma parte da visão. Segundo o roteiro da obra, a ideia é que ele não seria mais útil ao exército já que não podia enxergar e, por isso, se sacrificou.

Uma semana depois, seu cavalo Uranus – que não foi para Iwo Jima – também morreu. Em 1990, o animal foi homenageado no Memorial dos Cavalos de Guerra, do Museu de Honbetsuno.

 

Legado

Barão Nishi, postumamente, foi promovido ao posto de coronel. Seu filho Yasunori Nishi herdou o posto de Barão do pai, mas o título foi abolido pelos norte americanos após a ocupação do território japonês.

Atualmente, existe a Associação de Iwo Jima, que preserva a memória dos 21 mil combatentes japoneses e dos sete mil fuzileiros navais americanos mortos.

Nishi tinha 42 anos e até hoje inspira os japoneses por conquistar uma medalha de ouro inédita para o hipismo japonês como também por seus feitos no front de batalha.


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Pedro Henrique Andrade Dias

Estudante de jornalismo, cinéfilo e amante de esportes

Como citar

DIAS, Pedro Henrique Andrade. O Barão de Ouro, a história do medalhista olímpico que lutou na Segunda Guerra Mundial. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 8, 2020.
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