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O “CT do Almirante” e as escancaradas heranças coloniais brasileiras

Lucas Nascimento de Mattos 17 de agosto de 2020

O dia 8 de Agosto de 2020, em que pese a trágica situação da pandemia no país, será para sempre uma data histórica para a instituição CR. Vasco da Gama. O hasteamento da bandeira no novo Centro de Treinamento em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, simboliza um novo marco na relação entre a torcida e o clube da Colina. Se em 1927 foi a torcida que ergueu o maior estádio da América Latina através da captação de recursos com torcedores e sócios, em 2020 a história se repete, com suas adaptações aos tempos modernos: O CT só foi possível devido ao maior “Crowdfunding” (vaquinha online) do país, também com base nas doações dos aficionados cruzmaltinos. Porém a despeito dos pedidos de grande parte da torcida, o nome do CT foi escolhido unilateralmente: “CT do Almirante” foi o nome dado pela diretoria.

A escolha do nome do CT é mais uma medida impopular da gestão Alexandre Campelo. Se no aspecto da gestão e transparência o clube vem avançando, a política segue em consonância com o “eu-que-decido” predominante na história recente “Euriquista” do clube. Essa forma de lidar com o clube e seu patrimônio, ao mesmo tempo que segue uma tradição política do clube, estabelece uma relação de dissonância com a sua veia popular. Analisar essas relações de consonância e dissonância, problematizar e propôr novos caminhos é o papel do pesquisador. Como disse o professor Fidel Machado numa das (excelentes) mesas do Seminário online do Ludopédio, essa é uma das “encruzilhadas” que o futebol nos coloca.

Torcida do Vasco da Gama. Foto: Wikipédia

1) Questionar para entender

Para isso, começo a discussão com as palavras do CEO da construção do CT, Carlos Leão, após a enxurrada de tweets críticos:

Essa discussão, quando não tem viés político, como alguns agentes insistem em colocar, é saudável e legítima. Só tenho a lamentar que nesse momento maravilhoso e tão importante da história do nosso Clube a discussão seja sobre algo menor, considerando que o nome escolhido nunca gerou discordâncias; é impactante e de significado inquestionável para a história do nosso Clube. O objetivo de todos os vascaínos, no momento, deve ser a inauguração do Nosso CT. Vamos em frente juntos, sempre! FIM”.

De cara, podemos perceber algumas coisas na declaração do CEO. A evocação da “política” como um problema a ser superado em nome de uma suposta unificação já é comum não só no futebol, mas em todas as esferas do país. Porém o foco do texto é essa apresentação da imagem do “Almirante” como algo de inquestionável importância e que não deixa espaço para questionamento. Por isso mesmo é necessário questionar essa fala, e o que está por trás dela. Adianto que não há nada de maligno, ou uma intenção maquiavélica escondida, já que Carlos Leão vem se mostrando um bom gestor e não há nada que aponte para interesses espúrios em sua fala. Mas deve-se analisar aspectos comuns nas nossas falas que, quando não questionados, acabam por se normalizar.

2) O Vasco é Portugal, mas não só isso 

É evidente a importância da Colônia Portuguesa na fundação e em toda a história do Clube. Isso sim, talvez, seja inquestionável. Homenagens do clube à comunidade portuguesa sempre existirão e com razão. O Vasco não seria o que é sem essa forte presença no clube. Mas isso não justifica (ou pelo menos não deveria justificar) que, em pleno século XXI, o colonizador continue sendo visto como o detentor do poder, da superioridade sobre os outros. A representação do Almirante dentro do Vasco é sempre resgatada quando o clube necessita demonstrar sua coragem e força. Mas será que não existe outra forma de homenagear a comunidade portuguesa, se não como colonizadores? Não há outra forma de mostrar a altivez do clube, que não seja homenageando o navegador português? Será que a história do Vasco é tão pequena assim?

Quando o Almirante, representante do mercantilismo colonial, é apresentado como “inquestionável”, o que está em jogo é a normalização do modelo colonial imposto por Portugal. Essa escolha, quando é considerada “consenso”, invisibiliza as lutas anticoloniais (e anticolonialidade) pelo país que, com certeza, tiveram e ainda têm grandes vascaínos em suas trincheiras. 

Vasco da Gama. Imagem: Wikipédia

3) A necessidade de “decolonizar”

Mas o nome do clube deveria mudar? Não, não é necessário. História não se apaga. Cada tempo histórico deve ser visto como tal, com suas tradições e referências. Mas história se contesta. Quando não questionada, então abre espaço para declarações como a de Marcelo Crivella durante a cerimônia no CT. Ao citar a luta contra o racismo, algo caro na história vascaína, o prefeito afirmou que o Vasco “presenteou” a cidade e o país com atletas negros que tem “um lombar espetacular”. Por um lado, a declaração reconhece o direito dos negros à prática do esporte. Porém, questionando a fala, fica fácil encontrar outro problema.

Por todos esses motivos, é mais do que necessário decolonizar o pensamento. Se o “descolonizar” é o ato de deixar de ser colônia no nível político-territorial em sua concepção clássica, então o “decolonizar” sem “s” é o ato de se posicionar e agir continuamente, transgredindo, intervindo e insurgindo (Walsh, 2009) contra tudo que o colonialismo nos deixou de herança.

E, pensando bem “decolonialmente”, é importante dizer: A instituição CR. Vasco da Gama será ainda maior quando aprender a valorizar todas as suas raízes. Não só a portuguesa, mas também as raízes de clube nascido no pé do Morro da Providência, fundado por trabalhadores do Centro da cidade do Rio de Janeiro e campeão graças a inclusão de jogadores descendentes dos negros escravizados. Hoje, esse clube inaugura seu CT às margens da Cidade de Deus e tem, ao lado de seu estádio, a favela da Barreira do Vasco.

Tudo isso é Vasco. E, doadoras ou não, todas essas mãos construíram esse novo monumento: O nosso CT.


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Lucas Nascimento de Mattos

Vascaíno, Geógrafo, mestrando do POSGEO-UFF, membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas Urbanas (NEURB/UFF)

Como citar

MATTOS, Lucas Nascimento de. O “CT do Almirante” e as escancaradas heranças coloniais brasileiras. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 38, 2020.
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