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O derby em Floripa: Figueirense x Avaí

Alexandre Fernandez Vaz 31 de outubro de 2020

Buenos Aires, uma das capitais mundiais do futebol, está acostumada a assistir a vários derbies, los clássicos, já que são muitas as equipes de primeira divisão que ocupam os bairros da cidade ou de cidades que lhe são contíguas. São times com tradição, títulos, histórias que são narradas com detalhes e emoções por seus tenazes torcedores. Boca Juniors, River Plate, San Lorenzo, Vélez Sarsfield, Racing, Independiente, quando jogam entre si, perfazem um clássico, mas, quando os dois primeiros se enfrentam, então temos el superclásico. Seja em La Bombonera ou no Monumental de Nuñez, um Boca X River é de parar a respiração.

Na capital de Santa Catarina acontece o superclássico do estado, e as partidas entre Figueirense e Avaí são dias de festa por meio dos quais se pode narrar a história e a memória de Florianópolis. Criciúma Esporte Clube, Associação Chapecoense de Futebol e Joinville Esporte Clube são os outros grandes entre os catarinas, mas cada um representa sua cidade e, de uma forma ou de outra, foram formados a partir da fusão de times locais, processo que desidrata as rivalidades citadinas. A constituição de um clube que unificasse os adversários e representasse Floripa nos campeonatos de futebol é algo que, apesar de em algum momento ter sido aventado, é hoje impensável.

Fundado na Ilha e transferido para a região continental da cidade, o Figueira foi o primeiro dos rivais a competir no Campeonato Brasileiro, na época sem divisão por séries, em 1973. O Alvinegro do Estreito, como seu coirmão Azurra, costuma oscilar em seu desempenho, tendo frequentado a Série A por diversos anos e alcançado o vice-campeonato da Copa do Brasil em 2007. Criado na Ilha de Santa Catarina, de onde nunca saiu, o Avaí foi campeão brasileiro da Série C em 1998 e fez boas campanhas na Série A, ainda que tenha, com frequência, amargado rebaixamentos. São ambas equipes de Série B que eventualmente frequentam a Primeira Divisão.

Como já escrevi uma vez aqui mesmo no Ludopédio, em que pese as respectivas torcidas reclamarem muito quando seu time não está na parte de cima da elite nacional, não é pouco ser uma agremiação consolidada entre as quarenta melhores do país. Está de bom tamanho desfrutar da disputa de um campeonato nacional em um país no qual o futebol tem tanta importância.

Foto: CBF / Site Figueirense

Os times seguem, então, juntos, embora separados. Para além da evidência de que um precisa do outro para a construção das narrativas que compõem identidades e inventam tradições, há muitos pontos de encontro entre os adversários. Não foram poucos os jogadores que cruzaram a ponte, da Ilha para o Continente ou vice-versa, para vestir as duas camisas. Um deles é Toninho Quintino, que começou no Avaí e transferiu-se para o Figueirense, pelo qual destacou-se como o jogador-revelação do Campeonato Brasileiro de 1975. Dali foi ser campeão paulista pelo Palmeiras (era o Toninho Catarinense), formando dupla de ataque com o craque Jorge Mendonça. Outro importante destaque foi João Carlos de Souza, o Balduíno, recordista de participações em clássicos, com setenta e cinco jogos, como sabemos pela leitura dos belos livros do jornalista Polidoro Jr. A pequena estatura teria sido a razão da dispensa do jovem que tentava a sorte no time do Estreito ainda no final dos anos 1960. Recebido pelo Avaí, onde concluiu sua formação inicial, foi como jogador consagrado e campeão que ele voltou ao Figueira, quando, então, ninguém mais reclamou de sua altura.

Se a rivalidade entre os clubes compõe a cidade, era de se esperar que forças políticas tradicionais se aproveitassem disso. As duas grandes oligarquias que dominaram a política catarinense no século vinte se ligaram, em maior ou menor medida, ao Avaí (os Ramos, oriundos do Planalto Catarinense) ou ao Figueirense (os Konder Bornhausen, do Vale do Itajaí). Em movimentos que nem sempre tiveram na mesma direção, foi por meio de conexões políticas que o Avaí ficou com o Estádio Adolfo Konder, posto a baixo no início dos anos 1980 para dar lugar a um shopping center, e o Figueirense recebeu recursos para a construção do Orlando Scarpelli. Os azul-e-brancos mandam seus jogos hoje no Aderbal Ramos da Silva, a Ressacada, no Bairro Carianos.

Assisti a vários clássicos em Florianópolis, e três dos mais recentes relembro agora. O primeiro foi em 2008, pelo Campeonato Catarinense, vitória do Avaí por dois a zero, na casa adversária, com atuação de gala do meia-atacante Marquinhos, o último dos futebolistas desses times sobre o qual podemos dizer que jogou o futebol-arte. Foi dele o lançamento para o atacante Bebeto, no último minuto, vencer Clayton Xavier e César Prates e fuzilar o bom goleiro Wilson.

O segundo foi a acachapante vitória de quatro a zero, imposta pelo Alvinegro nos domínios avaianos, placar construído ainda no primeiro tempo, pela Série B, em 2013. Foi deprimente ver boa parte dos torcedores locais abandonando o estádio – e seu time – no intervalo da partida.

O terceiro foi o encontro inaugural entre eles na Série A, em 2011, em vitória do Avaí, como visitante, com gol marcado pelo veterano Lincoln, que estreava naquela noite de domingo. A partida foi muito bem disputada e, além do mais, estava com pessoas queridas, amantes do futebol, como eu. Eram Jaison Bassani e Detlev Claussen.

Ilha de Santa Catarina, outubro de 2020.


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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. O derby em Floripa: Figueirense x Avaí. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 68, 2020.
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