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O discurso como campo de disputa política em dia de jogo do Londrina

Clayton Denis Alino da Silva 23 de setembro de 2022

Em 11 de setembro de 2022, durante o período de campanha eleitoral e minutos antes da partida entre Londrina Esporte Clube e Chapecoense, houve enorme confusão em frente ao Estádio do Café, em Londrina-PR, entre integrantes da campanha de um deputado federal candidato à reeleição[1] e integrantes da Torcida Organizada do Londrina, a Falange Azul.

As partes envolvidas divergem sobre os motivos das brigas, onde torcedores da Torcida Organizada Falange Azul acusam a equipe do deputado de ofender e agredir uma mulher por não aceitar receber o “santinho” – panfleto da campanha – e o candidato acusa a torcida organizada de intolerância política.

Relatando o ocorrido, o parlamentar escreveu em suas redes sociais: “Eu estava com minha família e equipe no estádio do café, no jogo do nosso glorioso Tubarão. Eis que petistas criminosos chegaram em bando e partiram gratuitamente pra porrada: agrediram meu sobrinho de 18 anos, meu tio de 65, meu pai, minha assessora, demais da Equipe e eu”. O deputado publicou diversos relatos e vídeos do momento da briga, também divulgou fotos dos agressores de sua equipe reiterando pedidos de punição aos mesmos sob o pretexto de motivação política, os declarando petistas e chamando a torcida de selvagem.

A manifestação do parlamentar reverberou entre seus eleitores e entre a base de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, já que o deputado se divulga como o candidato “zero-um” do presidente no Paraná, gerando centenas de ameaças a membros da torcida organizada do Londrina e torcedores associados ao vídeo, incluindo também a manifestação do presidente da república em suas redes sociais reforçando seu apoio ao candidato e comentando o acontecido: “Os maloqueiros do PT, integrantes da Falange Azul, mostrando todo seu sentimento de paz e amor ao próximo”.

Já a Torcida Organizada Falange Azul publicou em nota que:

“Após o ataque, a torcedora ainda foi xingada pelos assessores e cabos eleitorais e pelo próprio candidato. Muitos torcedores, incluindo diversas pessoas que sequer são sócias da torcida, mas que estavam ao redor, se revoltaram com a atitude e foram tomar satisfações. Durante a confusão, um cabo eleitoral do deputado sacou uma arma e spray de pimenta contra os torcedores.  A Torcida Falange Azul lamenta o ocorrido e ressalta ser totalmente contra qualquer tipo de violência, e também reforça que o ocorrido não tem nenhuma relação com questão ou opinião política, vale destacar que vários outros candidatos de diversas vertentes políticas fazem campanha no estádio com toda tranquilidade e paz. Nossa torcida possui pessoas de todas as ideologias, que convivem em grande harmonia, o estádio é um espaço democrático e sempre defenderemos isso. A torcida londrinense e a Falange Azul repudiam qualquer tipo de agressão contra as mulheres, seja de quem for, a Falange também se solidariza com a torcedora agredida pela equipe do deputado”.[2]

Falange Azul
Fonte: Divulgação/Gustavo Oliveira/LEC

Ainda, foi divulgado pela Torcida Organizada vídeos em que há discussão sobre a suposta violência contra a mulher em que pessoas vestindo camiseta do candidato assumem o ato como algo não intencionado[3].

Obviamente essas diferenças de discursos e narrativas não ficariam somente entre a Torcida Organizada e o deputado e sua equipe de campanha, já mostrado que até o presidente da república entrou na jogada relacionando a torcida como violenta e associada ao Partido dos Trabalhadores, PT, seu principal rival de campanha.

Em nota, o diretório do Partido dos Trabalhadores de Londrina condenou os episódios de violência física e simbólica de ambas as partes, ressaltando que não incentiva seus filiados a cometerem ações que vão na contra-mão das diretrizes do partido.

Sobre o acontecimento em frente ao estádio do Café, é importante também mostrar a nota oficial do Londrina Esporte Clube:

Como uma equipe que representa uma cidade, o Londrina Esporte Clube deixa claro que atos de violência não são tolerados, seja nas imediações ou dentro do Estádio do Café, feito por “torcedores”[4] do clube, pois entendemos que o estádio é um local para lazer e onde muitas famílias frequentam, acompanhando o nosso Tubarão. (…) O Londrina Esporte Clube é contra toda e qualquer forma de violência dentro ou fora dos estádios, por qualquer motivação, seja por diferenças futebolísticas, diferenças de torcidas, diferenças políticas, contra a mulher ou qualquer tipo de violência. Nota oficial do Londrina[5].

Após o incidente, uma jornalista que estava próxima à confusão fora do horário de trabalho foi demitida da rede de televisão local em que trabalhava, afiliada à Rede Record, sob pretextos de ser muito próxima da Torcida Organizada Falange Azul e por ter usado roupa de cor vermelha em matéria televisiva. O próprio deputado foi influente nesse processo de demissão da jornalista, publicando mensagens em que ela escrevia em grupo de WhatsApp da torcida, segundo notas oficiais do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná e da Federação Nacional dos Jornalistas.

O imbróglio entre o deputado e a torcida continuou por conta da visita do presidente Jair Bolsonaro à cidade de Londrina, realizada no dia 16, cidade em que obteve 80,2% dos votos válidos no segundo turno da eleição qual se elegeu presidente[6]. Foi feito um monitoramento da torcida organizada para a campanha do presidente na cidade, levantado algumas mensagens de ameaças ao mesmo, mas não foram concretizadas, sendo o presidente recebido por um grande público para a “motociata” e comício realizados na cidade, onde criticou seus opositores, principalmente o Partido dos Trabalhadores e declarou que “o Brasil é um país que não tem problemas outros. O único problema que nós temos aqui é o PT, composto de pessoas que vieram dos rincões, dos grotões, daqueles locais onde nada poderia sair dali a não ser esse tipo de gente”.

Bolsonaro Londrina
Fonte: reprodução

Já que na política não existem espaços vazios, o estádio de futebol é necessariamente um espaço político e de ocupação política. Um espaço democrático e de defesa da democracia. Se o tumulto que aconteceu em Londrina é um premeditado contexto da disputa eleitoral ou disputa eleitoreira, não se pode afirmar, em base aos discursos dados entre as partes, mas que, definitivamente, foi levada a este âmbito pelo deputado e sua base.

As publicações que incitam sua base a discriminar e generalizar toda a torcida organizada da Falange Azul só fez gerar mais violência, até direcionar esta violência aos identificados, à jornalista supracitada e a suas famílias.

A utilização política do clube e do torcer pelo clube é utilizada como discurso eleitoreiro para separar o bem e o mau, o civilizado e o selvagem, e no discurso do deputado: o londrinense e o petista, afirmando, em uma tentativa populista, sempre hiperbolicamente, que verdadeiros torcedores alvicelestes apaixonados pelo glorioso tubarão[7] da linda cidade de Londrina não fariam isso, somente os selvagens militantes do partido opositor seriam capazes, se referindo a estes até como skinheads petistas e corroborando com a imagem estigmatizada das torcidas organizadas.

Entendendo discurso enquanto maneira de representação em que organiza a ação comunicativa numa comunidade social (CHARADEAU, 2006), o discurso político se assemelha ao discurso torcedor, através de criação de valores que opõe “nós” e “eles” em um campo de disputa, mas que neste caso não ficou somente aos arredores do estádio, mas além das agressões físicas que houveram, tomaram a internet e se conglomeraram em disputas de poder, fazendo que discurso se ressoasse e produzisse ações e reações.  O ato exemplificou a utilização do discurso como estratégia política, aplicando às relações sociais um redimensionamento das identidades e identificações, ressignificando-as em somente disputa política, entre apoio ao candidato e revolta ao partido adversário onde atores agiam ignorando e banalizando o discurso do outro, que são atores sociais igualmente importantes, ocasionando uma disputa através dos discursos e não pelas factualidades manifestadas durante a briga ocorrida entre a torcida organizada e os apoiadores do deputado.

A disputa entre o deputado e a torcida organizada extrapola o evento momentâneo da briga antes da partida e passa para um campo de disputa da representatividade política-ideológica e prova mais uma vez que o futebol nos fornece subsídios para entender as formas de organização e como as relações que permeiam a sociedade brasileira, fomentadas pelo processo democrático eleitoral. Entendendo o esporte como um espaço onde os grupos competem por prestígio, honra, dinheiro e poder (ALABARCES, 1998), com base na disputa eleitoral e ideológica entre a extrema direita e a esquerda brasileira nessas eleições.

Diante de uma eleição disputada em vários terrenos políticos, principalmente pelo discurso, o futebol se apresenta como uma forma de linguagem e de antagonismos – representadas, por exemplo, na utilização de diversas camisas de clubes e eventos esportivos brasileiros como estratégia política do atual presidente.

No cenário político atual, as acusações entre políticos e suas bases aliadas e eleitores têm sido marcantes pelos ataques de violência verbais e físicos, já sendo registradas mortes em alguns estados brasileiros. Desta maneira é importante entender o discurso como estratégia de política, posicionada para moralização e imposição de valores e características do outro, “eles”, demarcado pela desumanização daquele que é seu rival em relação à posição qual se identifica, “nós”.

O fato ocorrido fora do estádio e as manifestações da torcida organizada sobre a ida do presidente à Londrina estão sendo investigadas e apuradas pela polícia federal. A partida foi vencida pelo Londrina Esporte Clube, por 2 a 1, válida pela 29ª rodada da série B do Campeonato Brasileiro.

Notas

[1] Faço a opção proposital de ocultar o nome do deputado devido ao contexto do processo eleitoral. No entanto, a ocultação do nome do parlamentar não altera a discussão do artigo.

[2] https://www.facebook.com/falangeazul/photos/a.1540563369299156/5584472938241492/

[3] https://www.facebook.com/LONDRINADAZUEIRA/videos/1079776292908109

[4] Escrito em aspas pela própria assessoria do Londrina Esporte Clube.

[5] https://www.londrinaesporteclube.com.br/noticia/2022/9/11/nota-de-repudio–atos-de-violencia-no-estadio-do-cafe

[6] http://especiais.g1.globo.com/pr/norte-noroeste/eleicoes/2018/apuracao-zona-eleitoral-presidente/londrina/2-turno/

[7] Alcunha do Londrina Esporte Clube.

Bibliografia

ALABARCES, Pablo; DI GIANO, Roberto; FRYDENBERG, Julio. Deporte y Sociedad. Buenos Aires: Eudeba, 1998.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico . Trad. Fernando Tomaz. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

CARVALHO, Phelipe Caldas Pontes. Amor (não) se explica : torcida, topofilia e estádio de futebol. FuLiA/UFMG, 5(2), 52–78, 2021.

CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2006.

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A Busca da Excitação. Lisboa: Difel, 1992

TOLEDO, Luiz Henrique de. Torcidas organizadas de futebol. Campinas: Autores Associados/ANPOCS, 1996.

MEDANHA, Fernando França. Futebol arte, discursos à parte : exame discursivo de três diferentes jornais e seus respectivos contratos e estratégias na cobertura da copa 2010 em um país de terceiro mundo. 2012. 135 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2012.

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Clayton Alino-Silva

Fanático por jogos e esportes, tradicionais e eletrônicos - Pesquisa performances e rituais em atividades lúdicas como brincadeiras, jogos e torcer. Bacharel e mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina e especialista em Antropologia Política pela FLACSO-Argentina. Pesquisador do Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidades (LELuS/UFSCar) desde 2020.

Como citar

SILVA, Clayton Denis Alino da. O discurso como campo de disputa política em dia de jogo do Londrina. Ludopédio, São Paulo, v. 159, n. 25, 2022.
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