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Profissional ou amador? O embate que ditou os rumos do Sport Club Internacional

Cesar Caramês 26 de agosto de 2020

Há mais de cem anos, quando o Sport Club Internacional iniciava sua senda de vitórias, o futebol era um esporte bem diferente do que é hoje, assim como o próprio clube. Tendo chegado a Porto Alegre em 1903 como um grande evento social, o esporte, que hoje abarca as multidões Brasil afora, era restrito às classes mais abastadas da sociedade. Apesar da simplicidade que envolve o jogo de bola – precisa-se basicamente de uma bola para emulá-lo -, nem todos podiam jogá-lo dentro dos círculos tidos como oficiais.

A Liga de Futebol Porto-Alegrense foi criada no ano de 1910 por iniciativa de Oswaldo Siebel, ex-presidente do Grêmio FBPA, eleito o primeiro presidente da Liga, que convidou os demais times. Além do já citado Grêmio, fizeram parte da primeira constituição da Liga, Fussball, Internacional, Militar, Nacional, Frisch Auf e 7 de Setembro.[1] Outros clubes ficaram de fora, originando ligas tidas como alternativas, como a Liga Nacional de Football, pejorativamente conhecida como Liga dos Canelas Pretas. Isso por não fazerem parte dos mesmos círculos sociais que os demais clubes. Nos anos que se seguiram, várias disputas entre os clubes da Liga oficial originaram a criação de ligas paralelas que, volta e meia se reunificavam, voltando a cindir novamente ali na frente.

O grande debate em torno da maioria destas cisões, era sobre a inscrição de jogadores pelas equipes. Ou, mais especificamente, na forma como ela se dava. Havia indivíduos, dentro dos altos círculos que decidiam sobre o futebol, que eram ferrenhos defensores do caráter amador do esporte. Entendiam que o esporte era uma atividade de lazer e que o desejo da vitória não poderia estar acima da sua simples prática. Viam o futebol também como uma forma de criar uma rede de relações entre seus pares, de forma a mantê-lo amador e assim afastar os indesejados daqueles círculos, como os times da Liga Nacional de Foot-ball. Na série “The English Game,[2] que aborda o início da profissionalização do futebol na Inglaterra em finais do século XIX, vê-se o time de criadores do esporte e da FA Cup temerem perder o “seu esporte” com a abertura para o profissionalismo. Mais do que a propriedade do esporte, os dirigentes das primeiras décadas do futebol no Brasil e em Porto Alegre, nesse caso específico, temiam que o profissionalismo corrompesse a prática do esporte.[3]

Contudo, era impossível controlar totalmente a utilização dos players, pois acontecia que muitas equipes mantinham formas escamoteadas de remunerar seus atletas, caracterizando o que se convencionou chamar de “amadorismo marrom”, fosse empregando atletas nas empresas de seus associados, com os primeiros recebendo salários por funções que não exerciam, fosse através do pagamento de premiações, o famoso bicho.[4] Aos poucos, os clubes foram perdendo também o controle sobre os jogadores, que passavam a ser contratados por equipes de países onde o profissionalismo já havia sido adotado, como Argentina e Uruguai, por exemplo.[5]

Então, na década de 1930, um grupo liderado por Arnaldo Guinle, influente dirigente carioca, passa a advogar pelo profissionalismo. Mais do que isso, passa a disputar o controle sobre o esporte brasileiro, criando a Federação Brasileira de Futebol, profissional, em contraposição à Confederação Brasileira de Desportos, amadora, e única entidade nacional filiada à FIFA, o que a tornava também a única habilitada a gerir o esporte nacional em competições internacionais. Estes conflitos vão ser pacificados somente em 1937, com a unificação das duas entidades, mantendo-se o nome da CBD e adotando o profissionalismo. Nesse mesmo ano, o Inter e outros clubes gaúchos também aderem ao profissionalismo, mas não sem antes ter os seus próprios conflitos internos. Tratemos de como se deu este processo dentro do Internacional.

Primeiro escudo do Inter. Imagem: Wikipédia

Dois históricos presidentes do clube são os principais personagens deste embate: Antenor Lemos e Ildo Meneghetti. O primeiro, presidente do clube no início da década de 1920, era um ferrenho defensor do amadorismo. É o responsável por fomentar a criação de jogadores dentro do próprio clube através dos times de filhotes, uma espécie de categoria de base da época, porém sem a mesma organização atual. Desta forma, Antenor Lemos chegou ao título Citadino de 1922, com jogadores formados dentro do próprio clube. Além disso, foi o propositor da Lei do Estágio, mecanismo que forçava os clubes a terem somente jogadores brasileiros e, em caso de estrangeiros, exigia o tempo de moradia de um ano na capital.[6]

Mas os resultados em campo não eram dos melhores naquela década. Além do Citadino de 1922, o clube conquistou somente a mesma competição em 1927 e o seu primeiro campeonato estadual no mesmo ano. Esta conquista se deveu em boa parte à presidência de Oscar Borba que começou a mudar paradigmas dentro do clube. Diferente de Antenor Lemos, este era mais propenso à contratação de jogadores, processo que é continuado por Edelberto Mendonça em 1928, ano em que Dirceu Alves se torna o primeiro jogador negro a vestir a camisa do Inter.[7] Porém, esta mudança passa a gerar um conflito com o próprio Antenor Lemos, naquele momento presidente da Federação Rio-Grandense de Desportos (atual FGF) e, como já citado, propositor da Lei do Estágio, que visava a manutenção do amadorismo puro. Ainda com muita influência dentro do clube, Lemos sugere um candidato de conciliação para a presidência do clube a partir de 1929: Ildo Meneghetti. Engenheiro e associado do clube há vários anos, Meneghetti retornava neste momento para a vida do clube. E acaba por dar novo sentido à existência do Internacional.

Em crise com as poucas conquistas e vendo o clube sem nenhum acúmulo de patrimônio desde a sua fundação,[8] o Internacional precisava de um novo impulso. Ildo Meneghetti então lança o ousado plano para construção de um novo estádio, até mesmo pelo fato de o Asylo Providência, proprietário do terreno da Chácara dos Eucaliptos, ter colocado o referido terreno à venda. Além do plano de construção do novo estádio, uma reforma estatutária amplia o quadro social, visando a venda de títulos para obtenção de recursos para a obra. No plano da montagem das equipes, Meneghetti segue a política de seus antecessores, indo de encontro à visão de Antenor Lemos.

Nesse período se dá o grande debate com relação aos rumos do clube. No ano de 1929, Antenor Lemos e mais um associado chamado Gastão Bard eram expulsos do quadro social do clube. Enquanto Bard era expulso por aliciar jogadores para negociá-los como profissionais com os times do Rio de Janeiro, Lemos era expulso por acusar Meneghetti de utilizar a renda da compra do terreno do Estádio dos Eucaliptos para o pagamento de salários de jogadores profissionais. Antenor Lemos seria anistiado na época da inauguração do Estádio dos Eucaliptos pelo próprio Meneghetti,[9] mas a queda de braço havia sido vencida por este e o clube seguia rumo à profissionalização.

No ano do segundo título gaúcho conquistado pelo Inter (1934), por exemplo, Darci Encarnação foi trazido após conquistar o Campeonato Gaúcho de 1933 com o São Paulo de Rio Grande. Além dele, destacou-se o jogador negro Tupã, que marcou o gol do título. Ambos se enquadravam no amadorismo marrom, mas de uma forma já bem mais aberta que nos anos anteriores. Em 1937, Internacional, Grêmio, Força e Luz, e Cruzeiro, aderiram ao movimento das especializadas,[10] criando a AMGEA Especializada e ficando de fora da disputa do Campeonato Gaúcho por dois anos (1937 e 1938), retornando somente com a unificação decorrente da adoção do profissionalismo pelas demais equipes do interior a partir de 1939.

O Rolo Compressor do Inter de 1942. Foto: Wikipédia.

É a partir deste ano que o Internacional começa a montar a equipe que massificaria a presença de atletas negros e conquistaria a hegemonia estadual na década seguinte, o Rolo Compressor, dando visibilidade para estes atletas e consolidando o caminho sem volta não só da profissionalização do futebol gaúcho, mas também da abertura racial entre os grandes clubes do estado.


Notas

[1] SOARES, Ricardo S. O Foot-ball de todos: Uma história social do futebol em Porto Alegre, 1903-1918. Dissertação de Mestrado. PUCRS, PPG-História, Porto Alegre, 2014, p. 98.

[2] The English Game [Seriado]. Direção: Birgitte Stærmose e Tim Fywell. Produção: Rhonda Smith. Reino Unido: Netflix, 2020.

[3] MAUER, Thiago. Do “profissionalismo corruptor” aos braços do povo: O S.C. Internacional e o futebol porto-alegrense (1909-1940). Trabalho de Conclusão de Curso (bacharelado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul / Instituto de Filosofia e Ciências Humanas / Departamento de História. Porto Alegre, 2018.

[4] “Chamava-se esse dinheiro de ‘bicho’ porque, às vezes, era um cachorro, cinco mil réis, outras um coelho, dez mil réis, outras um peru, vinte mil réis, um galo, cinqüenta, uma vaca, cem. Não parava aí. Havia vacas de uma, de duas pernas, de acordo com o jogo”. FILHO, Mário. O Negro no Futebol Brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. 5ª ed. 2010, p. 123.

[5] DRUMOND, Maurício. Estado Novo e esporte: a política e o esporte em Getúlio Vargas e Oliveira Salazar (1930-1945). 1ª ed. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014, p. 71.

[6] A medida teve o objetivo de barrar 4 jogadores da seleção uruguaia de jogarem no Grêmio, após uma série de vitórias do Inter nos anos de 1915 e 1916. SOARES, op. cit., p. 127-129.

[7] Imagens da década de 1910 dão a impressão de haver outros jogadores não brancos na equipe colorada. Contudo, é muito difícil e delicado afirmar com base em fotografias sem uma análise técnica adequada, se aqueles jogadores realmente seriam negros ou de qualquer outra etnia. Além disso, se carece de comprovação documental sobre serem do primeiro quadro ou não, dado importante, e muitas são as questões sobre estes jogadores: eram vistos pela sociedade da época como negros? Identificavam-se como negros naquela sociedade? Como, apenas pouco mais de 20 anos após a abolição da escravidão, estes jogadores circulavam nos meios minimamente próximos das elites da capital? Mesmo assim, na fase incipiente que se encontrava o futebol, estes jogadores não representam o acesso massivo dos jogadores negros nas maiores equipes da capital, o que por si já dá a noção de que os clubes ainda não haviam sido abertos totalmente, fato que vai ocorrer somente a partir da profissionalização, a partir de 1937.

[8] Em 1909, a mensalidade do Internacional era de 500 réis, enquanto já em 1905, a mensalidade do co-irmão era de 2$000 (dois mil-réis), mesmo valor de outros clubes da elite carioca no mesmo período. SOARES, op. cit, p. 76.

[9] Livro de Actas das sessões de Assemblea Geral do Sport Club Internacional. Acta da 35ª Assembléia Extraordinária, 7 de Março de 1931, apud MAUER, Thiago M. & CARAMÊS, Cesar. A profissionalização do futebol porto-alegrense a partir do S.C. Internacional. Artigo apresentado no 3º Simpósio Internacional de Estudos Sobre Futebol. 

[10] Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 15 jul. 1937, p. 1, apud DRUMOND, Maurício. Estado Novo e esporte: a política e o esporte em Getúlio Vargas e Oliveira Salazar (1930-1945). 1ª ed. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014, p. 79.


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Cesar Caramês

Graduando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Responsável pelo Setor de Pesquisa Histórica do Museu do Sport Club Internacional-Ruy Tedesco. Como Galeano, escrevo tentando que sejamos mais fortes que o medo do erro ou do castigo, na hora de escolher no eterno combate entre os indignos e os indignados.

Como citar

CARAMêS, Cesar. Profissional ou amador? O embate que ditou os rumos do Sport Club Internacional. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 58, 2020.
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