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O épico Brasil 0x1 Argentina (ou porque 2021 não pode ser 1971!)

Fabio Perina 15 de julho de 2021
Maradona Messi
Fonte: Reprodução Twitter

O fato principal do conhecimento de todos é que nos últimos dias a Argentina conquistou a Copa América em pleno Maracanã vencendo o Brasil. Mais precisamente no dia 10 de julho, o que por incrível coincidência Messi conquistou o primeiro título por sua seleção exatamente no mesmo dia (só que 5 anos depois) que Cristiano Ronaldo pela sua. Até nisso coincidiram os craques que dividiram o estrelato por uma década. Mas a crônica de agora tem outros personagens e outros números com algum significado mais profundo por se vincular mais a equipes do que a craques.

Em 71, como todos sabemos, a seleção brasileira vinha da conquista do tricampeonato da Copa do Mundo no México e o uso político da vitória foi amplamente explorado pelo ditador Médici. Assunto já bastante analisado pela recente comemoração dos 50 anos da conquista. Além de outros impactos como a criação do Campeonato Brasileiro, a construção de estádios faraônicos por todo o país e a tentativa do regime militar de organizar no ano seguinte a Taça Independência para buscar novamente associar sua imagem com uma seleção vitoriosa. Em termos mais subjetivos, foi aquele certamente o momento em que mais se polarizou a expressão da mistura entre futebol e política tal qual o típico slogan do regime de um “Ame-o ou deixe-o”. Ou seja, ou uma adesão cega ao regime com sua tentativa de uso político do futebol ou uma negação total de ambos através da revolta imediata de torcer contra a seleção brasileira.

Muito se pode falar da aproximação de futebol e política, mas agora o foco será apenas em algumas edições Copa América para esses temas. Não houve o torneio nem em 71, tampouco em 81, mas em 91 a Argentina vinha como favorita depois de duas finais de Copa do Mundo seguidas conduzida por Maradona e pelo treinador Bilardo. Mesmo com a suspensão de Diego pelo primeiro caso de doping, a renovação do elenco foi vitoriosa no torneio continental pelo treinador Alfio Basile com nomes como os jovens Simeone e Batistuta. Entre os títulos de Copa América de 91 e 93 foram 2 anos e cerca de 30 partidas de invencibilidade. Um gosto especial nesse bicampeonato por romper uma fila desde 59 sem vencer a competição (sendo que Maradona esteve nas derrotas nas edições de 83, 87 e 89), vencer o Brasil nas duas ocasiões, além de empatar e logo superar o Uruguai como maior vencedor da competição. Uma prova que era uma geração forte sem depender de Maradona.

Por ironias do destino, o retorno de Maradona à seleção para jogar a primeira fase da Copa do Mundo de 94 foi também o seu último ato com ela diante de nova suspensão por doping. Como se sabe, é o momento a partir de então que a rivalidade entre Brasil e Argentina passou a ser mais desparelha do que nunca. Com apenas títulos para o Brasil em Copa do Mundo (94 e 2002), Copa América (97, 99, 2004, 2007 e 2019) e Copa das Confederações (2005, 2009 e 2013). Assim como se inicia a conhecida fila sem títulos por longos 28 anos dos argentinos. No qual se acumularam gerações muito talentosas, mas também doloridas 3 eliminações seguidas para a Alemanha em Copa do Mundo (2006, 2010 e 2014) e em Copa América 2 vices seguidos para o Brasil (2004 e 2007) e mais 2 vices seguidos para o Chile nos pênaltis (2015 e 2016). Ou seja, por quase 3 décadas o rumo dessa rivalidade tomou a forma de duas faces de uma moeda de tão inconciliáveis: os títulos para o Brasil, mas o “aguante” para a Argentina. Passando a ser cada vez mais disparada como a torcida de seleção com mais vibração no mundo, “copando a todos lados”. Por isso o lado de lá com os argentinos terá maior destaque nos próximos parágrafos por ser mais dramático e com desfecho agora finalmente épico.

Concluindo o paralelo dos números de década a década, depois de falar de 71, 81 e 91, em 2001 a Argentina desistiu de jogar uma turbulenta edição de Copa América com sede na Colômbia. Enquanto em 2011 quando ela própria foi sede perdeu a classificação e o título para o Uruguai. Além de ser um momento que pesou forte pressão sobre Messi pela obrigação da mídia e torcida local por ser protagonista. Época em que era até mesmo questionado por ser “sin sangre” ao ficar calado durante o hino nacional e participar pouco das partidas. A expectativa de ser na seleção o craque que era no Barcelona pouco correspondia com a realidade. Mas um pequeno desvio de percurso exige lembrar quanto a 2019 por um detalhe: pois a tristeza argentina pela derrota para o Brasil nas semifinais foi logo dias depois seguida por um lance imprevisível na disputa de terceiro lugar na vitória contra o Chile. O craque Messi (rebelde com a bola no pé, mas taxado de muito “comportado” sem ela) trocou ofensas, empurrões e mãos no pescoço com o chileno Medel. Ali estava sendo forjado o despertar de sua versão mais maradoniana! 

A Copa (“Cova”) América 2021

Já chegando ao ano atual de 2021, como todos sabemos foi a edição mais turbulenta com troca emergencial de sedes de Colômbia e Argentina para o Brasil justamente no meio de uma pandemia obrigando a partidas com portões fechados. A pouca experiência do treinador Lionel Scaloni (quem saltou direto de auxiliar de Sampaoli a treinador) buscou ser compensada por uma mescla entre jovens como Montiel, Acuña, De Paul e Lautaro Martinez com referentes dos recentes vices-campeonatos na última década como Otamendi, Messi, Di Maria e Aguero. Assim como a sua própria mescla com os atuais auxiliares sendo antigos referentes dentro de campo como o ex-meia Pablo Aimar e e os ex-zagueiros Roberto Ayala e Walter Samuel.

Não pode passar despercebido que essa foi a primeira edição de Copa América após a morte de Maradona cerca de 6 meses antes. Inclusive competição que ele próprio nunca a venceu. As homenagens da AFA e da Conmebol é claro não poderiam passar batido, tanto no retorno da Argentina a campo em seu país pelas Eliminatórias quanto na estreia na Copa América. Já nessa estreia uma previa instigante do “realinhamento dos planetas” que se aproximava com gol de falta de Messi e comemoração bem maradoniana. (Pouco importando o empate chileno nas duas partidas, justamente o novo país nos últimos anos a se somar ao Brasil e se orgulhar de ter a Argentina “de hijo” pelas finais vencidas). Desde então a evolução da equipe de Scaloni foi gradual com vitorias sobre Uruguai, Paraguai e Bolívia na fase de grupos e Equador nas quartas-de-final.

Já nas semifinais contra a Colômbia, após empate de 1 a 1, foi nos pênaltis que se forjou ao mesmo tempo um herói e um grupo de guerreiros. Com o pouco conhecido goleiro Emiliano “Dibu” Martinez defendendo 3 cobranças dos colombianos após muitas provocações verbais (“mirá que te como” entre outras) e gestos obscenos. Evidente que surgiram na opinião pública de cada país envolvido tudo que é tipo de posição sobre o ocorrido. Se mesmo antes desse futebol pandêmico já vinha sendo cada vez mais raro imaginar cenas imprevisíveis, essa estratégia do goleiro compensou a frieza de um estádio vazio. Foi simplesmente o “aguante” em pessoa!

E por falar em “aguante”, a final entre Brasil e Argentina no Maracanã como era de se esperar foi um jogo bastante truncado e pegado. Com todo o favoritismo da seleção brasileira construído pelas vitórias nas Eliminatórias pouco servindo para superar quem melhor soube jogar coletivamente para se defender e atacar. Decidido apenas quando a defesa brasileira “se durmió” duas vezes no mesmo lance: no longo lançamento de De Paul que encontrou Di Maria livre para tocar por cobertura. Ainda sobre essa final, como todo Brasil x Argentina que se preze despertou muitos outros pontos de vista que repercutiram depois. Felizmente nenhum lance fundamental teve interferência ou omissão do VAR. Por exemplo se houve ou não antijogo argentino (ou se foi de igual pra igual) e como sempre a performance de Neymar se entregar ao choro logo após a partida (embora novamente cobrindo o rosto para não se ver evidências de lágrimas), mas nem meia hora depois já estar sem meião e sem camisa ao lado de Messi às gargalhadas durante a entrega da premiação.

Além do fim da fila da Argentina (quem inclusive venceu no mesmo estádio pelo mesmo placar de um amistoso em 98 às vésperas da Copa do Mundo), as repercussões mais profundas quanto ao resultado da final foram a quebra de mais algumas escritas vantajosas à seleção brasileira: pela primeira vez perder uma Copa América que sediou e perder uma invencibilidade de mais de 70 anos no estádio em partidas oficiais justamente quando perdeu para o Uruguai em 1950. Cabe a cada um conforme enxerga mais ou menos subjetividade no futebol concluir se o feito épico de agora da Argentina constitui um novo Maracanazo ou não (conforme a imprensa argentina vem celebrando). Épico mesmo é que sobre os personagens fica o balanço que mais do que nunca Maradona e Messi não tem que competir, mas se complementar como uma redenção e até podemos dizer como uma reencarnação.  Aliás uma tipica comparação bem monótona para preencher as horas de programas televisivos que dificulta ver suas aproximações, assim como tende a individualizar demais a visão e dificultar ver um pouco dessa reencarnação esteve em cada um da equipe argentina e do país todo.

O que de alguma forma permite também uma redenção a um próprio Maracanã já tão judiado e desrespeitado durante a pandemia em vários sentidos. Em outras palavras, em um cenário dos mais melancólico se permitiu desenrolar ainda algum enredo épico. (Pouco importa se a partida não foi “de encher os olhos” quanto a técnica). Afinal de um ano para cá foi ali o retorno de partidas no futebol brasileiro bem ao lado de um hospital de campanha. Depois, a tentativa nos bastidores da prefeitura do Rio de mudar seu nome oficial de Mario Filho para rei Pelé, mas logo abandonada. E por fim, a medida de exceção de entrada (legal embora ilegítima) de alguns milhares de torcedores em plena pandemia primeiro na final da Libertadores (quando o agravante que a vacinação estava bastante atrasada seis meses atrás) e agora nessa final de Copa América.

Copa América 2001
Final da Copa América 2021. Foto: Lucas Figueiredo/CBF/Fotos Públicas

Porque 2021 não pode ser como 1971

Sobre esse tema de futebol, política e pandemia resgato o início dessa crônica para lembrar quanto ao motivo que mais do que nunca é necessária uma negação parcial do que uma negação total. Ou seja, se envolver com o futebol é uma luta que exige tanta paciência quanto a política para que ele seja cada vez mais à nossa maneira e não uma plena aceitação ou negação de todas as condições já postas de antemão. Justamente no momento em que ruas e arquibancadas (calles y canchas) estão mais separadas do que nunca com a dificuldade de amplas aglomerações festivas e reivindicativas. O que se aplica no geral a todo o futebol em mais de um ano de pandemia no qual entendemos que um estádio vazio é péssimo, mas um estádio com alguns poucos privilegiados de sua presença (seja por critério econômico ou sanitário) tampouco é solução enquanto nem todos possam lotá-lo já vacinados em segurança. E também se aplica no específico a essa edição de Copa América com a manobra política do ditador Bolsonaro. Quem já notou perder espaço nas pesquisas eleitorais e principalmente (o que mais importa) que é perder espaço nas ruas pelo pedido de impeachment. Quem a poucos dias da estreia improvisou a sede contando com o título da seleção brasileira para tentar se aproximar dela e melhorar sua imagem. Tal qual fez em 2019 erguendo a taça no gramado junto dos jogadores (mais uma vez coniventes com a política ao seu redor como se ela não os afetasse). E sobretudo procurou mobilizar seus apoiadores (anônimos ou famosos como Neymar) com a falácia que torcer contra a seleção brasileira fosse torcer contra o Brasil. Por isso o claro regresso de tentar voltar a 1971 com essa identificação forçada para um uso político do futebol. Em suma, não há como perdoar um “governo” que tanto se afastou do povo brasileiro e principalmente o empurrou a um abismo de morte somente por uma abstrata menção a um patriotismo de cima para baixo.

No entanto, é preciso não se deixar levar pelo imediatismo da conjuntura e reconhecer que a seleção brasileira vem a décadas se afastando muito do próprio povo brasileiro. Uma questão que nessa crônica não será possível aprofundar, assim como a evidencia que o torcedor brasileiro hoje torce muito mais pelo clube do que pela seleção. Também não terei como aprofundar mas apenas mencionar o papel de cada um nesse processo. Esse recurso da negação parcial permite afastar o ufanismo e ver concretamente que uma grande vitória da seleção brasileira pode não significar nenhuma grande melhoria para o futebol brasileiro. Um afastamento por conta da ação simultânea de dirigentes, jornalistas, políticos e jogadores. A ação de dirigentes e jornalistas (muitas vezes a fachada sob a qual operam interesses empresariais em bastidores) é o que tanto afeta o dia-a-dia do futebol com seus clubes. A parte dos políticos é o que torna o vínculo entre futebol e política bastante explícito em algumas conjunturas pontuais como a atual (embora o uso político que Bolsonaro busque fazer dos clubes já é significativo desde a campanha eleitoral de 2018). E quanto aos jogadores da seleção brasileira, embora não sejam os maiores culpados dessas condições estruturais, tampouco se importam para valer com elas ao sempre terem uma fachada de “estou aqui apenas para jogar futebol” que podem se esconder atrás dela. Vide a expectativa de um possível manifesto de boicote à Copa América que no final se tornou farsa. Vide também que a relação tensa entre jogadores e jornalistas durante a competição piorou ao seu final, inclusive com uma insinuação (porém sem dar “nome aos bois”) do capitão Thiago Silva que há jornalistas que buscam ser amigos de jogadores buscando privilégios como credenciais e entrevistas coletivas. Ora, a somatória de detalhes não pode passar batida pela qual os principais referentes da atual seleção brasileira alegam em profunda abstração alguma noção de público que a seleção é “de todos” e por isso devemos ser patriotas e apoiá-la. Porém se resguardam na esfera privada de suas redes sociais para na prática reivindicar uma lógica ainda mais privada de poderem escolher com quais jornalistas irão se expressar. Então nessa hora deixou de ser “de todos”?!

E assim surgiu mais um elemento durante essa Copa América para embaralhar mais a questão que foi uma nova onda de torcedores e jornalistas declarando que torceriam por Messi na final. Curioso também que sua presença na final engrandeceu a expectativa por ela depois de um torneio tão criticado e até menosprezado pelos diversos motivos dentro e fora de campo. A lição que fica é que no futebol e principalmente na política é preciso sempre assumir as próprias responsabilidades e posicionamentos e não ficar terceirizando lamentos nem se resguardando no conforto privado. Ou seja, após as devidas críticas à imensa maioria dos jogadores dessa seleção, é preciso levar em conta a imensa maioria dos jornalistas não tem moral para cobrar nem seus pares nem os torcedores por torcerem contra a seleção brasileira se durante tantos anos se empenharam todo dia em valorizar muito mais o futebol europeu do que o brasileiro (vide também comemorar as medidas de elitização no dia-a-dia do futebol brasileiro como se isso fosse conduzir a uma torcida e a um povo “civilizado”). Também são os responsáveis pelo Maracanã ter deixado de ser o templo sagrado das multidões para se parecer com um imenso camarote. No qual um projeto de futebol excludente irradia para a pretensão de ser um camarote ainda maior de um projeto de sociedade ainda mais excludente.

Em outras palavras, resgatando a já citada condição inconciliável entre brasileiros e argentinos nas últimas 3 décadas, para o “torcedor” de seleção brasileira lhe sobram títulos, mas lhe falta “aguante”. É um “torcedor” tão apático para o futebol quanto os jogadores para a política, pois pouco torce nas partidas da seleção e quando perde nas Copas do Mundo pouco sofre, mas lhe basta de consolo que pelo menos o rival argentino está pior. Não é questão de “romantizar” a seleção argentina (afinal até por lá hoje há queixa dos torcedores por jogadores “sin sangre”), mas é difícil vê-la como uma bolha de jovens milionários protegida de sua própria torcida e de sua própria sociedade. Vide com frequência vários jogadores cantarem os gritos da torcida na beira do gramado e no vestiário e sobretudo frequentes posicionamentos políticos por causas sociais populares ao entrarem em campo (e não apenas na comodidade de redes sociais). Ora, não há como não ter uma certa inveja ou inspiração do atual “aguante” dos argentinos quanto ao futebol e de certa forma mais indireta quanto à política também simbolizada por seu atual presidente Alberto Fernandez: pela seriedade que enfrenta a pandemia e pela coragem que enfrenta as elites financeiras locais e mundiais através do imposto de grandes fortunas e a re-negociação da dívida externa. Nesse ponto é preciso concordar que a polarização entre brasileiros e argentinos no futebol e na política nunca esteve tão clara. Em suma, é difícil saber qual o maior escárnio: se o afastamento deliberado da seleção brasileira com o povo brasileiro ou se a turma do “ame-o” taxar de anti patriota a turma do “deixe-o”. Mais uma vez (e quantas mais forem preciso): que 2021 não seja como 1971!

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. O épico Brasil 0x1 Argentina (ou porque 2021 não pode ser 1971!). Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 27, 2021.
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