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O feitiço do tempo

José Paulo Florenzano 13 de julho de 2022

A derrota da Seleção Brasileira para a Itália, na Copa da Espanha, completa agora quarenta anos. A cada decênio a discussão sobre o jogo volta à baila, reavivando velhas teorias, suscitando novas hipóteses, proporcionando explicações que, decorridos quase meio século da “tragédia de Sarriá”, ainda não convencem plenamente os que a vivenciaram intensamente, tanto dentro quanto fora das quatro linhas. Mas embora o inconformismo persista, a percepção sobre a derrota já não é mais a mesma. Ao longo do tempo, passamos por leituras distintas sobre os acontecimentos que ela encerra, cada qual exprimindo uma apreciação diversa acerca do resultado do jogo, do valor do adversário e do significado do evento.

O quadro da “tragédia de Sarriá”, a rigor, revela-se bem mais complexo do que pode parecer à primeira vista. Algumas “verdades” foram descontruídas, outras continuam a ser reproduzidas, mas nenhuma interpretação sobre o fatídico 5 de julho consegue estabelecer um consenso, longe disso, ontem como hoje, a polêmica sempre foi a regra quando se trata de discutir o Brasil x Itália de 1982. Sendo assim, ainda que de forma esquemática, repassemos alguns pontos do interminável debate envolvendo a eliminação da “Seleção da Abertura”, debate iniciado logo após o apito final.   

Com efeito, uma vez encerrada a partida em Barcelona, em meio à frustração, os atletas sequer encontravam uma explicação. “É incrível”, desabafava Zico à saída do vestiário, “mas estamos desclassificados”.[1] A mesma perplexidade comparecia nas declarações lacônicas de Junior, também à saída do vestiário: “Fomos vítimas de um acidente”.[2] A capa da edição extra do Jornal do Brasil, por sua vez, exibia a foto de uma torcedora sentada no meio-fio, o rosto apoiado no braço, completamente desolada. A legenda a tomava como uma alegoria do país: “O povo acreditava que o time de Telê era invencível.”[3]  Muitos, à época, recusavam-se a aceitar a realidade. Um “boato nacional”, difundido a partir das 11 horas da manhã do dia 6 de julho, congestionava as  linhas de telefone e telex dos jornais, rádios e televisões do país com a notícia de que Paolo Rossi “jogara dopado” e de que a Itália “fora desclassificada”.[4] Um tripulante do navio “Custódio de Melo”, da marinha brasileira, e que se achava atracado no porto de Sevilha, expressava a incredulidade geral com o desenlace de um jogo que se considerava ganho de antemão:

O que houve, o que aconteceu com esse time, meu Deus? Nós somos muito melhores do que a Itália. Como perder para eles e ainda levar três gols?[5]

As manifestações de perplexidade originavam-se precisamente nesta premissa inquestionada: éramos muito superiores aos rivais. Mas esta crença, amplamente disseminada entre os torcedores e os comentaristas antes do confronto, logo se desfez diante do resultado adverso. O pesquisador que se der ao trabalho de revisitar a cobertura jornalística do jogo irá se surpreender com as manchetes, análises e opiniões que, já naquele momento, expressavam um ponto de vista mais distanciado face à Pátria de Chuteiras. A título de ilustração, podemos citar o depoimento de um cobrador de ônibus da linha Vidigal-Mourisco, quando as cortinas do espetáculo se fecharam: “Infelizmente tenho que reconhecer, eles jogaram muito melhor e mereceram vencer”.[6] Pesquisas de opinião realizadas entre os torcedores também captavam a mesma visão de jogo expressa pelo trabalhador carioca do transporte público. Sem dúvida, a imprensa registrava reações de revolta, tumultos provocados por embriaguez, até casos de suicídio.[7]  Mas em meio ao fluxo narrativo de uma nação dilacerada, emergia aqui e ali o reconhecimento a respeito da justiça do resultado e do mérito do adversário.

Em 1982, a rigor, coexistiam duas visões opostas sobre a “tragédia de Sarriá”. De um lado, havia o grupo que continuava convencido da superioridade do time nacional sobre o time italiano, cuja vitória atribuíam ao acaso, viam-na como fruto das circunstâncias adversas de uma jornada infeliz. De outro lado, havia o grupo que buscava identificar os pontos vulneráveis do Brasil, apontar as falhas cometidas durante a partida, reconhecer os presságios ignorados no transcorrer da competição. Na esteira da eliminação, muitos procuravam fixar o significado do “trágico” evento. O cronista Carlos Eduardo Novaes, por exemplo, tripudiava sobre o futebol apresentado pela Seleção Brasileira: “Daríamos uma excelente equipe de globe-trotters para sair pelo mundo fazendo exibições”.[8] Dessa maneira, instalava-se a falsa dicotomia entre o jogar bonito e perder versus o jogar feio e ganhar, polarização destinada a adentrar o século XXI, porquanto revestindo-se de uma nova terminologia.      

Dez anos depois, embora se mantivesse o antagonismo das visões do jogo, surgiam novos enfoques, reavaliações críticas, olhares mais nuançados sobre a “tragédia de Sarriá”. A  pedido da Folha de S. Paulo, Sócrates sintetizava nos seguintes termos o confronto Brasil x Itália: “Foi uma partida equilibradíssima”.[9] A sentença socrática, formulada em 1992, situava o jogo sob um novo prisma, crucial para desfazer um equívoco histórico cristalizado na memória coletiva. Conforme o testemunho valioso fornecido pela jornalista Renata Mendonça, a geração posterior à “tragédia do Sarriá” crescera persuadida de que o Brasil submetera a Itália a um verdadeiro massacre, constituindo-se a derrota do time nacional em uma das maiores injustiças já registradas nos anais da Copa do Mundo.[10] De fato, como salientado mais atrás, em 1982 não era absolutamente esta a percepção nem da crônica especializada nem do público torcedor. Ao que tudo indica, a versão do massacre foi sendo construída e propagada a posteriori.

Em 2002, Melchiades Filho chamava atenção para o que lhe parecia mais próximo da realidade dos fatos:  “quem teve a paciência de rever a partida pôde constatar” que a derrota “não foi obra do acaso”. Ao contrário, prosseguia o jornalista da Folha de S. Paulo, a Itália havia superado o Brasil “com justiça”.[11] Carlos Alberto Torres, por sua vez, não teve necessidade de rever a partida para chegar à mesma conclusão. Em uma entrevista concedida à revista Placar em meados dos anos oitenta, momento em que principiava a carreira de treinador, ele já reconhecia o mérito do adversário que aliava organização tática, talento individual e amadurecimento coletivo: “Em 1982 nós não perdemos por azar, mas porque a Itália era um grande time.” [12] Mais recentemente, ao evocar o momento em que deixava o estádio Sarriá, logo após a partida, o jornalista Juca Kfouri corroborava a análise feita pelo capitão do tricampeonato.

Copa 1982
Seleção 1982. Foto: Acervo CBF.

A mudança de apreciação do resultado do jogo, do valor do adversário e do significado do evento foi adquirindo contornos mais nítidos à medida que nos afastamos do fatídico 5 de julho. Em 1992, o lateral direito da Seleção Brasileira, Leandro, era taxativo a respeito da comparação entre as duas equipes:

“Sabíamos que, se jogássemos dez partidas contra eles, venceríamos nove”.[13] Em 2014, o jornalista Juca Kfouri já não se mostrava assim tão certo quanto à distância que as separava: “Jogassem 10 vezes, os brasileiros venceriam sete e empatariam duas, mas, naquele dia, os italianos venceriam”[14] Em 2032, por ocasião do cinquentenário da “tragédia de Sarriá”, como estará a contagem dos playoffs imaginários disputados entre Brasil x Itália?

A “tragédia de Sarriá” parece envolta pelo feitiço do tempo. A cada vez que a revisitamos, temos a impressão de assistir a um jogo diferente. Não são poucos, inclusive, os que ainda acreditam que, um dia, a cabeçada de Oscar, desferida no apagar das luzes de um sonho mítico, entrará afinal nas redes defendidas pelo goleiro Zoff.[15] Em contrapartida, inúmeros comentaristas, pesquisadores e torcedores passaram a partir da derrota a cultivar o ressentimento contra o futebol concebido como arte, manifestando arrependimento por terem acreditado na utopia lúdica de 1982. No que nos diz respeito, concluímos estas breves considerações com as palavras do escritor e compositor Sérgio Cabral, proferidas em um papo de esquina, logo após a eliminação para a Itália:

O que podemos fazer? Perderemos todas as copas em que a objetividade estiver mais forte do que as nuances. Ou onde o menor caminho entre dois pontos seja uma reta. Para nós, não. O menor caminho não existe. O que há é o melhor caminho, onde nos divertiremos mais, onde as coisas serão mais belas. Estou triste, mas não estou arrependido. [16]

Eis o futebol-arte: um estilo de jogo, uma filosofia de vida, uma prática de liberdade, aspectos que a “Seleção da Abertura” reunia e afirmava no momento em que almejávamos virar a página infeliz da nossa história, ontem como hoje.


[1] Cf. “O sonho acabou. Pena, porque era um lindo sonho”, O Globo, 6 de julho de 1982.

[2] Cf. “Falcão: triste é não saber se disputarei um nova Copa”, O Globo, 6 de julho de 1982.

[3] Cf. “O sonho acabou”, Jornal do Brasil, 6 de julho de 1982.

[4] Cf. “Torcida sonha por horas com a eliminação da Itália”, O Globo, 7 de julho de 1982. O Jornal do Brasil foi mais longe na tarefa de desfazer os boatos, publicando o boletim da FIFA do exame antidoping. Cf. “Comissão da FIFA desfaz qualquer dúvida”, 7 de julho de 1982.

[5] Cf. “Torcida chora a derrota que não esperava”, O Globo, 6 de julho de 1982.

[6] Cf. “Tristeza e decepção marcam reação contra a derrota” e “Emoção causa enfarte e suicídio”, Jornal do Brasil, 6 de julho de 1982.  

[7] Segundo uma pesquisa realizada em São Paulo pelo Instituto Gallup, 61% dos torcedores entrevistados julgavam justa a vitória da Itália. Cf. “Torcida aclama Seleção, mas acha derrota justa”, Jornal do Brasil, 8 de julho de 1982.

[8] Cf. “Quem vai pagar a conta?” Carlos Eduardo Novaes, 8 de julho de 1982.

[9] Cf. “Surpreendi o goleiro”, Sócrates, Folha de S. Paulo, 5 de julho de 1992.

[10] Cf. “Sarriazo 82”. Evento promovido pelo Sesc Pompéia, em São Paulo, em 5 de julho de 2022, com a mediação do jornalista Marcelo Mendez.

[11] Cf. “Assim é se lhe parece”, Melchiades Filho, Folha de S. Paulo, 20 de maio de 2002.

[12] Cf. “O futebol brasileiro não é o melhor do mundo”, entrevista Carlos Alberto Torres, revista Placar, nº 765, 18 de janeiro de 1985.

[13] Cf. “De repente, o pânico. Era outra vez Paolo Rossi”, O Globo, 5 de julho de 1992.

[14] Cf. “A primeira Copa a gente nunca esquece” Juca Kfouri, Folha de S. Paulo, 26 de janeiro de 2014.

[15] Cf. “Sarriazo 1982, a anatomia de uma dor”, Marcelo Mendez, 2022, Museu da Pelada https://www.museudapelada.com/resenha/sarriazo-1982-a-anatomia-de-uma-dor/

[16] Cf. “Aqui entre nós: foi uma derrota bem brasileira”, Sérgio Cabral, coluna: “Papo de Esquina”, O Globo, 6 de julho de 1982.

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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. O feitiço do tempo. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 13, 2022.
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