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O “FIFAgate” e outros recentes escândalos de corrupção no futebol brasileiro e mundial e os fenômenos da “midiatização” e da “hipermercantilização” do futebol

Wesley Barbosa Machado 30 de novembro de 2020

Este é o quinto e último artigo da série “Corrupção no Futebol“, publicada com exclusividade no Ludopédio e resultado da pesquisa para a dissertação do mestrado em Sociologia Política na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), de Campos dos Goytacazes-RJ; e que resultou ainda na publicação do e-book “Corrupção no futebol” (2020), deste autor, com prefácio de Juca Kfouri.

No dia 27 de maio de 2015 foi preso no hotel Baur au Lac, em Zurique, na Suíça, onde seria realizado o 65º congresso da FIFA, o brasileiro José Maria Marín, antigo político defensor da ditadura militar no Brasil (1964-1985); ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), de 2012 a 2014; Presidente do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo de 2014; e Membro do Comitê Organizador dos Torneios Olímpicos de Futebol da FIFA. (CHADE, 2015)

A investigação começou oficialmente no dia 9 de maio de 2013, quando o empresário José Hawilla, falecido aos 74 anos no dia 25 de maio de 2018 vítima de problemas respiratórios, foi abordado pelo Federal Bureau of Investigation (FBI) no hotel Mandarin, em Miami, onde estava hospedado. J. Hawilla, como era conhecido, era proprietário da empresa de marketing esportivo Traffic e fundador da TV TEM, afiliada da Rede Globo no interior do estado de São Paulo. Ele teria participado diretamente de negociatas com a FIFA e, com a vantagem de não ser preso, foi multado e ajudou a delatar o esquema de corrupção na FIFA. Depoimentos de delatores revelam que dirigentes da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), CBF e da Globo teriam participado do escândalo de corrupção denominado “FIFAgate”, que é considerado o maior escândalo de corrupção da história do futebol e um dos maiores escândalos de corrupção em geral do mundo.

O diretor executivo da empresa argentina de marketing Torneos y Competencias, Alejandro Burzaco, denunciou que a Globo teria tido participação no “FIFAgate”. O escândalo foi tão grande que resultou no suicídio do advogado argentino Jorge Delhon, que se jogou em frente a um trem depois do mesmo Burzaco declarar que lhe pagou subornos milionários. Além da Globo, estariam envolvidos no esquema de corrupção as empresas Fox Sports, dos Estados Unidos; e Televisa, do México.

O esquema funcionava da seguinte forma: As empresas de marketing esportivo negociavam diretamente com os dirigentes esportivos da FIFA, Conmebol e CBF os direitos de transmissão televisiva de campeonatos organizados por estas instituições. O valor dos direitos televisivos adquiridos pela empresas de marketing era menor do que o negociado diretamente com os representantes das empresas de televisão, que pagavam mais pelo direito de transmitir os campeonatos, incluindo na diferença o suborno, que era repassado para os dirigentes esportivos, dando o direito, sem licitação, sem concorrência livre e com exclusividade, das empresas televisivas de transmitir os campeonatos de futebol, como a Copa do Brasil, Copa América e Copa do Mundo.

A corrupção na FIFA já existia desde o início do século XX, mas passou a ser mais investigada e denunciada com a chegada ao poder do brasileiro João Havelange, que foi denunciado de receber propinas por contratos milionários com empresas de marketing e de TV nos seus 24 anos à frente da entidade máxima do futebol mundial; bem como com o suíço Joseph Blatter, apadrinhado de João Havelange e que sofreu uma verdadeira chuva de dinheiro falso em uma coletiva no dia 20 de julho de 2015, numa imagem que ficou famosa mundo afora, proporcionada por um protesto do comediante inglês Simon Brodkin. (JENNINGS, 2011).

Foto: Reprodução

O “FIFAgate” também atingiu o então presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, que foi banido da FIFA e impedido de viajar para fora do Brasil, apesar de não ter sido preso, o que aconteceu com o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, que ficou quase cinco anos preso nos Estados Unidos, condenado por crimes de corrupção, tendo sido libertado em abril de 2020 por conta da idade avançada (87 anos) e pelo risco de contágio pela Covid-19, doença que tornou-se uma pandemia.

Ricardo Teixeira, ex-genro de João Havelange e presidente da CBF de 1989 até 2012, a qual foi dedicado um capítulo no livro “The Country of Football”, de Roger Kittleson (2014), também foi denunciado por inúmeros casos de corrupção, inclusive teve sua prisão pedida nos Estados Unidos e extradição na Espanha por conta de propinas recebidas do contrato com a fornecedora de material esportivo da seleção brasileira, Nike, então presidida por Sandro Rosell, que depois viria a ser presidente do Barcelona e que foi preso justamente por lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Foto: Wikimedia

Neste ínterim estaria envolvida o grupo de mídia mais poderoso do Brasil, a Rede Globo de Televisão, que teria pago propinas pelo direito de transmissão de jogos de campeonatos de futebol sem licitação, sem concorrência livre e com exclusividade. A Globo foi fundada em 1965 em plena ditadura militar e já no dia 21 de novembro do mesmo ano de fundação transmitiu em VT o amistoso entre Brasil e União Soviética, realizado no Maracanã e que terminou empatado em 2 a 2.

No dia 28 de maio de 2019 foram presas na Espanha pessoas que estariam envolvidas em manipulação de resultados de jogos de futebol no país, inclusive na primeira divisão nacional. O escândalo de corrupção da Espanha teria envolvido jogadores dos clubes de futebol Valladolid, Huesca, Deportivo de La Coruña e Getafe. Além da manipulação de resultados, a investigação descobriu que as estatísticas, como números de escanteios, faltas e cartões, também eram manipulados.

Sobre o escândalo de manipulação de resultados deflagrado na Espanha em 2019, o apresentador Marcelo Barreto, no programa Redação SporTV do dia 28 de maio de 2019, afirmou: 

“Eu acredito que não exista nada que ameace mais o futebol, inclusive a ponto de se não acabar, pelo menos abalar as estruturas do futebol, que a manipulação de resultados. Se o futebol perder sua característica de imprevisto, ele perdeu o sentido. Aí você vai ter uma nova geração que está começando a gostar de futebol que vai receber o seguinte recado: Olha, os caras já combinaram quanto vai ser o jogo? Esse jogo que eu estou vendo tem grandes possibilidades de ter sido arranjado? Então quer dizer que o que eu estou vendo pode não ser de verdade? Isto começa a abalar a confiança do espectador de uma maneira…” (BARRETO, 2019)

No que o jornalista Aydano André Motta, no mesmo programa do mesmo dia, comentou:

“Tudo desmorona, a paixão (…) Com a tecnologia, que vai em todos os lugares, inclusive nas apostas, vai ficar muito mais difícil de reprimir (…) É aquele negócio, depende da convicção pessoal, da ética das pessoas. Como é que você vai vigiar todos os jogadores, toda a estrutura do futebol? (…) É muito grave porque indica o fim do futebol como atividade de interesse”. (MOTTA, 2019)

O outro comentarista da bancada do programa, o radialista José Godoy, disse que:

“É sempre difícil você imaginar que uma partida com mais de 30 atletas você não desconfie que alguma coisa esteja acontecendo ali dentro (…) Tem um ponto interessante nesta história (do escândalo na 1ª divisão da Espanha). Nessas histórias mais recentes tinha uma questão meio geográfica, leste europeu, países meio periféricos, onde isto eram práticas que você acabava descobrindo, fora deste roteiro de casas de apostas tradicionais. Você tinha um sistema fraudulento meio do submundo do crime. E isto vai para a primeira divisão da Espanha, uma das ligas mais ricas do mundo. Muda o eixo”. (GODOY, 2019)

A última afirmação vai ao encontro com a percepção dos participantes sociais do futebol entrevistados nesta pesquisa, a percepção quase unânime no universo de 47 entrevistados de que a corrupção no futebol não é uma exclusividade do Brasil e dos países considerados periféricos, mas acontece também na Europa, centro da economia mundial do futebol.

No dia 25 de maio de 2019 foram presos no Brasil duas pessoas suspeitas de fraudes em borderôs de ingressos de jogos de futebol no estádio Mané Garrincha em Brasília, o mais caro estádio construído para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Em 2018 no Brasil foi divulgado um suposto esquema de manipulação de resultados no futebol paraibano, que teria envolvido dirigentes esportivos e árbitros de futebol. Em 2017, o clube de futebol Barra Mansa, que foi rebaixado no Campeonato Carioca das divisões inferiores, teria participado de um suposto esquema de manipulação de resultados.

O ex-jogador e na contemporaneidade cronista esportivo, Paulo Cézar Caju, em entrevista ao Jornal O Tempo, publicada no dia 05 de julho de 2018, durante a Copa do Mundo na Rússia, afirmou o seguinte:

“Se eu jogasse hoje, reuniria os jogadores e falaria para não jogarmos na seleção enquanto os casos de corrupção não fossem resolvidos (…) Porque são um bando de alienados. Sabem de tudo o que acontece (…) Você vê esses caras assumirem alguma posição? Nem com relação à corrupção na CBF (…) A corrupção vem de onde? Da Fifa. É uma pena que as pessoas que controlam o futebol estejam tão envolvidas com corrupção. Hoje, quando vejo esses escândalos que atingem também a Conmebol, as entidades africanas, e tem três ou quatro brasileiros, ninguém se manifesta. E a própria imprensa é culpada, porque você tem uma situação de esporte e corrupção e ninguém se pronuncia”.

No dia 12 de setembro de 2019 foi anunciado pelo Comitê de Ética da FIFA o banimento do futebol do ex-vice-presidente da FIFA, ex-presidente da Conmebol, e ex-presidente da Associação Paraguaia de Futebol, Juan Ángel Napout, acusado de receber subornos no período de 2012 a 2015 pela concessão de direitos de televisão e marketing dos torneios Conmebol. Napout foi um dos dirigentes presos no escândalo “FIFAgate” em 2015. Em agosto de 2018, ele foi condenado a nove anos de prisão.

Aqui está posta mais uma questão moral, que foi esta decisão da FIFA de banir do futebol dirigentes. Este não foi o primeiro dirigente banido pela FIFA, que chegou a banir os brasileiros ex-presidentes da CBF, Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira. O ex-presidente da FIFA João Havelange chegou a ter seu nome retirado da sede da CBF. Estas decisões demonstram a preocupação moral das instituições que organizam o futebol, que querem se livrar da pecha de corruptas tendo iniciativas que passam uma ideia de combate à corrupção.

Foto: Wikipédia

O mesmo pode ser observado em relação aos meios de comunicação, que transformam em escândalos os casos de corrupção. Mas no caso do “FIFAgate” os próprios meios de comunicação estariam envolvidos em prática de pagamento de subornos para a aquisição do direito de transmissão de eventos esportivos. Há laços econômicos de meios de comunicação com os negócios do esporte. Portanto os meios de comunicação que desencadeiam os processos de escandalização, alguns deles mesmos fazem parte dos esquemas de corrupção, o que os impediria de divulgar notícias de fatos relativos aos escândalos, o famoso “Verbo de acordo com a verba”.

No dia 8 de dezembro de 2019, na 38ª e última rodada do Campeonato Brasileiro, foi rebaixado, pela primeira vez em sua história, o Cruzeiro Esporte Clube, de Belo Horizonte, Minas Gerais. O rebaixamento do Cruzeiro coincidiu com a investigação de dirigentes do clube mineiro por suspeitas de lavagem de dinheiro, falsificação de documentos, falsidade ideológica e outras irregularidades, que tornou a situação financeira do Cruzeiro crítica com o aumento substancial da dívida geral do clube com a União, a FIFA, entre outros credores, que chegaram a 799 milhões até 2019.

Segundo Bourdieu (1989: 11):

“(…) As relações de comunicação são, de modo inseparável, sempre, relações de poder que dependem, na forma e no conteúdo, do poder material ou simbólico acumulado pelos agentes (ou pelas instituições) envolvidos nessas relações e que, como o dom ou o potlatch, podem permitir acumular poder simbólico”. Esta afirmação destaca a importância dos meios de comunicação, que associados ao “poder simbólico” do futebol, se tornam uma potência capaz de difundir as ideias das quais precisa para manter o seu “poder simbólico”. 

O poder simbólico como poder de construir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a acção sobre o mundo portanto o mundo, poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização só se exerce se for reconhecido, quer dizer ignorado como arbitrário. Isso significa que o poder simbólico não reside nos sistemas simbólicos” em forma de uma “illocutionary force”, mas que se define numa relação determinada – e por meio desta – entre os que lhe estão sujeitos, quer dizer, isto é, na própria estrutura do campo em que se produz a crença.

O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter é a crença na legitimidade das palavras e daqueles que as pronunciam, crença cuja produção não é da competência das palavras.

“O poder simbólico, poder subordinado, é uma forma transformada, quer dizer, irreconhecível, transfigurada e legitimada, das outras formas de poder”. (BOURDIEU, 1989: 14-15)

Aqui voltaremos à questão do escândalo à medida que o escândalo só se consolida como tal conforme é denunciado pelos meios de comunicação. Esta assertiva pôde ser observada na pesquisa empírica com os participantes sociais do futebol, onde apareceu o tema da “mídia” como catalisadora dos escândalos de corrupção. Neste sentido, analisaremos as relações intersistêmicas envolvendo o futebol e os meios de comunicação de massa, com seu papel decisivo na construção seletiva de escândalos.

A FIFA estabeleceu o “Padrão FIFA”, que ficou famoso durante as obras para a construção dos estádios para a Copa de 2014. Com o “Padrão FIFA”, a entidade máxima do futebol alterou leis, inclusive a Legislação do Trabalho; e obteve isenções fiscais de impostos com muitas exigências e poucas garantias e muito dinheiro envolvido, gerando até mesmo um “Mercado Negro” de venda de ingressos, estes que só eram acessíveis para a classe mais abastada. Ficou famosa também na Copa de 2014 no Brasil a frase “Copa para quem?”.

Foto: Reprodução Facebook

Para Simmel, em “O dinheiro na cultura moderna” (1896), o dinheiro é impessoal e substitutivo. E o futebol é um espaço de circulação de dinheiro. Em “Cidades Rebeldes”, David Harvey, fala sobre mercantilização e monopólio, onde podemos relacionar com apropriação da FIFA sobre o futebol com a Copa do Mundo e seu consequente monopólio.

“A insípida homogeneidade que acompanha a pura mercantilização opaca as vantagens do monopólio dos produtos culturais (grifo do autor) tornam-se cada vez mais semelhantes às mercadorias em geral” (HARVEY, 2012: 175).

O futebol, além de ser um sub-sistema social autônomo com uma lógica interna própria, também se torna, em sua relação com os negócios, uma Indústria, que gera competição, oligopólio, centralização do capital, controle sobre a produção e um Mercado. “O poder de monopólio da propriedade privada é o ponto de partida e de chegada de toda atividade capitalista” (HARVEY, 2012: 178). Segundo Alabarces (2012: 22): “O esporte como invento moderno se vê submetido à mesma lógica que as outras instituições modernas: a circulação e a comparação”. A ascensão do novo capitalismo moderno sobre a corrupção, a partir do governo neoliberal de Margaret Thatcher a partir de 1975 na Inglaterra, pátria da Revolução Industrial e do Futebol, seria produto do processo de internacionalização.

O autor Nick Hornby, no livro “Febre de Bola” de 1992, já abordava a arenização dos estádios com a substituição das arquibancadas de concreto por cadeiras, a alta no preço dos ingressos e a mudança do perfil do torcedor, que passou a ser mais de classe média. Isto na Inglaterra.

O fenômeno da manipulação de resultados por meio dos sites de apostas esportivas é um exemplo da “hipermercantilização” do futebol, tema que vamos tratar neste capítulo. “Hipermercantilização” foi o termo utilizado pelo sociólogo escocês Richard Giulianotti para descrever o processo de aceleração da mercantilização do futebol, que a partir da criação da Copa do Mundo de Futebol em 1930 se torna um fenômeno mais explorado economicamente, sendo que desde 1900 o futebol já fazia parte das Olimpíadas, mas com a Copa do Mundo o futebol passa a ter um evento organizado e com visibilidade e reconhecimento público com a participação da FIFA fundada em 1904 com o objetivo de organizar e explorar o esporte que ao contrário do mito da elitização inicial nasce popular. (PEREIRA, 2000)

No dia 26 de janeiro de 2020, o programa televisivo Esporte Espetacular, da Rede Globo, veiculou uma reportagem sobre manipulação de resultados na Série C do Campeonato Carioca, equivalente à oficialmente 4ª divisão do estado do Rio de Janeiro. Um exemplo raro de matéria jornalística que pesquisou a fundo os meandros obscuros do futebol e mostrou uma realidade escondida.

É preciso destacar a comunicação funcionalmente diferenciada nos processos de construção social de escândalos de corrupção (BAYLE, E & RAYNER, H., 2016), utilizando-se do conceito de “midiatização do esporte” (BIRKNER, T. & NÖLLEKE, D., 2016). A pesquisa vai além ao verificar o papel da Comunicação nos processos de construção social de escândalos de corrupção, à medida que os casos de corrupção se tornam escândalos devido à “midiatização do esporte” (BIRKNER, T. & NÖLLEKE, D., 2016). Na pesquisa empírica, os entrevistados citam espontaneamente e diretamente os termos “mídia”, “imprensa”, “notícias”, comunicação” e “internet” para  explicitar como percebem os casos de corrupção que se tornam escândalos.

A “hipermercantilização do futebol” (GIULIANOTTI, 2002) (GIULIANOTTI, R. & WALSH, A, 2007) é o termo utilizado para destacar o papel dos meios de comunicação de massa e do sistema econômico, enquanto sistemas funcionais importantes na construção pública das percepções de corrupção no sistema esportivo. É fato que o dinheiro das emissoras de TV é uma das maiores fontes de receita dos clubes. A entrada dos canais de TV por assinatura e do modelo paperview (Do inglês “pagar para ver”. O assinante compra um pacote para assistir a jogos de determinados campeonatos) na década de 1990 no Brasil intensificou este aporte financeiro aos clubes. Os torcedores também ganham com isto, tendo em vista que podem assistir aos jogos no conforto do lar, sem precisar ter de comparecer a um estádio. Este é um ganho democrático, afinal permite um maior acesso ao futebol, mesmo que à distância, sendo que por vezes a assistência de um jogo pela TV é mais nítida do que ver uma partida no estádio, onde estão algumas agruras próprias do campo de jogo, ambiente de uma partida.

Esta ingerência da TV no futebol gerou a criação do árbitro de vídeo, o chamado “VAR” (Video Assistant Referee), onde uma equipe de árbitros verifica lances polêmicos para tentar fazer justiça ao futebol, um esporte que costuma-se dizer que não tem lógica. O problema está em como esta “hipermercantilização” cria em vez de torcedores, clientes consumidores, à medida que só quem tiver capital para a aquisição dos produtos do futebol poderá usufruir do que o esporte das multidões proporciona, uma questão central da crítica ao capitalismo, que pode-se considerar que não é bom para todos, mas apenas para quem pode.

Foto: Reprodução / Fernando Torres / CBF

Os meios de comunicação controlam o escândalo, mas eles próprios podem ter participação em atos que podem ser escandalizados. E este é o papel das mídias alternativas, como blogs por exemplo e as redes sociais, uma “concorrência” que acaba favorecendo a denúncia de alguns meios de comunicação por outros.

A corrupção, que acomete o futebol, precisa ser melhor explicitada para que, com as percepções dos participantes sociais do futebol, seja possível dimensionar o quanto o futebol pode estar infeccionado.

O médico Afonso Celso Garcia Reis, o ex-jogador Afonsinho, deu o diagnóstico em entrevista ao site Museu da Pelada: “O futebol está doente”. Uma das causas desta doença que acometeu o futebol é a entrada de grande volume de dinheiro no antigo esporte das multidões e a sua consequente corrupção.

 

Referências 

ALABARCES, Paulo. “Fútbol y Globalización: Las Formas Locales de Las Mercaderías Globales”. In: Futebol, Comunicação e Cultura (orgs. MARQUES, José Carlos. GOULART, Jefferson Oliveira). São Paulo, Intercom, 2012.

BARRETO, Marcelo; MOTTA, Aydano André; GODOY, José. Escândalo de manipulação de resultado na Espanha é debate no Redação: ‘Indica o fim do futebol’. Site do Canal SporTV. 28 de maio de 2019. Acesso em 08 de setembro de 2019.

BAYLE, Emannuel; RAYNER, Hervé. Sociology of a scandal: the emergence of “FIFAgate”. In: Soccer & Society. San Diego: Routledge. 2016. 

BIRKNER, Thomas; NÖLLEKE, Daniel. “Soccer Players and Their MediaRelated Behavior: A Contribution on the Mediatization of Sports” in Communication & Sport, Vol. 4, Issue 4. Arizona: Sage, 2016. 

BOURDIEU, Pierre. “O poder simbólico”. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989.

CHADE, Jamil. “Política, propina e futebol: Como o ‘Padrão Fifa’ ameaça o esporte mais popular do planeta”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

GIULIANOTTI, Richard. “Sociologia do Futebol – Dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões”. São Paulo: Nova Alexandria, 2002. 

GIULIANOTTI, Richard; WALSH, A. “Ethics, Money and Sports: This Sporting Mammon”. New York: Routledge, 2007.

HARVEY, David. “Cidades Rebeldes”. São Paulo: Martins, 2012.

HORNBY, Nick. “Febre de bola”. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

JENNINGS, Andrew. “Jogo sujo: o mundo secreto da Fifa: compra de votos e escândalo de ingressos”. São Paulo: Panda Books, 2011.

KITTLESON, Roger. The Country of Football: Soccer and the Making of Modern Brazil”. Berkeley: University of California Press, 2014.

LIMA, Paulo Cézar. “Estou torcendo para a Bélgica”, diz Paulo Cezar Caju, campeão mundial em 1970. Entrevista concedida a Bruno Mateus. Seção Super F. C. do jornal online O Tempo. Belo Horizonte, 05 de julho de 2018. Endereço: https://www.otempo.com.br/superfc/copa-2018/estou-torcendo-para-a-belgica-diz-paulo-cezar-caju-campeao-mundial-em-1970-1.1996577. Acessado no dia 12 de setembro de 2019.

MACHADO, Wesley. “Corrupção no futebol”. Edição do autor: Campos dos Goytacazes-RJ, 2020.

PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. “Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

SOUZA,  Jessé   e   Ö ELZE,  Ber thold.  Simmel  e  a  modernidade.  Brasília: UnB, 1998.


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Wesley Barbosa Machado

Nascido no dia 23 de junho de 1981 em Campos dos Goytacazes-RJ Jornalista, Escritor e Compositor. Torcedor do Botafogo do Rio de Janeiro, do Roxinho de Campos dos Goytacazes-RJ e do Arsenal da Inglaterra. Co-Autor do Livro de Crônicas do Botafogo, "A Magia do 7" (Editora Livros Ilimitados, 2011) e Autor dos Livros "Saudosas Pelejas: A História Centenária do Campos Athletic Association" (Edição do Autor, 2012), "Botafogo, Roxinho e Outros Textos Sobre Futebol" (Edição do Autor, 2020) e "Corrupção no Futebol" (Edição do Autor, 2020). Autor das Músicas sobre Futebol: "Oração do Futebol", "Samba do Senta" e "Gol do Maurício"; e do Hino Oficial do Campos Atlético Associação (Roxinho). Criador e Administrador dos Projetos Campos OnLine (@campos.online no Instagram); Campos de Bola (@camposdebola no Instagram); Bola Carioca (@bolacarioca no Instagram e /bolacarioca2020 no Facebook), Coleção Botafogo(/colecaobotafogo no Facebook); Blog Campos Fichas Técnicas (camposfichastecnicas.blogspot.com.br); Blog Pérolas Futebol e Causos (perolasfc.blogspot.com.br); e Blog Estrela Solitária no Coração (estrelasolitarianocoracao.blogspot.com). Fundador, Autor e Editor do Site Viva La Resenha (vivalaresenha.wordpress.com). Produtor do Podcast Camisa Oito (@camisaoito no Twitter).

Como citar

MACHADO, Wesley Barbosa. O “FIFAgate” e outros recentes escândalos de corrupção no futebol brasileiro e mundial e os fenômenos da “midiatização” e da “hipermercantilização” do futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 68, 2020.
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