135.38

O Flamengo, meu tio Osvaldo e eu: … 2 de dezembro de 1987… 15 de julho de 2020

Fabio Zoboli 17 de setembro de 2020

Quando criança, lembro bem de um tio meu, o tio Osvaldo – irmão de meu pai. Ele jogava futebol de várzea, era zagueiro, jogava com a camisa 4 porque era fã de Mozer – um dos melhores zagueiros da história do Flamengo. O quarto dele, na casa de minha avó, era cheio de pôsteres do Flamengo de sua melhor década: “a gloriosa década de 80 rubro-negra”.

Meu tio tinha uma picape rural azul, carroceria de madeira, o câmbio de quatro marchas era preso no eixo do volante, ela era movida a botijão de gás. Foi nessa picape que meu tio me levou no dia 2 de dezembro de 1987 para ver o segundo jogo das semifinais do Campeonato Brasileiro de 1987: Atlético (MG) x Flamengo. Fomos à casa de uns amigos dele – eu, ele e meu tio mais novo Amarildo –, que também atende pelo apelido de Néki. O Atlético estava invicto nos dois turnos do campeonato, vinha de uma primeira derrota pelo Flamengo, justamente no primeiro jogo das semifinais no Maracanã (1 x 0), gol de Bebeto.

Na época, com nove anos de idade eu ainda não entendia o que era uma semifinal de Campeonato Brasileiro. Na verdade, eu ainda não entendia nem o que era “ser Flamengo”. Daquela noite, lembro que era quente, uma sala cheia de gente com camisa do “Mengão”, umas bandeiras e muitos gritos. O Flamengo abria logo dois a zero no placar: primeiro, Zico (22 min); Depois, Bebeto (31 min). E assim se foi o primeiro tempo! Na segunda etapa, as coisas pioraram para o time da Gávea. Sob a batuta do maestro Telê Santana, o Atlético empatou com gols de Chiquinho (15 min) e Sérgio Araújo (19 min). O Mineirão esfumaçou com sinalizadores e foguetes, as bandeiras e o estádio tremulavam de modo frenético. Em quatro minutos, a sala de onde víamos ao jogo ficou calada e fria, da TV se ouvia em uníssono os gritos da torcida cantando “Galo[1]”. Porém, essa noite estava marcada para ser épica. Aos 34 minutos, Renato Gaúcho arranca da meia cancha, dribla o goleiro João Leite e toca para o gol vazio dando cifras ao placar final: Atlético 2 x 3 Flamengo.

Nesse dia, eu virei Flamengo: 2 de dezembro de 1987. Nesse dia, meu tio Osvaldo me deu a primeira camisa do meu/nosso time do coração. Hoje, sei que naquela noite foi meu batizado “rubro-negro”. Agora eu também tinha uma camisa, igual à de meus dois tios. Era uma camisa de fio, pesada no sentido físico. Na época, não sabia fazer alusão ao “peso” do manto no sentido metafórico. A camisa tinha um número 4 cortado de um pano branco, costurado à mão com pontos muito próximos. Era a camisa de Mozer[2], zagueiro do time campeão da Libertadores da América e do Mundial de clubes de 1981.

Lembro que nos anos seguintes eu colocava a camisa do Flamengo para jogar futebol na rua, nos campinhos de terra batida no entorno de minha casa. Bebeto foi meu primeiro ídolo no futebol, era meu preferido no Flamengo, mas, nas peladas, eu jogava de zagueiro porque queria ser igual a meu tio Osvaldo. Uma camisa e uma mistura de signos, uma camisa e um amontoado de memórias. Magia e sortilégios oriundos da produção de uma mente infantil que acreditava acessar o sagrado pelas vias da materialidade sígnica de uma vestimenta – literalmente uma “fantasia de pano”.

A final daquele campeonato foi contra o Internacional, o primeiro jogo foi no gigante da Beira Rio, em Porto Alegre, no dia 6 de dezembro. Internacional 1 x 1 Flamengo. Bebeto abriu o placar aos 30 do primeiro tempo, mas Amarildo empatava dois minutos depois para o colorado gaúcho. Foi o primeiro jogo que assisti só. Dia 13 de dezembro foi o segundo jogo. O Maracanã era o palco de 91.034 torcedores. Aos 16 minutos da etapa final, a torcida viu o passe de Zinho para Andrade que encontrou Bebeto livre entre os zagueiros, o camisa 9 toca na saída do lendário Taffarel para fazer o gol do título. Ao final da partida, lá estava eu na carroceria de madeira da picape azul do tio Osvaldo pulando com outros amigos torcedores e o tio Néki. Saímos pela cidade de Timbó (SC) buzinando e agitando bandeiras.

Em 1989, um golpe de desgosto, Bebeto trocou o Flamengo pelo Vasco. Eu rasguei um pôster que arranquei do meio da revista Placar que tinha o Bebeto comemorando um gol com Zico. Foi o tio Néki que me deu essa revista.  Essa tristeza foi “vingada” em 1996 quando Romário – ídolo cruz maltino – foi campeão Carioca pelo Flamengo em cima do Vasco após vencer os dois turnos do campeonato – Taça Guanabara e Taça Rio – anulando as partidas das finais.

Camisa 4 do Flamengo no ano de 1985, quando Mozer atuava pelo clube. Foto: Reprodução/Brechó do Futebol.

Outra dor ligada aos ídolos daquele time de 1987 foi com Renato Gaúcho. Em 1995, Renato fez de barriga o gol do título do campeonato carioca em cima do Flamengo. O placar foi 3 x 2 para o Fluminense, que levou o título estadual no ano do centenário do Mengão. Mas essa derrota não amargurou tanto, pois três anos antes, em 1992, o Flamengo batia o Botafogo de Renato Gaúcho na final do Campeonato Brasileiro. Junior, com 38 anos, voltava do futebol italiano para se aposentar no Flamengo, clube em que jogou mais de 800 partidas[3]. Se a Gávea já tinha um rei chamado Zico, em 1992, Junior se torna príncipe ao levantar o caneco do pentacampeonato brasileiro para o Flamengo. O técnico era Carlinhos, o mesmo de 1987.

Não vivi muitos anos com Tio Osvaldo. Logo em minha adolescência ele foi embora para São Paulo. Casou-se com Cida, com quem teve dois filhos: Felipe e Vanessa. Depois, o tio se mudou para o Paraná, mais precisamente para a cidade da Fazenda Rio Grande, onde teve seus quatro netos – todos Flamengo. Foi também nessa cidade que veio a falecer no dia 15 de julho de 2020. Dia que o Flamengo ganhou a final do Carioca contra o Fluminense. Tio Osvaldo é o primeiro tio meu que morre. Internado com Covid-19, ele morreu no hospital após dois infartos. Meu avô Osório também morreu num dia em que o Flamengo foi campeão carioca. Foi no inesquecível 27 de maio de 2001, o dia em que Petkovic, aos 43 minutos do segundo tempo, quando a torcida do Vasco já comemorava a taça, fez o gol do título ao bater magistralmente uma falta contra o arco de Élton. Eu e os tios Osvado e Amarildo estávamos mais uma vez juntos.

Falar de meu tio é falar de parte de minha infância e de minha “identidade” rubro-negra. Não consigo olhar para a camisa 4 do Flamengo sem lembrar dele. Às vezes, parece que ele também vestiu essa camisa 4 do Flamengo como outros craques que a usaram: Edinho, Aldair, Wilson Gottardo, Junior Baiano, Juan, Ronaldo Angelim, Pablo Marí. Quero ter a sorte de morrer como meu avô e meu tio Osvaldo. Quero morrer num dia que o Flamengo há de ser campeão. Não vou comemorar em cima de nenhuma carroceria de picape, como em 1987. Porém, quero que o carro funerário de meu cortejo quebre o silêncio fúnebre. Que se abram as buzinas, que meu corpo agora gélido sinta pela última vez o calor da faísca “fla-mejante” que o Flamengo sempre deu a ele. E se quiserem, nem precisam me sepultar, podem jogar meu corpo como oferenda aos “urubus[4]”.

Sou grato a meu pai por ser irmão de Osvaldo e Amarildo. Por causa deles, eu sou Flamengo. Meu pai Vicente é corintiano, por causa de Rivelino. O outro irmão dele, Valdir, é torcedor do Vasco da Gama. Valdir é aquele que chorou duas vezes no dia que meu avô faleceu.


Notas

[1] Galo é o mascote do Atlético Mineiro. Em seu hino, canta-se “Galo forte vingador”.

[2] Em 1987, Mozer deixava o Flamengo para jogar na Europa, foi vestir a camisa do Benfica em Portugal.

[3] Com 876 partidas, Junior é o atleta com mais jogos na história do Flamengo. Zico é o segundo com 736 jogos, porém o maior artilheiro do clube com 509 gols.

[4] Os flamenguistas eram chamados de “urubus” em virtude de grande parte dos torcedores serem negros. Em maio de 1969, um torcedor levou a ave para o Maracanã que sobrevoou o gramado e caiu ali presa a uma bandeira do clube antes do início do jogo. Nesse dia, o Flamengo venceu o Botafogo por 2 x 1 e quebrou o jejum de nove jogos sem vencer o time de General Severiano. Esse feito consagrou o urubu como mascote do clube.


Seja um dos 9 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Fabio Zoboli

Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e política".

Como citar

ZOBOLI, Fabio. O Flamengo, meu tio Osvaldo e eu: … 2 de dezembro de 1987… 15 de julho de 2020. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 38, 2020.
Leia também:
  • 135.72

    O peso da ausência do torcedor nos estádios e as estratégias para garantir a participação simbólica das torcidas na arquibancada

    Ingryd Melyna Dantas da Silva
  • 135.71

    Um grande vazio de ideias: o desempenho do Palmeiras a partir das fases e princípios operacionais do esporte coletivo

    Gustavo Dal'Bó Pelegrini
  • 135.70

    O goleiro entre o gol 1000 de Pelé e a ditadura argentina

    Pedro Henrique Brandão