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O fujimorismo e a decadência do futebol peruano

Fabio Perina 30 de novembro de 2020

Se a história da sociedade e do futebol peruano o drama está sempre presente, uma ‘amostra’ se deu com uma tragédia: a queda do avião do Alianza Lima, em 87, retornando da pequena Pucallpa. ceifando uma jovem geração conhecida como “Los Potrillos” que era a promessa de tirar o clube da fila e ainda devolver o país a uma Copa do Mundo. Nunca se pode esquecer que as tragédias coletivas no terceiro mundo com frequência ficam renegadas a uma zona obscura que impede as investigações de serem levadas até o final. Nesse caso alimentando diversas lendas conspiratórias, vide que a única testemunha viva que era o piloto se calou e saiu do país. Paralelo a essa tragédia no futebol, o país vivia nos anos 80 dilacerado pela crise da divida externa e hiperinflação e sobretudo por uma catástrofe pelos violentos confrontos entre militares, narcotraficantes e o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso. Inclusive, o principal pesquisador de humanidades e futebol de lá, Aldo Panfichi, destaca que a formação das barras bravas no final da década (Comando Sur no Alianza Lima e Trinchera Norte no Universitario) ser influenciada por esse contexto de militarização social.

A resposta considerada branda e negociada dos governos de centro-esquerda de Belaúnde Terry e Alan Garcia para a violência enraizada favoreceu a ascensão da ultradireita nos anos 90 com Alberto Fujimori para impor “lei e ordem” a qualquer custo. Segundo Santos (2019), uma aposta traumática para uma situação traumática. Uma derrota histórica para as esquerdas em geral, desde movimentos a partidos, que desde então não se recuperou mais. O dramático é que essa extrema direita mesmo quando fora do governo nunca deixou de assediar o poder tomando frequentes medidas impopulares. Se o Brasil vem padecendo de 3 anos de bolsonarismo, o Peru se vê há 3 décadas aprisionado ao fujimorismo como uma de suas principais forças políticas. Em comum a ambos a aposta em aproveitar o descrédito das instituições políticas para insuflar o discurso de anti-política. Assim como em comum também as atrocidades políticas receberem carta branca do alto capital transnacional para aplicarem as reformas neoliberais. Em 1992 houve o autogolpe de Fujimori ao fechar o Congresso e a vitória dos militares sobre os guerrilheiros; porém o governo seguia com práticas autoritárias enquanto havia uma paralisia profunda dos partidos indecisos em participar ou não (e se participar, com unidade ou não) das atividades políticas e com isso legitimar o regime (COTLER, 1993).

Em suma, os anos 90 foram marcados pelo fim da guerra fria junto das ditaduras e guerrilhas na maioria dos países latino-americanos diante do desafio que se abria de reconstrução democrática. Porém o Peru estava na contramão do continente com tal década tendo a chamada ‘guerra suja’ em que as esquerdas subitamente enfraqueceram enquanto do outro lado um Estado terrorista permaneceu em guerra contra a população. A luta contra os guerrilheiros servia como bode expiatório para os assassinatos da população civil pelo fujimorismo terem em quem transferir a culpa. Pior, em uma análise profunda foi a auto-defesa camponesa ao invés do governo que venceram a guerrilha, embora ele reivindique para si esse feito para legitimar a repressão sistemática. E desde então fez o crime organizado e o narcotráfico aumentar muito por conta do rápido aumento da informalidade da economia.

Parte dessa dialética do atraso é que na década de 2000 ter perdido a onda de governos progressistas no continente e até mesmo a onda indigenista dos vizinhos Bolívia e Equador. A hipótese original de Santos (2019) é que um fracasso maior das forças progressistas nesse país prévio à onda progressista condicionou que ela fosse ainda mais improvável quando chegou. Um atraso tão profundo que de certa forma foi virado do avesso, pois quando veio a encontrar o ‘novo’ foi justamente o que tinha de pior: o primeiro ‘laboratório’ continental da judicialização da política (também conhecido como lawfare). No sentido que a política enquanto projeto nacional se reduziu a julgamentos e prisões de muitos empresários e políticos, com as mãos mais ou menos sujas pelo fujimorismo, em que indultos penais eram negociados por cadeiras no Congresso – que segue sendo um entulho pelo qual o fujimorismo ainda sobrevive.

“O neoliberalismo não tem legitimidade para se reproduzir, mas se perpetua apoiado em uma engrenagem política impermeável aos anseios populares, que naturaliza a mentira, a corrupção e a exploração, o que só é viável em decorrência da corrosão do tecido social, das formas de resistência organizada e do horizonte utópico” (SANTOS, 2019, p. 462)

No início dos anos 90 houve o retorno da pena de morte, leis antiterrorismo, abusou do uso de estado de emergência e até mesmo a absurda proibição aos protestos sociais nas principais praças publicas do centro histórico de Lima. O que no início dos anos 2010 encontrou uma infame adaptação ao futebol com uma recente legislação (Ley 30037) para a segurança nos estádios que proíbe aglomerações em seu entorno! (Cerca de 5 décadas após a tragédia do Estádio Nacional o pretexto de colocar a culpa na multidão parece ter retornado). Ou seja, uma ‘cultura’ autoritária que parasita a vida social em seus mais ínfimos detalhes: enquanto as autoridades de saúde prescrevem bonés e óculos para proteção ao sol, as autoridades de ‘segurança’ os interditam nos estádios alegando que dificulta a identificação!

No futebol, o enfraquecimento da seleção foi proporcional aos clubes. O Peru mesmo com duas participações em finais de Libertadores tem seu único titulo continental com o Cienciano, de Cuzco (antiga capital do império inca), vencendo a Copa Sul-Americana em 2003. Um fato tão isolado que pelos anos seguintes o clube se afundou na segunda divisão. As desigualdades econômicas e geográficas de concentração de poder em Lima se refletem no futebol diante da exclusão urbana de seus pobres torcedores frente aos impasses entre seguir o endividamento ou aderir à modernização dos estádios. O desalento recente na participação dos torcedores nos estádios e nos clubes tem seu correspondente na participação política que a décadas agoniza.

Estádio Monumental. Foto: Wikipédia

Ao menos um parágrafo vale destacar da breve visita do professor Gilmar Mascarenhas fornece uma radiografia dos destroços desse “neoliberalismo de guerra” que foi o fujimorismo sobre o futebol a cidade. Ele avalia que não falta paixão aos torcedores, mas oportunidades de acesso aos clubes e aos estádios da própria metrópole diante de alta informalidade para custear gastos não necessários como o lazer. Mesmo que não houve uma elitização formal dos estádios, a exclusão é feita pela própria dinâmica urbana. Vide o caso sintomático da construção do imenso estádio Monumental, palco da final da Libertadores de 2019, na periferia de Lima na contramão da maioria dos estádios do mundo que vinham encolhendo. Assim como é muito mais comum se ver pelas ruas da cidade camisas de clubes brasileiros como passagens de ídolos peruanos (Cueva no Sâo Paulo e Guerrero no Corinthians e no Flamengo).

Se na política o fundo do poço é apenas uma etapa, no futebol algum alento veio com o renascimento da seleção peruana na última meia década, ao se iniciar o ciclo do argentino Ricardo Gareca como treinador, em 2015. Exatamente 30 anos depois dele ser o responsável como jogador por tirar a vaga peruana na Copa “na última volta do ponteiro”. O que merece uma menção ao retorno a uma Copa por seus últimos momentos dramáticos e bastante comemorados bebendo pisco e dançando bachata (para os mais novos) e cumbia chicha (para os não tão novos). As esperanças se renovaram com uma surpreendente vitória sobre o Brasil eliminando-o da fase de grupos da Copa América “Centenário” de 2016. O que custou a demissão do treinador Dunga. (inclusive, um dos últimos gols com a mão antes da instalação do VAR! Mas afinal em uma partida sul-americana nos Estados Unidos algo estava fora de lugar mesmo…).

A campanha nas Eliminatórias mais disputadas de todos os tempos decolou com essa injeção de ânimo funcionando com um recado vindo dos deuses incas ao vencer o Paraguai em Assunção e quebrar uma escrita de muitos anos sem vitórias como visitante! O Peru parece que pegou gosto pela coisa e venceu um forte rival regional fora de casa: o Equador em Quito. Parte desse último drama esteve que por ironia o trio participante da Guerra do Pacífico no século XIX se reencontrou em uma guerra de gabinetes no século XXI nessas Eliminatórias. Por distintos motivos, o Chile perdeu os pontos de uma partida contra a Bolívia e o Peru ganhou pontos que havia perdido no campo para La Verde. Na última rodada a derrota do Chile no Brasil combinado ao empate entre Peru e Colômbia fomentou a hipótese do “Pacto de Lima” pelo qual ambos os países “tiraram o pé” com o empate beneficiando ambos. A tão esperada volta do Peru a uma Copa do Mundo de 82 até 2018 para retornar ainda teve a repescagem contra a Nova Zelândia e outra batalha nos gabinetes para a absolvição de Guerrero. A participação na Copa da Rússia foi discreta diante de um grupo com as fortes seleções de França e Dinamarca, porém houve uma vitória contra a Austrália e mais comemorada ainda pelo gol de Guerrero.

O atraso está presente até mesmo na ‘onda rebelde’ sul-americana chegar somente um ano depois de Chile, Equador Colômbia. Para compreender a crise política dos últimos dias é preciso voltar aos últimos anos. (Não somente pelo atraso da falta de saúde pública ter sido escancarada pela pandemia). Ora, se o neoliberalismo é uma destruição de qualquer senso coletivo, a política se mostrou ser um dos principais ‘negócios’. Uma escalada de crises apenas em uma superestrutura blindada, quase como uma realidade paralela, descolada das massas que não se aglomeram mais nas ruas para defender um líder ou sequer um projeto. Vide que nas ultimas décadas somente se elegem nomes aleatórios, pois nenhum presidente fez um sucessor e os programas são traídos por estelionato eleitoral! Desde 2018, uma espiral de autodestruição com a renúncia do presidente neoliberal Kuczynski (eleito em 2016), depois o suicídio do ex-presidente Alan Garcia e os crescentes embates entre o vice empossado, Vizcarra, com o Congresso que sempre se preocupou mais em ‘desidratá-lo’ do que com os problemas sociais. Embate acentuado a um ano atrás quando dissolução do Congresso pelo presidente. O mesmo que depois ainda resistiu a um processo de impeachment em setembro, mas foi afastado por outro em novembro. A rápida reversão da votação sugere corrupção dos congressistas.

Presidente Vizcarra visita a seleção peruana antes da Copa 2018. Foto: Presidencia Peru / Fotos Públicas

Vizcarra, antes um vice inexpressivo vindo de uma província pequena, foi substituído durante apenas uma semana por Merino, um congressista mais inexpressivo ainda. O balanço que pode ser feito é que três dispositivos nefastos combinados levaram a essa situação: a vacancia (impeachment) pelo motivo tão vago de ‘incapacidade moral’, parlamentares sem reeleições que os fazem ainda mais descompromissados com um projeto político que não seja pessoal e a superconcentração de poderes em um Congresso de câmara única. Todos os fatores têm em comum a conclusão que quanto mais vaga em seu conteúdo e agressiva em sua forma a tal “luta pela corrupção” mais ela pode ser aparelhada para uso pessoal. Não é coincidência que ocorre há anos uma versão do ‘lavajatismo’ peruano diante dos esquemas da construtora Odebrecht no país.

O Congresso por tantos anos fez o que quis sem levar em conta o povo que pensou que mais uma vez não haveria tamanha reação popular. Não pela defesa a algum nome, mas em rechazo inequívoco ao sistema político como em seus três dispositivos antes citados. Faltando apenas 5 meses para as próximas eleições, é esperado que seu legado positivo seja mostrar que o povo está atento aos caprichos do Congresso e que possa até furar sua ‘bolha’. Algum alento relacionado ao futebol é que nos seguidos dias de protestos foram os barristas que formaram a primera línea enfrentando a covardia da polícia que matou 2 manifestantes. Além de outras agressões, estupros e desaparecimentos que fizeram o fantasma fujimorista por um instante sair da lata do lixo da história para voltar às ruas. Não é de surpreender que, se mantida a revolta popular, um de seus próximos passos seja canalizar as demandas por uma Assembleia Constituinte para revogar a atual constituição fujimorista.

Referências

DOS SANTOS, Fabio Luis Barbosa. Uma história da onda progressista sul-americana (1998-2016). Editora Elefante, 2019.

MASCARENHAS, Gilmar. Lima: fujimorismo e futebol na periferia do sistema mundial. Ludopédio, São Paulo, v. 107, n. 24, 2018.

COTLER, Julio. Descomposición política y autoritarismo en el Perú. 1993.

MARTÍNEZ, José Honorio. Neoliberalismo y genocidio en el régimen fujimorista. Historia actual online, n. 19, p. 65-75, 2009.

PANFICHI, Aldo; THIEROLDT, Jorge. Clubes y barras en Perú: Alianza Lima y Universitario de Deportes. Esporte e Sociedade.(), v. 24, p. 42-58, 2014.

RÉNIQUE, José Luis. A revolução peruana. São Paulo: UNESP, 2009.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/10/02/crise-politica-no-peru-lava-jato-fujimori-e-outras-questoes-por-tras-do-impasse-entre-presidente-e-congresso.ghtml

https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/lima-fujimorismo-e-futebol-na-periferia-do-sistema-mundial/

https://globoesporte.globo.com/blogs/meia-encarnada/post/2018/04/03/a-tragedia-do-alianza-lima-e-a-geracao-perdida.ghtml

https://revistaobdulio.org/2020/11/16/hinchadas-forman-primera-linea-en-las-movilizaciones-de-peru/?fbclid=IwAR36tBxUmpuCkPO190kixShugpvnhbGMkQBEsEReunIUmLU9cIIbSrZ3Apw

https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/ventos-rebeldes-da-america-latina-chegam-ao-peru/?fbclid=IwAR01D0fFSWkGgzhcHbxETqGyuxroSC-ctjy9v2bKCfUz9A7UkM9aemoH42E


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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. O fujimorismo e a decadência do futebol peruano. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 69, 2020.
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