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O ‘fútbol callejero’ transgride e sobrevive em Xirivella

Rodrigo Koch 10 de dezembro de 2021

Xirivella é um pequeno município, localizado à oeste de Valência, na Espanha, com pouco mais de 29 mil habitantes em seus 5,2 quilômetros quadrados de extensão. Na verdade, Xirivella fica colada à Valência, sendo separada fisicamente apenas pelo novo leito do Rio Turia e pela autovía V-30, estrada que liga Valência a Alicante ao sul e Barcelona ao norte.  É um povoado recheado de praças e parques que atendem muito bem às necessidades de lazer e recreação dos seus moradores. A cidade também conta com um complexo (Poliesportiu Ramón Sáez) para atividades variadas, como: futebol de campo, futsal, basquete, padel, tênis, natação, ginástica e musculação entre outros, que está disponível e acessível para qualquer morador. As práticas corporais e esportivas normatizadas, portanto, segundo as regras do município, devem ocorrer neste espaço, reservando as praças e parques para os jogos de mesa, a recreação das crianças em pracinhas infantis e o lazer para os mais velhos e as famílias. É comum, por exemplo, ver em Xirivella festas de aniversários ocorrerem nestas praças e parques, com os convidados dividindo espaço com os frequentadores habituais e diários do local. Em grande parte destas praças, há placas indicativas da proibição de jogos coletivos com bola, ou seja, uma restrição específica e bastante direcionada ao futebol, mas precisamente ao futebol improvisado, aquele que não desfruta e também não necessita de um gramado perfeito e demarcado, goleiras com rede e equipes uniformizadas; em resumo, o ‘futebol das ruas e praças’, ou como chamam alguns pensadores e pesquisadores da temática ‘el fútbol callejero’.

fútbol callejero
Foto: Rodrigo Koch

Segundo Rossini et al. (2012 apud BELMONTE & GONÇALVES JUNIOR 2020), “o ‘fútbol callejero’ estabelece interface entre a prática social do jogo de futebol com os horizontes emancipatórios-libertadores da Educação Popular. […] é desejado que seus praticantes  vivenciem  protagonismo  na  luta  por  seus direitos e interesses, aprendendo o diálogo como premissa na defesa destes e na mediação de eventuais conflitos”.

fútbol callejero propõe regras que o torna diferente do futebol convencional: nas equipes, meninas e meninos jogam juntos, não participam árbitros(as) e as partidas se dividem em três tempos. No primeiro tempo, as equipes estabelecem as regras do jogo em conjunto e de maneira consensual, no segundo tempo se joga a partida e no terceiro, todos(as) os(as) jogadores(as) dialogam sobre o desenvolvimento do jogo e se houve respeito às regras acordadas mutuamente. (VAROTTO & MOREIRA SOUZA JUNIOR 2020) 

Neste período inicial de investigação dos aspectos da futebolização (KOCH 2020) na Comunidade Valenciana, por conta do estágio pós-doutoral vinculado à Universitat de València, percebi que as crianças de Xirivella – em sua maioria meninos, mas também meninas – transgridem as regras locais. Portanto, mesmo com as placas proibitivas, se auto-organizam em times e jogam futebol em qualquer espaço possível. Estão, em certa medida, reivindicando um espaço não previsto pela municipalidade, já que não há nas praças campos ou espaços destinados à prática do futebol. Este esporte, como já mencionei, fica restrito aos campos de futebol do Complex Poliesportiu Ramón Sáez e vinculado às escolinhas da modalidade de dois clubes da cidade: Xirivella Club de Fútbol e Sporting Xirivella, que contam com aproximadamente oitocentas crianças inscritas em seus diversos níveis e categorias. Diante das circunstâncias e contando com apoio e permissão de alguns pais, a garotada improvisa da maneira que dá e, transforma calçadas, gramados irregulares, ou qualquer espaço vazio em verdadeiros estádios da diversidade futebolística, onde alimentam os sonhos compatíveis de muitas crianças do universo futebolizado. O caso de Xirivella nos remete a pensar e discutir sobre o rápido crescimento urbano e a especulação imobiliária das grandes metrópoles, onde e quando vários terrenos baldios que um dia foram campinhos irregulares e que revelaram craques se transformam em prédios ou condomínios cercados e, assim limitam estes sonhos e o futebol arte aos poucos momentos de futebol no espaço escolar ou nas escolinhas esportivas. O ‘fútbol callejero’ sobreviverá em um futuro breve?

fútbol callejero
Foto: Rodrigo Koch

Nas observações que venho realizando – com olhar para as produtividades da futebolização em território espanhol, em especial na Comunidade Valenciana – percebi que apesar da absoluta maioria nutrir um vínculo com o futebol – ou seja, são indivíduos futebolizados – nem todos conseguem expressar tais sentimentos verbalmente ou através da vestimenta de produtos dos clubes e/ou celebridades que seguem. Seguindo as recomendações de Gil (2008), utilizei o método científico da observação nos caminhos investigativos iniciais. “A observação permite ao pesquisador observar o comportamento das pessoas em seu ambiente natural ou controlado e, se preocupa em utilizar os sentidos para entender o cotidiano e extrair conhecimentos” (GIL 2008). Apresento, a seguir, breves dados destas primeiras observações.

fútbol callejero
Foto: Rodrigo Koch

As crianças que se auto-organizam nas praças e parques de Xirivella para a prática do futebol, normalmente se reúnem ao final das tardes, após o horário escolar e de descanso habitual dos espanhóis, conhecido como siesta. Estes encontros ocorrem a partir das 16h30 e se estendem até às 20h ou 21h, dependendo da condição climática e da estação do ano. Nas observações que fiz até agora – nos meses de setembro, outubro e novembro de 2021 – é possível afirmar que em média as crianças se reúnem em grupos de 8 a 10, com percentual de meninos próximo aos 85%. Portanto, há também meninas que praticam o ‘fútbol callejero’ em Xirivella, mas este, como na maior parte do planeta, segue sendo um espaço ainda, e essencialmente, masculinizado. Aproximadamente 17% destas crianças conseguem expor – de forma visual, ou seja, vestindo camisetas, calções, agasalhos ou portando outro artefato futebolizado – seu vínculo ou admiração por algum clube ou celebridade do futebol. Por aqui as preferências, por ordem de grandeza, giram em torno do Valência CF, seleção espanhola, Real Madrid CF, e Barcelona FC.

fútbol callejero
Foto: Rodrigo Koch

Num breve comparativo com o que vinha pesquisando até então no Rio Grande do Sul as principais diferenças apontam para um maior vínculo dos moradores de Xirivella (e da Comunidade Valenciana) com a seleção nacional, algo que entre os gaúchos é pouco comum. Na região metropolitana de Valência há uma grande preferência pelo Valência CF, apesar de haver um outro clube que também disputa a primeira divisão do campeonato nacional com resultados relevantes nos últimos anos: o Levante UD; enquanto no Rio Grande do Sul as atenções se dividem entre Grêmio e Internacional, independente da fase técnica que atravessam os clubes. No entanto, a semelhança entre valencianos e gaúchos é a atração e, em certa medida, a formação de grupos de seguidores de Real Madrid e Barcelona, ainda que estes para os valencianos sejam clubes nacionais e para os gaúchos internacionais. Há uma infinidade de produtos esportivos, lúdicos, alimentícios e até cosméticos dos dois principais clubes da Espanha expostos e disponíveis nas prateleiras de lojas, farmácias e supermercados para serem consumidos por jovens e crianças. São apenas pequenos pontos iniciais desta investigação que ainda merecem maior aprofundamento da coleta de dados e posterior análises. É inegável que existe um fenômeno pós-moderno em curso, com vínculos no futebol, apoiado em processos globalizadores e híbridos, que exerce influência sobre crianças e jovens gerando suas produtividades na contemporaneidade, que denominei de futebolização, e ao qual venho me dedicando a pesquisar na última década.

Referências

BELMONTE, M.M.; GONÇALVES JUNIOR, L. Fútbol callejero: esperançando alteridade. Motricidades. v. 4, n. 3, pp.323-332, set.-dez. 2020.  

GIL, A. C. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 6ª edição. São Paulo: Atlas, 2008.

KOCH, R. Futebolização: identidades torcedoras da juventude pós-moderna. Brasília, DF: Trampolim Editora/Ministério da Cidadania, 2020.

VAROTTO, N. R.; MOREIRA SOUZA JÚNIOR, O. Fútbol callejero: um olhar para os processos educativosFuLiA/UFMG, v. 4, n. 2, pp. 43–60, 2020. DOI: 10.17851/2526-4494.4.2.43-60. 

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Rodrigo Koch

Pós-Doutor (Sociologia) pelo Institut Universitari de Creativitat i Innovacions Educatives de la Universitat de València, Doutor em Educação (Culturas Juvenis) pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Mestre em Educação (Estudos Culturais) pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo pela Universidade Gama Filho (UGF), e graduado em Educação Física pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Vencedor (1º lugar na classificação geral) do Prêmio Brasil de Teses e Dissertações sobre Futebol e Direitos do Torcedor - Edição 2018-2019. Pesquisador Associado do Centro Latino Americano de Estudos em Cultura - CLAEC. Professor adjunto D da Uergs - Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, lotado na unidade Hortênsias-São Francisco de Paula.

Como citar

KOCH, Rodrigo. O ‘fútbol callejero’ transgride e sobrevive em Xirivella. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 14, 2021.
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