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O futebol como “cimento social”: uma (breve) reflexão sobre a teoria do consenso

Felipe Tavares Paes Lopes 26 de outubro de 2022

A perspectiva crítica do esporte começou a ser forjada na Europa ainda nos anos 1960, motivada pelas revoltas estudantis e por seus questionamentos às mais diversas esferas da sociedade, como a própria prática esportiva. Embora já tivesse se transformado em mercadoria valiosíssima, o esporte, até aquele momento, ainda era tratado pelas Ciências Humanas e Sociais de forma esporádica e assistemática (BRACHT, 2011). Na década de 1970, todavia, esse quadro alterou-se completamente e o esporte passou a ser objeto de exame minucioso e sistemático em uma série de trabalhos críticos. Fundamentalmente, estes argumentam que o esporte opera como um aparelho ideológico de Estado, que veicula valores e crenças socialmente partilhados, contribuindo para garantir a adesão das pessoas à ordem social capitalista. Esse tipo de explicação faz crer, portanto, que o esporte (e o futebol, especificamente) serve de “cimento social”, unificando as pessoas e prendendo-as à referida ordem. Neste texto, discuto justamente o potencial explicativo desse tipo de argumento. Para tanto, baseio-me, em larga medida, na teoria social de John B. Thompson (2000).  

Parte I – O papel do futebol nas sociedades atuais a partir da teoria do consenso

De acordo com Thompson (2000), a teoria do consenso pode, grosso modo, assumir duas versões: primeira, a que defende que existem certas crenças e valores centrais, que são amplamente partilhados e firmemente aceitos por dominantes e dominados. Nessa versão, o futebol contribuiria para a reprodução da ordem capitalista difundido, por exemplo, a ideia de que, assim como numa partida, a vida social é caracterizada pela igualdade de oportunidades, onde qualquer um pode se sair vencedor. Em outras palavras, o futebol serviria para cristalizar, no imaginário social, a ideia de meritocracia, de competição justa. Basta recordar que, para Jean Marie-Brohm (1993), o esporte possuiria um caráter intrinsecamente conservador e mistificador. Afinal, ele, na sua perspectiva, está estruturado com base na ideologia da competição, que é justamente o alfa e o ômega de toda sociedade capitalista. Por essa razão, do seu ponto de vista, a questão não é reformá-lo, como se fosse possível desfazer seus laços ideológicos, mas transformá-lo radicalmente.

Segunda versão, a que “[…] coloca menos ênfase na existência de valores e crenças centrais e enfatiza, em vez disso, a importância de valores e crenças que são específicos aos papéis e posições dos indivíduos que estão localizados diferencialmente na divisão do trabalho” (THOMPSON, 2000, p. 119). Nessa versão, o futebol contribuiria para a reprodução da ordem social capitalista não exatamente difundindo crenças e valores que seriam amplamente partilhados pelas pessoas (como a da igualdade de oportunidades), mas valores e crenças específicos a determinados papéis e posições sociais. Em outras palavras, aqui, o futebol integraria as pessoas na referida ordem estabelecendo “roteiros” que prescrevem determinados papéis (como o de torcedor, por exemplo), que seriam incorporados pelas pessoas de tal maneira que passariam a desempenhá-los, com muito sucesso, sem a explícita orquestração de um dirigente. Certamente, o processo rotineiro de socialização e inculcação de valores e crenças relativos a determinados papéis “[…] desempenham um papel vital ao conferir aos indivíduos habilidades sociais e atitudes que governam seu comportamento subsequente” (p. 120), no entanto, conforme veremos a seguir, esse tipo de explicação é limitado.

Torcida
Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Parte II – Limitações do poder explicativo da teoria do consenso para a compreensão do papel do futebol nas sociedades atuais

Primeiramente, as pessoas não são a simples soma dos processos de socialização e inculcação a que estão sujeitas, desempenhando, de modo obediente, os papéis que lhes são prescritos. Afinal, não somos uma mera “esponja” do mundo social, que absorve indiscriminadamente aquilo que se passa diante de nossos olhos. Na verdade, temos certa capacidade de nos distanciarmos dos referidos papéis e, por conseguinte, de refletirmos sobre eles. Reflexão que, por sua vez, pode fazer com que os critiquemos, os ridicularizemos e, até mesmo, os rejeitemos completamente (THOMPSON, 2000). No caso do futebol, podemos citar como exemplo desse tipo de distanciamento o surgimento, no fim da década de 1960 e início da década de 1970, da segunda geração de torcidas organizadas. Afinal, estas nasceram para fazer frente ao papel até então reservado ao torcedor: o de espectador abnegado e acrítico. Prova disse é que várias dessas torcidas tinham (e ainda têm) como objetivo, além de apoiar os jogadores dentro de campo, intervir nos rumos dos acontecimentos de seus clubes e do futebol em geral, atuando como mecanismos de pressão sobre as forças dirigentes.

Esse exemplo das torcidas organizadas nos leva ao segundo aspecto em que a teoria do consenso pode ser enganadora. Embora a sua segunda versão seja mais sofisticada do que a primeira, ela também tende a menosprezar a importância do dissenso, do desacordo, da contestação e do conflito. Basta recordar aqui que, hoje em dia, tais torcidas estão na vanguarda da luta contra o chamado “futebol moderno”, tensionando o processo de produção e transmissão do espetáculo futebolístico. Sendo assim, é possível supor, seguindo as análises de Thompson (2000), que a reprodução da ordem social depende mais da falta de consenso do que propriamente de sua constituição. Por exemplo, não é difícil identificar uma profunda insatisfação, por parte de diferentes segmentos sociais, com os rumos da nossa sociedade. No entanto, essa insatisfação raramente se converte em uma ação política coerente, que possa representar um desafio real à ordem dominante. Até mesmo porque, como o autor observa, “[…] o ceticismo e a hostilidade estão, muitas vezes, contaminados com valores tradicionais e conservadores, e são, muitas vezes, temperados com um sentido de resignação.” (p. 122). No caso do futebol, esse tipo de resignação é expresso, por exemplo, em lamentações como: “o povo foi excluído do estádio, são os custos de montar um time competitivo”.

Diante do exposto, finalizo este texto destacando a necessidade de as forças dissidentes, que não concordam com o atual processo (hiper)mercantilização do futebol, cada vez mais moldado pela lógica do consumo e pelo espírito mercantil, irem além das (necessárias) críticas a ele e criarem projetos alternativos. Projetos que contemplem os interesses dos segmentos hoje marginalizados e excluídos das arquibancadas e do espetáculo futebolístico de modo geral e que possam atingir os “nervos do poder”, digamos assim. Para tanto, faz-se necessário, como diria Richard Rorty (2013), libertar a nossa imaginação das amarras do presente. Afinal, apenas essa libertação permitirá que as práticas sociais futuras sejam diferentes das passadas. Que o futebol do amanhã tenha chance, portanto, de ser mais inclusivo, popular e democrático do que o de hoje. 

Referências

BRACHT, Valter. Sociologia crítica do esporte: uma introdução. 4 ed. Ijuí: Editora Unijuí, 2011. 

BROHM, Jean-Marie. 20 tesis sobre el deporte. In: BARBERO, Jose Ignácio (Ed.). Materiales de sociología del deporte. Madrid: Las Ediciones de La Piqueta, 1993, 47-55.

RORTY, Richard. Feminismo, ideologia e desconstrução: uma visão pragmática. 5 ed. In: ZIZEK, Slavoj (Org.). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contracampo, 2013, p. 227-234.

THOMPSON, John. B. Ideologia e cultura moderna: teoria social e crítica na era dos meios de comunicação de massa. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

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Felipe Tavares Paes Lopes

Graduado em Comunicação Social (ESPM) e em Filosofia (USP). Mestre (PUC-SP) e doutor (USP) em Psicologia Social. Pós-doutor em Sociologia do Esporte (Unicamp). Professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da Uniso e pós-dourando no CPDOC-FGV. Realiza pesquisa sobre o movimento de resistência ao "futebol moderno" com auxilio da Fapesp.

Como citar

LOPES, Felipe Tavares Paes. O futebol como “cimento social”: uma (breve) reflexão sobre a teoria do consenso. Ludopédio, São Paulo, v. 160, n. 26, 2022.
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