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O futebol e a cidade antes do (re)nascimento dos estádios

Fernando da Costa Ferreira 12 de agosto de 2022

Os estádios e arenas estão presentes na paisagem urbana desde a Antiguidade. Com a proibição dos Jogos Olímpicos, no ano 384 da era cristã, esses espaços praticamente desapareceram, sendo que os poucos remanescentes, geralmente em ruínas, transformaram-se em formas descoladas de sua função original. Após o fim desse longo hiato arquitetônico (CERETO, 2003), tais equipamentos esportivos ressurgiram com força durante a modernidade.

Arena
Arena romana de Arles, França, ainda em uso atualmente. Fonte: Wikipédia

No início da década de 1990, o geógrafo britânico John Bale, uma das principais referências no campo da Geografia dos Esportes, em sua obra Sport, Space and the City, elaborou um modelo dividido em quatro estágios ou fases, no qual procura explicar a evolução do futebol e dos espaços destinados à sua prática. Para tal, considerou duas dimensões: a primeira, relacionada à mudança da forma que, em pouco mais de um século, passou de um espaço aberto (1ª e 2ª fases) para um espaço fechado mercantilizado, transformado em commodity (3ª fase), e, por fim, para um espaço tecnológico (4ª fase); a segunda, diz respeito ao grau de confinamento espacial dos participantes e, principalmente, dos espectadores. Atualmente, os estudos que relacionam o futebol ao espaço urbano, têm, na presença física e simbólica dos estádios modernos, um importante ponto de convergência. Concentraremos a nossa análise nas duas primeiras fases, com o intuito de mostrar os seus antecedentes.

O modelo de Bale tem seu estágio inicial, relacionado aos jogos de futebol tradicionais (folk-football ou “futebol primitivo”) praticados na Europa medieval e pré-moderna. Em razão da inexistência de uma padronização dos limites do campo de jogo e de suas regras, as disputas entre localidades vizinhas costumavam ter como vencedor o grupo que conseguisse chegar com a bola até a aldeia adversária. Não havia uma estrutura destinada a abrigar o público que, na ausência de limites que o separassem dos jogadores, muitas vezes, interferia diretamente na ação da partida. O terreno no qual as contendas eram travadas seguia as oscilações da topografia local, com o desenrolar da ação passando, inclusive, pela transposição de rios e córregos. Nas áreas rurais, costumava ter como palco os campos abertos e terras de uso comunitário (commons). No meio urbano, jogava-se nas ruas e em demais espaços públicos. Não seria exagero classificá-los como “campos multiuso”, pois, dependendo da localização, serviam também para agricultura, caça, criação de animais, passagem de pessoas e mercadorias e demais atividades quotidianas. O autor compreende o futebol primitivo muito mais como uma forma de jogo (no sentido de brincadeira) e festa do que como um esporte levado a sério. Entretanto, o caráter de celebração desses encontros não impedia que as contendas descambassem para violência. Agressões físicas, membros fraturados e, até mesmo, mortes aconteciam com relativa frequência.

O segundo estágio tem início no século XVIII, período no qual a intensificação da prática comercial nas ruas, nas praças e nos mercados das cidades inglesas restringiu a apropriação desses espaços para outros fins, inclusive para a prática do futebol primitivo. As ações de cercamento dos campos ingleses tiveram o mesmo efeito no meio rural, com a transformação das antigas terras de uso público em propriedades privadas, praticamente inviabilizando as partidas entre aldeamentos vizinhos. A Revolução Industrial inglesa do século XVIII, seguida de uma intensa urbanização, criou uma racionalização e divisão clara acerca do tempo do trabalho e do tempo do lazer para as massas. Se, antes, os espaços públicos urbanos e as terras comunitárias combinavam essas duas atividades, o que se verifica a partir desse momento é a criação de espaços confinados específicos para elas, o que facilitava o seu controle por parte da classe patronal. 

A popularização mundial do esporte foi fortemente influenciada pela intensa urbanização experimentada pela Inglaterra ao longo do século XIX, período no qual se concretiza a transição dos jogos tradicionais para os esportes modernos, com regras definidas e codificadas por escrito. Huizinga (2000) destaca a confluência de fatores sociais (a autonomia dos governos locais, que favoreceu o espírito de associação e de solidariedade; o serviço militar não obrigatório; a valorização da cultura do exercício físico, inclusive no ambiente escolar) e geográficos (existência de terrenos predominantemente planos, oferecendo, por toda a parte, a possibilidade de utilização dos prados comunitários como campos de jogo) como responsáveis pela criação, desenvolvimento e popularização dos esportes modernos em terras inglesas.

Giulianotti (2002) aponta o surgimento de um enorme vácuo no lazer popular entre as décadas de 1820 e 1860, com o abandono dos antigos esportes praticados nas aldeias pela população (incluindo o próprio futebol primitivo), que seguia em massa rumo às cidades em busca de emprego nas indústrias. Fazia-se necessário que esse numeroso contingente humano adotasse uma nova forma de distração para os raros momentos de lazer. A confluência desses fatores criou as condições ideais para que a adesão maciça aos esportes respondesse “a um conjunto geral de profundas transformações na vida urbana, relacionadas ao advento da modernidade” (MASCARENHAS, 1999, p. 29).

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos (2002) cunhou a expressão “localismo globalizado” para designar elementos culturais de um determinado sítio, que se tornaram populares em diferentes pontos do planeta. O futebol é um dos mais destacados produtos da cultura britânica que merecem esta denominação. Curiosamente, na maior parte dos principais domínios coloniais britânicos, prevaleceram outros “localismos” como o rúgbi e o críquete. O football, por sua vez, foi introduzido em muitas de suas colônias africanas e nos domínios informais do Império Britânico, com destaque para a América do Sul, exceto a Venezuela. Este país, de acordo com Gilmar Mascarenhas (2002) sofreu uma maior influência dos esportes trazidos pela via norte-americana (beisebol e basquetebol), em decorrência do estabelecimento de fortes laços comerciais com os Estados Unidos, fazendo com que a transição da hegemonia britânica para a estadunidense se concretizasse primeiro naquela porção do subcontinente americano.

A elaboração de um código padronizado de regras para o futebol, em 1863, implicou a definição dos limites espaciais associados à sua prática. Para Bale, é essa espacialidade essencial o fator que diferencia o que é esporte daquilo que convencionamos chamar de jogo ou recreação uma vez que eles não impõem a existência de áreas especializadas, geograficamente delimitadas para a sua prática. Nesse sentido, a principal providência foi a demarcação das linhas do campo de jogo com o intuito de separar formalmente os jogadores dos espectadores, ato oficializado apenas em 1882, ou seja, quase vinte anos após a criação da Football Association.

A apropriação das ruas e das praças e o cercamento dos commons refletiram o aumento da divisão territorial que poderia produzir, por sua vez, o aumento da especialização e divisão do trabalho das atividades, além de proporcionar um maior controle e vigilância sobre as massas. A consolidação do futebol, tanto como ação quanto como contemplação, servindo como principal meio de distração da população local, combinada à necessidade de construir espaços confinados, voltados aos praticantes e à acomodação do público com a intenção de lucrar com o espetáculo via cobrança de ingressos, estabeleceu as condições necessárias para o ressurgimento dos estádios na paisagem urbana. As transformações posteriores da forma-função desses equipamentos “resgatados” da Antiguidade, refletem e ajudam a compreender como o esporte, o espaço urbano e a sociedade em que estão inseridos mudaram desde então, consolidando-se como um dos mais importantes objetos de estudo da Geografia dos Esportes.

Referências

BALE, John. Sport, Space and the City. New York: Routledge, 1993. 211p.

CERETO, Marcos Paulo. Arquitetura de Massas. O caso dos estádios brasileiros: Da Revolução de Vargas ao fim do milagre econômico. 2003. 322 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) – Faculdade de Arquitetura. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003.

GIULIANOTTI, Richard. Sociologia do futebol – Dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo: Nova Alexandria. 2002.

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. 4. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000.

MASCARENHAS, Gilmar. Construindo a Cidade Moderna: a Introdução dos Esportes na Vida Urbana do Rio de Janeiro. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro: CPDOC (Fundação Getúlio Vargas), n. 23, jun. 1999. p. 17-39.

_________. A viagem do futebol através da história. JB/Caderno Idéias, 25 maio 2002, Rio de Janeiro, 2002.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Os processos de globalização. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.). A globalização e as ciências sociais. São Paulo: Editora Cortez. 2002, p. 25-102.

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Fernando da Costa Ferreira

Doutor em Geografia pela UERJ. Professor do Instituto Benjamin Constant. Autor da tese O estádio de futebol como arena para a produção de diferentes territorialidades torcedoras: inclusões, exclusões, tensões e contradições presentes no novo Maracanã. Apesar de sofrer (e se desesperar) com o seu time, se orgulha de ter feito com que Fernanda e Helena (ainda que sem qualquer chance de escolha...) herdassem a paixão paterna.

Como citar

FERREIRA, Fernando da Costa. O futebol e a cidade antes do (re)nascimento dos estádios. Ludopédio, São Paulo, v. 158, n. 13, 2022.
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