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O futebol explica a Guerra na Ucrânia (?)

A resposta para a pergunta é: não, não explica, tampouco, explica por si só qualquer coisa. Dito isso, o futebol pode ser trazido como uma chave interpretativa para explicarmos a Guerra na Ucrânia e qualquer outro evento. 

Shakhtar Donestsky, Dynamo Kiev, Metalist e Dnipro por meio de seus dirigentes têm ligações marcantes com o conflito. E você aí achando que futebol é apenas mais um jogo. As ligações que serão destacadas aqui foram pensadas antes do “eclodir” da guerra, pois após seu desenvolvimento diversos times de um lado e de outro do conflito proibiram jogadores do outro país, logo, o texto seria mais sobre informações do que necessariamente um texto com uma abordagem histórica.

Para início de conversa é importante destacar que o conflito entre Rússia e Ucrânia não têm origem na URSS. E seu desmantelamento como muitos tentam dizer são questões que rementem inclusive antes da Revolução Russa. Os componentes históricos são analisados assim, não há um ponto de origem, mas momentos que vão sendo ressignificados, permanecendo alguns aspectos e se modificando em outros. Aqui, por uma questão de recorte, daremos atenção para o período recente do futebol ucraniano, logo, o pensando em uma perspectiva após o esfacelamento da URSS.

Georgiy Duperron
Georgi Duperron. Fonte: Wikipédia

O futebol chegou na Rússia no ano de 1893 – na verdade há um marco fundador do esporte no referido ano – Georgi Duperron é tido como o “pai do futebol russo”, isso porque ele organizou uma apresentação pública do esporte bretão no território do Império Russo. Apesar da busca por marcos fundadores e “pais” como ocorre em diversos locais do mundo, a implantação do futebol em solo russo se deu de forma bastante parecida em quase todos os locais que este se fixou, por intermédio de imigrantes ingleses, no caso específico aqui, de trabalhadores de estradas férreas. Já quatro anos depois da exibição pública, 24 de outubro de 1897, é registrada a primeira partida entre times nacionais, o Vasileostrovsk Footballers Society vence o St. Petersburg Sports Fans Circle por 6 a 0. E em 01 de setembro de 1901 é criada a Liga de São Petersburg e é disputado o primeiro campeonato.

Aqui, já é possível notar o interesse imperialista do Reino Unido em relação à Rússia. Sim, o futebol foi utilizado pelos britânicos como um instrumento de dominação… e você aí achando que dominação se faz apenas com armas bélicas.

Sim, o futebol foi bastante popular durante a URSS, inclusive, com emblemáticos selecionados com sucesso significativo em campo. A URSS é bicampeã olímpica: em 1956 com o lendário Lev Yashin e em 1988 deixando o selecionado brasileiro com a prata, time que seria base para o título da Copa do Mundo de 94 com Romário, Jorginho, Mazinho, Bebeto e Romário, além de nomes como Careca e Ricardo Gomes. Os soviéticos têm também na galeria de troféus a Eurocopa de 1960, além dos vice-campeonatos de 1964 e 1988 perdendo para o emblemático time de Ruud Gullit, Frank Rijkaard e Marco Van Basten. Contando sempre com muitos jogadores ucranianos, em especial em 1988… Isso garoto, o futebol ucraniano não nasce com o Shevchenko – e nem morre com ele.

Yashin
Yashin em um selo russo de 2016 da série “Football Legends”. Fonte: Wikipédia

Com o fim da URSS, a Ucrânia – um importante polo armamentício – fora declarado independente, mesmo com diferenças internas de cunho cultural e étnicas marcantes, que ficará expressa com Dynamo Kiev e Shaktar Donetsky, mas também com diferenças econômicas tão marcantes quanto o que ficará expresso com Metalist e Dinipro.

No entanto, antes de tratarmos dos clubes ucranianos que estão diretamente ligados ao tema aqui proposto, cabe breves considerações acerca de clubes russos. Sim, se você é um leitor assíduo do Ludopédio já viu por aqui a indicação do importante livro A história do futebol na União Soviética do Emanuel Leite Júnior, além de outros importantes textos, portanto, falaremos de forma bastante sucinta aqui, visando dar suporte para a proposta central do texto. 

É importante destacar, assim como afirma Gilberto Agostino em seu já clássico livro Vencer ou Morrer: Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional (2002), que o governo soviético se utilizou do futebol em suas políticas. Desta maneira, após a Revolução de 1917, o Estado fomentou o desenvolvimento do esporte bretão, favorecendo a formação de clubes, que na maioria das vezes eram vinculados aos sindicatos.

O Lokomotiv, por exemplo, surgiu como um clube com trabalhadores ferroviários; o Torpedo, com trabalhadores do setor automobilístico; já o CSKA, criado pelo Estado com membros do exército; e o Dínamo, com vínculos estreitos com o Ministério do Interior e os serviços secretos. Zenit e Krylya Sovetov representavam variados ramos industriais e seus trabalhadores. O Dínamo inclusive, tornou-se um modelo para a criação de diversos outros clubes para além do Moscou, como o de Zagreb, Dresden e Kiev, sendo o último mais importante aqui.   

Dentre os clubes russos, o Spartak conta com uma história peculiar: não foi fundado e nem pertencia a nenhuma organização, seja ela estatal ou de classe, carregando a alcunha de “O Clube do Povo”, sendo associado às camadas mais pobres. Uma peculiaridade é que a equipe vencia constantemente os clubes patrocinados pelo governo. Tanto que os irmãos Starostin, fundadores do clube e também atletas, sofreram perseguições e foram condenados a 10 anos de prisão e trabalhos forçados no grande expurgo em 1942. Agora podemos passar a tratar dos clubes soviéticos que ficaram em território ucraniano após a divisão da URSS.  

Nikolai Starostin.
Estátua de Nikolai Starostin na Otkrytie Arena. Fonte: Дмитрий Садовников/ Wikimedia Commons

O Dynamo de Kiev durante a URSS foi apenas mais um dos diversos Dynamos, sendo ao lado do de Moscow, Zagreb, Dresden e Bucarest os mais famosos. O clube foi fundado em 1927, com a proteção do GPU – a polícia secreta soviética. Com ligações com o alto escalão da República Socialista Soviética da Ucrânia, o clube foi durante bom tempo o único representante não russo do campeonato soviético, isso antes da Segunda Guerra Mundial, apesar de Bilisi e Stalino, ambos da província de Donetsk – que está no centro da Guerra atual – estarem durante muito tempo em território ucraniano após o desmembramento tem marcantes identificações culturais com a Rússia.

Outro importante clube ucraniano – é bem verdade que ganhou notoriedade nos últimos anos – é o Shakhtar Donetsk. O clube teve sua fundação em 1936 com o nome de “Stakhanovets”, sendo chamado de Shakhtar apenas 10 anos depois. No período Soviético o clube alcançou relativo sucesso, jogando diversas vezes a final da Copa da URSS e vencendo por 4 ocasiões, consagrando-se vice-campeão soviético por duas vezes. Com o fim da URSS deu-se também o início do campeonato ucraniano de futebol, com a Ucrânia independente, nele, o Shakhtar se tornou uma força, conquistando até nossos dias 7 copas e seis vezes o campeonato ucraniano, sem contar as boas participações em torneios internacionais, sendo campeão da Copa UEFA em 2009.

Shakhtar
Time do Shakhtar Donetsk em 1937. Fonte: Wikipédia

A história recente do Shakhtar envolve Rinat Akhmetov, um dos 50 homens mais ricos do mundo, isso nos interessa diretamente aqui para tratarmos a questão da Guerra em si. Akhmetov fez fortuna ao lado de Akhat Bragin com o colapso da URSS, ambos foram diversas vezes acusados de ligações com organizações terroristas e mafiosos, mas sempre se defenderam. Em 1996 Bragin faleceu em um ataque com bombas no estádio do Shakhtar, que foi quando Akhmetov assumiu os negócios do mentor, inclusive o clube. Fundando em 2000 a System Capital Management Group, hoje o principal conglomerado econômico da Ucrânia.

É importante destacar que Donestk é uma das áreas requeridas pela Rússia e que Akhmetov é um dos inimigos declarados do comediante Volodomyr Zelensky, eleito presidente da Ucrânia tendo como pauta o enfrentamento aos oligarcas, logo, contra Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia e dono de boa parte do país. Antes da guerra, Akhmetov não se posicionava abertamente em relação à região que obtém bons lucros, mas se opunha, até por ser um dos alvos retóricos favoritos de Zelensky, mas ao que tudo indica há uma trégua entre eles desde o início da guerra.

Rinat Akhmetov
Rinat Akhmetov (à esquerda) com Aleksander Čeferin, presidente da UEFA em 2021. Fonte: Wikipédia

O Dnipro foi fundado em 1918 com funcionários de uma indústria metalúrgica de Dnipropetrovsk, antiga Ekaterinoslav. O clube oscilou entre amadorismo e profissionalismo – aos moldes soviéticos. Inclusive mudando de nomes diversas vezes, possivelmente você o conhece como “Dnipro”. O clube se torna chave para compreendermos o conflito na medida que entendemos que a região que ele representa: Dnipropetrovsk fica à 250 km de Donetsk, no entanto, diferentemente do Shaktar – que apesar de um dono multimilionário, que tem uma torcida historicamente ligada aos trabalhadores das minas locais, em que inclusive o time e sua torcida são chamados de “mineiros”- o Dnipro não chegou a ter essa identidade, até mesmo pelas constantes mudanças de nome.

Dnipropetrovsk é uma cidade limítrofe do pensamento ocidentalista representado por Kiev, ela conserva diferenças marcantes em relação a região de Donbass. Sua população é mais próxima da identidade ocidental (representada por Kiev) do que o inverso. A Ucrânia, diferentemente do que a mídia tradicional busca expor, é dividida marcantemente por essas duas perspectivas.

Cabe aqui uma explicação: Donbass é uma região que em seu interior estão as províncias de Donetsk, Luhansk e Kharkiv, as duas primeiras estão divididas culturalmente entre a aproximação da Rússia e de Kiev/Ocidente, apesar de maior parte do território estar próxima culturalmente da Rússia. Tal disputa acompanha o território há algum tempo ganhando contornos marcantes na década de 1930, logo, para compreendermos os conflitos é fundamental entendermos que identidades são construídas e reconstruídas. Dito isto, vamos retomar para as questões históricas que marcam a região: ponto importante é o período da grande fome, tratado por negacionistas e revisionistas históricos desonestos como Holodomor, em que milhares de pessoas morreram de fome e a região foi povoada por russos que mantêm uma identidade cultural próxima da pátria natal. No entanto, Dnipropetrovsk é quase tão patriota pró Ucrânia quanto Kiev.   

O Dnipro que atingiu seu ápice na final da Uefa Europa League sumiu do mapa e isso tem tudo a ver com as questões que envolvem o conflito em destaque, aliás, é um ótimo exemplo para que possamos o compreender. Em março de 2016 a Uefa excluiu o Dnipro das competições europeias com a alegação de não cumprirem o fair play financeiro, o que resultou na debandada do dinheiro trazido ao clube pelo polêmico bilionário Ihor Kolomoyskyi, terceiro homem mais rico da Ucrânia. A partir disso, com dívidas amontoadas o clube foi punido e rebaixado para a terceira divisão do futebol ucraniano, já na temporada 2017/18 e um ano depois rebaixado à liga amadora, levando Kolomoyskyi a abandonar de vez o projeto.

Ihor Kolomoyskyi
Ihor Kolomoyskyi em 2013. Fonte: Wikipédia

Para compreendermos a importância do Dnipro, é fundamental entender quem é Ihor Kolomoyskyi, possivelmente o maior artífice da guerra entre Rússia e Ucrânia ao lado de Vladmir Putin, e não, não há exagero na afirmação, na medida que Zelenskyy apenas cumpre um papel previamente estabelecido. Kolomoyskyi é um nacionalista ucraniano, com todo o peso que a expressão possa trazer, foi o principal opositor ao governo de Viktor Yanukovych que foi o presidente ucraniano de 2010 à 2014 – na verdade esse foi seu segundo mandato, já havia governado o país em 2006/2007 – seu governo foi abertamente pró Rússia e rejeitou acordos da Ucrânia com a União Europeia, hoje está exilado na Rússia. Kolomoyskyi foi aliado do presidente Victor Yushchenko que ascendeu ao poder vencendo Yanukovych de forma turbulenta, tendo em vista que a Suprema Corte obrigou a repetir o segundo turno das eleições por acusações de fraude, mais tarde, Yushchenko passou por uma tentativa de assassinato atribuída à Rússia, na ocasião dos protestos civis chamado de “Revolução Laranja” – por conta da cor escolhida – pressionaram a ação da Suprema Corte. E então, Yushchenko iniciou um movimento chamado “Nossa Ucrânia”.

As eleições que sucederam Yushchenko foram as que fizeram com que Yanukovych voltasse ao poder tendo como opositora Yulia Tymoshenko, ex-primeira-ministra de Yushchenko e explicitamente pró União Europeia e OTAN – além de ter um discurso marcadamente nacionalista. Kolomoyskyi é apontado como o maior financiador de Tymoshenko, e, apesar de negar veementemente, foi perseguido pelo governo de Yanukovych, o que também explica sua oposição. Tendo inclusive seu conglomerado de mídia, o 1+1 Media Group, responsável por 8 canais de TV fechado.

Antes, ou em meio a tudo isso, após os eventos do Eromaidan, que na prática foram manifestações civis nas quais a população optou por se afastar da UE e se aproximar da Rússia e a União Econômica da Eurásia, forçando a renúncia de Yanukovych no início de 2014, o presidente interino Oleksandr Turchynov nomeou Kolomoyskyi como governador de Dnipropetrovsk Oblast e ele logo partiu para o confronto com Putin, inclusive com provocações de cunho pessoal. Após os ataques, o mandatário russo iniciou a guerra separatista na região de Donbass e prometeu anexar a Crimeia e Sebastopol. Em certa medida esse episódio é um dos principais para os desdobramentos da guerra em 2022.

Em meio a tudo isso, outro confronto com um presidente ocorreu em 2015, o então presidente Petro Poroshenko destituiu Kolomoyskyi do cargo de Dnipropetrovsk, entretanto, o bilionário se negou a entregar o controle da empresa estatal de oleodutos – sim, as coisas continuam se encaixando perfeitamente. Os ataques que proferia a Putin se viraram para Poroshenko e seus aliados.

A figura do dono do Dnipro, o bilionário Kolomoyskyi e os desdobramentos da guerra não acabam por aí. O comediante em ascensão Volodymyr Zelenskyy era protagonista de um seriado de comédia no canal de TV 1+1, do 1+1 Media Group, que tem como acionista majoritário Kolomoyskyi. No seriado “Sevo do Povo”, Zelenskyy protagoniza um professor que de forma quase que despretensiosa, torna-se presidente da Ucrânia com um discurso anticorrupção. Aproveitando-se da situação, a produtora Kvartal 95, que inclusive era a produtora de Zelenskyy, registram um novo partido político, o “Servo do Povo”, nome que ia ao encontro da série protagonizada pelo futuro presidente. Pouco depois, ficaram à frente de Yulia Tymoshenko no primeiro turno das eleições presidenciais indo ao segundo turno contra o presidente Poroshenko. Desde o princípio, Zelenskyy foi taxado pelos adversários como o candidato e depois o presidente de Kolomoyskyi.

Mesmo não havendo provas explícitas, Zelenskyy se aproveitou da exposição e apoio do conglomerado midiático de Kolomoyskyi e no poder, suas relações se mantiveram bem estreitas, inclusive nomeando o advogado pessoal de seu antigo chefe como conselheiro de campanha e depois de governo. Além disso, o governo Zelenskyy beneficiou os negócios de Kolomoyskyi, inclusive no quesito controle de estatais, como a de eletricidade. É bem verdade que no pouco período antes da guerra tal influência foi gradativamente diminuindo, enquanto Kolomoyskyi esboçava uma oposição, que ficou apenas no esboço.

Zelenskyy
Zelenskyy em visita oficial ao Reino Unido em 2020. Fonte: Wikipédia

Para encerrarmos a longa exposição acerca dessa personagem importante, tanto na vida política e econômica ucraniana é importante expor a Guarda Dnipro, uma milícia pessoal de Kolomoyskyi que foi formada quando ele fora governador Dnipropetrovsk Oblast, tal guarda apesar de menos famosa que o batalhão Azov, tem basicamente os mesmos fundamentos e ela é patrocinada por Kolomoyskyi.  

Aqui três pontos são importantes: 1) é fundamental relacionarmos os fatos aqui descritos com a cronologia de ascensão e queda do Dnipro; 2) o tom nacionalista bem próximo ao fascismo empregado pelos políticos patrocinados por Kolomoyskyi; 3) o apoio de Kolomoyskyi à Zelenski.

Sobre esse terceiro ponto é essencial que teçamos algumas palavras, a Guerra que se arrasta entre Ucrânia e Rússia tem com um dos principais interessados Kolomoyskyi que utilizou o futebol para seus interesses e seu afastamento do esporte se deu por conta de sua aproximação com a política, não que essa seja uma relação majoritária, pois muitas vezes caminham juntas. 

O Metalist Kharkiv teve um caminho diferente dos clubes ucranianos mencionados aqui, ao menos no que diz respeito ao sucesso no período soviético. O clube que foi fundado em 1925 só conseguiu jogar a primeira divisão do Top League em 1960, não durando muito, sendo rebaixado e voltando apenas em 1982. Tendo como seu maior título a Copa da URSS na temporada 1987-88.

O Metalist é conhecido por brasileiros pelo fato do clube ter contratado diversos jogadores brasileiros. O investimento milionário se deu por intermédio do bilionário Oleksandr Yaroslavskyi, que adquiriu o clube em 2006, fazendo do Metalist uma espécie de terceira força do futebol ucraniano, sendo terceiro colocado do campeonato 7 vezes entre o período da compra do clube até 2012 quando ele o vendeu, somando-se a isso 1 vice-campeonato, além de chegar na quarta colocação na Liga Europa de 2012. O interessante é que em dezembro de 2012, ou seja, pouco depois desse feito, o clube foi vendido para o bilionário Serhiy Kurchenko.

Metalist Kharkiv
Equipe do Metalist Kharkiv em 2011. Fonte: Wikipédia

O Metalist teve um caminho inverso do Dnipro a respeito das opções políticas e partidárias, quer dizer, Kurchenko tem proximidade pessoal com Yanukovych, há inclusive acusações que sua empresa de gás a Gas Ukraine tenha sido favorecida durante o governo de Yanukovych. Só para recapitular, Yanukovych é o que poderíamos chamar de oposição ao atual governo e ao grupo a quem têm relações íntimas, não é que Yaroslavskyi ou Kurchenko sejam pró Rússia, mas estão longe de ser pró Ucrânia ou opositores à Putin e de fato são um grupo financeiro oposto ao que gere o nacionalismo ucraniano. Isso se explica pelo fato da empresa de gás de Kurchenko ser dona da empresa de carvão Vneshtorgservis que por sua vez está nas províncias separatistas de Donetsk e Luhansk, na região de Donbass.

Em 2014, após o impeachment de Yanukovych, ele começou a sofrer represarias do governo que alega que ele sonegou mais de 130 milhões de dólares. Ainda em 2014, Yanukovych saiu da Ucrânia e no mesmo ano passou a estar na lista de procurados do governo ucraniano que também o acusa de ser patrocinador de milícias pró Rússia. Em 2016, o Metalist foi descredenciado da Federação Ucraniana, tendo suas propriedades e até mesmo seus direitos estatizado. Hoje há dois clubes que usam o nome, mas aparentemente não tem nenhuma relação com o antigo clube.

É possível notar que a guerra da Ucrânia envolve interesses milionários e de bilionários, de um lado como de outro do conflito, logo, o futebol como um negócio bilionário está em seu epicentro. Portanto, o futebol por si só não explica a guerra, mas não há dúvidas que nos ajuda a compreender um pouco mais desse complexo conflito.   

Referências

AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou Morrer: Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional. Rio de Janeiro: Murad, 2002.

FURMANOV, Vadim. A Glimmer of Hope for Metalist Kharkiv. Futbolgrad. Disponível em: <http://www.futbolgrad.com/a-glimmer-of-hope-for-metalist-kharkiv/>. Acesso em: 10 de outubro de 2022.

LEITE JÚNIOR, Emanuel. A história do futebol na União Soviética. Rio de Janeiro: Multifoco, 2018.

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Makchwell Coimbra Narcizo

Doutor em História pela UFU, Graduado e Mestre em História pela UFG. Atualmente professor no IF Goiano - Campus Trindade. Desenvolve Estágio Pós-Doutoral na PUC Goiás. Membro do GEPAF (Grupo de Estudos e Pesquisa Aplicados ao Futebol - UFG). Coordenador do GT Direitas, História e Memória ANPUH-GO. Autor dos livros: A negação da Shoah e a História (2019); A extrema direita francesa em reconstrução - Marine Le Pen e a desdemonização do Front National [2011-2017] (2020) dentre outros... isso nas horas vagas, já que na maior parte do tempo está ocupado com o futebol... assistindo, falando, cornetando, pensando, refletindo, jogando (sic), se encantando e se decepcionando...

Como citar

NARCIZO, Makchwell Coimbra. O futebol explica a Guerra na Ucrânia (?). Ludopédio, São Paulo, v. 161, n. 10, 2022.
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