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O futebol ilhado em meio à pandemia do coronavírus

Terça-feira, 31 de março de 2020. Em meio à pandemia da Covid-19 que assolava o planeta, o jornal esportivo Francês “L’Equipe” estampava em sua capa uma montagem de Messi transformado em Che Guevara, icônico argentino que protagonizou movimentos revolucionários ao longo da América Latina, principalmente em Cuba. O motivo de tal associação era o anúncio, feito no dia anterior, de que o camisa 10 do Barcelona liderara um movimento interno para que seus companheiros abrissem mão de 70% de seus salários durante a crise do coronavírus, mantendo, assim, intactas as remunerações dos demais funcionários blaugranas.

Com a legenda “Le Che du Barça” (O Che do Barça, em tradução livre), o periódico francês afirmava que “a estrela do Barcelona, ​​apoiada por seus companheiros, está indignado com a direção do clube. Se o argentino aprova a queda nos salários no contexto atual, denuncia os procedimentos dos líderes”.

O Che do Barça
Messi foi comparado a Che Guevara em capa do L’Equipe

Mais do que abrir mão de parte significativa de sua remuneração, “La Pulga” coloca o dedo na ferida ao defender os demais funcionários do clube e expor que todos fazem parte de uma mesma engrenagem, chamando para si a responsabilidade social que é – mas que para muitos atletas não parece ser – inerente ao status de protagonista que lhe foi atribuído.

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Atitudes como a do craque, seis vezes eleito melhor jogador do mundo, não são isoladas. Para ficar restrito à Argentina, outra icônica figura platina, Carlos Tevez, convocou seus companheiros de profissão e clubes que os contrataram para, mais do que diminuírem as remunerações, participarem ativamente do processo de luta contra a pandemia. Ao que parece, o atacante do Boca sente-se incomodado ao treinar em casa ao invés de ajudar a comunidade.

“O jogador de futebol pode viver seis meses, um ano sem receber. Ele não está desesperado, vivendo com crianças dia após dia, tendo que sair de casa às 6 da manhã e voltar às 7h da noite para alimentar a família. Os clubes também precisam se envolver. Em vez de irmos treinar pela manhã, deveriam exigir que façamos coisas pelas pessoas. Por exemplo, ir aos refeitórios de La Boca. Terei todo o gosto em ir. Sei que a minha família está bem. Estar com essas pessoas vai nos fortalecer muito mais. É aí que começa o grande exemplo. Podem fazer vídeos, como eu faço na minha casa, da sala de estar, mas o grande exemplo seria todos nós sairmos para ajudar. Nossos filhos estão bem, temos de nos preocupar com quem não está bem. Temos de nos preocupar como sociedade, todos nós. Nós, os atores… O mundo está virado do avesso”, convocou Tevez.

A luta dos dois – e de muitos outros, que fique claro – não é em vão. Em meio ao caos, a participação de atletas imponentes, que conseguem penetrar com sua voz em todas as camadas da sociedade, torna-se necessária. Ao tomarem atitudes em que “dão exemplo” e buscam soluções para a Covid-19, os atletas quebram a aura cosmológica que muito os envolve e chamam a atenção para a gravidade do problema.

Hilário Franco Júnior, em “A Dança dos Deuses”, é um dos que mostram o impacto do discurso dos jogadores de futebol. Como ele descreve, seja “ídolos, santos ou heróis nas religiões tradicionais, futebolistas na maior ‘religião laica’ da atualidade, todos provocam forte mimetismo. Deles se copiam formas de falar e vestir, comportamentos e nomes”.

Poucas ações

No Brasil, as reações ainda são tímidas. Para além de ações pontuais, como doações e entrega de cestas básicas, poucos são aqueles que realmente encaram o problema de frente e colocam-se como expoentes de uma luta.

Um dos poucos que alertou para o fato foi o técnico do São Paulo, Fernando Diniz. Em entrevista à ESPN Brasil, o comandante foi um dos que convocou uma participação social conjunta.

“Espero que a sociedade, não só do Brasil, mas mundial, perceba que o mundo é cada vez mais uma ilha. Todas as pessoas precisam umas das outras. Essa desigualdade social no mundo não tem razão de ser”, declarou.

Na mesma entrevista, Fernando Diniz afirmou ver uma chance de mudança de paradigma após a pandemia. “Podemos distribuir melhor a riqueza do mundo. O mundo produz muita riqueza, mas quanto mais riqueza a gente produz maior fica a desigualdade. A sociedade tem de repensar e procurar diminuir a desigualdade. No fundo, temos de viver cada vez mais em comunidade e se respeitando. E tentar viver de uma maneira mais equilibrada”, completou.

Porém, infelizmente, ele é um dos poucos que têm coragem de encarar o debate. Recentemente, a administradora do Allianz Parque, estádio do Palmeiras, demitiu 15% do seu quadro de funcionários, uma vez que não há mais eventos no local. Nenhum jogador do alviverde pronunciou-se acerca do acontecimento, apesar do local ser a casa do clube da Pompeia.

Obviamente que eles mesmos enfrentam uma discussão que vai além da redução salarial, pois ela envolve outros fatores como as condições de trabalho na volta à normalidade e, mais significativamente ainda, onde o dinheiro economizado de seus ordenados será aplicado. Também seria cruel colocá-los como vilões de um processo, como boa parte da opinião pública deseja. A discussão deveria vir de cima para baixo, como no caso de grandes clubes e empresas que sequer se movimentarem em torno da luta.

Porém, como intermediários sociais nessa cadeia do processo, e por viverem do status de herói que lhes é atribuído, os atletas precisam o quanto antes chamar o protagonismo da luta. Em tempos de convulsão social e medo pelo futuro, a participação social efetiva de cada um deles é uma palavra de alento e exemplo para aqueles que são alijados da sociedade, ao mesmo tempo que se transforma em uma bandeira na luta.

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Wallace Graciano

Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE-IUL, pesquisador de futebol e membro do Fulia (UFMG).

Como citar

GRACIANO, Wallace. O futebol ilhado em meio à pandemia do coronavírus. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 9, 2020.
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