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O futebol na Literatura de Cordel

Elcio Loureiro Cornelsen 14 de junho de 2021

Futebol nos versos do Cordel – uma introdução

A Literatura de Cordel, uma das manifestações populares mais significativas da cultura brasileira, não ficou alheia a outro fenômeno igualmente popular: o futebol. São inúmeros os cordéis que têm por tema aspectos ligados ao esporte bretão, seja para cantar as façanhas de um jogador, o desempenho vitorioso de um time ou da seleção, e também escândalos, preconceitos, crises e atos de violência que envolvem o futebol brasileiro.

Como ressalta o cordelista Anchieta Dantas, “a literatura de cordel é um tipo de poesia que é impressa e apresentada em folhetos. Ela é muito divulgada no nordeste brasileiro” (DANTAS, 2013, p. 4). Ainda segundo Anchieta Dantas, “[a] literatura de cordel chegou ao Brasil no século XVIII, através dos portugueses. Tem esse nome em razão da forma como eram vendidos na época: folhetos pendurados em cordões (tipo varal)” (DANTAS, 2013, p. 4).

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Folhetos de Literatura de Cordel. Fonte: Reprodução

A origem da Literatura de Cordel no Brasil, com raízes lusitanas (PROENÇA, 1976, p. 28), pode ser pensada também a partir de suas matrizes étnicas: primeiramente, os indígenas – autóctones; em seguida, os africanos trazidos e escravizados no Brasil; por fim, os colonizadores portugueses. Todos esses grupos apresentariam uma cultura baseada na oralidade, em que figuras centrais desempenhariam o papel de mantenedores e divulgadores da tradição: os pajés indígenas; os griots africanos; os menestréis e cantadores lusitanos (MAXADO, 1980, p. 12-13).

Boa parte do público brasileiro permanece apartada da literatura “tradicional”, conforme ressalta a pesquisadora Marlyse Meyer (1980, p. 3). Mas este mesmo público tem acesso à literatura popular, oriunda da tradição oral dos contadores. Há um predomínio de versificação nessa tradição literária, alimentada por cantorias, improvisos e desafios. A especificidade do cordel no Brasil se situaria justamente no fato de que houve uma passagem de poesia oral performática para a escrita, uma “escritura da voz”. Predominante no Nordeste brasileiro, a Literatura de Cordel apresenta, basicamente, dois tipos textuais: os “folhetos noticiosos” e os “romances” (MEYER, 1980, p. 3-4). Além disso, de acordo com o escritor e cordelista Franklin Maxado (1980, p. 24), “[os] folhetos são geralmente livretos de oito até dezesseis páginas e que tratam mais de fatos circunstanciais. Já os romances possuem trinta e duas páginas e tratam de enredos de bravuras, de amor, etc.”.

A comercialização de folhetos de cordel é efetuada em feiras e locais de acesso popular. Trata-se de uma literatura para ser lida e ouvida, e o “folheteiro” usa de todas as técnicas para atrair o público e vender o seu produto (MAXADO, 1980, p. 44). Além disso, os folhetos contam com dois paratextos muito significativos: a xilografia da capa e as informações da contracapa (MEYER, 1980, p. 4).

A Literatura de Cordel apresentaria algumas características básicas, entre elas, o fato de serem textos em verso e com estrofação em quadras, além da quantidade de páginas e do tipo de papel empregado, sendo que apenas a capa seria impressa em papel colorido. Os traços formais característicos da poesia de cordel seriam a “sextilha” (estrofe de seis versos) e a “redondilha” (versos de cinco ou sete sílabas, definidas, respectivamente, como “redondilha menor” e “redondilha maior”) (BRITO, 2010, p. 54-55).

Se a Literatura de Cordel se origina de relatos orais com traços poéticos, tornando-se uma forma literária popular no Brasil, o futebol, um dos vértices da cultura brasileira, fornece à Literatura de Cordel inúmeros temas, cantados pelos cordelistas em seus longos poemas rimados. Dentre outros, citamos aqui alguns títulos que nos permitem vislumbrar a ampla gama de temas: Prezado Armando Oliveira, o Colo-Colo de Ilhéus faz festa no Barradão! (2006) e O Brasil passou vexame na Copa da Alemanha (2006), de Antonio Carlos de Oliveira Barreto, América de Natal – Time do meu coração (2010), de Izaias Gomes de Assis, A taça é nossa e o boi não lambe (2011), de Davi Teixeira, Corinthians – campeão dos campeões (s/d), de Cassemiro Santhiago, A intriga do galo com a raposa (2011), de Mestre Gaio, Ronaldo e sua gordura estão dando o que falar (2006), de Davi Teixeira, Galvão Bueno – o rei das transmissões esportivas na TV (2013) e O quebra-pau entre Pelé e Maradona (2012), de Zé do Jati.

Para este breve estudo, elegemos como corpus de análise quatro cordéis que têm por tema o futebol, com objetivo de evidenciarmos aspectos específicos de tal relação: Futebol no inferno (1974), de José Soares; Futebol dos peixes – grande sensação (1978), de Flávio Fernandes Moreira; Brasil rumo ao Hexa – África do Sul 2010 (2010), de José Berto da Silva Filho; Racismo no futebol (2005), de Abdias Campos.

Uma partida inusitada: Futebol no inferno

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Capa de Futebol no inferno. Fonte: Reprodução

O cordel Futebol no inferno, de José Soares (1914-1981), como o próprio título indica, trata de uma partida inusitada, disputada no inferno, envolvendo duas equipes: “o time de satanás” e o “quadro de Lampião”.

O futebol no Inferno
está grande a confusão
vai haver melhor de três
pra ver quem é campeão
o time de satanás
ou o quadro de Lampião

(SOARES, 1974)

Assim, o poeta paraibano lança mão de Virgulino Ferreira da Silva – o Lampião, chamado também de “Rei do Cangaço”, figura marcante dentro do universo nordestino, uma das principais personagens de cordéis que narram sobre o cangaço, para tal disputa sui generis contra a instância mor do mal:

Lampião ganhou um turno
Satanás outro também
no Domingo que passou
empataram em cem a cem
agora melhor de três
vai ser Domingo que vem

(SOARES, 1974)

Ambos – o diabo e Lampião – figuram em vários cordéis, conforme atestam os seguintes títulos: O dia em que o diabo visitou Pocinhos, de Tiago Monteiro Pereira; O matuto que tocou pife pro diabo até os beiço arrastá no chão, de Waldeck de Garanhuns; Satanás trabalhando no roçado de São Pedro, de José Costa Leite; As presepadas do Satanás na Igreja, de José Pedro Pontual; Emissários do inferno na terra da promissão, de Gonçalo Ferreira da Silva; A visita de Bin Laden ao inferno, de Guaipuan Vieira;  Lampião, o capitão do cangaço, de Gonçalo Ferreira da Silva; ABC de Maria Bonita, Lampião e seus cangaceiros e Lampião, o terror do Nordeste, de Rodolfo Coelho Cavalcante; Visita de Lampião a Juazeiro, de José Cordeiro; O grande debate de Lampião e São Pedro, de José Pacheco; Lampião: herói ou bandido?, de Abdias Campos.

Em termos formais, o folheto Futebol no inferno é formado por 30 sextilhas, totalizando 180 versos com métrica em redondilha maior e rimas na estrutura a-b-c-b-d-b. O interessante nesse cordel é que, não obstante seu caráter inusitado, o futebol se configura a partir de seus elementos constituintes: o campo de jogo, as agremiações, a arbitragem, os torcedores, os cartolas etc. Não falta sequer a CBI – Confederação Brasileira do Inferno, nem mesmo a loteria esportiva e a cobertura da mídia:

A C.B.I. do inferno
quis suspender o torneio
porém a rádio profundas
opinou para um sorteio
já dizem que na loteca
vai dar coluna do meio

(SOARES, 1974)

Além de toda a musicalidade dos versos em redondilhas maiores, com rimas cruzadas, esse cordel de José Soares é perpassado também pelo tom de humor no modo de lidar com o imaginário religioso, conforme revela a estrofe final de Futebol no inferno:

Querem adiar o jogo
para o dia do juízo
porque quando chove muito
a renda dá prejuízo
pensam até em transferir
o jogo pro paraíso.

(SOARES, 1974)

Uma partida nas profundezas das águas: Futebol dos peixes – grande sensação

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Capa de Futebol dos peixes – grande sensação. Fonte: Reprodução

O folheto Futebol dos peixes – grande sensação (1978), de Flávio Fernandes Moreira, é mais um exemplo do modo inusitado como o futebol se insere no universo da Literatura de Cordel. Em termos formais, o folheto é composto por um total de 48 sextilhas (estrofes compostas por 06 versos cada uma), e cada verso segue a métrica de redondilha maior (verso composto por sete sílabas poéticas). As rimas também se estabelecem no 2º, 4º e 6º versos. Futebol dos peixes atende, portanto, às características formais da Literatura de Cordel, que são a sextilha, a redondilha maior, e a composição de rimas na sequência estrutural a-b-c-b-d-b.

Por sua vez, o modo de tratar do tema do futebol lembra o folheto Futebol no inferno (2006), de José Soares, não só pelo caráter inusitado de uma partida entre peixes – “peixes machos” (com nomes masculinos) contra “peixes fêmeas” (com nomes femininos):

Eles formaram um time

E não houve confusão

Porque os machos e as fêmeas

Fizeram separação

Os dois quadros disputavam

O título de campeão

(MOREIRA, 1978)

No folheto, o eu-lírico constrói toda a encenação do jogo em si, em que não falta o técnico – o “peixe-galo”, e a escalação, conforme indica a seguinte estrofe:

Centro-avante o peixe-boi
Atleta muito peitudo
Ponta-esquerda o lambari
Na direita o barrigudo
Na meia-esquerda o xaréu
E na direita o cascudo

Pra centerafo escalou
O famoso namorado
Alfo esquerdo sairu
Alfo direito o dourado
O vermelho e o bagre
Os dois beque respeitado

(MOREIRA, 1978)

O time de peixes com nome masculino, treinado pelo peixe-galo, apresenta a seguinte escalação: cação, vermelho, bagre, dourado, namorado, sairu, cascudo, xaréu, barrigudo, peixe boi e lambari. Nota-se, nessa estrofe, que a linguagem possui um tom de oralidade, com certos desvios da linguagem padrão, seja na supressão do plural no verso “Os dois beque respeitado”, seja no emprego de termos “aportuguesados” que remetem ao jargão britânico do futebol, nos versos “Pra centerafo escalou”, “Alfo esquerdo sairu” e “Alfo direito o dourado”, numa alusão ao armador, ao meia esquerda e ao meia direita. Este é outro aspecto que evidencia as raízes da Literatura de Cordel na oralidade, da tradição ibérica da trova medieval. Já o time de peixes com nome feminino, treinado pela baleia, apresenta a seguinte formação: piranha, arraia, cará, espada, corvina, traíra, tainha, piaba, sardinha, pescadinha e anchova.

Todavia, há um aspecto em que o Futebol dos peixes se diferencia de Futebol no inferno: enquanto o jogo envolvendo as equipes de Lampião e do Satanás terminou empatado, gerando a necessidade de nova partida, no jogo dos peixes, os “peixes machos” saíram vencedores, conforme anuncia a última sextilha do folheto:

Desculpe, caro leitor
Se não ficou bem rimado
Se os peixes fêmeas perderam
Eu também não sou culpado
Agradeço a preferência
Desde já muito obrigado

(MOREIRA, 1978)

Em Futebol dos peixes, o jogo apresenta todos os ingredientes: arbitragem, assistência, massagista, comentaristas etc., além dos lances e jogadas, e também os desentendimentos em relação à arbitragem.

Futebol e cordel em tempos de Copa: Brasil rumo ao Hexa

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Capa do folheto Brasil rumo ao Hexa – África do Sul 2010. Foto: Reprodução

No gênero Literatura de Cordel, é comum o poeta lançar mão de um tema atual. O folheto Brasil rumo ao Hexa – África do Sul 2010, de José Berto da Silva Filho, foi escrito, justamente, em 2010, no contexto da preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo na África do Sul.

Em termos formais, o folheto é composto por 27 estrofes de 06 versos, num total de 162 versos. Na sua maioria, predominam rimas cruzadas, e os versos se constituem como redondilha maior, com sete sílabas poéticas, métrica típica de folhetos de cordel. O folheto não possui contracapa, mas sim uma última folha em que constam os seguintes dizeres em caixa alta: “LEIA LITERATURA DE CORDEL/ASSIM VOCÊ ESTÁ/CONTRIBUINDO COM A NOSSA/CULTURA POPULAR” (SILVA FILHO, 2010).

O tema central do poema, como o título já indica, é a busca da seleção brasileira pelo Hexacampeonato na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010 –, busca essa, aliás, que permanece ainda em nossos dias, após as disputas dos Mundiais de 2010, 2014 e 2018.

Em Brasil rumo ao Hexa, o eu-lírico, pautado pela imagem do torcedor, constrói a imagem do futebol brasileiro como fruto de uma história de conquistas, conforme a seguinte estrofe:

No mundo do futebol,

O Brasil é o primeiro,

Em toda parte do mundo

Tem jogador brasileiro

Ensinando futebol

Aos países estrangeiros.

(SILVA FILHO, 2010, p. 4)

Em seus versos, o cordelista pernambucano José Berto da Silva Filho também constrói a imagem do jogador brasileiro como hábil, criativo e brioso:

O jogador brasileiro

Tem muita habilidade

Principalmente na Copa

Porque joga com vontade

E quando menos se espera

Chega a criatividade.

(SILVA FILHO, 2010, p. 5)

No folheto em questão, ecoa certo tom de “corrente p’ra frente”, de cunho ufanista, conforme revelam os seguintes versos:

Vamos fazer a corrente

Unidos sem reclamar

Da força para o Brasil

Essa Copa conquistar

E mostrar pra todo mundo

Como se deve jogar.

(SILVA FILHO, 2010, p. 4)

São, portanto, versos de um poeta torcedor que, em 2010, via com otimismo a campanha da seleção rumo ao Hexa:

Aqui termino meus versos

Com toda dedicação

Fazendo grande elogio

Para nossa seleção

Iremos fazer a festa

De um Hexa Campeão

(SILVA FILHO, 2010, p. 9)

O eu-lírico-compositor, pautado pela imagem do torcedor, constrói a imagem do futebol brasileiro como fruto de uma história de conquistas, na esperança de que um novo título mundial seja conquistado.

Um cordel contra o Racismo no futebol

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Capa de Racismo no futebol. Fonte: Reprodução

O folheto Racismo no futebol, de Abdias Campos, foi escrito em 2005, no contexto do episódio de racismo ocorrido numa partida de futebol da Taça Libertadores da América daquele ano, envolvendo o jogador brasileiro Grafite (Edinaldo Batista Libânio), do São Paulo Futebol Clube, e o zagueiro argentino Leandro Desábato, do Quilmes. Trata-se, pois, de um “poema de circunstância”, pois tem por motivador um evento ocorrido.

Original da cidade de Amparo, na Paraíba, mais especificamente no sertão do Cariri, Abdias Campos foi fortemente influenciado em sua poética pelos sons que vinham das feiras populares, nos ritmos de viola e do forró. Como é usual na Literatura de Cordel, Abdias Campos elege um tema da atualidade para poder tratá-lo em versos rimados. Observemos a primeira estrofe:

Neste folheto de versos
Minha homenagem singela
Aos jogadores negros
Que sofrem com a mazela
Do racismo inoportuno
De decadente tabela

(CAMPOS, 2005, p. 1)

Composto por 24 estrofes de 06 versos cada, com rimas cruzadas estruturadas em a-b-c-b-d-b e métrica em redondilha maior, o cordel Racismo no futebol, como o próprio título indica, aponta para a insensatez e o absurdo de tais atitudes que atingem também aos gramados brasileiros e mundo afora:

Mas quem repara na cor
Para se posicionar
Dificilmente consegue
A outro identificar
Tenta vê, mas não há luz
Para que possa enxergar

(CAMPOS, 2005, p. 4)

Portanto, Abdias Campos aborda o tema do racismo, não só apontando para o absurdo de episódios dessa natureza nos campos de futebol, como também pleiteando uma educação para a diversidade:

Ao invés de uma prisão
Entre paredes escuras
Essas pessoas, por lei
Que atingissem criaturas
Teriam que aprender
A viver suas culturas

Seus costumes ancestrais
Suas danças, a comida
Seus cantos e vestimentas
Seus sotaques, sua lida
Seus motivos de alegria
A sua dor contraída

Levariam-na a um quilombo
Um gueto remanescente
Entregaria ao chefe
Um conselheiro da gente
Que se perde quando fala
Mas se cala quando sente

(CAMPOS, 2005, p. 7)

Fato é que casos deploráveis de racismo no futebol como esse envolvendo o jogador argentino Desábato e o jogador brasileiro Grafite continuam a ocorrer, como evidencia o ato de racismo contra Daniel Alves, então jogador do Barcelona, em partida do Campeonato Espanhol, entre a equipe catalã e o time do Villarreal, em 27 de abril de 2014, quando um torcedor atirou uma banana no gramado, ou o ato de racismo de uma torcedora gremista contra o goleiro do Santos Futebol Clube, Aranha (Mario Lúcio Duarte Costa), em partida disputada no dia 28 de agosto de 2014, contra o Grêmio em Porto Alegre, e também atos de racismo vindos da arquibancada contra o então jogador do Esporte Clube Cruzeiro, Tinga (Paulo César Fonseca do Nascimento), em partida da Taça Libertadores da América, disputada no Peru, entre o Cruzeiro e o Real Garcilaso, em 13 de fevereiro de 2014.

O futebol nos versos do Cordel – a guisa de conclusão

No dia 19 de setembro de 2018, a Literatura de Cordel foi reconhecida como Patrimônio Imaterial Cultural Brasileiro, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Tal reconhecimento atesta a relevância da chamada “poesia popular” (PROENÇA, 1976, p. 28) para a cultura brasileira. Fundada em 07 de setembro de 1988, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), com sede no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, tem contribuído para manter viva a memória e produção dessa manifestação cultural típica da Região Nordeste, mas que também se expandiu para outros centros urbanos do país. Contando com um acervo de mais de 13 mil títulos, a ABLC (http://www.ablc.com.br/noticias/ ), sem dúvida, é uma excelente referência para pesquisas sobre a Literatura de Cordel.

Enquanto os cordéis Futebol no inferno (1974), de José Soares, e Futebol dos peixes – grande sensação (1978), de Flávio Fernandes Moreira, se caracterizam como “romance”, os cordéis Brasil rumo ao Hexa – África do Sul 2010 (2010), de José Berto da Silva Filho, e Racismo no futebol (2005), de Abdias Campos, são “poemas de circunstância”. Os dois primeiros integram elementos do futebol em partidas inusitadas; o terceiro se constitui como uma ode de esperança ao futebol brasileiro; o quarto formula críticas ao racismo no âmbito do futebol. E todos eles, em termos formais, apresentam estrofação (sextilha), métrica (redondilha maior) e rima (cruzada, com estrutura a-b-c-b-d-b) típicas desse gênero literário. Sem dúvida, seja em “romances”, seja em “poemas de circunstância”, as artes do futebol e do cordel se encontram nesse rico manancial da poesia e da cultura popular brasileira.

 

Referências

BRITO, Antonio Iraildo Alves de. Patativa do Assaré: porta-voz de um povo – as marcas do sagrado em sua obra. São Paulo: Paulus, 2010.

CAMPOS, Abdias. Racismo no futebol. João Pessoa/PB: edição do autor, 2005.

DANTAS, Anchieta. Sobre a literatura de cordel. In: DANTAS, Anchieta. Seu Lunga – O campeão de mau humor. São Paulo: Clio Editora, 2013, p. 4.

MAXADO, Franklin. O que é literatura de cordel?. Rio de Janeiro: Codecri, 1980.

MEYER, Marlyse (org.). Autores de cordel. São Paulo: Abril Educação, 1980.

MOREIRA, Flávio Fernandes. Futebol dos peixes – grande sensação (1978). Jangada Brasil. Ano VIII, n. 93, 2006, edição especial sobre Literatura de Cordel. Acesso em: 08 Out. 2011.)

PROENÇA, Ivan Cavalcanti. A ideologia do cordel. Rio de Janeiro: Imago, Brasília: INL, 1976.

SILVA FILHO, José Berto da. Brasil rumo ao Hexa – África do Sul 2010. Abreu e Lima/PE: edição do autor, 2010.

SOARES, José. Futebol no inferno (1974). Acesso em: 31 jul. 2016.

 

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Elcio Loureiro Cornelsen

Coordenador do FULIA - Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes, da UFMG.

Como citar

CORNELSEN, Elcio Loureiro. O futebol na Literatura de Cordel. Ludopédio, São Paulo, v. 144, n. 26, 2021.
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