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O futebol para além da TV e do rádio: a onda de transmissões de jogos via streaming no Nordeste

Vivemos em uma era de múltipla oferta de transmissão de jogos em plataformas digitais. Um cenário bem diferente daquele que o torcedor se acostumou durante décadas, em que a televisão e o radinho de pilha eram as únicas opções para acompanhar o time do coração. Nos últimos anos, a internet entrou para valer nesse ramo, na medida em que sites, aplicativos e redes sociais passaram a exibir jogos utilizando a tecnologia do streaming, que viabiliza a transmissão instantânea e sob demanda de dados de áudio ou vídeo através de redes, acessível por smartphone, smart TV, tablet, notebook ou computador.

O Nordeste, de forma especial, tem sido palco de algumas experiências interessantes. Em 2013, a Federação Cearense de Futebol decidiu lançar sua web-TV (a FCF TV) e, desde o dia 25 de setembro daquele ano, realiza transmissões regulares de jogos de competições chanceladas pela entidade, como os torneios de categorias de base, o Estadual feminino e partidas das Séries B e C do Campeonato Cearense. Inicialmente, as transmissões eram hospedadas no próprio site da FCF e nos anos seguintes passaram a ser exibidas também via Facebook e Youtube, no canal da mentora do futebol cearense.

Outra experiência de streaming esportivo que, apesar de não ter surgido no Nordeste, se consolidou na Região foi o “EI Plus”, plataforma de conteúdo online que possibilita ao usuário assistir à programação do Esporte Interativo, incluindo os jogos que o veículo, de propriedade da companhia norte-americana Turner, exibia. O serviço foi lançado em 2013, ano em que o Esporte Interativo adquiriu os direitos de transmissão da Copa do Nordeste, que virou ‘febre’ na emissora, se consolidou como o principal torneio regional do País e rendeu até o apelido de “Lampions League”, em alusão a Champions League, maior competição entre clubes do mundo, disputada na Europa.

O Esporte Interativo (EI) transmitiu o Nordestão por seis temporadas. Em 2018, a Liga do Nordeste, que negociava os direitos de transmissão do torneio, rompeu com o EI e fechou com novos parceiros para a TV: Fox Sports e SBT, através de suas afiliadas no Nordeste. Já a transmissão via streaming ganhou um canal próprio: o Live FC, lançado há dois meses do início do torneio em 2019, como uma plataforma pay per view que viabilizou a transmissão de todas as partidas da competição. Através de seu canal no Youtube, a Copa do Nordeste também passou a exibir um jogo por rodada ao vivo, de forma gratuita. A dobradinha, YouTube da Copa do Nordeste e Live FC, se repetiu em 2020.

Copa do Nordeste jogos são transmitidos atualmente via streaming pelo Live FC e pelo YouTube da competição. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Além da FCF TV, do EI Plus e do Live FC, outros streamings esportivos com boa penetração no Nordeste nos últimos anos foram o MyCujoo (lançado em 2013 e que hoje exibe alguns campeonatos estaduais e jogos das Séries C e D do Campeonato Brasileiro), o Premiere Play (pay per view do Grupo Globo, que transmite estaduais – como o Baiano e o Pernambucano – além dos jogos das Séries A e B do Brasileirão) e a DAZN (serviço de streaming que chegou ao Brasil em 2019 – inicialmente com transmissões gratuitas pelo YouTube e depois cobrando pelo acesso via pagamento de mensalidade – despertando a atenção dos torcedores nordestinos com a transmissão dos jogos da Copa Sul-Americana e da Série C do Brasileiro).  

Em paralelo ao crescimento dos sites e aplicativos de serviços de transmissão de jogos, as redes sociais digitais também se tornaram uma opção de grande potencial para que os torcedores pudessem acompanhar jogos de futebol. Isso foi possível a partir de 2015, quando plataformas como YouTube, Facebook, Instagram e Twitter liberaram suas ferramentas de transmissão ao vivo, as chamadas lives. Esse recurso foi apropriado não só pelas emissoras de TV, mas sobretudo pelas estações de rádio, que – especialmente a partir de 2018 – passaram a retransmitir o sinal da transmissão das ondas sonoras para os seus perfis no Facebook e no Youtube. No estado do Ceará, por exemplo, as rádios Jangadeiro Band News/Futebolês, O POVO/CBN, Verdinha, Jovem Pan News Fortaleza e Clube AM 1200 são adeptas da prática.

Na impossibilidade de exibir os lances do jogo – já que não detêm direitos de transmissão para isso – exibem nas telas das redes sociais artes gráficas com informações gerais da partida (como tempo de jogo, placar, escalações, escudos dos clubes, etc.), além de imagens em vídeo da equipe de narrador e comentarista no estúdio ou na cabine de imprensa nos estádios, captando reações dos profissionais, além de imagens gerais que não o campo de jogo, como o panorama das torcidas nas arquibancadas, movimentação nos bancos de reservas, os intervalos e o pós-jogo.

Além de representar um acréscimo considerável na audiência convencional captada pelo alcance do sinal AM/FM, essas transmissões geram forte interação através de comentários nos chats do Facebook e do YouTube, em que o torcedor se manifesta de diversas formas, seja para opinar, reclamar, registrar sua audiência, repassar informações, num fenômeno sintetizado pelo conceito de “segunda tela”, quando o telespectador/ouvinte faz uso de um dispositivo eletrônico móvel (como smartphone ou tablet), enquanto assiste ou ouve à primeira tela, ou tela principal, como a TV, o computador ou o rádio.

Ainda em se tratando de Nordeste e transmissão via streaming, cabe destacar ainda a atuação dos clubes de futebol para a realização de transmissões próprias em seus canais no YouTube, impulsionada, entre outros fatores, pela ausência (até setembro de 2020) de torcida nos estádios como medida sanitária para conter a disseminação de covid-19 e a Medida Provisória 984 (conhecida como a MP do Mandante), em vigor desde 18 de junho de 2020, que dá ao mandante de uma partida o direito de transmissão.

Fato é que, depois de “explodir” no cenário nacional em 2019, o streaming de futebol hoje é uma realidade cada vez mais sólida. Sua relevância pode ser notada quando, em muitos casos, é a única forma de se acompanhar um jogo de futebol ou mesmo quando surge como alternativa “gratuita”, via site ou rede social, ao usuário que opta por não pagar por um serviço pay per view na TV ou em plataformas digitais.

Saiba mais

As transmissões esportivas e os serviços de streaming de futebol têm sido objeto de estudo de diversas pesquisas acadêmicas. Listo abaixo alguns dos trabalhos que vêm sendo desenvolvidos por pesquisadores nordestinos que abordam a temática:

ARAÚJO, Ana Flávia Nóbrega.; ARAUJO, Gisele Maria Sampaio. Regionalização da mídia televisiva e a construção da identidade regional: uma reflexão sobre o papel da TV Esporte Interativo. In: XIX Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, Fortaleza, 2017. 

BALACÓ, Bruno Anderson Ferreira. Futebol nas redes sociais digitais: as emissoras de rádio all news de Fortaleza na era das transmissões de jogos via streaming. In: Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, Goiânia, 17, 6-8 nov. 2019. 

OLIVEIRA, Giordano Bruno Medeiros. Futebol na segunda tela: as estratégias de transmidiação do esporte interativo na copa do nordeste. 2016. 112 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Mídia) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2016.

MOTA, Alexandro. Jornalismo Live Streaming: um estudo das apropriações jornalísticas da tecnologia de transmissão audiovisual ao vivo no Facebook. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura Contemporâneas) – Universidade Federal da Bahia: Salvador, 2019. 

SANTOS, Anderson David Gomes. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. 1. ed. Curitiba: Appris, 2019. v. 1. 357p.

Coluna no Ludopédio

Essa é a 2ª edição da coluna semanal da ReNEme aqui no Ludopédio, maior portal de produção e divulgação científica sobre futebol da América Latina. Além deste panorama geral, iremos revezar a cada semana entre as pessoas que fazem parte do coletivo neste momento, o que possibilitará termos divulgação e, em breve, um cenário real sobre temas e perspectivas trabalhados em nível de mestrado e doutorado a partir do Nordeste – mas não necessariamente sobre ele.


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Bruno Balacó

Jornalista, cronista esportivo e pesquisador. Doutorando em Comunicação na Universidade Federal do Ceará (UFC), mestre em Comunicação pela UFC, especialista em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais pela Estácio e graduado em Jornalismo pela Universidade de Fortaleza. Membro do grupo de pesquisa PraxisJor (UFC) e da Rede nordestina de estudos em Mídia e Esporte (ReNEme). Pesquisa rádio e mídias sonoras, com ênfase em produções nas áreas de radiojornalismo esportivo e podcasts. Atua no mercado como jornalista e produtor de conteúdo no Grupo Cidade de Comunicação. Edita e produz o PapoCom, podcast vinculado ao Práxisjor. É editor dos livros 'Arena Castelão: templo do futebol cearense' (Fundação Demócrito Rocha - 2014) e "Leão 100 anos", o livro do centenário do Fortaleza Esporte Clube (O POVO - 2019).

Como citar

BALACó, Bruno. O futebol para além da TV e do rádio: a onda de transmissões de jogos via streaming no Nordeste. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 50, 2020.
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