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O futebol sob o signo da suástica: a chegada do Terceiro Reich ao poder

Atenção! Alerta de spoiler. O presente texto é o primeiro de uma trilogia. Nela será analisada a relação e as utilizações do futebol pelo regime nazista antes de sua ascensão – “A chegada do Terceiro Reich no poder” –, durante o período em que esteve no poder – “O Terceiro Reich no poder”– e, por fim, os resquícios das investidas nazistas no futebol – “Após o Terceiro Reich” –; todos sob o título O futebol sob o signo da suástica. Mas é importante que saibam, não serão textos primordialmente com informações e curiosidades, mas textos de História, utilizando o futebol como uma ferramenta para a reflexão e a compreensão de fenômenos importantes do século XX.  

Para Victor Klemperer (2002), no livro que é possivelmente o mais importante sobre o tema, o nazismo não produziu uma linguagem frutífera ou inovadora, pelo contrário, fez uso de uma linguagem extremamente pobre, característica da extrema-direita, lacônica – sem surpresas, temos visto isso em nossas terras, um vocabulário paupérrimo. Apesar disso, criou em torno de si uma simbologia poderosa, não necessariamente original, mas emulando e se fortalecendo de diversos artefatos culturais entre eles o futebol, e este como um gerador simbólico, não poderia ficar fora disso, foi utilizado e muito utilizado pelo III Reich.

O futebol talvez seja, ao lado da religião, o maior gerador de signos e significados do mundo moderno, por isso que se confundem por muitas vezes. “Camisa da sorte”, “cueca da sorte”, “entrar com o pé direito”, mandingas infinitas… “o novo Maradona”, “o maior pós Pelé”, Abedi “Pelé”. Como Salienta Nils Havemann (2010, p. 245), é solo fértil para o surgimento de lendas e mitos. Por isso, é campo de estudo frutífero para renomados antropólogos e sociólogos, de Norbert Elias a Roberto DaMatta. Dito isso, reitero mais uma vez, o presente texto e doravante a presente coluna não tem como intenção ser um emaranhado de sobreposição de informações, mas um esforço de utilização do futebol para interpretar a sociedade, em especial a ação das extremas-direitas ao longo dos séculos XX e XXI.

Saliento ainda que alguns lugares-comuns serão desfeitos ao longo do texto e da coluna. No texto, o primeiro que deve ser desfeito é o do consenso durante todo o regime nazista e o segundo é que Hitler era um grande orador. Nenhum dos dois se sustentam na historiografia e, por conta disso, há uma aproximação e utilização do futebol e sua força simbólica.

É imprescindível aqui compreender os regimes autoritários e as ditaduras como produtos sociais, sendo eles de direita ou esquerda. Para Denise Rollemberg  e Samantha Viz Quadrat (2010, p. 11) as necessidades do presente, suas disputas, acabam por construir um passado que é reflexo das disputas de nosso tempo, como por exemplo “os movimentos de resistência a regimes autoritários e ditaduras, têm sido, em geral, supervalorizados em experiências do século XX, seja quanto a suas dimensões quantitativas, seja quanto às qualitativas”. Sem desconsiderá-los, é preciso entender tais regimes como fruto de seu tempo, os movimentos de resistência, fazem parte de um contexto amplo.

O que se quer dizer é que o apoio de parcelas significativas da sociedade a um ditador ou a um tirano, especialmente das camadas populares, não se dá de uma forma automática, existe uma construção cotidiana de consenso, é preciso interpretar a adoção ao ditador em uma temporalidade que não seja imediata. E acima de tudo, como defendem Denise Rollemberg e Samantha Viz Quadrat (2010, p. 12), afirmar que um tirano foi amado por seu povo não significa concordar com a tirania ou apoiar suas práticas. 

Assumindo que o futebol é um gerador de significados e que o consenso é algo que se constrói com o tempo, apenas um político muito estúpido que visa ser um líder autoritário em um país em que o futebol é adorado não o utilizaria – se bem que até os muito estúpidos podem o utilizar. Foi assim na Alemanha.

É importante pensar a Alemanha que permitiu a ascensão de Hitler em seu contexto. O país germânico passou por uma unificação tardia em relação a diversos estados europeus, ocorrendo apenas em 1871 com o fim da Guerra Franco-Prussiana. O processo de unificação foi longo, contando com um forte teor nacionalista, o que era comum na época – ideais nacionalistas já eram fecundos no território alemão desde o início do século XIX –, ganhando força especialmente com as Revoluções Liberais de 1848. Entretanto, a unificação fora concluída com a vitória na Guerra Franco-Prussiana, como mencionado acima, sendo formado o Segundo Império Alemão, ou Segundo Reich, tendo Guilherme I como Kaiser, uma espécie de Imperador, e Otto von Bismarck como primeiro ministro.    

E o futebol? O esporte bretão, não gosto desta expressão, mas aqui cai muito bem, pois era assim que era visto pelos europeus que não habitavam as ilhas britânicas – até mesmo nas ilhas havia controvérsias. Na Alemanha, foi inserido em 1874 pelo professor de literatura e língua alemã Konrad Koch, um jovem alemão com formação em Oxford na Inglaterra – sua trajetória e a implantação do futebol na Alemanha como instrumento pedagógico na transmissão de regras e valores aos alunos podem ser visto no filme Lições de um sonho (2011). Apesar da resistência ao futebol por parte das autoridades, ele caiu no gosto da juventude rapidamente e isso é algo poderoso para cativar as massas. A seu modo, incorporaram uma racionalidade distinta ao jogo, que, com isso, começa de fato a ganhar contornos globais, um futebol com racionalidade Schiller. O futebol já não era mais uma empreitada ao estilo Daniel Defoe.  

Quando Adolf Hitler ascendeu ao poder, o futebol já era um esporte amplamente popular na Alemanha, inclusive era um parâmetro de rivalidade para os ingleses. O celebrado livro Fussball Underm Hakenkreuz (2005) (O futebol sob a suástica), de Nils Havemann, que infelizmente ainda não encontra tradução em português, apesar de ter um artigo O futebol sob o signo da suástica (2010), a quem empresto o título do presente artigo e de futuros desdobramentos, mostra a íntima relação do futebol com o regime Hitlerista, desde a sua ascensão a seu funcionamento.

Retomando a consideração que um regime autoritário não surge com aceitação da maior parte da população e esse vem com o tempo – e no caso especial do regime Hitlerista este foi construído sistematicamente, inclusive ascendeu ao poder democraticamente –, uma imagem sempre vem à mente de quem se interessa pela história do período que são os discursos em locais lotados. É como se todos os discursos fossem assim e se desde o início de sua campanha isso ocorresse. É importante compreendermos que, para além da figura de Adolf Hitler, que muitas vezes é centralizada por interesses políticos e eleitorais que perduram até nossos dias, o que possibilitou sua ascensão foi uma realidade social e histórica específica e uma equipe muito bem estruturada, em especial, nesta análise, a figura de Joseph Goebbels. Portanto, dificilmente veremos imagens de discursos minguados de Hitler em bares ou esquinas em início de campanha, quando era vaiado, tomava garrafadas e pedradas, ou quando a derrota era eminente, mas os veremos aos montes quando o nazismo estava no ápice. Sim, muito do que conhecemos é parte de uma bem orquestrada equipe de propaganda. Não se culpe se você foi enganado, a intenção da peça publicitária, ao menos em política, é essa mesmo.

Desta maneira, outro lugar-comum a ser desfeito é que Hitler era um grande orador, não era. Sei que muitos leitores alegarão que viram vídeos na internet, ouviram áudios eloquentes. Gostaria de lembrá-los de que viram e ouviram peças publicitárias, em política isso é bem comum. Não, não sou nenhum especialista da língua alemã, ou em oratória. Por isso, trago como suporte um grande, talvez o grande, especialista da área e da época para me auxiliar no argumento apresentado.

Adolf Hitler posando para uma câmera durante um discurso, em 1930. Foto: Wikipedia.

Victor Klemperer (2002, p.106) descreve a voz de Hitler como estridente, não tinha compostura de voz e sua fala açoitava a si mesmo. Fica, aliás, surpreso quando a ouve pela primeira vez, em especial ao compará-la à de Mussolini. Klemperer prossegue dizendo que Hitler “gritava em convulsões” e não se esforçava para se mostrar um grande orador, com frases desconexas, chavões, falácias e com expressões de duplo sentido, o diferenciando do colega italiano que se esforçava para manter uma dignidade retórica. Sim, conhecemos alguém parecido, eles existem aos montes.

Então, Hitler não tinha qualidades ao discursar? Tinha, e muitas, ele era um exímio retórico. Reparem, em nenhum momento foi falado acerca do discurso do líder do Terceiro Reich, mas a respeito de suas qualidades como orador, era um exímio retórico. Para Ian Kershaw (1998, p. 535), Hitler tinha convicção de seu poder de convencimento. Reparem ainda, poder de convencimento não necessariamente é poder de oratória.

Sem delongarmos muito, Aristóteles trata a retórica com algo amoral. Não sendo nem do bem nem do mal, podendo ser usada tanto para um fim, quanto para outro.

Como é possível? É imprescindível entender o discurso para além da voz proferida, ou seja, como todo o conjunto que o cerca. Os discursos de Hitler eram cercados de toda uma liturgia muito bem orquestrada, tudo preparado para que sua fala fosse o ápice de um conjunto eficaz de convencimento.

Klemperer (2002, p. 102-103) defende que o discurso é como uma obra de arte, e a voz em si é algo a ser composto no interior do quadro. Assim como uma obra de arte, o discurso deve ser visto e não somente ouvido, é um conjunto. Goebbels preparava de forma competente o cenário, ou o quadro, para Hitler.

Aqui, o futebol ganha local significativo. Bandeiras, falas organizadas, cânticos, o trato significativo do outro até o transformar em inimigo, a coletividade, o uso de cores a favor e contrárias para representar o ódio. Um local propício para as paixões, para deixar de lado o intelecto e abraçar as emoções. Considerando a tese de Klemperer de que o Terceiro Reich não cria uma linguagem complexa, mas usa a linguagem posta e a simplifica, a linguagem estética do futebol é simples, poderosa e, o mais importante, estava pronta para ser utilizada.

Pasmem! Todos os discursos com sucesso de Hitler, seguem esse script. E, sim, os que conhecemos são aqueles que tiveram sucesso, lembrando que são peças de propaganda e, especialmente, a propaganda nazista ainda está viva. Basta clicar no YouTube.

A retórica não visa atingir as mentes, mas os corações. O Terceiro Reich fez com que seus adeptos o seguissem, não necessariamente que o entendessem. Sobre isso, uma fala de Hitler é fundamental: “[…] a receptividade das massas é muito limitada; sua inteligência é pequena, mas seu poder de esquecer é enorme. Por conseguinte, toda propaganda eficaz deve utilizar alguns slogans, repetidos inúmeras vezes até que o último membro do público entenda o que você quer que ele entenda com seu slogan” (HITLER, apud MENDES, 2013, p. 26).

Não necessariamente um líder autoritário precisa falar bem para convencer de seu projeto, ele precisa apenas convencer as massas que seu projeto é viável, às vezes, nem projeto ele tem. Para isso, no âmbito da retórica, pode usar questões verdadeiras ou não, aliás, o falso pode ser muito bem aceito, desde uma conspiração mundial dos judeus – contida em um livro como Os protocolos dos Sábios de Sião (2009) – à mamadeira de piroca (sic) ou um “kit gay”, mesmo falando de forma cacofônica ou estridente, sendo preparado um cenário, o discurso ganha efeito, cada um em sua época.

Sobre essa preparação feita sob a direção de Goebbels é pertinente observarmos que nas eleições presidenciais de 1932, Hitler fora derrotado por Paul von Hindenburg. Fator interessante é que comícios eram proibidos até 1927 e, na campanha, Hindenburg não fez nenhum comício – muito por conta de sua idade avançada, foi reeleito com 84 anos – por outro lado, Hitler foi o primeiro político a usar um avião para se deslocar durante a campanha, fazia em média quatro comícios por dia, participando de 566 atos políticos, sendo a grande maioria comícios, como aponta Miguel Criado (2018). Além da eleição presidencial, Hitler participou ativamente de cinco eleições legislativas em curto espaço de tempo.

Adolf Hitler cumprimentando o presidente Paul von Hindenburg no Dia de Potsdam, em 21 de março de 1933. Foto: Wikipedia.

Simon Munzert da Escola Herthie de Governança de Berlim aponta que, entre 1928 e 1933, os nazistas deixaram de ser uma força marginal para ganhar as eleições nacionais da Alemanha com quase 44% dos votos. O aumento exponencial dos votos se deu nos locais em que Hitler não discursou. Quando discursou em 1932, para 100.000 no estádio Victoria, em Hamburgo, discursou para nazistas, não para buscar votos. Hitler tinha uma retórica poderosa, especialmente com um campo de jogo preparado para ele, como o Estádio Victoria, sem oposição, apenas aplausos, bandeiras, sorrisos e mais aplausos. Seus discursos foram imprescindíveis na formação do consenso, especialmente após ascender ao poder, contando inclusive com seus fanáticos adeptos.

Antes de tratarmos a questão do fanatismo, não se trata de definir o que é melhor ou pior para o discurso político, oratória ou retórica, em termos que resolveriam a querela da Filosofia Antiga entre a escola socrática e os sofistas, mas simplesmente o que é mais eficaz. No momento, ao que parece, a oratória de Mussolini e a retórica de Hitler foram eficazes na construção de um consenso, cada um em sua arena.

Klemperer (2002, p.111-118) defende que, apesar de não criar de maneira significativa palavras novas, o Terceiro Reich as ressignificou de forma peculiar. Uma delas, a mais impactante, foi a expressão fanático. O professor, como um exímio linguista, mostra que tal expressão existe em praticamente todos os idiomas, mas sempre visto como algo negativo, os nazistas já no início de seu domínio a transverteram em algo positivo. Transformaram fanatismo em virtude. Fanáticos, por exemplo, pela vitória.

Pois bem, há um local que fanático não é e jamais foi demérito, o futebol. Um religioso fanático é péssimo, um político fanático idem, um crossfiteiro fanático ninguém merece, mas um torcedor fanático é visto como algo poético, especialmente por seus pares e até mesmo com certa inveja por seus rivais. O torcedor que só usa roupas da cor da equipe, o corintiano que não usa verde, o pai que dá o nome do ídolo para seu filho, mesmo sendo um vascaíno nomeie a criança de Ribamar, ou pior, coloque o nome do filho com o nome do próprio clube, o McDonald’s em frente ao estádio do Fenerbahçe que não usa as cores oficiais por conta do rival, as inscrições Coca-Cola do estádio do Grêmio que é azul, por motivos óbvios. De forma folclórica, o fanatismo encontra guarida no futebol e é alimentado por ele.

O fanático não questiona, apoia até o apito final e mesmo após o apito final, cria narrativas para justificar a derrota. A culpa é do árbitro, do gramado, do inverno russo, mas nunca do objeto de seu fanatismo.

Outro ponto que destacaremos em textos futuros, caso tenhamos leitores, é o futebol como mantenedor de afetos, fundamental na gestão dos sentimentos políticos. No próximo texto, que abordará O futebol sob o signo da suástica, trataremos sob o futebol no período nazista, os rearranjos feitos pelos nazistas em torno da seleção alemã e dos torneios locais.

Referências

BARROSO, Gustavo (Tradutor). Os protocolos dos sábios de Sião. São Paulo: História Colection, 2009.

CRIADO, Miguel. A grande mentira do carisma de Hitler: Partido nazista não recebeu mais votos nas cidades onde o suposto líder carismático fez comícios. El País, Madrid, 12 ago. 2018. Acesso em: 10 ago. 2020.

EVANS, Richard J. A chegada do Terceiro Reich. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010.

HAVEMANN, Nils. Fussball Underm Hakenkreuz. Frankfurt a. M.: Campus, 2005. 

HAVEMANN, Nils. O futebol sob o signo da suástica. In: VIZ QUADRAT, Samantha; ROLLEMBERG, Denise. A construção social dos regimes autoritários: legitimidade, consenso, e consentimento no século XX – Europa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p. 243-256.   

KERSHAW, Ian. Hitler: 1889-1936 Hubris. New York-London: W.W. Norton & Company, 1998.

KLEMPERER, Victor. LTI: A Linguagem do Terceiro Reich. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009.

LIÇÕES de um sonho. Direção Sebastian Grobler. Berlin: 2011. DVD (1h50min)

MENDES, Eliana. Emoção e Falácias: a retórica de Adolf Hitler. EID&A – Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n.4, p. 24-34, jun.2013.

VIZ QUADRAT, Samantha; ROLLEMBERG, Denise. A construção Social dos Regimes Autoritários: Legitimidade, consenso, e consentimento no século XX – Europa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.    


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Makchwell Coimbra Narcizo

Doutor em História pela UFU, Graduado e Mestre em História pela UFG. Atualmente professor no IF Goiano - Campus Trindade. Desenvolve Estágio Pós-Doutoral na PUC Goiás. Membro do GEPAF (Grupo de Estudos e Pesquisa Aplicados ao Futebol - UFG). Coordenador do GT Direitas, História e Memória ANPUH-GO. Autor dos livros: A negação da Shoah e a História (2019); A extrema direita francesa em reconstrução - Marine Le Pen e a desdemonização do Front National [2011-2017] (2020) dentre outros... isso nas horas vagas, já que na maior parte do tempo está ocupado com o futebol... assistindo, falando, cornetando, pensando, refletindo, jogando (sic), se encantando e se decepcionando...

Como citar

NARCIZO, Makchwell Coimbra. O futebol sob o signo da suástica: a chegada do Terceiro Reich ao poder. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 32, 2020.
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